por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMASIO

Doutoranda em Literatura na Sorbonne e em Filosofia na
Université de Marne-la-Vallée

 

Identidade, Igualdade, Diferença – O olhar da história

 

“Les femmes ou les silences de l’histoire” (As mulheres ou os silêncios da história), de Michelle Perrot, publicado em 1998Discutiremos aqui o texto intitulado Identité, égalité, différence – le regard de l’histoire” (Identidade, Igualdade, Diferença – O olhar da história) do livro “Les femmes ou les silences de l’histoire” (As mulheres ou os silêncios da história), de Michelle Perrot, publicado em 1998.

A obra, em geral, delata o silêncio a que as mulheres foram submetidas, durante séculos. Esse silêncio está na maneira como a mulher sempre foi contada, por vozes masculinas, ignorada por situações opressivas ou, ainda, seu próprio silêncio induzido pelo pensamento do homem que, muitas vezes, impede-a de pensar por si mesma.

Sua publicação vem quebrar a situação da mulher que, até então, continuava invisível, ou seja, até que a própria mulher, historiadora, começasse a escrever sobre ela. Entretanto, encontramos, ainda, o filósofo Bourdieu indagando até que ponto as mulheres são capazes de escrever uma história diferente da que foi, sempre, contada pelos homens.

Essa discussão interessa a todos que se dedicam ao estudo da opressão feminina, pois a mulher está num combate que ainda não terminou e tem muito a percorrer. Sua invisibilidade iniciou uma mudança à partir do século XX, onde começa a sair da dicotomia para ir ao pluralismo, passando, perigosamente[1], de objeto a sujeito, e ser sujeito implica em ter poder.

O caminho é esse! Ou não! Mas ao menos, se está no caminho. É preciso falar, é preciso escrever, a mulher precisa manifestar-se, influenciada ou não pelos homens, sendo ou não legítimas, porque a legitimidade e originalidade são adquiridas, somente, quando nos lançamos em busca delas.

A busca da Identidade e o encontro com ela pode nos levar à legitimidade e à originalidade. Devemos procurar a Identidade feminina para nos encontrarmos como mulher, para podermos falar em nome de uma coletividade e, assim, associarmos a Identidade à Igualdade e à Diferença.

O texto é um colóquio, divido em três momentos, onde a autora, citando Geneviève Fraisse e o conceito de Gender, começa defendendo a idéia de que os termos Identidade, Igualdade e Diferença devem ser pensados em função um do outro, e não separadamente, esse laço é a construção social e cultural da diferença dos sexos. Tal noção, nascida nos Estados Unidos, é rediscutida hoje na França, significando que a história das mulheres encontra sentido somente na análise e desconstrução da diferença dos sexos, na relação com outro sexo.

O sexo e o módulo são, assim, precedidos pelo gênero, pela categoria da cultura. O corpo não é o primeiro dado, ele é representação e lugar de poder, e tem uma história. Desta forma, a identidade não é estabelecida definitivamente, nem é causa, mas efeito instável e nunca garantido. Por isso, as noções de partilhas, fronteiras, conflitos, composição, decomposição, recomposição, entre outras, são mais fundamentais que alguns traços identitários.

Devemos, então, considerar dois pontos essenciais :

1 – O confronto das teorias e das práticas no que diz respeito às igualdades, com ao menos dois níveis da representação ou da realidade.

2 – A questão do poder, da dominação masculina como princípio organizador do pensamento, da sociedade e da história. Podendo haver uma substituição da classe pelo sexo além do risco de recorrer a uma invariável pregando somente a dominação machista ou negando a teoria do matriarcado. Se assim for, temos, novamente, dois pontos a discutir:

a – Segundo Bourdieu, se o pensamento é, radicalmente, dominado pelos homens, as mulheres não podem sequer pensar ou escrever sua própria história.

b – Não é somente o poder que existe, a cultura vai além dele.

Num segundo momento, Michelle Perrot fala-nos da Identidade como tema mais abordado e mais rico dos últimos tempos, pela sua definição de masculino e feminino estar, freqüentemente, no centro do pensamento filosófico, religioso, moral e no discurso médico que por alguns momentos pretendeu ser o olhar da ciência.

Tendo por base o americano Thomas Laqueur, mostra-nos como, à partir do século XVIII, o gênero se fez sexo, passando a ser pensado muito mais fisicamente que ontológica e culturalmente; ocasionando, por conseguinte, a biologização e a sexualização do gênero e da diferença dos sexos. Essa diferença teve, de um lado, o despertar de novas maneiras de percepção de si mesmo, com a psicanálise, e de outro lado, trouxe um fundamento naturalista à teoria das esferas pública e privada. Em nome dessa identidade naturalista da mulher, voltada para o corpo, a maternidade, o espaço doméstico, ocasionou um assentamento biológico no discurso paralelo e conjunto de utilidade social.

A partir de então, foi instaurada uma reorganização política acompanhada pela redefinição das identidades sexuais e vários Estados-nações foram claros nessa distinção, como a Grécia, resistindo à ocidentalização e aos costumes estrangeiros; o Iran, a Argélia, o Afeganistão, demonstrando a violência do conflito, sugerindo, no campo do espaço público, o fechamento das mulheres. Nesses casos, a laicidade oferece um pouco mais de liberdade, não estando, entretanto, isenta da diferenciação dos sexos.

Quanto às guerras, longe de contribuir para a igualdade dos sexos, reforçam uma definição estrita de seu papel e assimilam a confusão à decadência. Algumas delas foram ditas perdidas pelo efeminamento dos homens (1870) ou pela masculinização das mulheres (1914). Quando algumas mulheres, durante as guerras, tiveram que tomar postos “masculinos”, retornaram aos lares logo que a guerra acabou, não sendo, assim, causa de progresso no feminismo.

Os burgueses construíram a utilidade feminina sobre a utilidade social. Sendo a dona-de-casa a Rainha do Lar; a aparência é quem comanda gerando, nos dias atuais, a anorexia, pela necessidade de emagrecer. Por outro lado, a classe operária construiu sua identidade sobre a virilidade, a valorização da produção material e ocultação do trabalho doméstico de reprodução que nada vale na teoria marxista de valores. Seus símbolos são o ferro, o fogo, o metal da ordem, o sangue do sacrifício. É tão comum que as categorias socialmente dominadas reafirmem sua identidade pela virilidade ou submissão das mulheres, que se tornou um traço do populismo.

O medo da indiferenciação sexual que é o centro das crises identitárias masculinas, está sempre tentando dar respostas ao combate feminino de tentar sair da situação de dominação, pois marcar a diferença é uma forma de poder. A definição clássica de gênero separado de sexo é moldada pela cultura e reafirma a força da hierarquia do masculino e do feminino como fundamento irredutível do pensamento e da organização do mundo.

Para fechar o tópico Identidade, Perrot questiona: “Como as próprias mulheres e as feministas situaram-se em relação à definição que lhes impunham ?”[2] (P.399), e prossegue explicando que as que saíam do padrão exigido de mulher tinham, freqüentemente, que suportar os comentários duvidosos sobre sua feminilidade. Como por exemplo, a autora George Sand que, em suas próprias hesitações, aceitava o sexo negando a diferença, reivindicando a liberdade da escolha individual mas recusando e contestando a consciência de gênero.

A noção de “consciência de gênero” exprimia, segundo Eleni Varikas, o sentimento de uma similaridade de condição e de destino expresso por um “nós as mulheres” que pode tanto indicar um feminismo igualitário, como a fixação das mulheres na aceitação de sua irredutível diferença. Essa noção se articula, correntemente, com a idéia de uma superioridade das mulheres como gerentes da família, a cura para os problemas da sociedade e do estado, e até mesmo, como a salvação do mundo.

Os feminismos oscilam, desta maneira, do extremo “masculinidade” ao extremo “feminilidade”, que por sua vez, oscila, também, entre maternidade, celibato, virgindade, homossexualidade.

Enfim, a questão da identidade, cruza com as da igualdade e da diferença quando a reivindicação de cidadania se apóia sobre o direito das mulheres de serem representadas enquanto tais, em nome de sua especificidade, onde a consciência de gênero pode desembocar na análise de desigualdade.

Num terceiro e último momento, a historiadora nos diz que, ao olhar dos antropólogos, a diferença dos sexos é o princípio organizador da sociedade, citando as obras de Claude Lévi-Strauss e de Françoise Héritier como fundamentais. Para Héritier, é inconcebível uma sociedade sem as diferenças de sexos, e para Lévi-Strauss essa diferença é uma estrutura cognitiva que gera os sistemas simbólicos e as categorias da linguagem, por isso alguns feministas falam em desconstrução da linguagem.

Teoricamente esta diferença não implica desigualdade, porém, praticamente, muitos afirmam que sim, porque as pesquisas mostram a dominação masculina em grande âmbito. Isso propõe quatro domínios para serem analisados :

1 – Os tempos, os argumentos e as representações de desigualdade, onde Deus, a Natureza e a Sociedade são a Trindade da diferença dos sexos, e as teorias passam desde a biologia e utilidade social até, em nossos dias, o discurso da ‘igualdade das diferenças’, fazendo surgir uma nova educação com a finalidade de produzir mulheres mais esclarecidas e companheiras inteligentes, um cuidado em uma nova forma de casamento que culmina no amor fusional. A modernidade do casal está numa complementaridade sexual fortemente identitária.

2 – As práticas organizadoras da desigualdade. Funções importantíssimas do direito, fazendo com que as mulheres lutem por leis, mas invoquem a evolução das mentalidades, para que caiam por terra a divisão sexual do trabalho, da educação, da prostituição.

3 – Levantamento bibliográfico tentando identificar quais foram as atitudes, individuais ou coletivas, tanto dos homens quanto das mulheres, diante das desigualdades enfrentadas e que traçaram seus caminhos. Coletivamente, o feminismo, em sua pluralidade, foi um agente ativo nas lutas pela desigualdade, como podem confirmar as jovens historiadoras Michèle Riot-Sarcey, Laurence Klejman, Florence Rochefort, Christine Bard, Françoise Picq e Sylvie Chaperon que constataram a vastidão de documentos que comprovam que o feminismo francês tem força, mas que resta, ainda, definir conceitos, como por exemplo, se a paridade  está em nome da eqüidade individual ou da diferenças dos sexos.

4 – Como último domínio para análise temos os deslocamentos fronteiriços da desigualdade, as decomposições e recomposições das partilhas entre os dois sexos em todos os setores de emprego, de criação ou do quotidiano; a resistência masculina e a acomodação da indiferença feminina. A questão, aí, é: em que se baseia o freqüente consentimento da diferença?

Considerando, sempre, as conjunturas de diferenciação acentuadas, diga-se, as guerras, as crises, ou no caso do Brasil, os movimentos de guerrilhas, entre outros; e momentos individuais fortes, como a adolescência, o reconhecimento da identidade influenciado pela cultura, etc. é necessário perguntarmos quais foram os momentos, os lugares, os meios de consciência da diferença na dialética do Gênero.

Assim sendo, o feminismo oscila entre os pólos da diferenciação e da indiferenciação ultrapassando o tempo e o espaço. Atingindo divergências como a forte afirmação da diferença nos anos 70, o feminismo lésbico, homossexual em geral, com Pysch e Po e Antoniette Fouque; ou o feminismo culturalista dos anos 80, representado pela criação literária com Hélène Cixous, Monica Wittig, e pesquisa analítica e psicanalista, com Luce Irigaray corrente, hodiernamente, enfraquecida em França, mas latente nos Estados Unidos.

Finalmente, a autora invoca a Indiferenciação que, segundo Élisabeth Badinter, pode ser mais difícil de ser vivida em sua própria indecisão, temida pelo lado macho do poder. De onde surge outra questão a ser discutida: Para os indivíduos, a afirmação da diferença e, então, da identidade é uma arma necessária. Mas seria um objetivo?

Tais interrogações e teorias sobre o quadro atual do feminismo são importantíssimas para as mulheres do mundo inteiro, com suas diferenças culturais, mas com problemas que muito similares. É necessário tratarmos com seriedade o problema da Identidade, Igualdade e Diferença somada a todos os suportes históricos que levam a uma reflexão mais concisa da questão feminista em suas diversas facetas.

Não podemos construir uma identidade do nada, sem influências, sem história, sabemos que somos seres influenciados e constituídos pelo meio, pelo contexto e somente à partir desse reconhecimento é que somos capazes de chegar a uma avaliação madura do que significa identidade na construção do indivíduo, na construção do masculino e do feminino, do gênero e do sexo.

A partir dessa avaliação, conseguiremos de dentro pra fora, da “evolução das mentalidades” para a “evolução da sociedade”, abraçarmos, com consciência e realismo, a luta pela causa das mulheres. Para, não somente quebrar os silêncios, mas saber fazer o barulho ansiado. É preciso balbuciar para que possamos, numa progressão, proferir palavras corretas, com sentido adequado!

 

Bibliografia

PERROT, Michelle. « Identité, égalité, différence – le regard de l’histoire », in : Les femmes ou les silences de l’histoire, Paris, Flammarion, 1998, p. 393-405.

 


[1] Em toda passagem de objeto a sujeito encontramos o risco de um outro sujeito querendo oprimir, reprimindo essa passagem para manter o poder.

[2] Tradução nossa. « comment les femmes elles-mêmes, et les féminismes, se sont-ils situés par rapport à la définition qu’on leur imposait?» (P. 399).

 

CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMASIO

 

 

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