A produção de dossiês para a história da educação:
algumas proposições
Introdução.
O presente artigo é fruto das conversas que
mantivemos com professores e gestores da rede municipal de
ensino do município de Blumenau durante o primeiro semestre
de 2007, sobre as possibilidades de se produzir um material
crítico a respeito da história das unidades de ensino
mantidas pelo poder público municipal (Centros de Educação
Infantil, Escolas Reunidas e Escolas Básicas). O convite
para estas conversas nos foi feito pela coordenação do
Centro de Memória da Educação, órgão ligado ao Centro
Municipal de Estudos Pedagógicos, que há alguns anos vem
reunindo e arquivando os mais variados documentos que
registram aspectos da história das diversas unidades de
ensino existentes no município e das políticas públicas
aplicadas à educação. Este mesmo Centro de Memória vem
desenvolvendo um projeto de estimular os sujeitos envolvidos
em cada unidade escolar a desenvolver registros sobre a
história destas unidades, daí a razão de refletirmos e
discutirmos sobre a constituição de documentos e dos
possíveis registros historiográficos.
Por se tratarem de educadores das mais
variadas formações, e não necessariamente licenciados ou
bacharéis em História, entendeu-se necessário debater alguns
conceitos básicos para que se pudesse discutir o amplo
significado de se produzir discursos historiográficos. Assim
sendo, o presente artigo pretende registrar este debate a
fim de que possamos pensar não apenas a importância do
registro historiográfico a respeito de cada unidade de
ensino, mas também, e principalmente, a constituição de
Dossiês que servirão à reflexão histórica sobre as políticas
e os caminhos da educação em Blumenau, bem como estratégia
de democratização dos processos pedagógicos.
“Quem construiu a Tebas de 7 portas?”
“Quem construiu a Tebas de 7 portas?”, é a
pergunta com a qual o dramaturgo alemão Bertold Brecht
inicia o seu poema “Perguntas de um trabalhador que lê”. Na
pergunta está implícita a ironia. Afinal, se nos livros
“estão os nomes de reis / arrastaram eles os blocos de
pedras?” – prossegue o poeta, já nos indicando a resposta:
não, não foram os reis a arrastar os blocos de pedra, não
foram eles aqueles que sozinhos construíram a “Tebas de 7
portas”. Não somos inocentes, sabemos quem são os
construtores, e a questão, colocada desta forma, pode nos
parecer infantil. Sabemos que a História que se escreve não
é a mesma que se deu; e que se foi escrita, foi escrita por
alguém que viveu seus interesses de indivíduo, de sujeito
social e inserido em seu contexto histórico. Sabemos disso;
no entanto, quando nos vemos instigados a refletir e fazer
registros sobre o nosso presente, elencamos também nossos
construtores de Tebas, definimos quem são os sujeitos que
estão devidamente autorizados para falar sobre determinado
assunto.
Quando convidados para conversarmos a
respeito das possibilidades de se produzir registros
históricos sobre as unidades de ensino em Blumenau, fomos
inteirados de alguns materiais já produzidos em anos
anteriores. A coordenação do Centro de Memória nos mostrou
alguns volumes organizados por profissionais de algumas
escolas municipais que continham fotos e registros textuais
a respeito da história daquelas unidades de ensino.
Chamou-nos a atenção o fato de que o enfoque se dava
essencialmente sobre a figura do Diretor da escola, ou seja,
tal qual perguntava o dramaturgo em seu poema, ocorreu-nos
também perguntar quem construiu e constrói o cotidiano de
uma escola, quem são seus sujeitos e quais os papéis que
ocupam na constituição de sua história? A esta pergunta,
soma-se outra, também fundamental: o que constitui
efetivamente a história de uma unidade de ensino que se
deseja compreender? E outra: que “fontes” reunir e consultar
para compreendermos esta história?
Importante aqui estabelecermos a diferença
entre aquele que faz a história e aquele que a escreve,
sendo que ambos não necessariamente se excluem. Quando
falamos da história de uma unidade escolar devemos
compreender primeiramente quem são seus sujeitos, de forma
que a pessoa (ou as pessoas) que se propuserem a organizar e
escrever a história de uma instituição deverão partir da
identificação destes sujeitos. Se consideramos que o espaço
ocupado por uma determinada escola vai muito além do que
aquele definido por seus muros físicos, devemos levar em
conta também que os sujeitos implicados na constante
construção deste espaço serão encontrados dentro e fora
deste muros. Assim, diferentemente daquele material que nos
foi apresentado no Centro de Memória, não são os diretores
os detentores exclusivos da memória histórica da unidade
escolar, tampouco somente seus professores, alunos e
servidores técnicos, mas também a comunidade que se
constituiu ao redor dos seus muros, as famílias dos
estudantes e os gestores das políticas de educação que
direta ou indiretamente influenciaram as práticas de ensino.
O grande problema que se coloca para a pessoa ou o grupo que
pensará a organização do registro histórico está justamente
na seleção dos sujeitos históricos que serão ouvidos. Ou
seja, que pessoas consultar? Quem será convidado a falar
sobre o passado e sobre as ações presentes? As mesmas
perguntas servem para a seleção dos “documentos” já
produzidos: quais “documentos” considerar e como olhar para
eles? – aspecto este que abordaremos mais adiante.
A questão torna-se ainda mais complexa quando
compreendemos que o espaço escolar se constitui nas relações
de poder, e que o poder deve ser entendido enquanto conjunto
de forças horizontais e não algo vertical pensado e imposto
por poucos e aceito por muitos.
Considerando então esta premissa, podemos dizer que todos os
sujeitos envolvidos na escola, sem exceção, deveriam ser
ouvidos; o que tornaria o trabalho praticamente impossível
de se realizar. Então, há de se arrolar as fontes, há de se
criar critérios para selecioná-las; trabalho este político e
sempre parcial, da mesma forma como a História em seu
sentido mais amplo, sempre política, sempre parcial. No
entanto, o caráter parcial do trabalho de seleção e
arrolamento dessas fontes pode se dar de uma forma
autoritária ou democrática. Autoritária se o trabalho for
entendido apenas enquanto necessidade burocrática, centrado
a partir do diretor da escola e desenvolvido por um grupo
muito pequeno de pessoas; democrática se entendido enquanto
necessidade da própria comunidade escolar como ferramenta de
compreensão da realidade e pressão sobre as políticas de
ensino aplicadas por e sobre a escola.
Por acreditarmos na importância de se
conhecer e refletir criticamente a respeito dos processos
históricos, defendemos aqui que todo o projeto de história
da escola, incluindo aí a escolha das fontes a serem
consultadas, bem como a organização dos registros e sua
apresentação à comunidade, deve acontecer da forma mais
democrática possível. Se somos todos sujeitos históricos, é
importante que sejamos todos também sujeitos na reflexão da
nossa história. Por isso, a necessidade de se redigir
projetos de história das unidades escolares não pode ser
encarada pelos sujeitos que vivenciam estas instituições
apenas como necessidade burocrática imposta pelo poder
público, mas deve ser, também, integralmente vivenciada por
estes sujeitos, encarada como necessidade e patrimônio seu,
e como possibilidade de intervenção e transformação do
cotidiano.
O que desejamos propor, a partir destas
reflexões, é que cada unidade de ensino constitua um
conselho representativo de todos os setores da comunidade
implicada com a escola, com o objetivo de recolher,
organizar e processar as fontes que se constituirão como
registros da história desta unidade. Antes de pretendermos
escrever a história de uma escola, há de se compor este
conselho e de compreender que esta história a ser escrita
não será estática, que nunca estará pronta. Não só porque o
processo histórico continuará após a apresentação desta
escrita da história, mas principalmente porque esta escrita
estará comprometida com os interesses do momento histórico
em que foi produzida, interesses estes que provavelmente
também serão outros em outros momentos. Para sermos mais
claros, o que estamos propondo neste artigo é a constituição
de dossiês que reúnam documentos que interessem
àqueles que desejarem construir relatos a respeito da
história de uma unidade de ensino. Que estes dossiês sejam
construídos periodicamente por meio de um conselho
democrático que defina os critérios de seleção das fontes.
E, ainda, que estes dossiês sejam pensados como algo plural,
reunindo as múltiplas vozes dos sujeitos implicados no
cotidiano escolar, e que estejam disponibilizados para todos
em local público.
Demerval Saviani, em seu artigo “Breves
considerações sobre fontes para a história”, alerta-nos
para a importância de se implementar uma política de fontes
em nosso país. A construção de dossiês que reúnam fotos,
registros pedagógicos, memórias, e toda sorte de documentos
que possam contribuir para a interpretação da história das
escolas pode estar incluída nesta “política de fontes”.
O documento monumento
O trabalho de construir dossiês que possam
dizer a respeito da história de uma escola, que possam
servir como testemunhos de contextos, é também um trabalho
que sofre as influências do momento histórico em que foram
produzidos. Compreender este princípio básico significa
compreender que jamais atingiremos uma história total,
nossos testemunhos serão sempre parciais. O mesmo pode ser
dito a respeito da memória, expressão empregada na maioria
das vezes sem o devido cuidado.
Quando colhemos relatos orais ou testemunhos
escritos, tendemos a chamá-los de “memória”. Porém, tais
testemunhos e relatos são sempre seletivos, seja porque a
testemunha foi direcionada a falar ou escrever sobre o que
perguntamos ou pedimos que falasse, seja porque
conscientemente relata apenas aquilo que deseja tornar
público ou que considera importante. Assim, se por memória
chamamos as lembranças que afloram espontaneamente, e por
história o processo de seleção, organização e reflexão a
respeito de um determinado momento, os depoimentos colhidos
junto àqueles que “viveram” determinadas situações serão
encarados também como história, e os documentos que estas
pessoas produziram (cartas, diários, entrevistas orais,
fotografias etc.) devem ser encarados como monumentos.
Segundo Jacques Le Goff (1996, p.545), todo
documento “é um produto da sociedade que o fabricou segundo
às relações de forças que aí detinham o poder”. Ou seja,
diferentemente daquilo que propõem alguns setores mais
tradicionais da história, o documento apresenta apenas
aquilo que podemos chamar de “uma verdade jurídica”. Não
apresenta a verdade dos fatos, jamais poderemos reconstituir
os fatos tais quais se deram no passado, mas podemos
construí-los juridicamente à luz do presente, tal qual um
advogado que reúne as provas que procurarão construir a
“verdade” a respeito de um acusado. Ainda segundo Jacques Le
Goff (id., p.535), “o que sobrevive não é o conjunto daquilo
que existiu no passado, mas uma escolha efetuada quer pelas
forças que operam no desenvolvimento temporal do mundo e da
humanidade, quer pelos que se dedicam à ciência do passado e
do tempo que passa, os historiadores”. O monumento é a
imagem que uma sociedade impõe sobre si mesma. Ao se
produzir e/ou reunir os documentos em um dossiê, como aqui
propomos, há de se percebê-los enquanto monumentos que nos
remetem a um passado, mas constituídos dentro de um
presente, e que expressam a verdade da sua produção.
Armando Martins de Barros (1992, p. 78)
escreve que “só se registra o que tem importância para um
presente. Só guardamos o que nos é importante.” Assim,
cabe-nos a pergunta: o que guardar para a posteridade, o que
reunir em um dossiê? E a resposta está condicionada ao que
se propõe a própria história das instituições escolares em
seu sentido mais amplo. Neste sentido Flávia Obino Corrêa
Werle (2004, p. 15) aponta para o fato de que “a história
das instituições escolares é uma tentativa de reformular uma
representação da instituição no que se refere a atitudes e
condutas que foram constantemente sendo elaboradas e
rearticuladas por meio de seus membros – indivíduos e grupos
– diante de estímulos e pressões externos, e quanto ao seu
grau de integração e formas de funcionamento”. Considerando
então esta reflexão, podemos dizer que interessa à história
de uma escola não apenas os seus registros burocráticos ou a
sua cronologia oficial, mas principalmente as impressões
pessoais dos sujeitos envolvidos com a instituição e dos
conflitos daí decorrentes. Muito além das atas, fotografias
e toda sorte de documentos que registram as atividades
ordinárias de uma instituição de ensino, há de se estimular
seus sujeitos para que registrem periodicamente, e de forma
absolutamente pessoal, suas impressões a respeito do
cotidiano escolar, suas angústias, suas dificuldades, seus
prazeres, a fim de que na reunião, comparação e análise
destes relatos seja possível o afloramento das tensões, das
diferenças que constituem, efetivamente, o processo
histórico. Que estes registros sejam integralmente incluídos
nos dossiês a serem organizados, sem edições, bem como
incluídas devem ser as possíveis entrevistas a serem
realizadas com membros da comunidade na qual a escola se
insere, com ex-alunos, funcionários e professores da escola
e com familiares destes sujeitos. Quanto mais amplo e
democrático forem estes dossiês, maiores as probabilidades
de apresentarem elementos que servirão às futuras
necessidades da historiografia escolar.
Como forma de viabilizar todo este trabalho,
sugerimos que a escola inclua em seu Projeto Político
Pedagógico a constituição do Conselho que discutirá e
organizará os dossiês, bem como desenvolva projetos
multidisciplinares integrando seus educadores e alunos na
perspectiva de pensar e realizar as entrevistas de história
oral, de produzir seus relatos pessoais, de coletar imagens
e objetos dispersos que digam respeito a esta história que
se pretende organizar e discutir; enfim, que coletivamente
se assuma o compromisso de produzir, preservar e socializar
os registros monumentais capazes de discutir uma história
viva, porque percebida e discutida por todos.
Conclusão
A história da educação tem uma função social,
que é a de auxiliar nas reflexões sobre as práticas do
presente.
Ao propormos a organização de um escopo
documental, aqui chamado de dossiê, em cada escola,
visualizamos a necessidade de se criar as condições para a
compreensão das particularidades históricas locais e
regionais; ou seja, apesar das políticas educacionais
traçadas por um governo central (seja este nacional,
estadual ou municipal), a criação e organização de registros
nas escolas, por meio dos múltiplos sujeitos envolvidos no
processo educacional, permite a reflexão sobre como estas
políticas foram inseridas nas realidades locais específicas,
que tensões geraram e que respostas provocaram.
Compreendemos assim a história enquanto um processo
necessário para a transformação das relações e da realidade.
A história enquanto ferramenta para a reflexão e para a
contestação.
Referências.
Barros, Armando Martins de. O
tempo da fotografia no espaço da história: poesia, monumento
ou documento? In. Nunes, Clarice. O passado sempre
presente. São Paulo: Cortez, 1992, p. 69-84./
Foucault, Michel. A Arqueologia
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Le
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Miguel, Maria Elizabeth Blanck. Do
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Lombardi, José Claudinei & Nascimento, Maria
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Saviani, Demerval. Breves
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Lombardi, José Claudinei & Nascimento, Maria
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Werle,
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José Claudinei & Nascimento, Maria Isabel Moura.
Fontes, história e historiografia da educação. Campinas
(SP): Autores Associados, 2004, p. 13-35.
por
VIEGAS FERNANDES DA COSTA