por DIOGO VALENÇA DE AZEVEDO COSTA

Doutorando em Sociologia na Universidade Federal de Pernambuco

 

 

Pensamento anti-colonial e educação popular em José Martí

 

Oculto en mi pecho bravo
La pena que me lo hiere:
El hijo de un pueblo esclavo
Vive por él, calla y muere.

 

Yo sé de un pesar profundo
Entre las penas sin nombres:
¡La esclavitud de los hombres
Es la gran pena del mundo!

 

¡Yo quiero, cuando me muera
Sin patria, pero
sin amo,
Tener en mi losa un ramo

De flores, y una bandera!

 

No me pongan en lo oscuro
A morir como un traidor;
Yo soy bueno, y como bueno
Moriré de cara al Sol!

Versos Sencillos, José Martí

 

José Martír (1853-1895)Esta breve comunicação é apresentada em nome do grupo de estudos sobre pensamento socialista latino-americano1, no qual estamos convictos ser de inegável importância o conhecimento íntimo e aprofundado do pensamento político de José Martí na luta contra a dominação imperialista ocidental não só dos povos latino-americanos, mas também africanos e asiáticos. Martí merece um lugar de destaque na história do pensamento socialista latino-americano e mundial, pois o sentido revolucionário de sua vida e de sua obra, como nos dirá Pablo González Casanova (1998: 29), “se desprende de uma posição fundamentalmente antiimperialista”. Será também Pablo González Casanova que nos irá explicar as razões por que Martí, mesmo não sendo socialista ou marxista, pertence à história do socialismo; além de seu fervor nacionalista, a um só tempo libertário e revolucionário, de sua fé inquebrantável pela igualdade racial ou de sua veemente oposição ao colonialismo, por ter sentido a forte necessidade de fundar a luta anti-colonial na classe trabalhadora e na classe média nacionalista, Martí pode ser considerado um...

“[...] brilhante precursor do pensamento socialista latino-americano porque foi um revolucionário que lutou a fundo contra o colonialismo e nos primeiros embates do imperialismo. Como político compreendeu que na situação colonial não era possível a luta reformista, como revolucionário combateu o anarquismo e, ao enfrentar o imperialismo nascente nos Estados Unidos, colocou um problema que o pensamento marxista de sua época ainda não tinha chamado a si, o da “predestinação lógica” dos povos coloniais à libertação do imperialismo, da aparência e da essência dessa luta, de sua oportunidade e caráter, de seu movimento, que ele soube apontar em direção a etapas não vividas” (González Casanova, 1998: 31).

Devido ao caráter profundamente anti-colonial e antiimperialista de sua personalidade, Martí não pode ser considerado apenas um pensador cubano, seus problemas e suas preocupações se irradiam para toda América Latina. Como nos iria lembrar Che Guevara, ao mencionar num de seus discursos o papel de “mentor intelectual” da revolução cubana desempenhado por Martí:

“Martí foi o mentor direto da nossa Revolução, o homem a cuja palavra se recorria sempre para dar a interpretação justa dos fenômenos históricos que estávamos vivendo e o homem cuja palavra e cujo exemplo havia que recordar cada vez que se quisesse dizer ou fazer algo transcendente nesta Pátria... porque José Martí é muito mais que cubano: é americano; pertence a todos os vinte países de nosso continente e sua voz se escuta e se respeita não só aqui em Cuba, mas em toda América” (Che Guevara, 1960).

Fortemente enraizado em solo histórico cubano, latino-americano, o pensamento de Martí apresenta-se como algo vivo, dinâmico, que rompe com os esquemas europeizantes pré-fabricados e os modelos teóricos acabados, tão comuns às versões esquemáticas do marxismo oficial e à ortodoxia stalinista, incapaz de compreender a realidade dos povos latino-americanos e, por isso, de fundar as lutas libertárias nas tradições populares e na diversidade étnica, racial e cultural destes mesmos povos. Foi por essa e outras razões que Florestan Fernandes (1995: 52) se referiu a José Martí como “uma das manifestações mais puras e profundas do pensamento revolucionário latino-americano”. Em tudo isso reside também a originalidade do pensamento educacional de Martí, voltado principalmente para o que chamou de educação popular e o compromisso moral com os pobres da terra, que, pelo vigor de seu talento literário, pôde transformar em expressão poética em seus Versos sencillos: “Con los pobres de la tierra/ Quiero yo mi suerte echar”.

Educação popular, para Martí, significa, sobretudo, a possibilidade de ser livre, de um povo não ser subjugado ou escravizado por outros povos. Sob tal prisma, o pensamento educacional de Martí está profundamente relacionado ao forte sentimento anti-colonial que foi a chama de sua vida e obra política. Expressão viva de seu pensamento, a preocupação com a educação popular o conduz a uma visão integral de Homem, não apartando instrução, como atividade racional do pensamento, e educação, como atividade de edificação moral dos sentimentos. Dirá o Apóstolo2:

Instrução não é o mesmo que educação: aquela se refere ao pensamento, e esta principalmente aos sentimentos. Porém, não há boa educação sem instrução. As qualidades morais sobem de preço quando estão realçadas por qualidades inteligentes” (Martí, 1975).

Educação popular é também uma noção universal para Martí, que o leva a pensar na igualdade entre todos os homens, pobres e ricos, sem distinção. Porém, em Martí, não encontramos a hipocrisia do liberalismo burguês em suas versões mais conservadoras e reacionárias; nele, a exigência de igualdade se faz radicalmente para todos os homens, pobres e ricos, negros, índios e brancos etc. Daí sua rica definição de educação popular:

Educação popular não quer dizer exclusivamente educação da classe pobre; porém, que todas as classes da nação, que é o mesmo que o povo, sejam bem educadas. Assim como não há nenhuma razão para que o rico se eduque, e o pobre não, que razão há para que se eduque o pobre, e o rico não? Todos são iguais” (Martí, 1975).

Algo que não pode ser descurado no pensamento educacional de José Martí está vinculado à sua íntima convicção de qual seria o caminho desejável de transformação para a América Latina. A solução para a verdadeira e autêntica integração nacional e continental dos povos latino-americanos deveria se pautar numa perspectiva radicalmente libertária, igualitária e humanitária, profundamente distinta da solução mercantilista e capitalista avançada pela América do Norte, pelos Estados Unidos. Como nos dirá Florestan Fernandes:

“[...] os seus painéis sobre os Estados Unidos, ou a sua ininterrupta reflexão sobre o que é a outra América, que nasceu de uma fusão de raças e de culturas e que exige uma revolução igualitária para não se reproduzir como um prolongamento das contradições da Europa feudal e capitalista, como, segundo ele, ocorreu na América do Norte. [...] o perímetro de seu pensamento revolucionário excluía o que se deu como história nos Estados Unidos (a associação da riqueza às formas mais egoístas e odiosas de dominação racial e de luta de classes) e incluía como premissa teórica a mais completa igualdade econômica, racial e social de todos os homens. Tratava-se de um equacionamento precursor do nacionalismo democrático, igualitário e libertário que floresceria muito mais tarde através das ‘projeções sociais do Exército Rebelde’, em Cuba, ou da revolução social na Nicarágua” (Fernandes, 1995: 55).

Educação como formação da verdadeira humanidade, não como mercadoria ou como meio de obter riquezas, essa a concepção de Martí:

“O que sabe mais, vale mais. Saber é ter. A moeda se funde, e o saber não. Os bônus, o papel-moeda, valem mais, ou nada: o saber sempre vale o mesmo, e sempre muito. Um rico necessita de suas moedas para viver, e podem ser perdidas, já não tendo meios de vida. Um homem instruído vive de sua ciência, e como a carrega em si, não a perde, e sua existência é fácil e segura” (Martí, 1975).

Disso resulta, igualmente, o compromisso social da educação para Martí (1975), que irá expressar da seguinte forma: “Ao vir à terra, todo homem tem direito a que se o eduque, e depois, em troca, o dever de contribuir à educação dos demais”. Por outro lado, em Martí a educação estará sempre fortemente associada à idéia de felicidade e liberdade dos povos, exigindo-se do pensamento que ele se desenvolva no fazer-se, na atividade, na transcorrer da própria vida e no amor ao trabalho que dignifica o homem, quando este é capaz de conduzi-lo livremente. Aqui podemos lembrar mais uma vez as palavras de Ernesto Che Guevara, que enfatizou essa rica faceta do pensamento martiniano, expressa em seus laços estreitos com a ação: “Pode-se honrar a Martí citando suas frases, frases bonitas, frases perfeitas, e ademais, e sobretudo, frases justas. Porém pode-se e deve-se honrar a Martí na forma que ele queria que se fizesse, quando dizia a pleno pulmão: «A melhor maneira de dizer, é fazer»” (Che Guevara, 1960). Assim expressará o Apóstolo esse sentimento de felicidade e de amor ao trabalho que se encontra oculto em seu pensamento educacional:

“O povo mais feliz é o que melhor tenha educado a seus filhos, na instrução do pensamento, e na direção dos sentimentos. Um povo instruído ama o trabalho e sabe tirar proveito dele. Um povo vitorioso viverá mais feliz e mais rico que outro cheio de vícios, e se defenderá melhor de todo ataque” (Martí, 1975)

Por fim, retornaremos ao que consideramos ser o elemento crucial do pensamento educacional de José Martí, o forte sentimento libertário e anti-colonial de que está imbuído. Para Martí, o único modo de um povo livrar-se da escravidão é educando seus filhos, para que eles lutem por seus direitos até a última gota de sangue, fazendo com que não alimentem sentimentos mesquinhos e egoístas e dediquem suas vidas a não se deixarem oprimir e a não deixarem que outros povos, outras pátrias sejam oprimidas – a versão martiniana da autodeterminação dos povos, cuja ressonância nos lembra o pensamento de outro grande revolucionário, situado num contexto histórico completamente distinto, o marxista russo e líder bolchevique, Lênin. Esse foi um dos legados mais profundos que nos deixou Martí, não só para nós, latino-americanos, mas para os povos africanos e asiáticos que lutam por sua completa independência. Fazemos também nossas as palavras finais de Martí em seu pequeno, porém rico, texto sobre a educação popular:

A um povo ignorante se pode enganar com a superstição e torná-lo servil. Um povo instruído será sempre forte e livre. Um homem ignorante está em caminho de ser um animal escravizado, e um homem instruído na ciência e na consciência, já está em caminho de ser Deus. Não há que duvidar entre um povo de Deuses e um povo de animais escravizados. O melhor modo de defender nossos direitos é conhecê-los bem; assim se tem fé e força: toda nação será infeliz enquanto não eduque a seus filhos. Um povo de homens educados será sempre um povo de homens livres. – A educação é o único meio de salvar-se da escravidão. Tão repugnante é um povo que é escravo de homens de outro povo, como escravo de homens de si mesmo” (Martí, 1975).

 

Bibliografia

CHE GUEVARA, Ernesto. (1960), Discurso en la conmemoración del natalicio de José Martí. (www.filosofia.cu/che/chet4b.htm#01).

FERNANDES, Florestan. (1995) A contestação necessária: retratos intelectuais de inconformistas e revolucionários, São Paulo, Ática.

GONZÁLEZ CASANOVA, Pablo. (1998), Os pioneiros do marxismo na América Latina. In: América Latina: história, idéias e revolução, São Paulo, Xamã.

MARTÍ, José. (1975), Educación popular. (www.filosofia.cu/marti/mt19375.htm).


 

por DIOGO VALENÇA DE AZEVEDO COSTA

 

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1 Este texto foi preparado e lido durante a realização da Semana José Martí em 2004, evento organizado pela Cátedra José Martí do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco. O grupo de estudos sobre pensamento socialista latino-americano era constituído por alunos de alguns dos cursos do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE, uma tentativa efêmera dos estudantes de trazer para o debate universitário temas que estão ausentes nos currículos acadêmicos.

2 Como Apóstolo ou herói da lutas de Independência é conhecido José Martí entre os cubanos.

 

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