Fernando ou o fio das missangas
As
circunstâncias da vida fizeram com que eu me visse sozinho,
no início de 2004, depois de anos e anos. Morando num
modesto, desorganizado e pouco limpo apartamento alugado, e
passando dos 50 anos, vira e mexe constato que a tendência a
fazer balanços dos caminhos que já trilhei se acentua. Digo
isso porque na maioria dos textos que escrevo procuro me
situar perante o que vivo ou vivi. Bem, vivendo sozinho,
tenho mais tempo para pensar em algumas coisas e menos para
realizar outras. Evidentemente, isso não representa vantagem
alguma, apenas estou sendo obrigado a me rearranjar, a me
reterritorializar. Se não fizer isso, desapareço; viro pó. É
verdade que tenho dúvidas se as trilhas que sigo me conduzem
a algum lugar. Às vezes me sinto cansado, meio desnorteado.
Gosto muito de um pequeno trecho da prosa poética de Lúcio
Cardoso, contido em seus Poemas inéditos: "Não há
vivido, há esgotado. Não vivi, esgotei-me". Penso,
eventualmente, que Fernando não soube viver. Durante tempos
e tempos foi esgotando-se, trabalhando e trabalhando,
escrevendo, dando aulas, palestras, pesquisando, orientando.
Fernando começou jovenzinho a dar aulas na Escola de
Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio
Vargas (EAESP-FGV), constituiu família, viajou, voltou ,
viveu. Não que não somos felizes quando trabalhamos; apenas
vamos, em geral, nos desiludindo, seguindo um caminho que
nem sempre traz a tranqüilidade, a felicidade. Imagino que
algo nesse sentido também tenha acontecido com Fernando: nem
sempre alguns amigos são tão amigos; os gestos que
considerávamos "gratuitos" têm um preço excessivo; o
cancelamento da edição de um texto à última hora, sem
qualquer explicação razoável, após ter sido assegurada a sua
publicação; o envelhecimento e a dificuldade em enfrentá-lo
etc. Já escrevi, antes, a respeito de Fernando e de suas
reflexões. Escrevi acompanhado de Maria Ester de Freitas, de
Carlos Osmar Bertero, de Cleide Rita Silvério de Almeida, de
Gustavo Luis Gutierrez, de José Henrique de Faria, de Lúcia
Emília Nuevo Barreto Bruno, de Doris Accioly e Silva, de
Liliana Segnini.
Convivi com Fernando na EAESP-FGV quando era estudante
(1971-75) e, depois, docente (1976-80), bem como na
Faculdade de Educação da USP, onde fomos colegas, cerca de
12 anos, no Departamento de Administração Escolar e Economia
da Educação, principalmente nas disciplinas de pós-graduação
que ministrávamos na linha de pesquisa "Cultura, Organização
e Educação". Prefiro, neste momento, falar do Fernando
"colega da USP". Professor há tempos na EAESP-FGV (desde
1967), em outubro de 1979 ingressou na FEUSP no Regime de
Turno Completo (RTC) - meio período -, lecionando
disciplinas na graduação e na pós-graduação. Tornou-se, por
concurso, professor - associado em 1985, após elaborar sua
tese de livre-docência; em 1991, igualmente por concurso de
provas e títulos, ficou professor-titular. Na FEUSP
trabalhou até sua aposentadoria precoce, após quase 18 anos
de atividades entre nós, em 1997.
Em 1979, quando já estava vindo para FEUSP,
saiu seu livro Empresário e hegemonia política
(Brasiliense, 1979); logo depois publicou, em co-autoria com
Luiz Carlos Bresser Pereira, Introdução à Organização
burocrática (Brasiliense, 1980). Nesta obra escrevem que
a organização burocrática é o sistema social predominante
nas sociedades modernas, constituindo-se em estratégia de
administração e de dominação. Relembrando Max Weber,
dominação (burocrática) é uma forma de poder. Sua tese de
doutorado saiu em livro - Burocracia e autogestão: a
proposta de Proudhon (Brasiliense, 1981) -, sendo que no
ano de 1982 publicou Participação e co-gestão: novas
formas de administração (Brasiliense, 1982). Varrendo a
bibliografia existente até então, neste último livro
Fernando analisa a participação dos trabalhadores na gestão
empresarial na forma de co-gestão. Sua conclusão não era
animadora, pois entendia tratar-se de uma forma de dominação
a que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chamaria de
"violência simbólica", ou seja, uma dominação sutil e
persuasiva. José Henrique Faria escreve que a finalidade
dessa forma de dominação "é domesticar a ação dos
trabalhadores, na medida em que não há garantias de que os
pactos sociais estabelecidos entre estes e os capitalistas
venham a ser cumpridos. Embora alerte que no interior dos
sindicatos existe uma luta de classes, Motta observa que
também aí existe uma tendência de criação de um grupo
burocrático dirigente que opera as mediações entre o
trabalho e o capital. Assim, a co-gestão seria uma tentativa
de conciliar o inconciliável, o que remete à retomada da
concepção segundo a qual a alternativa para a dominação
seriam os movimentos caracterizados por uma
contra-institucionalização (...) Motta vai analisar o poder
como forma de dominação de uma burocracia - uma heterogestão
- , ou seja, como uma prática que separa artificialmente
dirigentes de dirigidos. O poder é, assim, um processo de
exclusão dos dirigidos dos mecanismo decisórios, ainda que
sua inclusão não venha a significar sua liberdade, mas
apenas um acordo civilizado, cujos termos não são garantias
de permanência".
Fernando defendeu sua livre-docência em 1985
e, a partir dela, editou dois livros, ambos de 1986, pela
Editora Atlas: Organização e poder: empresa, Estado e
escola e Teoria das organizações: evolução e crítica.
Com relação ao primeiro livro, o mais complexo deles,
reproduzo o que Lúcia, Doris e eu escrevemos a respeito em
Educação e Pesquisa: "Nessa obra, o autor amplia e
aprofunda sua análise acerca das organizações complexas,
mostrando a interconexão entre dominação e exploração no
mundo contemporâneo, recorrendo aos clássicos da sociologia
das organizações e a autores heterodoxos libertários, até
hoje pouco citados no meio acadêmico. Apresenta uma
consciência epistemológica radicalmente crítica e se
posiciona com clareza, desmistificando a pretensa
neutralidade metodológica e axiológica das teorias da
administração".
Fernando publicou 12 livros, muitos dos quais
conheceram várias reedições - por exemplo, Teoria geral
da administração: uma introdução, publicado
originalmente pela Editora Pioneira em 1974, teve 22 edições
com algumas alterações; a 23a, lançada em 2002,
foi completamente reescrita, ampliada e atualizada com a
colaboração de Isabella F.G. de Vasconcellos. Freqüentou,
com artigos, as páginas da Revista de Administração de
Empresas (RAE), editada pela EAESP-FGV, em mais de três
dezenas de ocasiões, sem contar as várias resenhas de livros
e os comentários produzidos. Além disso, escreveu vários
capítulos de livro em coletâneas e antologias. Merecem
destaques os seguintes: o capítulo em Participação e
participações: ensaios sobre autogestão (Babel Cultural,
1987); a organização, juntamente com Miguel P. Caldas, de
Cultura organizacional e cultura brasileira (Atlas,
1997); o capítulo intitulado Cultura organizacional e
cultura nacional, em E. Davel e J. Vasconcelos (Orgs.)
Recursos humanos e subjetividade (Vozes, 1997); a
coletânea Vida psíquica e organização (Editora FGV,
2000), organizada com Maria Ester de Freitas; o artigo, em
co-autoria com R. Bresler e R. Alcadipani (Cultura
brasileira, estrangeirismo e segregação nas organizações),
na coletânea Gestão com pessoas e subjetividade
(Atlas, 2001), organizada por E. Davel e S. C. Vergara.
Há exatos vinte anos nosso querido Fernando
divulgou nas páginas da Revista da Faculdade de Educação
da USP - 10 (2), 199-206, julho-dezembro, 1984 - artigo
intitulado Administração e participação: reflexões para a
educação.
Em nosso entender (Catani, Silva, Bruno, 2003), o artigo "…
antecipa muitas das posições do autor em sua busca por
desvendar os mecanismos de dominação e exploração [vigentes
em determinada sociedade], incluindo o campo da educação,
sem perder de vista as práticas que a eles se contrapõem,
tendo grande repercussão na época. Sua atualidade se deve à
lucidez de um estudioso atento aos dilaceramentos da
sociedade em que vivemos, para os quais buscava, nas teorias
e práticas libertárias, o antídoto". Acredito que o texto
ainda conserva o vigor da novidade e faz refletir acerca de
uma série de questões até hoje não superadas. A reflexão de
Fernando inicia-se com a afirmação que administrar, "do
ponto de vista meramente descritivo" é "planejar, organizar,
coordenar, comandar e controlar (...) Entretanto, nem sempre
se atenta para o fato de que, se administrar é planejar,
organizar, coordenar, comandar e controlar, ser administrado
significa ser planejado, organizado, comandado e controlado.
Também não se atenta para o fato de que é uma minoria quem
administra, enquanto a maioria absoluta da população é
administrada" (p. 89). Explora um significado político da
administração que é com freqüência negligenciado: "do ponto
de vista político, administrar significa exercer um poder
delegado" (p. 89). A partir de Economía y Sociedad
explora a dimensão do poder, a opressão e os aspectos
coercitivos vigentes nas organizações. A participação
autêntica - "e não de mobilidades de manipulação camufladas
sob este rótulo" (p. 91) - seria uma das formas de minimizar
tais aspectos coercitivos. Participar, segundo ele, "não
implica necessariamente que todas as pessoas ou grupo opinem
sobre todas as matérias, mas implica necessariamente algum
mecanismo de influência sobre o poder (…) Para participar é
necessário algum conhecimento e certas habilidades
políticas. Isto varia conforme a amplitude da participação e
a natureza das matérias em que se participa" (p. 91). A
educação participativa favorece a aquisição de habilidades
de valor para a participação na administração, que poderá
ocorrer na idade adulta. Após realizar breve histórico dos
movimentos participacionistas, analisa as categorias de
co-gestão e de autogestão, ressaltando que a primeira "é uma
forma avançada de participação administrativa que implica
co-decisão em determinadas matérias e direito de consulta em
outras" (p. 92). Autogestão, por sua vez, "não é
participação. Por autogestão se entende um sistema no qual a
coletividade se auto-administra. Portanto, não se trata de
participar de um poder, mas de ter um poder" (p. 92).
Estudando o caso particular das escolas,
Fernando vai distinguir autogestão pedagógica de autogestão
institucional: "enquanto a primeira se refere à dinâmica de
trabalho pedagógico, a segunda se refere à administração do
estabelecimento de ensino" (p. 92). Conclui o artigo
mencionando que, no âmbito da escola, "a participação
constitui tema de estudantes, professores, administradores,
supervisores, orientadores e demais funcionários. Aos
administradores educacionais cabe especialmente o desafio
não pequeno de descobrir e delinear formatos organizacionais
que, adequados a contextos específicos, asseguram a educação
participativa voltada para a construção de uma sociedade
verdadeiramente igualitária, não apenas em termos
econômicos, mas em termos de distribuição do poder" (p. 94).
Na Faculdade de Educação da USP, concluíram
suas dissertações de mestrado e teses de doutorado, sob a
orientação de Fernando, sete alunos. As duas dissertações
foram as seguintes: Educação popular e burocracia:
antagonismos existentes (Robinson Janes) e Propaganda
política: fator de massificação e legitimação sociais: visão
tradicional e novas abordagens (Luis Carlos Toledo).
Orientou também cinco teses de doutorado, a saber:
Relações de poder na escola pública do Ensino Fundamental:
uma radiografia à luz de Weber e Bourdieu (Magali de
Castro); O brasão e o logotipo: um estudo das novas
universidades na cidade de São Paulo (Cleide Rita
Silvério de Almeida); Cultura, poder e legitimação na
organização escolar: um estudo de caso (Lucília Bechara
Sanches); Da ideologia do desenvolvimento à ideologia da
globalização: a educação como estratégia do Banco Mundial
para "alívio" da pobreza (Roberto Leher) e Identidade
e autonomia da escola pública: o projeto das escolas-padrão
(Sérgio Fiker).
Fernando já estava mais magro, devido à
doença que o consumia há pouco mais de dois meses, quando
nos encontramos na manhã de 26 de março de 2003. Fui
convidado para integrar a banca examinadora da dissertação
de mestrado de Han Na Kin (Restrições impostas pela
cultura brasileira: as dificuldades enfrentadas pelas
empresas estrangeiras no processo de entrada no mercado
brasileiro), na EAESP-FGV, juntamente com Ricardo Rocha
Brito Bresler. Acredito que tenha sido o último trabalho
acadêmico orientado por Fernando. Após a defesa almoçamos
juntos, apenas nós dois. Fernando sorria bastante, estava
otimista, pois se internaria no final da tarde ou início da
noite. Comemos muito e conversamos por mais de duas horas,
sendo interrompidos de quando em quando, no restaurante da
Escola, no quarto andar, por alguém que vinha
cumprimentá-lo. Esta é uma imagem tocante mas, por paradoxal
que possa ser, bem alegre que guardo dele. Nos abraçamos na
saída e ele me pediu que rezasse por ele. As outras duas
situações de "boa onda" são bem anteriores: no início dos
anos 80, quando ele estava animadíssimo com o Sindicato
Solidariedade, na Polônia; e em fins dos 80 ou início dos
90, em ocasião das mais mundanas: em um bar que não existe
mais, bebemos além da conta e contamos piadas e falamos mal
de vários dos nossos colegas acadêmicos.
Sinto falta do riso forte, alto e longo de
Fernando; ele teve a péssima idéia, realmente de muito mau
gosto, de nos deixar por aqui, sem a sua agradável
companhia. Em livro que escrevi com Renato de Sousa Porto
Gilioli, intitulado Administração escolar: a trajetória
da Anpae na década de 1960 (Rio de Janeiro, DP&A, 2004),
envolvendo a atual a Associação Nacional de Política e
Administração da Educação, fiz duas dedicatórias. A primeira
foi para José Augusto Dias, "sócio-fundador da ANPAE,
estimado colega, verdadeiro professor". A outra,
parafraseando o poeta e diplomata Vinicius de Moraes, saiu
da seguinte maneira: "Para Fernando C. Prestes Motta. Amigo
querido, não és um só, és tantos".
Em seu último livro de contos, O fio
das missangas (2004), o moçambicano Mia Couto
escreveu o seguinte: "A missanga, todos a vêem. Ninguém
nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as
missangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de
silêncio costurando o tempo". A ação de Fernando em seu
domínio de estudos foi semelhante àquela desenvolvida
por Mia, qual seja, modesta e pacientemente, teceu as
explicações que foram desvendando os mecanismos de
dominação organizacional nas sociedades de classe
contemporâneas.
por
AFRÂNIO MENDES CATANI