Religião e Política:
Memória e História da Renovação Carismática Católica em Maringá
(PR)
[
Parte I
para Auxiliadora Maria da
Silva
Introdução
A Renovação Carismática Católica é um tema
recorrente nas pesquisas sociológicas, antropológicas, de
historiadores das religiões e das ciências humanas em geral. Mas
isto é algo relativamente recente. Durante a década de 1970-80,
as atenções se concentraram nas CEBs, a Teologia da Libertação e
a relação Igreja/Estado.
Não foi diferente em Maringá.
É sintomático, por exemplo, que um livro recém lançado sobre a
história da Igreja Católica em Maringá omita a trajetória da RCC,
a qual praticamente não é citada.
Não obstante, a RCC se fez presente na história
maringaense, na Igreja Católica e na religiosidade de parte da
população. Ela também é parte de Maringá, da sua Igreja e da
história, e, portanto, concordemos ou não com sua teologia e
posições políticas, é necessário levá-la em conta. É uma
história que merece ser resgatada.
As fontes que utilizamos nesta pesquisa se
concentram na bibliografia disponível sobre a RCC em geral.
Embora nosso foco seja Maringá, ela não se restringe à cidade,
mas é parte de um movimento nacional e mesmo internacional.
Portanto, para compreender a RCC local é necessário ter em conta
os aspectos e princípios que a caracterizam em sua
universalidade. Neste sentido, foram importantes os documentos,
cartilhas e publicações oficiais, editados por seu Conselho e
Ministérios nacionais. As fontes incluem ainda o material
arquivado no Escritório da RCC Maringá gentilmente
disponibilizado.
Sem dúvida, a Internet foi um recurso importante
à pesquisa, em especial os sites da RCC, em âmbito local,
estadual e nacional. Mas as fontes fundamentais, no que diz
respeito a Maringá, foram as entrevistas. É importante observar
que estas expressam a memória dos entrevistados, com todos os
riscos inerentes a este tipo de recurso. É a forma como vêem e
interpretam a história da Renovação Carismática Católica, a
própria história e a participação nela. São depoimentos que
oferecem importante contribuição à compreensão do movimento
carismático em Maringá. Por isso, priorizamos a fala dos
diretamente envolvidos. Portanto, pedimos ao leitor que
compreenda o recurso à reprodução, em alguns casos longa, dos
depoimentos dos entrevistados. Aqui, a inspiração metodológica
foi a história oral (THOMPSON, 1992).
Considero que informar as referências teóricas é
um procedimento não apenas acadêmico, mas, sobretudo, uma
atitude de respeito ao leitor. Contudo, tenho claro que as
exigências de cientificidade também representam um eterno
recomeçar que nos faz percorrer caminhos por demais explorados e
nos leva a repetir as eternas batalhas do passado. É o que
BOURDIEU (2000: 47) denomina de “culto escolar dos clássicos”.
Porém, reconheço que as referências teóricas são necessárias.
Os instrumentos de análise adotados permitem
compreender a RCC em uma perspectiva histórica e política. O
foco desta pesquisa não é a RCC enquanto espiritualidade e
manifestação religiosa. O meu olhar
é o olhar do sociólogo e da ciência política. A RCC me
interessa na medida em que interage com a sociedade e desempenha
um papel social e político.
O conceito de campo desenvolvido por
Bourdieu
nos parece essencial para a compreensão do fenômeno religioso. O
campo religioso é um campo de relações de forças, com uma
relativa autonomia. A Igreja Católica expressa um campo
heterogêneo em disputa,
e a RCC é uma das suas forças internas que luta para ser aceita
como parte do campo e pela hegemonia.
A Igreja, incluída o movimento carismático, interage com a
sociedade, o macrocosmo, influencia e é influenciada por esta.
Por isto, para compreender as manifestações religiosas, também é
preciso levar em conta o contexto sócio-político de cada época.
Há uma interação dialética entre Igreja e Sociedade.
A própria RCC não é tão homogênea quanto parece ao público
externo. Há que considerar, por exemplo, sua liderança, base
social e os grupos de oração, bem como a interação com a
hierarquia da Igreja e a sociedade em geral, que também a
influencia.
Além de constituir um campo – ou aparelho – a
religião também cumpre uma função ideológica. Com escreve
Bourdieu:
“Em sua qualidade de sistema simbólico
estruturado, a religião funciona como princípio de
estruturação que 1) constrói e experiência (ao mesmo tempo
que a expressa) em termos de lógica em estado prático
(...). 2), graças ao efeito de consagração (ou de
legitimação) realizado pelo simples fato da explicitação,
consegue submeter o sistema de disposições em relação ao
mundo natural e ao mundo social (disposições inculcadas
pelas condições de existência)” (BOURDIEU, 1974: 45-46).
A afirmação da religião enquanto ideologia deve
levar em conta: 1) que a ideologia é um tema controverso;
2) que a identificação da religião ao senso comum não significa
aceitar que tanto um quanto outro se restrinjam à passividade;
e, 3) é fundamental, ainda, considerar que a religião, como o
senso comum, é vivenciada como experiência prática e contribui
para formar a concepção de mundo e direcionar as ações dos
indivíduos. Neste sentido ela corresponde a uma resposta não
apenas racional, mas também emocional, às questões colocadas
pela vida em sociedade. Dessa forma, a manifestação religiosa
não é apenas reflexo da base material econômica. Neste aspecto,
foi essencial a análise desenvolvida por E. P. Thompson (1978).
São estes referenciais teóricos que orientaram
este trabalho. A nosso ver, contribuem para a compreensão do
fenômeno religioso pesquisado. Não obstante, ressaltamos que não
concebemos as teorias como verdades absolutas às quais o
“objeto” de pesquisa deve ser enquadrado. Também as teorias
devem ficar em suspenso, isto é, sob dúvida. Talvez sua maior
contribuição seja identificar ao leitor o que orienta o nosso
olhar.
Passemos, então, à exposição e análise da
Renovação Carismática Católica. Iniciaremos pelo resgate das
suas origens e as principais características que influenciam a
sua evolução e trajetória em Maringá. Como se trata de um
movimento estruturado nacionalmente (e com organização
internacional), é lícito supor que as decisões dos órgãos
determinem e influenciem a prática local. Assim, analisaremos o
Projeto Político da RCC, o Ministério Fé e Política, suas
diretrizes e posições sobre os temas sociais e políticos. Então,
veremos como ela, à luz do Projeto Político e das diretrizes
nacionais, atua politicamente em Maringá. Esta atuação, é claro,
tem sua própria dinâmica, determinada pelas particularidades
locais, mas também a influência do âmbito nacional. Para
finalizar, apresentaremos as conclusões.
A Renovação Carismática Católica em Maringá
A Renovação Carismática Católica (RCC), tem
origem no movimento de um grupo de docentes leigos católicos,
vinculados à Universidade Duquesne, em Pittsburgh (EUA) que, nos
dias 17, 18 e 19 de fevereiro de 1967, reuniu-se em retiro
espiritual. Os cerca de trinta docentes que se encontraram nesta
ocasião estavam insatisfeitos com o estilo de vida, as
experiências acadêmicas e, sobretudo, com a vivência religiosa.
Em profunda oração e discussão, eles buscavam resposta aos seus
dilemas e uma renovação espiritual. Eles já haviam tido contato
com diferentes grupos do avivamento protestante, um
movimento que se alastrou nos Estados Unidos, na década de 1950
e influenciou a juventude das igrejas protestantes.
Foram padres jesuítas que trouxeram a Renovação
Carismática Católica para o Brasil; inicialmente, em São Paulo,
expandiu-se posteriormente para todo o território nacional. “Dom
Crispiano Chagas afirma que o movimento chegou ao Brasil em maio
de 1969 por intermédio do padre Eduardo Dougherty, S. J., e
imediatamente foi transmitido ao padre Haroldo Ramh, S. J. De
qualquer modo, a RCC chegou por aqui pouco tempo depois do seu
surgimento nos Estados Unidos”, nota Prandi (1998: 34).
A RCC surge em Maringá no final da década de
1970. Segundo Dom Jaime Luiz Coelho, primeiro bispo diocesano e
arcebispo metropolitano de Maringá e região, cujo governo
eclesiástico abrangeu o período de 20/01/1956 a 11/07/1997, as
primeiras manifestações da RCC na cidade remontam ao ano de
1979. Em entrevista ao Boletim Informativo da RCC Maringá
ele afirma que:
“Em 1979 aparecem na igreja que está em
Maringá, os primeiros vestígios da RCC – Renovação
Carismática Católica. Pessoas entusiasmadas com o movimento,
muitas delas não souberam ver a luz do Espírito Santo,
debandando para seitas e igrejas evangélicas, chegando
alguns a criar a sua “própria igreja”. Rebelaram-se contra o
bispo diocesano e os sacerdotes. Nesta caminhada a RCC foi
se purificando, chegando aos nossos dias, contudo, ainda
havendo aqui e acolá algumas pessoas e alguns grupos que não
se afinaram com a orientação da diocese, vivendo, até, um
certo fanatismo. Posso, porém dizer, que no momento a RCC
atua em nossa arquidiocese, deixando-se guiar pelo pastor da
diocese e pelos sacerdotes. Isto ocorre há uns cinco anos,
embora, como disse acima, haja, ainda, pontos discordantes.
(...) Essa participação da RCC em nossa arquidiocese é,
ainda, questionável, visto muitos dos seus membros
isolarem-se das suas comunidades paroquiais, agregando-se em
grupos supra-paróquia e extra-paróquia, e que leva a um não
engajamento na pastoral de conjunto da arquidiocese”
(BOLETIM INFORMATIVO DA RCC – MARINGÁ, outubro/novembro de
1993).
O momento ao qual Dom Jaime se refere é julho de
1993, quando concedeu a entrevista. Seu depoimento sintetiza a
atribulada caminhada da RCC, as dificuldades e desafios até
então. Ilustra ainda a resistência da hierarquia e do clero em
geral, que os primeiros membros e grupos de oração da RCC
tiveram que se confrontar. Com efeito, uma das suas
características principais é a sua origem externa ao clero.
Ela surgiu como um movimento de leigos e se organiza enquanto
tal. No entanto, ela difere dos movimentos de leigos presentes
na Igreja Católica e também das pastorais. O movimento
carismático tem um estilo próprio: sua estrutura organizacional
conta com um escritório internacional, sediado em Roma, o qual
funciona como uma agência de missões e representa sua direção
máxima. Este escritório coordena as atividades regionais e
internacionais e incentiva os projetos de evangelização, bem
como, é responsável pela publicação de um Boletim Internacional.
A RCC nasce como um movimento leigo, mas dentro
da Igreja. A Comissão Nacional de Serviço (CNS) define os grupos
de oração, locus central da RCC, como “um lugar de
renovação espiritual”. Ela é concebida como “um sopro do
Espírito Santo”, sob inspiração do Evangelho de João: “Sob a
ação do Espírito Santo, as pessoas experimentam libertação,
alegria, segurança, crescem no amor ao próximo, na vivência
comunitária, aprendem a discernir a vontade de Deus e a
permanecer em comunhão com a hierarquia” (CNS, s/d, citado in
Prandi, 1998, p. 42).
A RCC tem uma prática autônoma, mas vinculada à
hierarquia. Os seus praticantes são ensinados a observarem que a
vontade de Deus é também a vontade da Igreja, isto é, da
instituição hierárquica. Essa postura a ajudou a desenvolver-se
e ganhar a adesão interna; em outras palavras, sua estratégia
não foi de enfrentamento com a hierarquia, mas de submeter-se e
persuadir.
Diferentemente da Teologia da Libertação, que
nasce sob a benção de boa parte da hierarquia católica e foi
impulsionada pela presença e atuação do clero, a RCC teve, em
seus primeiros passos, o interdito até mesmo do uso do espaço
sagrado, e mesmo das dependências das igrejas, para as suas
reuniões e manifestações. Ela se viu expurgada da igreja e teve
que conquistar o seu espaço; precisou se enquadrar às diretrizes
da hierarquia eclesiástica, mas sem abrir mão das suas
características básicas.
Estas condições determinam a atuação da RCC,
também em Maringá. Os depoimentos confirmam os dilemas presentes
nas palavras de Dom Jaime e o quanto foi difícil a aceitação e
consolidação de seus primeiros grupos. A fala do professor
Antonio Carlos Lugnani, fundador da RCC maringaense, ilustra bem
esta trajetória:
“Vim de Curitiba para a UEM em 1979. Na
verdade, quando fiz o mestrado no Rio de Janeiro, tive uma
primeira experiência com o grupo de oração. Fui numa
clínica, que tinha uma capela, e antes de ser atendido, tive
uma experiência em um grupo. Foi em 1977. Achei muito
estranho, meio parecido com espiritismo. Depois voltamos pra
Curitiba e lá tive contato com um grupo de oração na
paróquia. Comecei e gostei. Em agosto de 1979 comecei a
trabalhar aqui na universidade. Naquela época, chegamos e já
queríamos participar. A gente tinha se identificado muito
com a espiritualidade. Fui procurar aqui, conversei com as
irmãs paulinas, elas falaram ‘não tem não, não tem grupo de
oração’” (Entrevista ao autor, em 15.02.2007).
Não havia RCC em Maringá. Pouco tempo depois,
Lugnani voltou a conversar com as irmãs e elas informaram que um
‘rapaz’ iria, em cerca de 15 a 20 dias, iniciar um grupo de
oração. Na primeira reunião, Antonio Carlos Lugnani e Josemary
do Rocio Gusso Lugnani, sua esposa, estavam presentes.
Curiosamente, o ‘rapaz’ ao qual as irmãs se referiram era um
jovem de descendência judaica, formado em engenharia química.
Ele havia entrado em contato com a RCC em Presidente Prudente,
cidade do interior paulista próxima ao norte paranaense.
Este primeiro grupo representa uma experiência
inusitada. Um jovem judeu convertido ao catolicismo, empolgado
pelos aspectos pentecostais e carismáticos e um grupo de pessoas
que, inclusive, incluía evangélicos. Isto representava mais um
fator para que a resistência do clero à progressão da RCC na
cidade. A inabilidade, talvez alimentada pela empolgação e
desconhecimento do funcionamento da igreja católica, e mesmo um
certo fanatismo, produziram até mesmo divergências internas.
Antonio e Josemary sairiam deste grupo e formariam outro. Em
suas palavras:
“Ele era bem católico, no início. Mas,
algumas pessoas evangélicas começaram a participar do grupo.
E aí começou a influência. O evangélico também gostou e
começou a trazer o pastor. Aí começa um questionamento sobre
a doutrina católica. Eles acabaram se afastando da igreja.
Nós tivemos muitas barreiras aqui em Maringá em termos de
relacionamento com a igreja, e isto foi uma delas. Por
exemplo, neste grupo, depois vieram participar uma porção de
líderes importantes da igreja aqui na cidade. Entraram no
grupo, e quando este deixou de ser católico, também não se
tornou de uma religião evangélica, mas apenas um grupo.
Essas pessoas eram líderes de movimentos e pastorais. Então
ficou a fama de que na RCC é tudo uma influência de crente.
O pessoal entra, pega os melhores líderes católicos e depois
vai pras outras igrejas. Ficou uma fama, porque eram
líderes, pessoas muito ligadas ao bispo e coisas desse tipo
assim” (Id.).
O depoimento de Sidnei Telles, que começou a
participar da RCC algum tempo depois do professor Antonio Carlos
Lugnani, também faz referência a esta primeira experiência
carismática:
“A Renovação Carismática Católica tinha
apenas dois grupos, dois grupos de jovens. Um se reunia na
Igreja Divino Espírito Santo. Era um grupo de jovens que
tinha ido procurar uma experiência em Adamantina, cidade do
Estado de São Paulo, onde aconteciam alguns encontros. Eles
voltaram com essa experiência e faziam as reuniões nos
domingos à noite, sábado era reunião do grupo, mas era mais
uma reunião como se um grupo de jovem normal, e no domingo à
noite algumas pessoas que fizeram esta experiência, e outras
que apresentaram o desejo de ir mais longe, se reuniam na
casa da Dona Maria, porque a toda família dela participava.
Eu ia nessas reuniões também. O outro grupo também era um
grupo de jovens, onde algumas pessoas que vieram da cidade
de Terra Rica trouxeram esta experiência e aqueles jovens
aderiram à experiência. Não havia nenhum grupo adulto
oficial. Fazíamos vigília e os encontros eram feitos ou em
Terra Rica, numa fazenda no meio do mato, ou ali no Estado
de São Paulo. Havia outro grupo, que era o que veio de
Presidente Prudente, coordenado por um judeu, mas era um
grupo que não manteve uma catolicidade. Um grupo que não
estava firme. Apesar deles se reunirem em cima da livraria
das irmãs paulinas. Então eram estas três células que
existiam. Todos muito novatos, não existia nenhuma forma
inicial. O seminário de vida e espírito que existia era um
seminário ainda de um livreto protestante. Haviam
pregadores, padres, alguns, e aquilo era muito reservado
porque havia muita resistência. O próprio arcebispo dizia
constantemente que nós tínhamos entrado pela porta dos
fundos. Portanto, não éramos bem-vindos” (Entrevista ao
autor, 15.02.07).
Os primeiros carismáticos em Maringá eram vistos
com desconfiança pelos leigos e membros do clero. A RCC chegou a
ser acusada de representar os interesses políticos
estadunidenses. Segundo Sidnei Telles:
“Se dizia que a Renovação Carismática era
enviada pelos norte-americanos, com interesse de
desestruturar uma possível revolução que a igreja estivesse
gestando. Inventavam histórias de que a Renovação
Carismática Católica era financiada pela CIA e assim por
diante. Dinheiro que ninguém nunca viu. Na verdade, não
havia nenhum problema político contra isso, mas como a
Renovação prioriza a experiência pessoal, a experiência
mística com Deus, sem abandonar a outra, para os outros isso
significa que era uma ação desencarnada, uma ação que estava
deixando de lado as grandes lutas sociais. Na verdade não
era isso” (idem).
O professor Antonio Carlos Lugnani também se
referiu a esta questão:
“O pessoal da Teologia da Libertação fala que
isso aí [a RCC] é um jeito dos americanos desarmar a
teologia da libertação, aquela mobilização. Inclusive um
padre falava que nós atrapalhávamos o trabalho de
mobilização dele, que ele queria mobilizar a comunidade e os
grupos de oração atrapalhavam, porque ficavam fazendo a
pessoa rezar” (idem).
Com dificuldades de utilizar os espaços oficiais
da Igreja Católica, os carismáticos se juntavam onde era
possível, inclusive ao ar livre. Diante das tensões com o clero,
tornara-se impraticável se reunir na igreja. O grupo do qual
participava Sidnei Telles, por exemplo, passou a se “reunir às
cinco horas da manhã, aos sábados, antes da missa que acontecia
na catedral. Éramos poucos e ali ficamos por um ano, sem
podermos nos manifestar. Depois dessa experiência de um ano, o
padre da Igreja São José, o Padre Ruperto, pediu ao bispo que
gostaria de reunir essas pessoas na igreja” (idem).
O padre Pedro Jorge Delgado Bento, que participou
da RCC e da Juventude Católica, antes de se ordenar e, depois,
já como clérigo, chegou a ser o assessor designado pela
hierarquia diocesana para acompanhar a RCC, lembra que:
“Naquela época, havia um clima de bastante
desconfiança. Os padres e os bispos tinham certa reserva
quanto a algumas coisas que a gente de carisma, que a RCC
tem como identidade e que era um resgate do tempo dos atos
dos apóstolos, dom de línguas, orações em línguas, fenômenos
que deixavam alguns padres com o pé atrás. Cura, coisas
desse tipo. Havia sempre uma reserva bastante grande, receio
de que isto descambasse para outra coisa, pra outras linhas
de igreja evangélicas. Tinha-se esta reserva. (...) O padre
da Igreja São José questionava e chegou a proibir que
acontecesse os encontros da RCC. Alguns grupos fizeram
questão de pedir para se reunirem nas igrejas, também pela
presença do Santíssimo, para fazer oração, e alguns padres
tinham grandes reservas quanto a isso. Por exemplo, esses
grupos da catedral, nenhum deles se reuniam dentro da nave
da catedral. Ou se reuniam na cripta, embaixo; ou na casa do
seu Israel, que era um dos líderes da época; outro grupo se
reunia no centro catequético da cúria. Nenhum usava o espaço
central da nave da Igreja” (Entrevista ao autor, 29.03.07).
A resistência à RCC era predominante na diocese.
Mesmo na Igreja São José Operário, onde foram autorizados a se
reunirem, a tensão entre a autoridade eclesiástica e o grupo de
oração era crescente. Constantemente, o controle hierárquico se
fazia presente. Mas as dificuldades impostas pela hierarquia
geravam o efeito contrário, fortaleciam ainda mais os vínculos
entre os fiéis carismáticos e a fé dos indivíduos. Isto se
evidencia na fala de Sidnei Telles:
“Eles enviavam seminaristas para fazer
relatórios sobre as reuniões, sobre o conteúdo das
pregações, pra ver se havia algum erro teológico, algum erro
metodológico. Eram muitos críticos. Isso gerava um
ambiente... Houve uma reunião na época, na qual fomos
acusados de que os abraços no final da reunião seriam
supostamente sensuais, que as orações eram na verdade
euforismo (sic) e manipulação das massas e assim por
diante, com o objetivo, exatamente de alienar o povo. O que
não era verdade e a gente tinha que ouvir aquilo tudo e ser
profundamente paciente. Alguns não conseguiam. A coisa se
tornou bastante grave quando, como a paróquia São José era
uma paróquia dos jesuítas, eles trocavam os seus padres e os
novos padres, não gostando, fecharam o grupo. Isso trouxe
uma revolta popular e aí criou-se uma porção de pequenos
grupos que depois foram crescendo e se tornando maiores. Um
deles era na minha casa, chamava-se Leão de Judá. Tal
multidão ia para a nossa casa que o prefeito mandou colocar
um ponto de ônibus na frente de casa. Minha mãe que
coordenava o grupo. Depois esse grupo foi para a catedral, a
convite do pároco, e ficou sendo o maior grupo na época”
(idem).
A Renovação Carismática Católica maringaense
também enfrentava a resistência e crítica dos leigos e membros
do clero simpatizantes da Teologia da Libertação.
A relação era conflituosa. Vejamos dois depoimentos sobre as
relações entre a RCC e a TL.
Segundo o professor Antonio Carlos Lugnani:
“A liderança do clero de Maringá era uma das
grandes lideranças do Estado em termos de TL. Os padres,
digamos assim, os principais líderes do clero eram ligados à
TL. O conflito conosco era brutal. Porque a TL, com a sua
visão mais engajada, ela trabalha mais tentando mobilizar a
igreja em células, mas fazendo um questionamento bem
radical, uma visão um pouco marxista do processo. E como a
visão marxista ilumina o diagnóstico, e o Marx é muito bom
pra fazer o diagnóstico da realidade, a visão marxista para
a crítica do capitalismo é muito interessante. Então,
segue-se que um pouco da ideologia marxista contamina a TL,
no sentido de que a luta tinha que ser a luta de classes,
pra alcançar a igualdade. Se há espiritualidade e
mobilização, ela investe 150% na mobilização e a
espiritualidade praticamente fica zerada. Os jovens, nós
temos muitos jovens aqui, a visão do jovem da pastoral da
juventude e dos grupos de oração era assim. Porque a
Renovação insistia muito na espiritualidade, na oração, na
conversão pessoal, na comunhão com Deus. As visões eram
diametralmente opostas. E como a liderança institucional era
da TL, nós éramos muito segregados. Há um processo assim de
estigmatização bastante substancial. Ainda mais que a TL
surge no meio do clero, são os padres, são os grande
pensadores da TL. Ela está muito engajada dentro da CNBB,
historicamente neste período. A Renovação Carismática surge
no meio dos leigos. Isso, para a história da Renovação é uma
coisa complicadíssima. Porque primeiro, ela é muito
inovadora. Ela trás de volta carismas que só existiam na
igreja nos primórdios. Os dons espirituais tal qual a
Renovação vivencia só existia nos primórdios da igreja,
depois desapareceram. Você começa, por exemplo, com uma
oração em línguas que é o maior desafio intelectual. É um
desafio intelectual brutal você se por a balbuciar palavras
que não entende. Parece uma estupidez. Qualquer pessoa mais
rigorosa cientificamente, nem mesmo cientificamente, mas só
que tenha um princípio de inteligência, acha uma estupidez.
‘Vou ficar aqui blá, blá, blá, blá, coisa que não entendo?
Não. Não vou’. Ela é muito inovadora e nasce no meio dos
leigos. E a igreja, ela não valoriza muito os leigos. Quem é
que entende as coisas de Deus? É o clero. Porque estuda,
porque fez faculdade, porque conhece teologia, porque isso,
porque aquilo. E os leigos, na igreja, sempre tiveram uma
participação, digamos, mais secundária. Trabalhar em festas,
trabalhar no dízimo, trabalhar nisso, trabalhar em alguns
movimentos, mas movimentos mais tradicionais, mas sempre tem
um padre à frente. A Renovação surge por fora, nas beiradas.
Veio de fora para dentro da igreja. Conseqüência: ‘isso é
coisa de louco’, ‘isso é coisa de crente’, ‘isso é coisa de
maluco’, ‘isso é coisa de americano. Todas as barreiras
possíveis havia com relação à Renovação, além de estar no
auge da TL. Se não fosse o auge da TL, talvez tivesse maior
acolhimento” (idem).
Segundo Sidnei Telles:
“Foi uma relação muito difícil. Porque apesar
das pessoas que estavam tendo essas experiências estarem
abertas para uma dimensão social, o fato de priorizarem a
experiência com Deus dava uma certa autoridade que
contrapunha à autoridade hierárquica. E a TL, apesar dela
falar do poder do povo, estava hierarquizada. E essa
hierarquia se posicionou frontalmente contra a Renovação.
Isso gerou uma dificuldade muito grande, porque criou um
abismo que não precisaria ter sido criado. Um abismo entre a
Renovação e a ação libertadora. Porque para os protagonistas
dessa primeira ação libertadora nós éramos enviados pela CIA
para desarticular, nós éramos enviados para criar um falso
prazer e desviar a população. Não é verdade. Só que isso
gerou uma grande dificuldade, uma imensa perseguição por
parte dos adeptos da TL às pessoas da RCC. Em Maringá houve
um padre que levou um caixão pra dentro da igreja, com uma
faixa escrita RCC e fez o enterro no meio de uma missa.
Houve lugares onde padres se recusaram a dar a eucaristia,
‘se tiver alguém da RC não vou dar eucaristia porque
considero vocês fora da comunhão’. Eram perseguições muito
grandes, fecharam-se as portas da igreja pra não permitir
que se reunisse lá dentro. Mas na verdade essas pessoas não
tinham nenhuma oposição às questões políticas, elas apenas
tinham uma outra experiência. E eram consideradas inimigas.
Automaticamente elas eram empurradas pro outro lado, digamos
assim. Era, era muito difícil. A gente tinha que fazer
eventos sempre restritos, sempre com outra conotação, ah, é
um encontro de jovens, pra lá dentro fazer a experiência
mesmo carismática. Aquelas paróquias que permitiam faziam os
eventos e convidavam as outras todas, porque as outras não
podiam fazer. Era proibido que se fizesse” (idem).
Observamos nestes depoimentos algumas similitudes
com a história de movimentos considerados heréticos:
resistências, exclusões e perseguições. A análise da gênese do
campo religioso nos ajuda a compreender as dificuldades
da RCC em seus primeiros tempos. Toda organização religiosa
pressupõe a formação de um corpo de especialistas que
monopolizam a gestão dos bens sagrados de salvação. Esse corpo,
identificado com o clero, não pode admitir concorrência sobre o
monopólio dos bens simbólicos, menos ainda dos leigos, os quais
foram expropriados no processo histórico que consolidou a
hierarquia eclesial.
Outro aspecto que se sobressai nos depoimentos é
o perfil social da RCC em seus primeiros passos. São oriundos
predominantemente da classe média e vinculados ao meio
universitário. Este é, aliás, um fator interessante na medida em
que se repete, a começar pelo grupo que deu origem à RCC nos
Estados Unidos. Também em Maringá, o meio universitário terá um
papel fundamental no surgimento desta. Isto parece surpreendente
para muitos que vêem no campus o locus por
excelência da razão.
Há até quem acredite que isto se deve à obra do Espírito Santo,
na medida em que Ele colocaria a racionalidade científica à
prova e a ação missionária seria um desafio. Talvez idealize-se
em demasia o ambiente universitário e esqueça-se de que a
universidade também reflete a sociedade e é constituída por
homens e mulheres que também buscam respostas para além da
razão. Talvez também desconsidere-se o perfil sócio-econômico
dos que adentram à universidade, em especial na época.
A RCC, vimos, é um movimento originariamente
leigo. Por outro lado, as particularidades da conjuntura
política brasileira e latino-americana produzem exigências
religiosas que favorecem uma teologia essencialmente
comprometida com a questão social. O ambiente político, interno
(igreja) e externo (sociedade), era desfavorável à RCC também
pela ênfase dada à espiritualidade. Os carismáticos foram
pacientes e perseverantes, mas tiveram que chorar e lamber as
próprias feridas. Até que o bálsamo do reconhecimento
hierárquico, estimulado pelos novos ventos das mudanças
políticas e sociais, na sociedade brasileira e na Igreja
Católica, a partir do governo de João Paulo II, trouxesse novos
tempos e estacassem as lágrimas e cicatrizassem as feridas. Mas
a benção hierárquica não anula de pronto os focos de tensões nas
paróquias e em determinadas dioceses. As relações de poder
também se dão no nível micro, isto é, no cotidiano das igrejas
particulares.
A Teologia da Libertação também foi influenciada
pelas transformações sociais e políticas pelas quais passaram a
sociedade brasileira nas décadas de 1980-90 e perdeu a
proeminência que tinha na luta pelas liberdades democráticas.
Partidos e centrais sindicais, como o PT e a CUT, também
resultado do esforço militante dos cristãos vinculados a ela,
passaram ao primeiro plano. Por outro lado, ela sofreu as
conseqüências das dificuldades impostas pela autoridade
eclesial, desde Roma. Ressalte-se o papel desempenhado pelo
atual papa, na época prefeito da Sagrada Inquisição. Com o tempo
ficou evidente que a Renovação Carismática era essencial para
estancar a perda crescente de fiéis diante da concorrência dos
evangélicos. Aqui, as origens pentecostais da RCC foram
fundamentais. Estes elementos explicam o mistério do seu
crescimento, também em Maringá.
por
ANTONIO OZAÍ DA SILVA