por
LEANDRO
KONDER
Filósofo
marxista brasileiro. Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor da
Universidade Federal Fluminense e da Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro
Nota do editor:
Os
textos desta série foram publicados pelo autor no jornal carioca Tribuna
da Imprensa, ao longo do ano de 1990. No final de cada artigo
é indicada a data de publicação. Os artigos foram reunidos e
publicados em "Intelectuais brasileiros &
marxismo" (Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991).
O autor, a quem agradecemos, autorizou a publicação na REA.
Também registramos o agradecimento ao Prof. Paulo Cunha.
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Intelectuais
Brasileiros & Marxismo
Mário de Andrade (1893-1945)
Continua
crescendo a literatura sobre Mário de Andrade, numa clara
demonstração de que a importância atribuída à sua obra está
aumentando com o tempo.
No final do ano passado, saiu um magnífico ensaio de
Moacir Werneck de Castro (Mário de Andrade – Exílio no Rio,
Ed. Rocco), que não só reconstituía um período crucial da vida do
grande escritor paulista como divulgava documentos essenciais para a
reconstituição da sua trajetória em geral.
Agora, nestes últimos meses de 1990, está chegando às
livrarias uma sofisticada análise da criação literária
“marioandradina” feita pela professora Elisa Angotti Kossovitch (Mário
de Andrade – Plural, Ed. Unicamp). Ainda não pude ler o volume
recém-lançado (o que pretendo fazer nas próximas férias), mas quero
aproveitar o lançamento para relembrar alguns aspectos desse tema
vastíssimo que é Mário de Andrade.
Acho que vale a pena recordar, em especial,
alguma coisa da relação – ainda pouco explorada pelos críticos –
entre o “pluralismo” visceral de Mário (“sou trezentos”) e seu
interesse (desconfiado porém simpático) pelo comunismo.
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Entre os campeões do movimento modernista no Brasil,
Mário se destacava pela amplitude de sua cultura, pela vastidão dos
seus conhecimentos. Tinha uma visão panorâmica abrangente. Dispunha
de um quadro de referências muito mais rico do que todos os outros.
Se o velho Hegel tinha razão quando escreveu que “a
verdade é o todo”, Mário pode ser considerado, no meio dos
modernistas, aquele que mais se aproximou da verdade. Ou, se
concluirmos que a verdade é sempre plural, aquele que conseguiu
chegar mais perto de um número maior de verdades.
Mário lia muito; e lia sobre todas as coisas. Tinha
uma curiosidade insaciável. E essa curiosidade levava o tímido que
ele era a vencer a timidez para conversar com seus próximos.
Tratava-se – dizem – de um mestre da conversa: sabia sintonizar na
onda do interlocutor e se empenhava em ouvi-lo e compreendê-lo.
Esse movimento da conversa , da abertura para o
outro, na permanente disposição para cotejar sua opinião com as
convicções alheias, só seria possível numa personalidade
vocacionalmente reflexiva. E Mário era, de fato, um ser naturalmente
inclinado à reflexão. Etimologicamente, um ser possuído pela
necessidade de se debruçar outra vez (re + flectere) sobre a
mesma coisa, a fim de enriquecer a primeira impressão, eventualmente
corrigindo-a e superando-a.
Curiosamente, essa vocação reflexiva coexistia com um
temperamento impetuoso, rebelde, que a timidez nem sempre conseguia
controlar. E – é claro! – a reflexão precisou de mais tempo para se
afirmar do que a rebeldia. Nos primeiros anos, prevalece uma
inquietação que se manifesta com maior desenvoltura; e nos últimos
anos, o ímpeto questionador (que jamais diminuiu) passa a se
combinar, cada vez mais, com uma visão crítica (e auto-crítica)
elaborado com maior solidez teórica.
Mário era mesmo um ser “plural”, como se lê no título
do livro de Elisa Angotti Kossovitch. No começo dos anos vinte,
quando se insurgia, desassombradamente, contra o conservadorismo que
dominava a nossa linguagem literária, o moço ousado que demolia
preconceitos ficou seriamente preocupado ao ser chamado de
“futurista” num artigo de Oswald de Andrade, porque teve medo de,
com o escândalo, perder os alunos das aulas de piano que ministrava
(e que lhe assegurava seu sustento). Por outro lado, no último
decênio da sua vida, sofrido e amadurecido, submetendo sua
trajetória a uma prudente revisão, o escritor continuava a
manifestar arroubos da juventude, a audácia e a coragem intelectual
dos primeiros tempos.
Devemos reconhecer, entretanto, que a continuidade
não excluía a mudança. A persistência das características essenciais
(e contraditórias) de uma personalidade rica (e surpreendente) não
deve obscurecer a significação das modificações que vão ocorrendo,
ao longo da vida, na visão que Mário tinha das coisas.
As preocupações de Mário em relação à política, por
exemplo, vão se tornando mais definidas; e ele vai assumindo
posições mais concretamente críticas. A atitude assumida em face do
comunismo também sofre alterações interessantes (e revela,
igualmente, constâncias sintomáticas).
No clima de efervescência que caracterizava a vida
política brasileira em torno de 1930, Mário andou lendo coisas sobre
o marxismo e a União Soviética. Não chegou (parece) a ler Marx
diretamente: leu Bukhárin. E fez questão de sublinhar sua distância
em relação à Rússia. Numa carta ao jovem amigo Carlos Drummond de
Andrade, admitia que a sua sensibilidade era receptiva a “apelos
vagos porque sempre líricos, sociais, porventura comunistas (sem
Rússia)” (carta de 1-7-1930, constante do livre A lição do amigo,
Ed. José Olympio). Vale a pena sublinhar as palavras “sem Rússia”,
colocadas entre parênteses.
Num artigo intitulado “Comunismo”, publicado no
Diário Nacional (de São Paulo) em 30-11-1930, Mário se referia
ironicamente à imagem do comunismo russo como “uma espécie de
assombração medonha” e, de passagem, através do advérbio
“verbalmente”, sugeria certa desconfiança em relação à identificação
do comunismo com a União Soviética, “a primeira e a única nação que
o aplicou verbalmente até agora”. Observava que a propaganda
anticomunista havia exagerado as “mazelas” da URSS e os dirigentes
russos reagiam, se defendendo, negando os problemas que tinham e
sustentando que o regime por eles implantado assegurava a felicidade
dos cidadãos. Mas havia uma “confusão pueril” na questão. Porque –
como dizia Mário – “um sistema de governo jamais dará felicidade pra
ninguém não. A felicidade é uma aquisição puramente individual”.
Em 6 de novembro de 1932, Mário escreveu a Drummond
se queixando da posição assumida pelos comunistas brasileiros, que
desqualificavam a revolta paulista de 1932 considerando-a um
movimento exclusivamente burguês. E acusava, irritado: eles
“mentem por pragmatismo, no seu já famoso pragmatismo que no Brasil
se transformou notoriamente em licença pra todas as safadezas”.
Independentemente de todos os oportunismos que lhe
causavam consternação e de todas as simplificações rudemente
pragmáticas (ou dogmáticas?) dos comunistas, Mário não deixava de
alimentar robustas esperanças no socialismo como idéia. Respondendo
em 1933 a um questionário que lhe foi encaminhado pela Editora
Macauley and Company, declarou: “Minha maior esperança é que se
consiga um dia realizar no mundo o verdadeiro e ainda ignorado
Socialismo. Só então o homem terá o direito de pronunciar a palavra
civilização” (citado por Drummond em A lição do amigo).
O marxismo lhe parecia uma teoria um tanto tosca. Os
comunistas eram, às vezes, bisonhos. Mas a ideologia que os animava
e as verdades temporárias em que se apoiavam eram elementos
imprescindíveis no encaminhamento da revolta ética dos intelectuais.
“O intelectual pode bem – escrevia Mário – e deverá sempre se pôr a
serviço duma dessas ideologias, duma dessas verdades temporárias.
Mas por isso mesmo que é um cultivado, e um ser livre, por mais que
minta em proveito da verdade temporária que defende, nada no mundo o
impedirá de ver, de recolher e reconhecer a verdade da miséria do
mundo. Da miséria dos homens. O intelectual verdadeiro, por tudo
isso, sempre há de ser um homem revoltado e um revolucionário,
pessimista, cético e cínico: fora da lei” (Táxi, ed. cit., p.
516).
Existia em Mário, como notou Telê Porto Ancona Lopez,
“um desejo de opção política” (a expressão se encontra em Mário
de Andrade: ramais e caminho, Ed. Duas Cidades). No entanto, a
ética que cobrava o engajamento era a mesma ética que incitava à
desconfiança em relação a todas as possibilidades concretas da
militância.
Em 1938, entristecido com o fracasso de um projeto a
que se dedicara durante três anos na Secretaria de Cultura da
Prefeitura de São Paulo, Mário resolveu se “exilar” no Rio de
Janeiro, onde viveu por dois anos e oito meses. O “exílio” lhe
proporcionou uma ampliação no seu círculo de amizades: conviveu com
jovens intelectuais combativos, dispostos a enfrentar a política e,
eventualmente, a ir para a prisão. Com sua habitual sinceridade,
confessou-lhes que tinha medo de ser preso. Viveu mal, no Rio,
angustiado com o Brasil e o mundo, naqueles anos de Estado Novo
getuliano e de ascensão do fascismo na Europa.
Moacir Werneck de Castro conta: “A experiência que
Carlos Lacerda e eu trazíamos de nossas militâncias de esquerda o
deixava assombrado.” Não abria mão de suas exigências mais íntimas
de ser sempre senhor do seu engajamento, mantendo-o sob controle,
porém, queria incorporar algo do pensamento novo mais combativo.
Moacir explica: “Mário jamais pretendeu assimilar o marxismo, mas
utilizava conceitos marxistas como instrumentos de análise e de
conhecimento da realidade.” Essa atitude se manifesta em diversos
trabalhos que abordam a relação da música com a história e a
sociedade. E se manifesta também nos conselhos que dá a Oneida
Alvarenga (que mais tarde viria a escrever o livro Mário de
Andrade, um pouco, lançado pela Editora José Olympio): “Você
sabe que pessoalmente não admito integralmente o marxismo e sinto na
vida humana uma porção de causas e de imponderáveis que produziriam
os efeitos. Mas incontestavelmente o marxismo contém uma enorme
parte de verdade que hoje nem é marxista mais porque incorporada ao
conhecimento geral, à verdade humana. Coisas que ninguém discute
mais.”
De volta a São Paulo, em 1941, Mário se mostrava
inclinado a aprofundar sua reflexão, num movimento tanto crítico
como autocrítico, que o levou a assinalar com surpreendente vigor
polêmico as limitações que passara a enxergar no movimento
modernista. O artista, ameaçado como homem pelo nazismo, precisa se
unir à luta dos outros homens; precisa “marchar com as multidões”.
Ninguém tem o direito de permanecer à margem de um esforço
imprescindível para enfrentar um grave perigo que ameaça toda a
humanidade.
O artista, o escritor, o intelectual não devem
“servir aos donos da vida”. Devem ser solidários em relação às
aspirações dos homens da sociedade em que vivem. Devem, no entanto,
preservar sua autonomia individual. O próprio Mário se sente
pressionado por essa dupla exigência e reflete sobre ela com intensa
dramaticidade em seus últimos anos de vida. Gilda de Mello e Souza
providenciou a edição de um volume que reúne um longo e fascinante
diálogo que o autor de Macunaíma estava publicando na
Folha da Manhã quando a morte o levou, em 1945. Nessa obra –
intitulada O banquete – Mário mostra cinco personagens
imaginários discutindo sobre arte e sociedade. E se serve das
criaturas de ficção para expressar suas inquietações, a diversidade
dos pontos de vista que correspondiam à multiplicidade das suas
preocupações, de seus “valores”.
A União Soviética, na guerra que estava travando
contra Hitler, nas vitórias que obtinha sobre a barbárie nazista,
empolgava o coração do escritor. Seu último texto terminado foi uma
apresentação de um livro de Victor Serof a respeito do compositor
russo Dmitri Chostacóvich; e, naquele momento, Mário chegou a
admitir que a comunidade tinha o direito de cobrar do compositor,
como indivíduo, que ele, na sua arte, atendesse à demanda coletiva,
renunciando às formas mais exasperadas do seu individualismo.
As discussões que podem ser lidas em O banquete,
contudo, refletiam de maneira mais completo a complexa gama das
questões éticas e estéticas com que o escritor se defrontava. De um
lado, os personagens Janjão e Pastor Fido expressam a disposição de
Mário para assumir o compromisso da arte com a afirmação do caráter
nacional e com a crítica social. De outro, a cantora Siomara Ponga
traduz a convicção (partilhada por Mário) de que a arte, de algum
modo, se justifica por si mesma, por sua qualidade, por sua
capacidade de durar.
As contradições irresolvidas da estética remetem às
tensões e conflitos do movimento da sociedade. A cultura não pode
resolver questões que a vida não resolveu: o que ela pode (e
precisa) fazer é nos proporcionar maior familiaridade com elas.
26-11-1990
KONDER,
Leandro.
Intelectuais
Brasileiros e Marxismo.
Belo
Horizonte: Oficina de Livros, 1991, pp. 43-49.
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