por
CARLOS
EDUARDO CARVALHO
Economista,
Professor da PUC/SP |
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Rússia
1917, Espanha 1937: nascimento e morte de duas esperanças utópicas (II)
O
surpreendente sucesso de Terra e Liberdade
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TERRA
E LIBERDADE (Land and Freedom)
ITÁLIA, ESPANHA, REINO UNIDO E ALEMANHA 1986
DIREÇÃO: Ken Loach
DURAÇÃO 109 minutos
ELENCO: Ian Hart, Rosana Pastor, Icíar Bollaín, Tom Gilroy e
Marc Martinez |
Depois de algumas semanas sem grande destaque nos
cinemas de São Paulo, Terra e Liberdade virou um sucesso,
especialmente entre o público de esquerda. Forte impacto emocional
em alguns, críticas ácidas de outros, artigos e polêmicas,
seminários, debates. O filme é uma bela obra, mas nada de
excepcional. Por que tanto interesse?
A revolução espanhola é a mais completa e a mais
trágica síntese dos movimentos revolucionários socialistas, dos seus
impasses e derrotas, do que tiveram de mais belo e apaixonante. Um
cenário tão propício a identificações emocionais e polêmicas
acirradas é a explicação mais óbvia para o sucesso do filme de Ken
Loach. Mas Terra e Liberdade vai além. Ao mostrar a curta
trajetória de David no drama espanhol, acaba tratando de conflitos
básicos que sempre acompanham as forças de esquerda e os movimentos
populares.
A milícia aparece no filme como uma força militar
muito frágil. Ainda assim, as coisas vão indo mais ou menos bem, até
o enfrentamento com as tropas regulares fascistas, provavelmente em
meados de 1937. Os mesmos problemas já haviam ocorrido com toda a
crueza na batalha de Madri, no final de 1936. Apesar do enorme
heroísmo, as milícias que saíram da Catalunha e do Aragão para
defender a capital, comandadas pelos melhores líderes anarquistas,
haviam mostrado fraco desempenho militar e foi pelo setor por elas
defendido que as tropas fascistas quase invadiram a cidade.
Como é possível que David e seus companheiros não
falem da batalha de Madri? Não é só isto: a ordem de desarmar as
mulheres das milícias é acatada sem maiores protestos. Por quê? E
mais: não se sabe quem eram os chefes, quem dava ordens, o que
pretendiam, e os milicianos nem se preocupam em saber.
Os milicianos aparecem como pessoas boas e honestas,
idealistas e abnegadas, com defeitos e fraquezas comuns. A tragédia
que enfim os envolve, contudo, não decorre de suas limitações e
equívocos, nem pode ser barrada por suas qualidades. Vem de fora, de
cima, de ordens ditadas por quem tem poder, vilões poderosos e
anônimos que nem sequer aparecem em cena. São os seus prepostos,
armados e brutais, que vêm submeter os milicianos, eliminar sua
autonomia e restabelecer as regras da ordem antiga. Os milicianos
nada conseguem fazer diante da prisão arbitrária e bárbara dos seus
líderes, após uma batalha cruel em que haviam enfrentado bravamente
os fascistas.
Inverossímil demais? Provavelmente não. Nos trágicos
conflitos de maio de 1937 em Barcelona (quando David decide voltar
para a milícia), anarquistas e poumistas estavam divididos, isolados
e enfraquecidos a ponto de não conseguirem reagir à proibição de
funcionamento legal de suas organizações, à detenção de seus líderes
e à execução de alguns deles. O espantoso é que nas milícias e nas
ruas de Barcelona lutavam os mesmos homens e mulheres que haviam
enfrentado a feroz repressão do capital e da direita por décadas a
fio e que haviam derrotado o golpe fascista menos de um ano antes,
em grande parte da Espanha, sem armas nem disciplina.
Meses antes da tragédia, a libertação de uma pequena
aldeia pelos milicianos dá lugar a um acalorado debate sobre a
coletivização das terras. A maioria dos milicianos e dos camponeses
viam a luta contra os fascistas como um passo para a revolução
social, um passo indispensável, mas apenas um passo. Querem a
propriedade coletiva, o socialismo. O "camponês rico" contesta a
coletivização generalizada. Seus argumentos se orientam por uma
ótica local, quer defender sua propriedade argumentando que seria o
melhor caminho para aumentar a produção agrícola da aldeia.
A "ampliação" do debate é feita pelos "de fora",
milicianos mais intelectualizados, estrangeiros e espanhóis. O
debate era decisivo nos impasses políticos da época. Para comunistas
e parte dos socialistas, a guerra antifascista era o único objetivo
a ser perseguido, ao qual se deveriam submeter todas as demais
questões. Ao olhar de hoje parece simples: uns queriam radicalizar,
outros queriam ampliar. Como sempre, porém, era tudo bem mais
complexo.
O programa eleitoral amplo da Frente Popular definido
em 1935 provocara crescente radicalização política. O triunfo nas
urnas, em fevereiro de 1936, fez com que a Espanha entrasse de fato
numa situação revolucionária. A radicalização apressou o levante
militar da direita, é verdade, mas ele já estava em preparação havia
bastante tempo e iria ocorrer de qualquer forma. Foi a radicalização
que cindiu as forças democráticas de centro e evitou a direitização
generalizada nos meses anteriores ao levante.
A brutal radicalização dos trabalhadores e do povo em
resposta ao golpe impediu a vitória imediata dos fascistas. Além de
salvar Madri e Barcelona, criou as bases para se organizar a luta
contra o levante. A excepcional vitória contra o fascismo alcançada
pelo povo espanhol em julho de 1936 desencadeou uma onda de simpatia
e apoio internacional nunca vista. Formaram-se comitês de apoio em
inúmeros países, milhares de voluntários partiram para a Espanha.
A radicalização dos acontecimentos em meados de 1936
dificultou a reação de Londres e Washington contra a revolução
espanhola. Além do crescente sentimento antifascista em seus
próprios países, apoiar os golpistas abriria espaço para uma forte
presença da Alemanha nazista no sul da Europa e no Mediterrâneo. EUA
e Inglaterra nada fizeram para derrotar Franco, mas não puderam
intervir contra a revolução e não deram carta branca a Berlim para
esmagar a República e a revolução.
O cenário externo era favorável. Apesar da grave
derrota sofrida na Alemanha, a esquerda vivia o melhor momento desde
a "onda vermelha" que se seguiu à Primeira Guerra Mundial. O nazismo
não se consolidara plenamente e ainda agia com certa cautela. Na
maior parte dos países industrializados estavam muito vivas as duras
conseqüências da depressão e os trabalhadores continuavam
profundamente insatisfeitos, mesmo nos EUA e na Inglaterra. O amplo
sentimento contra os capitalistas e contra o fascismo reforçava a
luta na Espanha e era por ela reforçado.
A revolução espanhola desmonta fortemente as visões
simplistas sobre as relações entre ampliação e radicalização das
lutas populares. No drama espanhol, para "ampliar", no sentido que
hoje se conhece, seria preciso deter a revolução, o que estreitaria
gravemente a base mesma do movimento democrático, o impulso
revolucionário das grandes massas radicalizadas. Foi o que ocorreu:
a revolução definhou e a República sobreviveu mais dois anos, só que
nunca voltou a reunir forças materiais e políticas para de fato
ameaçar o inexorável e progressivo avanço da coalizão nacional e
internacional que sustentava os golpistas.
Para ampliar o movimento revolucionário e levá-lo à
vitória, porém, seria preciso um gigantesco trabalho de articulação
política e de organização militar e material, algo que os
trabalhadores em nenhum momento mostraram capacidade de fazer.
Diante deste imenso desafio, as forças políticas de esquerda
fracassaram. Não foi um grupo de dirigentes "traidores" que
fracassou, mas sim a grande massa de trabalhadores. A tragédia
reside aí. A vitória conquistada de forma tão dura esvaiu-se pelos
dedos. Poucos meses depois, os milicianos nem conseguiam reagir
diante da tropa armada que vem prender seus líderes, a mando de
forças políticas que, ao menos em tese, faziam parte de seu próprio
campo.
Tamanha carga emocional e tamanha complexidade
histórica dificultam a análise mais cuidadosa de Terra e
Liberdade como filme, como obra de arte. Alguns críticos
atribuem-lhe um caráter parcial ou tendencioso na abordagem de
acontecimentos excepcionalmente complexos e um viés anticomunista ou
anti-stalinista que o tornaria pouco confiável. São acusações
injustas.
O filme é pobre e descuidado em situar os
acontecimentos em seu contexto histórico, tão complexo e difícil.
Mesmo pessoas com razoável grau de informação não conseguem entender
bem o que de fato está se passando, quem está atacando quem. As
legendas no início são insuficientes. Além de muito curtas, a carga
emocional do filme faz com que meia hora depois ninguém se lembre
mais do que leu no começo.
O filme é a história do inglês David na Espanha
revolucionária, a experiência concreta e o ponto-de-vista de um
indivíduo específico. A parcialidade é inevitável. O tempo é cortado
pela chegada e partida de David, provavelmente setembro de 1936 e
maio de 1937, o período que Enzensberger chamou de curto verão da
anarquia. Só aparecem Barcelona e a parte do Aragão em que está a
milícia, locais decisivos para a revolução, mas áreas de hegemonia
anarquista, ao contrário de outras regiões da Espanha. E a percepção
cultural de David é de um estrangeiro que não fala a língua e pouco
conhece da história e da realidade da esquerda espanhola e do país.
A narrativa individual torna o filme mais atraente e
"humano", mais concreto, mas a exposição do drama histórico fica
prejudicada. Teria sido um truque para facilitar a exposição das
idéias de quem fez o filme, alguém que certamente possui uma visão
dos fatos bem mais ampla do que David tinha na época, inclusive por
estar olhando os fatos décadas depois? Não necessariamente uma
deslealdade, talvez apenas uma manifestação da inevitável apreensão
diferenciada e parcial da realidade por qualquer observador a
qualquer tempo.
A "parcialidade" e as omissões de Terra e
Liberdade, contudo, não parecem favorecer nenhuma das forças que
se digladiam na análise do drama espanhol. O filme não mostra a
grandiosa resposta popular ao levante fascista em Barcelona, por
exemplo, o que exagera a imagem de fragilidade militar das milícias.
O desempenho dos anarquistas na defesa de Madri também é omitido.
Não se toca na onda revolucionária nas cidades e no campo, antes e
depois do levante, ponto decisivo na argumentação do POUM contra as
teses stalinistas que negavam a existência de uma revolução
socialista em curso na Espanha. O debate entre os camponeses sobre a
coletivização é mostrado de forma honesta e ampla, da mesma maneira
que a conduta antipopular e criminosa do padre. A luta de rua na
aldeia e o conflito armado dentro da esquerda em Barcelona aparecem
em toda a sua crueza e brutalidade.
O filme é explicitamente anti-stalinista, sem dúvida.
Contudo, os argumentos dos comunistas para defender sua política
aparecem de forma honesta, no debate a respeito da coletivização na
aldeia. A tese de que os líderes anarquistas e poumistas eram
"agentes da reação e do fascismo" está escrita nos documentos
stalinistas da época, da mesma forma que o esforço para negar a
existência de uma revolução na Espanha. A conduta repressiva e
brutal quando dissolveram as milícias é confirmada pela maioria dos
historiadores. Não há mais dúvidas de que dirigentes do POUM foram
detidos ilegalmente pelos comunistas e assassinados na prisão que a
polícia soviética mantinha em território espanhol, sem qualquer
prova de que tenha havido participação de outras forças políticas
republicanas na decisão de executá-los.
Tudo isto posto, a pergunta volta: por que tanta
comoção e tanta irritação entre as pessoas de esquerda que vêem o
filme hoje, sessenta anos depois? É que a revolução espanhola
permanece como referência permanente para o imaginário e a reflexão
de todos nós, muitas vezes com a paixão de quem ainda é parte do
drama.
O impacto de Terra e Liberdade é tão forte
porque fala de questões muito vivas, fala da ausência de democracia
e das difíceis relações entre militantes e dirigentes, do
interminável e permanente conflito entre radicalização e ampliação
das lutas e dos movimentos, sejam eles quais forem. Não é preciso
comentar a enorme atualidade de todas estas questões para a esquerda
brasileira.
David e seus companheiros emocionam e fazem chorar
muitos de nós porque são eles as pessoas com quem nos identificamos,
apesar de todos os problemas e apesar de todas as simplificações, ou
talvez por isto mesmo. É como eles que nos sentimos hoje. Triste e
trágico. A identificação com os milicianos de Terra e Liberdade
rediscute nossa própria trajetória, questiona nossa própria
identidade e tudo o que vivemos como esquerda brasileira.
por
CARLOS
EDUARDO CARVALHO
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