por
DIOGO
VALENÇA DE AZEVEDO COSTA
Doutorando
em Sociologia na Universidade
Federal de Pernambuco |
|
Pensamento anti-colonial e educação popular em José Martí
Oculto en mi
pecho bravo
La pena que me lo hiere:
El hijo de un pueblo esclavo
Vive por él, calla y muere.
Yo sé de un
pesar profundo
Entre las penas sin nombres:
¡La esclavitud de los hombres
Es la gran pena del mundo!
¡Yo
quiero, cuando me muera
Sin patria, pero sin amo,
Tener en mi losa un ramo
De flores, y una bandera!
No me pongan
en lo oscuro
A morir como un traidor;
Yo soy bueno, y como bueno
Moriré de cara al Sol!
Versos
Sencillos, José Martí
Esta
breve comunicação é apresentada em nome do grupo de estudos sobre
pensamento socialista latino-americano,
no qual estamos convictos ser de inegável importância o conhecimento
íntimo e aprofundado do pensamento político de José Martí na luta
contra a dominação imperialista ocidental não só dos povos
latino-americanos, mas também africanos e asiáticos. Martí merece um
lugar de destaque na história do pensamento socialista
latino-americano e mundial, pois o sentido revolucionário de sua
vida e de sua obra, como nos dirá Pablo González Casanova (1998:
29), “se desprende de uma posição fundamentalmente
antiimperialista”. Será também Pablo González Casanova que nos irá
explicar as razões por que Martí, mesmo não sendo socialista ou
marxista, pertence à história do socialismo; além de seu fervor
nacionalista, a um só tempo libertário e revolucionário, de sua fé
inquebrantável pela igualdade racial ou de sua veemente oposição ao
colonialismo, por ter sentido a forte necessidade de fundar a luta
anti-colonial na classe trabalhadora e na classe média nacionalista,
Martí pode ser considerado um...
“[...] brilhante precursor do pensamento
socialista latino-americano porque foi um revolucionário que
lutou a fundo contra o colonialismo e nos primeiros embates do
imperialismo. Como político compreendeu que na situação colonial
não era possível a luta reformista, como revolucionário combateu
o anarquismo e, ao enfrentar o imperialismo nascente nos Estados
Unidos, colocou um problema que o pensamento marxista de sua
época ainda não tinha chamado a si, o da “predestinação lógica”
dos povos coloniais à libertação do imperialismo, da aparência e
da essência dessa luta, de sua oportunidade e caráter, de seu
movimento, que ele soube apontar em direção a etapas não
vividas” (González Casanova, 1998: 31).
Devido ao caráter profundamente anti-colonial e
antiimperialista de sua personalidade, Martí não pode ser
considerado apenas um pensador cubano, seus problemas e suas
preocupações se irradiam para toda América Latina. Como nos iria
lembrar Che Guevara, ao mencionar num de seus discursos o papel de
“mentor intelectual” da revolução cubana desempenhado por Martí:
“Martí foi o mentor direto da nossa Revolução, o
homem a cuja palavra se recorria sempre para dar a interpretação
justa dos fenômenos históricos que estávamos vivendo e o homem
cuja palavra e cujo exemplo havia que recordar cada vez que se
quisesse dizer ou fazer algo transcendente nesta Pátria...
porque José Martí é muito mais que cubano: é americano; pertence
a todos os vinte países de nosso continente e sua voz se escuta
e se respeita não só aqui em Cuba, mas em toda América” (Che
Guevara, 1960).
Fortemente enraizado em solo histórico cubano,
latino-americano, o pensamento de Martí apresenta-se como algo vivo,
dinâmico, que rompe com os esquemas europeizantes pré-fabricados e
os modelos teóricos acabados, tão comuns às versões esquemáticas do
marxismo oficial e à ortodoxia stalinista, incapaz de compreender a
realidade dos povos latino-americanos e, por isso, de fundar as
lutas libertárias nas tradições populares e na diversidade étnica,
racial e cultural destes mesmos povos. Foi por essa e outras razões
que Florestan Fernandes (1995: 52) se referiu a José Martí como “uma
das manifestações mais puras e profundas do pensamento
revolucionário latino-americano”. Em tudo isso reside também a
originalidade do pensamento educacional de Martí, voltado
principalmente para o que chamou de educação popular e o compromisso
moral com os pobres da terra, que, pelo vigor de seu talento
literário, pôde transformar em expressão poética em seus Versos
sencillos: “Con los pobres de la tierra/ Quiero yo mi suerte
echar”.
Educação popular, para Martí, significa, sobretudo, a
possibilidade de ser livre, de um povo não ser subjugado ou
escravizado por outros povos. Sob tal prisma, o pensamento
educacional de Martí está profundamente relacionado ao forte
sentimento anti-colonial que foi a chama de sua vida e obra
política. Expressão viva de seu pensamento, a preocupação com a
educação popular o conduz a uma visão integral de Homem, não
apartando instrução, como atividade racional do pensamento, e
educação, como atividade de edificação moral dos sentimentos.
Dirá o Apóstolo:
“Instrução
não é o mesmo que educação: aquela se refere ao pensamento, e
esta principalmente aos sentimentos. Porém, não há boa educação
sem instrução. As qualidades morais sobem de preço quando estão
realçadas por qualidades inteligentes”
(Martí, 1975).
Educação popular é também uma noção universal para
Martí, que o leva a pensar na igualdade entre todos os homens,
pobres e ricos, sem distinção. Porém, em Martí, não encontramos a
hipocrisia do liberalismo burguês em suas versões mais conservadoras
e reacionárias; nele, a exigência de igualdade se faz radicalmente
para todos os homens, pobres e ricos, negros, índios e brancos etc.
Daí sua rica definição de
educação popular:
“Educação
popular não quer dizer exclusivamente educação da classe pobre;
porém, que todas as classes da nação, que é o mesmo que o povo,
sejam bem educadas. Assim como não há nenhuma razão para que o
rico se eduque, e o pobre não, que razão há para que se eduque o
pobre, e o rico não? Todos são iguais”
(Martí, 1975).
Algo que não pode ser descurado no pensamento
educacional de José Martí está vinculado à sua íntima convicção de
qual seria o caminho desejável de transformação para a América
Latina. A solução para a verdadeira e autêntica integração nacional
e continental dos povos latino-americanos deveria se pautar numa
perspectiva radicalmente libertária, igualitária e humanitária,
profundamente distinta da solução mercantilista e capitalista
avançada pela América do Norte, pelos Estados Unidos. Como nos dirá
Florestan Fernandes:
“[...] os seus painéis sobre os Estados Unidos,
ou a sua ininterrupta reflexão sobre o que é a outra América,
que nasceu de uma fusão de raças e de culturas e que exige uma
revolução igualitária para não se reproduzir como um
prolongamento das contradições da Europa feudal e capitalista,
como, segundo ele, ocorreu na América do Norte. [...] o
perímetro de seu pensamento revolucionário excluía o que se deu
como história nos Estados Unidos (a associação da riqueza
às formas mais egoístas e odiosas de dominação racial e de luta
de classes) e incluía como premissa teórica a mais
completa igualdade econômica, racial e social de todos os
homens. Tratava-se de um equacionamento precursor do
nacionalismo democrático, igualitário e libertário que
floresceria muito mais tarde através das ‘projeções sociais do
Exército Rebelde’, em Cuba, ou da revolução social na Nicarágua”
(Fernandes, 1995: 55).
Educação como formação da verdadeira humanidade, não
como mercadoria ou como meio de obter riquezas, essa a concepção de
Martí:
“O que sabe mais, vale mais. Saber é ter. A moeda
se funde, e o saber não. Os bônus, o papel-moeda, valem mais, ou
nada: o saber sempre vale o mesmo, e sempre muito. Um rico
necessita de suas moedas para viver, e podem ser perdidas, já
não tendo meios de vida. Um homem instruído vive de sua ciência,
e como a carrega em si, não a perde, e sua existência é fácil e
segura” (Martí, 1975).
Disso resulta, igualmente, o compromisso social da
educação para Martí (1975), que irá expressar da seguinte forma: “Ao
vir à terra, todo homem tem direito a que se o eduque, e depois, em
troca, o dever de contribuir à educação dos demais”. Por outro lado,
em Martí a educação estará sempre fortemente associada à idéia de
felicidade e liberdade dos povos, exigindo-se do pensamento que ele
se desenvolva no fazer-se, na atividade, na
transcorrer da própria vida e no amor ao trabalho que dignifica o
homem, quando este é capaz de conduzi-lo livremente. Aqui podemos
lembrar mais uma vez as palavras de Ernesto Che Guevara, que
enfatizou essa rica faceta do pensamento martiniano, expressa em
seus laços estreitos com a ação: “Pode-se
honrar a Martí citando suas frases, frases bonitas, frases
perfeitas, e ademais, e sobretudo, frases justas. Porém
pode-se e deve-se honrar a Martí na forma que ele queria que se
fizesse, quando dizia a pleno pulmão: «A
melhor maneira de dizer, é fazer»” (Che
Guevara, 1960). Assim expressará o Apóstolo esse sentimento
de felicidade e de amor ao trabalho que se encontra oculto em seu
pensamento educacional:
“O povo mais feliz é o que melhor tenha educado a
seus filhos, na instrução do pensamento, e na direção dos
sentimentos. Um povo instruído ama o trabalho e sabe tirar
proveito dele. Um povo vitorioso viverá mais feliz e mais rico
que outro cheio de vícios, e se defenderá melhor de todo ataque”
(Martí, 1975)
Por fim, retornaremos ao que consideramos ser o
elemento crucial do pensamento educacional de José Martí, o forte
sentimento libertário e anti-colonial de que está imbuído. Para
Martí, o único modo de um povo livrar-se da escravidão é educando
seus filhos, para que eles lutem por seus direitos até a última gota
de sangue, fazendo com que não alimentem sentimentos mesquinhos e
egoístas e dediquem suas vidas a não se deixarem oprimir e a não
deixarem que outros povos, outras pátrias sejam oprimidas – a versão
martiniana da autodeterminação dos povos, cuja ressonância nos
lembra o pensamento de outro grande revolucionário, situado num
contexto histórico completamente distinto, o marxista russo e líder
bolchevique, Lênin. Esse foi um dos legados mais profundos que nos
deixou Martí, não só para nós, latino-americanos, mas para os povos
africanos e asiáticos que lutam por sua completa independência.
Fazemos também nossas as palavras finais de Martí em seu pequeno,
porém rico, texto sobre a educação popular:
“A
um povo ignorante se pode enganar com a superstição e torná-lo
servil. Um povo instruído será sempre forte e livre. Um homem
ignorante está em caminho de ser um animal escravizado, e um
homem instruído na ciência e na consciência, já está em caminho
de ser Deus. Não há que duvidar entre um povo de Deuses e um
povo de animais escravizados. O melhor modo de defender nossos
direitos é conhecê-los bem; assim se tem fé e força: toda nação
será infeliz enquanto não eduque a seus filhos. Um povo de
homens educados será sempre um povo de homens livres. – A
educação é o único meio de salvar-se da escravidão. Tão
repugnante é um povo que é escravo de homens de outro povo, como
escravo de homens de si mesmo”
(Martí, 1975).
Bibliografia
CHE GUEVARA, Ernesto. (1960), Discurso en
la conmemoración del natalicio de José Martí. (www.filosofia.cu/che/chet4b.htm#01).
FERNANDES, Florestan.
(1995) A contestação necessária: retratos intelectuais de
inconformistas e revolucionários, São Paulo, Ática.
GONZÁLEZ CASANOVA, Pablo.
(1998), Os pioneiros do marxismo na América Latina.
In: América Latina: história, idéias e revolução, São Paulo,
Xamã.
MARTÍ, José. (1975), Educación popular. (www.filosofia.cu/marti/mt19375.htm).
por
DIOGO
VALENÇA DE AZEVEDO COSTA
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