Algo de novo no front?
A campanha eleitoral para presidente nos
Estados Unidos está pegando fogo. Em termos.
A cada dia temos notícias do que os
candidatos estão fazendo, dizendo, propondo, e de vez em
quando temos o “prazer” de acompanhar seus debates. Este
ano, há algumas novidades.
A mais interessante, em termos de estilo e
técnica, é o uso de vídeos enviados através de youtube para
os debates. Os democratas usaram este recurso, e esta semana
passada também os republicanos se utilizaram dele. Durante o
debate, a CNN mostrava os vídeos com as perguntas, e os
candidatos respondiam. A vantagem, para o ponto de vista
do/a eleitor/a, é que cada um pode preparar a sua pergunta
com antecedência, e inclusive “ilustrar” a pergunta com
música, fantasias, e outros recursos. Mas, no fim das
contas, tanto no debate dos candidatos democratas como dos
republicanos, as pessoas ainda não têm certeza de qual
candidato escolher.
Isto me traz à memória histórias de outras
eleições, em um outro planeta, chamado Brasil. Não tinha
youtube. Não tinha internet. Não tinha nem telefone! Os
políticos subiam no palanque, e se “esgoelavam” por horas,
fazendo promessas, fazendo críticas dos outros candidatos, e
gastando o verbo e suas economias, literalmente. Qualquer
brasileiro ou brasileira da minha idade tem histórias de
campanhas políticas antes de elas serem a província de
companhias de propaganda, de indústrias de comerciais.
Uma vez, em Marialva, não me lembro em que
ano, fui com minha família a um comício do candidato a
prefeito. Como todas as crianças da época, eu gostava muito
destes eventos, porque sempre tinha alguém distribuindo
doces, ou lápis, ou cadernos, ou balões. Na nossa inocência,
já íamos sendo formados como potenciais eleitores, e muitos
pais eram influenciados pela alegria dos filhos pelos
presentinhos recebidos deste ou daquele candidato. Mas,
naquele comício em Marialva, feito no fim da avenida que
passa diante da igreja Nossa Senhora de Fátima, o presente
maior para a garotada foi o tombo de várias pessoas que
tinham subido no caminhão em que estava o candidato naquela
noite, trovejando pelo microfone. Nada nos divertiu mais
naquela noite que ver muitos adultos, todos se levantando do
chão, sujos de poeira. Felizmente ninguém se machucou. Mas
todos rimos por dias com o fiasco.
E também se ouvia muito a história de um
candidato que dava um pé de botina ao eleitor, e dizia que
daria o outro pé se ganhasse a eleição. Não sei se isto foi
verdade, mas sempre se contava esta história. O que mais
havia, também em Maringá, eram os cabos eleitorais levando
os eleitores em seus carros até o lugar da votação. Para a
população que não tinha carro, dia de eleição, além de ser
um dia de cumprir o dever cívico, era também um dia de
participar do conforto de outros. Como criança não vota, eu
não deveria ter aproveitado as caronas, mas como estava com
meus irmãos e irmãs mais velhos, todos eleitores, eu também
me divertia passeando de carro pela cidade. E quem não faria
a mesma coisa?
Mas enfim chega o dia em que a eleição passa
a ser coisa mais séria, e temos que escolher um candidato,
pesar as opções, pensar no que significa votar. Verdade?
Para mim, e muitos da minha geração, esta era uma verdade
relativa, já que não pudemos votar para presidente durante
vinte anos, e sabíamos que muitos dos candidatos já vinham
pré-eleitos para os cargos de governador e senador. Além do
mais, no meu caso, desde minha primeira vez como eleitora,
fui chamada para trabalhar na mesa da minha secção. Isto
significava, como todos sabemos, um dia inteiro de trabalho.
Quando se é jovem, tudo é festa, e foi muito interessante
trabalhar para a eleição recolhendo os documentos e
assinaturas dos demais eleitores. Lembro-me bem que tudo era
muito organizado, e sempre o/a chefe da minha secção era uma
pessoa competente e cuidadosa com o processo, que nos
orientava aos mais novos na mesa. No fim do dia, saía da
função contente por poder dar a minha contribuição para que
os demais eleitores tivessem uma boa experiência. E era
divertido passar as horas conversando com as pessoas.
Aqui nos Estados Unidos, com toda a
tecnologia que precede a eleição, com todos os milhões de
dólares gastos nas campanhas, no dia da eleição é
surpreendente ver que a maioria de quem cuida das mesas em
geral são umas senhoras bem velhinhas da “Liga das Mulheres
Eleitoras”. A primeira vez que votei aqui fiquei surpresa
com o ambiente de sala de estar, relaxado, da sala de
eleições. Até bem recentemente, os votos eram todos em
papel, então as senhoras coordenadoras das mesas verificavam
os documentos de identidade, distribuíam lápis, batiam papo
com os eleitores, tudo como se fôssemos seus sobrinhos ou
netos. Hoje, com a eleição eletrônica, elas continuam
orientando. Nunca tive nenhuma experiência negativa com a
eleição. De fato, a “Liga das Mulheres Eleitoras”, se
encarrega do processo de maneira perfeita.
O voto, aqui, como todos sabem, não é
obrigatório. Isto pode parecer incompreensível para muitos
nós brasileiros, que podemos (ou podíamos, antes) ser
recusados um emprego se não tivermos comprovante de votação.
Isto é um dos paradoxos da nossa vida política: durante a
ditadura, quem não era eleitor comprovado, podia ser punido.
Todos sabiam que a maioria das eleições, ou pelo menos as
mais importantes, eram de mentirinha. Aqui, porque o voto
não é obrigatório, às vezes um candidato pode ser eleito por
uma diferença de meia dúzia de votos. Nas eleições de George
W. Bush, a diferença foi mínima, por exemplo. Ninguém
pergunta a ninguém se votou ou se vai votar. É questão
pessoal, e nem o seu empregador, nem o seu confessor, tem
nada com isto.
Mas dentro de um ano, um novo presidente terá
sido escolhido. Os dois partidos principais querem que seus
eleitores participem em grandes números. Os candidatos ainda
estão na fase inicial de jogar acusações uns nos outros de
seu próprio partido. As pesquisas de opinião têm flutuado um
pouco, e ainda é possível que haja algumas mudanças antes
dos republicanos e os democratas escolherem seus candidatos
nas eleições primárias. Enquanto isto, nós eleitores temos
que seguir as notícias, assistir alguns debates no youtube,
e esperar que os candidatos falem pelo menos 50% da verdade,
para podermos fazer uma escolha bem informada.
Acho que nós eleitores nos Estados Unidos não
podemos ter esperança de ganhar um pé de botina, ou algum
doce, ou uma carona até o local da votação. Mas podemos ter
esperança de que o próximo presidente aqui será melhor que o
atual. Se bem que, pensando bem, qualquer que seja o próximo
presidente dos Estados Unidos, vai herdar a maior confusão
política, a guerra mais estúpida da sua história, a pior
situação econômica, e a mais baixa estima internacional que
este país já teve. O que o país precisa não é um presidente:
é um milagre! Isto, nem youtube, nem internet, nem
todas as companhias de propaganda, nem todas as botinas
juntas podem fazer.
por
EVA PAULINO BUENO