Identidade, Igualdade, Diferença – O olhar da
história
Discutiremos
aqui o texto intitulado “Identité,
égalité, différence – le regard de l’histoire” (Identidade,
Igualdade, Diferença – O olhar da história) do livro “Les
femmes ou les silences de l’histoire” (As mulheres ou os
silêncios da história), de Michelle Perrot, publicado em 1998.
A obra, em geral, delata o
silêncio a que as mulheres foram submetidas, durante séculos.
Esse silêncio está na maneira como a mulher sempre foi contada,
por vozes masculinas, ignorada por situações opressivas ou,
ainda, seu próprio silêncio induzido pelo pensamento do homem
que, muitas vezes, impede-a de pensar por si mesma.
Sua publicação vem quebrar a
situação da mulher que, até então, continuava invisível, ou
seja, até que a própria mulher, historiadora, começasse a
escrever sobre ela. Entretanto, encontramos, ainda, o filósofo
Bourdieu indagando até que ponto as mulheres são capazes de
escrever uma história diferente da que foi, sempre, contada
pelos homens.
Essa discussão interessa a todos
que se dedicam ao estudo da opressão feminina, pois a mulher
está num combate que ainda não terminou e tem muito a percorrer.
Sua invisibilidade iniciou uma mudança à partir do século XX,
onde começa a sair da dicotomia para ir ao pluralismo, passando,
perigosamente,
de objeto a sujeito, e ser sujeito implica em ter poder.
O caminho é esse! Ou não!
Mas ao menos, se está no caminho. É preciso falar, é
preciso escrever, a mulher precisa manifestar-se,
influenciada ou não pelos homens, sendo ou não
legítimas, porque a legitimidade e originalidade são adquiridas,
somente, quando nos lançamos em busca delas.
A busca da Identidade e o
encontro com ela pode nos levar à legitimidade e à
originalidade. Devemos procurar a Identidade feminina para nos
encontrarmos como mulher, para podermos falar em nome de uma
coletividade e, assim, associarmos a Identidade à Igualdade e à
Diferença.
O texto é um colóquio, divido em
três momentos, onde a autora, citando Geneviève Fraisse e o
conceito de Gender, começa defendendo a idéia de que os termos
Identidade, Igualdade e Diferença devem ser pensados em função
um do outro, e não separadamente, esse laço é a construção
social e cultural da diferença dos sexos. Tal noção, nascida nos
Estados Unidos, é rediscutida hoje na França, significando que a
história das mulheres encontra sentido somente na análise e
desconstrução da diferença dos sexos, na relação com outro sexo.
O sexo e o módulo são, assim,
precedidos pelo gênero, pela categoria da cultura. O corpo não é
o primeiro dado, ele é representação e lugar de poder, e tem uma
história. Desta forma, a identidade não é estabelecida
definitivamente, nem é causa, mas efeito instável e nunca
garantido. Por isso, as noções de partilhas, fronteiras,
conflitos, composição, decomposição, recomposição, entre outras,
são mais fundamentais que alguns traços identitários.
Devemos, então, considerar dois
pontos essenciais :
1 – O confronto das teorias e
das práticas no que diz respeito às igualdades, com ao menos
dois níveis da representação ou da realidade.
2 – A questão do poder, da
dominação masculina como princípio organizador do
pensamento, da sociedade e da história. Podendo haver uma
substituição da classe pelo sexo além do risco de recorrer a
uma invariável pregando somente a dominação machista ou
negando a teoria do matriarcado. Se assim for, temos,
novamente, dois pontos a discutir:
a – Segundo Bourdieu, se o
pensamento é, radicalmente, dominado pelos homens, as
mulheres não podem sequer pensar ou escrever sua própria
história.
b – Não é somente o poder que
existe, a cultura vai além dele.
Num segundo momento, Michelle
Perrot fala-nos da Identidade como tema mais abordado e mais
rico dos últimos tempos, pela sua definição de masculino e
feminino estar, freqüentemente, no centro do pensamento
filosófico, religioso, moral e no discurso médico que por alguns
momentos pretendeu ser o olhar da ciência.
Tendo por base o americano Thomas
Laqueur, mostra-nos como, à partir do século XVIII, o gênero se
fez sexo, passando a ser pensado muito mais fisicamente que
ontológica e culturalmente; ocasionando, por conseguinte, a
biologização e a sexualização do gênero e da diferença dos
sexos. Essa diferença teve, de um lado, o despertar de novas
maneiras de percepção de si mesmo, com a psicanálise, e de outro
lado, trouxe um fundamento naturalista à teoria das esferas
pública e privada. Em nome dessa identidade naturalista da
mulher, voltada para o corpo, a maternidade, o espaço doméstico,
ocasionou um assentamento biológico no discurso paralelo e
conjunto de utilidade social.
A partir de então, foi instaurada
uma reorganização política acompanhada pela redefinição das
identidades sexuais e vários Estados-nações foram claros nessa
distinção, como a Grécia, resistindo à ocidentalização e aos
costumes estrangeiros; o Iran, a Argélia, o Afeganistão,
demonstrando a violência do conflito, sugerindo, no campo do
espaço público, o fechamento das mulheres. Nesses casos, a
laicidade oferece um pouco mais de liberdade, não estando,
entretanto, isenta da diferenciação dos sexos.
Quanto às guerras, longe de
contribuir para a igualdade dos sexos, reforçam uma definição
estrita de seu papel e assimilam a confusão à decadência.
Algumas delas foram ditas perdidas pelo efeminamento dos homens
(1870) ou pela masculinização das mulheres (1914). Quando
algumas mulheres, durante as guerras, tiveram que tomar postos
“masculinos”, retornaram aos lares logo que a guerra acabou, não
sendo, assim, causa de progresso no feminismo.
Os burgueses construíram a
utilidade feminina sobre a utilidade social. Sendo a
dona-de-casa a Rainha do Lar; a aparência é quem comanda
gerando, nos dias atuais, a anorexia, pela necessidade de
emagrecer. Por outro lado, a classe operária construiu sua
identidade sobre a virilidade, a valorização da produção
material e ocultação do trabalho doméstico de reprodução que
nada vale na teoria marxista de valores. Seus símbolos são o
ferro, o fogo, o metal da ordem, o sangue do sacrifício. É tão
comum que as categorias socialmente dominadas reafirmem sua
identidade pela virilidade ou submissão das mulheres, que se
tornou um traço do populismo.
O medo da indiferenciação sexual
que é o centro das crises identitárias masculinas, está sempre
tentando dar respostas ao combate feminino de tentar sair da
situação de dominação, pois marcar a diferença é uma forma de
poder. A definição clássica de gênero separado de sexo é moldada
pela cultura e reafirma a força da hierarquia do masculino e do
feminino como fundamento irredutível do pensamento e da
organização do mundo.
Para fechar o tópico Identidade,
Perrot questiona: “Como as próprias
mulheres e as feministas situaram-se em relação à definição que
lhes impunham ?”
(P.399), e prossegue explicando que as
que saíam do padrão exigido de mulher tinham, freqüentemente,
que suportar os comentários duvidosos sobre sua feminilidade.
Como por exemplo, a autora George Sand que, em suas próprias
hesitações, aceitava o sexo negando a diferença, reivindicando a
liberdade da escolha individual mas recusando e contestando a
consciência de gênero.
A noção de “consciência de
gênero” exprimia, segundo Eleni Varikas, o sentimento de uma
similaridade de condição e de destino expresso por um “nós as
mulheres” que pode tanto indicar um feminismo igualitário, como
a fixação das mulheres na aceitação de sua irredutível
diferença. Essa noção se articula, correntemente, com a idéia de
uma superioridade das mulheres como gerentes da família, a cura
para os problemas da sociedade e do estado, e até mesmo, como a
salvação do mundo.
Os feminismos oscilam, desta
maneira, do extremo “masculinidade” ao extremo “feminilidade”,
que por sua vez, oscila, também, entre maternidade, celibato,
virgindade, homossexualidade.
Enfim, a questão da identidade,
cruza com as da igualdade e da diferença quando a reivindicação
de cidadania se apóia sobre o direito das mulheres de serem
representadas enquanto tais, em nome de sua especificidade, onde
a consciência de gênero pode desembocar na análise de
desigualdade.
Num terceiro e último momento, a
historiadora nos diz que, ao olhar dos antropólogos, a diferença
dos sexos é o princípio organizador da sociedade, citando as
obras de Claude Lévi-Strauss e de Françoise Héritier como
fundamentais. Para Héritier, é inconcebível uma sociedade sem as
diferenças de sexos, e para Lévi-Strauss essa diferença é uma
estrutura cognitiva que gera os sistemas simbólicos e as
categorias da linguagem, por isso alguns feministas falam em
desconstrução da linguagem.
Teoricamente esta diferença não
implica desigualdade, porém, praticamente, muitos afirmam que
sim, porque as pesquisas mostram a dominação masculina em grande
âmbito. Isso propõe quatro domínios para serem analisados :
1 – Os tempos, os argumentos
e as representações de desigualdade, onde Deus, a Natureza e
a Sociedade são a Trindade da diferença dos sexos, e as
teorias passam desde a biologia e utilidade social até, em
nossos dias, o discurso da ‘igualdade das diferenças’,
fazendo surgir uma nova educação com a finalidade de
produzir mulheres mais esclarecidas e companheiras
inteligentes, um cuidado em uma nova forma de casamento que
culmina no amor fusional. A modernidade do casal está numa
complementaridade sexual fortemente identitária.
2 – As práticas organizadoras
da desigualdade. Funções importantíssimas do direito,
fazendo com que as mulheres lutem por leis, mas invoquem a
evolução das mentalidades, para que caiam por terra a
divisão sexual do trabalho, da educação, da prostituição.
3 – Levantamento
bibliográfico tentando identificar quais foram as atitudes,
individuais ou coletivas, tanto dos homens quanto das
mulheres, diante das desigualdades enfrentadas e que
traçaram seus caminhos. Coletivamente, o feminismo, em sua
pluralidade, foi um agente ativo nas lutas pela
desigualdade, como podem confirmar as jovens historiadoras
Michèle Riot-Sarcey, Laurence Klejman, Florence Rochefort,
Christine Bard, Françoise Picq e Sylvie Chaperon que
constataram a vastidão de documentos que comprovam que o
feminismo francês tem força, mas que resta, ainda, definir
conceitos, como por exemplo, se a paridade está em nome da
eqüidade individual ou da diferenças dos sexos.
4 – Como último domínio para
análise temos os deslocamentos fronteiriços da desigualdade,
as decomposições e recomposições das partilhas entre os dois
sexos em todos os setores de emprego, de criação ou do
quotidiano; a resistência masculina e a acomodação da
indiferença feminina. A questão, aí, é: em que se baseia o
freqüente consentimento da diferença?
Considerando, sempre, as
conjunturas de diferenciação acentuadas, diga-se, as guerras, as
crises, ou no caso do Brasil, os movimentos de guerrilhas, entre
outros; e momentos individuais fortes, como a adolescência, o
reconhecimento da identidade influenciado pela cultura, etc. é
necessário perguntarmos quais foram os momentos, os lugares, os
meios de consciência da diferença na dialética do Gênero.
Assim sendo, o feminismo oscila
entre os pólos da diferenciação e da indiferenciação
ultrapassando o tempo e o espaço. Atingindo divergências como a
forte afirmação da diferença nos anos 70, o feminismo lésbico,
homossexual em geral, com Pysch e Po e Antoniette Fouque; ou o
feminismo culturalista dos anos 80, representado pela criação
literária com Hélène Cixous, Monica Wittig, e pesquisa analítica
e psicanalista, com Luce Irigaray corrente, hodiernamente,
enfraquecida em França, mas latente nos Estados Unidos.
Finalmente, a autora invoca a
Indiferenciação que, segundo Élisabeth Badinter, pode ser mais
difícil de ser vivida em sua própria indecisão, temida pelo lado
macho do poder. De onde surge outra questão a ser discutida:
Para os indivíduos, a afirmação da diferença e, então, da
identidade é uma arma necessária. Mas seria um objetivo?
Tais interrogações e teorias
sobre o quadro atual do feminismo são importantíssimas para as
mulheres do mundo inteiro, com suas diferenças culturais, mas
com problemas que muito similares. É necessário tratarmos com
seriedade o problema da Identidade, Igualdade e Diferença somada
a todos os suportes históricos que levam a uma reflexão mais
concisa da questão feminista em suas diversas facetas.
Não podemos construir uma
identidade do nada, sem influências, sem história, sabemos que
somos seres influenciados e constituídos pelo meio, pelo
contexto e somente à partir desse reconhecimento é que somos
capazes de chegar a uma avaliação madura do que significa
identidade na construção do indivíduo, na construção do
masculino e do feminino, do gênero e do sexo.
A partir dessa avaliação,
conseguiremos de dentro pra fora, da “evolução das mentalidades”
para a “evolução da sociedade”, abraçarmos, com consciência e
realismo, a luta pela causa das mulheres. Para, não somente
quebrar os silêncios, mas saber fazer o barulho ansiado. É
preciso balbuciar para que possamos, numa progressão, proferir
palavras corretas, com sentido adequado!
Bibliografia
PERROT, Michelle.
« Identité, égalité, différence – le regard de l’histoire »,
in : Les femmes ou les silences de l’histoire, Paris,
Flammarion, 1998, p. 393-405.