A situação das crianças retratadas nas obras do mouro
- O Capital (III)
No
seu livro “O Capital”, Karl Marx apresenta uma análise sobre a
exploração do trabalho humano, afirmando que certos ramos de
produção onde não se opõe ainda ou até recentemente não se opunha
nenhum limite à exploração da força de trabalho. Em comentários
de uma reportagem do jornal “Daily Telegraph”, Marx destaca os
seguintes dados:
O juiz do condado Broughton (...) declarou que
naquela parte da população, empregada nas fábricas de renda da
cidade, reinavam sofrimentos e privações em grau desconhecido no
resto do mundo civilizado (...) Às 2, 3 e 4 horas da manhã, as
crianças de 9 e 10 anos são arrancadas de camas imundas e
obrigadas a trabalhar até as 10, 11 ou 12 horas da noite, para
ganhar o indispensável à mera subsistência. Com isso, seus
membros definham, sua estatura se atrofia, suas faces se tornam
lívidas, seu ser mergulha num torpor pétreo, horripilante de se
contemplar (...) “
Baseado em inquéritos que apuravam o trabalho escravo
de crianças e adolescentes em uma fabrica de cerâmica, Marx recolhe
alguns depoimentos dessas crianças:
“Wilhelm Wood, um garoto de 9 anos, tinha 7 anos
e 10 meses de idade, quando começou a trabalhar”(...) Chega,
todo dia da semana, as 6 horas da manhã e acaba sua jornada por
volta de 9 horas da noite (...)
J. Murray, um menino de 12 anos, depõe: (...)
Chego ao trabalho às 6 horas da manhã, às vezes às 4. Trabalhei
toda a noite passada, indo até às 6 horas da manhã. Não durmo
desde a noite passada. Havia ainda 8 ou 9 garotos que
trabalharam durante toda a noite passada. Todos menos um
voltaram esta manhã. Recebo por semana 3 xelins e 6 pence. Nada
recebo a mais por trabalhar toda a noite.
Esses depoimentos demonstram as condições trágicas do
trabalho infantil em uma Inglaterra que estava a todo vapor
ampliando e otimizando ao máximo suas forças produtivas, para poder
desenvolver suas relações de produção. Foi nesse quadro de horrores
que a degeneração da classe trabalhadora começa ser objeto de
denúncia por parte dos médicos. Segundo Marx, o Dr.Boothroyd da
clínica em Hanley e Dr. McBean afirmam respectivamente:
“Cada nova geração de trabalhadores de cerâmica é
mais raquítica e mais fraca que a anterior”.
“Desde que iniciei minha clínica há 25 anos entre
os trabalhadores de cerâmica, tenho observado sua pronunciada
degeneração progressiva pela diminuição da estatura e do peso”
Como investigador que soube como ninguém tratar os
dados empíricos em sua dimensão histórica, dando a eles o peso exato
de sua referência ontológica, Marx demonstra uma sensibilidade na
escolha e seleção dos dados que necessita para justificar seus
pressupostos. Uma das descrições mais impressionantes da qual se
utiliza é a do relatório da Comissão de 1863 do Dr. J.T. Arledge,
diretor do hospital de North Staffordshire:
“Como classe, os trabalhadores de cerâmica,
homens e mulheres,... representam uma população física e
moralmente degenerada. São em regra franzinos, de má construção
física e freqüentemente têm o tórax deformado. Envelhecem
prematuramente e vivem pouco, fleumáticos e anêmicos, patenteiam
a fraqueza de sua constituição através de contínuos ataques de
dispepsia, perturbações hepáticas e renais e reumatismo ... A
degenerescência da população deste distrito não é maior
exclusivamente porque ocorre o recrutamento de pessoas das zonas
adjacentes, além do casamento com outros tipos raciais mais
sadios”.
Marx comenta de uma fabrica de fósforos, onde as
condições de trabalho eram extremamente insalubres e metade de seus
trabalhadores eram meninos com menos de 13 anos que trabalham entre
12,14 e 15 horas por dia, inclusive com trabalho noturno e
refeições irregulares no próprio local de trabalho.
Em um depoimento feito pelos empregados de uma
fabrica, Marx seleciona as seguintes falas:
“No inverno passado(1862), entre 19 moças não
compareceram 6 em virtude de doenças causadas por excesso de
trabalho. Tinha de gritar para elas a fim de mantê-las
acordadas”. W. Duffy: “Às vezes, os garotos não podiam abrir os
olhos de cansaço e o mesmo sucedia conosco. J. Lightbourne:
“Tenho 13 anos de idade ... no último inverno trabalhávamos até
as 9 horas da noite e no inverno anterior até as 10. No inverno
passado, meus pés feridos doíam tanto, que eu gritava todas as
noites. G. Apsden: “Este meu filho quando tinha 7 anos de idade,
eu o carregava nas costas através da neve, na ida e na volta, e
ele trabalhava 16 horas ... Muitas vezes ajoelhei-me para lhe
dar comida, enquanto ele estava junto à máquina, pois não devia
abandoná-la nem deixá-la parar
.
Marx procura mostrar o processo de adulteração que as
mercadorias sofrem no processo de produção capitalista, pois para
ele a falsificação de produtos alimentares demonstra que a realidade
se transforma em mera aparência, de acordo com o que se constata via
relatórios dos inspetores do Estado Inglês, segundo os quais a
população:
... está condenado a comer o pão com o suor de
seu rosto, mas não sabia que tinha de comer diariamente, com o
pão, certa quantidade de suor humano misturado com supurações de
abscessos, teias de aranha, baratas mortas e fermento podre
alemão, além de alúmen, saibro e outros ingredientes minerais
agradáveis
Segundo Marx, os que vendem mais barato, assim o
conseguem em virtude dos produtos falsificados como forma de ampliar
seus lucros. Nesse sentido, o capitalismo para produzir “riqueza,”
utiliza de todos os métodos reservados para aqueles que podem
consumir, independente da qualidade dos produtos por ela produzidos.
Portanto, a morte pode vir pela exagerada quantidade
de comida que alguns acabam ingerindo, pela falta de comida, por
aquilo que se come ou por trabalho em excesso, como assim continua
Marx:
Moças que trabalham ininterruptamente 16
horas, durante a temporada às vezes 30 horas consecutivas, sendo
reanimadas, quando fraquejam, por meio de xerez, vinho do porto
ou café.
“Mary Anne Walkley morreu por ter trabalhado em
excesso ...
Marx utiliza-se da citação de um médico que afirma.
“A palavra de ordem é trabalhar até morrer não só nas oficinas das
modistas, mas em milhares de outros lugares onde se desenvolvem as
atividades ...
O processo de trabalho imposto pelo desenvolvimento
capitalista demonstra que essas atividades estão contidas no
interior da sociedade burguesa como assim foi exposto por Marx,
quando ao tentar sinalizar essas idéias afirma no Manifesto
Comunista:
As declamações burguesas sobre a família e a
educação sobrem os doces laços que unem a criança aos pais,
tornam-se cada vez mais repugnantes à medida que a grande
indústria destrói todos os laços familiares do proletário e
transforma as crianças em simples objetos de comércio, em
simples instrumentos de trabalho.
Para finalizar essa breve síntese, sobre como Marx
tratava as questões relativas ao trabalho infantil em alguns dos
seus escritos, transcrevemos uma parte da entrevista feita ao
jornal “Chicago Tribune”, em dezembro de 1878, em que defende:
Jornada de trabalho correspondente às
necessidades sociais. Proibição do trabalho aos domingos.
Interdição do trabalho das crianças,
bem como do trabalho cuja natureza prejudique à saúde e seja
ofensivo à moral da mulher
.
Conclusão
“Su nombre vivirá a través de los
siglos, y con él su obra”
Sabiamente, Friedrich Engels pronunciou essas
palavras no funeral de Karl Marx em 17 de março de 1883, no
cemitério de Highgate em Londres. Na verdade, as aguçadas
observações teóricas de Marx estão mais atuais do que nunca – sua
obra permanece sendo objeto de debates, seminários, estudos em geral
junto a centros sindicais, universidades, partidos políticos e
intelectuais que buscam manter vivo o pensamento marxiano como
ocorre com o chamado “Espaço Marx” – nome que se tornou o principal
parceiro dos críticos do sistema capitalista, pois foi o filosofo
que criou as bases teóricas para sua própria destruição.
Nada nos coloca tão próximos de uma realidade, já
sinalizada onde a barbárie capitalista está mais explicita e poucos
foram tão felizes teoricamente em suas investigações como Marx,
demonstrando que o capitalismo em toda a sua existência para manter
sua plenitude “vampiresca”, necessita exercitar o uso da violência e
da exploração do trabalho infantil.
Na América Latina, segundo a especificidade e a
particularidade de cada nação, o desenvolvimento capitalista
apresenta desenvolvimentos desiguais, porém combinados em sua
universalidade, onde o capital determina os avanços de cada país
dentro de uma configuração histórica. Entender a dinâmica do capital
em cada um deles é compreender o processo de como se configura a
sociedade contemporânea.
Por isso, os dados apresentados pela Organização
Internacional do Trabalho – OIT – retratam uma realidade dificílima
para as crianças. Os números chegam à cifra de 300 milhões de
trabalhadores infantis no mundo.
Na América Latina, segundo dados da UNICEF, existem
90 milhões de crianças pobres que potencialmente estão em
estado de risco, ou seja, direta ou indiretamente atreladas
a alguma forma de trabalho para poder sobreviver, como assim comenta
Marcelo Novello em seu artigo pela Internet:
... Pero la lógica del capital
sigue aún vigente, porque los niños son fuente de enormes
beneficios para os capitalistas, no sólo por ser superexplotados
en función laboral, sino también por el negocio del ‘comercio
sexual’ (prostitución), o a través del tráfico de
menores. Todas estas ‘actividades’ son
organizadas por grandes corporaciones multinacionales (líneas
aéreas y turismo, entre otras), que cuentan con la complicidad
de los funcionarios estatales. En países como República
Dominicana la prostitución infantil se convirtió en un
“Factor macro económico” que permite “equilibrar la
balanza de pagos” y así pagarle la deuda externa al capital
financeiro internacional
.
No Brasil, são 7 milhões de crianças que estão
empregadas em atividades de alto risco, entre as quais podemos
destacar os cortadores de cana, carvoeiros, prostituição, indústria
de sapatos e distribuidores de drogas. Essas crianças como filhos do
capital, se tornam os seres mais vulneráveis da sociedade, sofrendo
de imediato com a ampliação da mais – valia, que apela para a
barbárie em dimensões equivalentes às ocorridas no século XVIII.
A corrida pela restauração do capital em sua dimensão
clássica, tanto no terceiro mundo como nos chamados países
“socialistas”, provocaram um crescimento profundo quantitativo e
qualitativo da miséria e pobreza. O aumento de crianças abandonadas
e meninos de rua se generalizou pelo mundo, aliado ao crescimento
do desemprego, ou seja, a crise da sociedade contemporânea.
As crianças foram transformadas em simples
mercadorias a serem comercializadas, transformando-se em um dos
principais rendimentos deste século. Os Estados nacionais organizam,
congressos, simpósios e encontros alegando a defesa dos direitos
das crianças, propondo simplificar suas leis( códigos, estatutos
e portarias ) no campo da adoção de crianças, com o objetivo de que
a livre circulação da mercadoria( criança ) ocorra.
A maioria dos países da América Latina possuem uma
elevada taxa de crescimento demográfico acompanhado de uma
multiplicação da miséria e pobreza. Campo propício para que ocorra a
comercialização de uma futura mão-de-obra por países em que o
crescimento demográfico está aquém de suas necessidades, por isso a
existência de uma rede de agencias de adoções estrangeiras nesses
países. O tráfico de crianças possui uma abrangência junto aos
órgãos do estado e entidades públicas e privadas de atendimento
social. Segundo, novamente,
Marcelo Novello:
Outra manifestación de la
catástrofe que implica la restauración capitalista, es el
creciente aumento del tráfico de menores ( tanto legal como
ilegal ). A partir de 1990 se registra un verdadero ‘boom’
capitalizado por auténticas mafias, que trafican menores desde
los ‘países del Este’( principalmente Rumania y Rusia )
hacia el ‘Primer Mundo’. Existe inclusive todo un ‘mercado’
capitalista que tiene sus ‘preferencias’ reguladas por la
‘oferta y demanda’ de menores recién nacidos, de sexo
femenino y tez blanca, que se cotiza en miles de dólares. El ‘negocio’
es tan generalizado y jugoso que muchos Estados, por ejemplo
Brasil, hicieron cambios en la ‘regulación’ del sistema
legal de adopciones
.
O Capital transforma o ser humano em mercadoria
podendo utilizá-lo conforme oscilam seus interesses, reprimindo e
criando os estados de exceção via seqüestro, tortura e eliminação
física ou criando leis e estruturas de confinamento tidas como de
proteção à criança e adolescente. Aparecem as chamadas “casas de
engorda”
que hoje se multiplicam na América latina.
A situação das crianças de hoje se equipara com a das
crianças da Inglaterra do séc. XVII e XVIII. Karl Marx foi um
pensador que caminhava com e na frente da história, desenvolvendo
uma capacidade de análise só permitida a muitos poucos gênios da
época e preocupado com o ser humano em sua dimensão ontológica,
defendia o homem desde seu nascimento até a morte.
Marx mostrou à humanidade que inexiste nas relações
capitalistas, qualquer vinculo humanitário e social a não ser o
interesse em tornar o cidadão em instrumento capaz de aumentar a
mais – valia do capital.
A vida de Marx, pai e família revelam uma infinita
sensibilidade humana deste para com os seus e a humanidade. Sempre
lutou por uma sociedade materialmente igual para todos, acompanhada
de um crescimento da racionalidade humana. Podemos afirmar, sem medo
de errar que Marx desmistificou as relações capitalistas e sinalizou
que a pobreza por ela criada, acabou sendo ignorada pelo próprio
capitalismo ou dada para as entidades sociais para desenvolverem a
caridade. Nesse sentido, Marx demonstrou que a miséria e pobreza só
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