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por
JOÃO FÁBIO
BERTONHA
Doutor
em História, Professor
do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá/PR
e Pesquisador do CNPq.
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Modelos para o Brasil: Irlanda?
A
Irlanda, nos últimos dez anos, é seguramente um caso de país que
“deu certo”. Depois de uma longa história de pobreza, desemprego e,
em conseqüência, fortíssima emigração (especialmente para a
Inglaterra e os Estados Unidos), o país começou a apresentar, nas
últimas décadas, índices econômicos cada vez melhores. Nos últimos
anos, por fim, estas melhoras se aceleraram e surgiu o chamado
“tigre celta”, com baixos índices de desemprego, elevadas taxas de
crescimento do PIB (9% ao ano entre 1995 e 2001 e 4% entre 2001 e
2005) e, numa reversão de um processo secular, uma crescente
imigração, tanto de retorno de irlandeses como a de outros povos.
Evidentemente, tal crescimento não é isento de
dificuldades, como uma inflação, para os padrões europeus,
relativamente alta; escassez de mão de obra; uma infra-estrutura que
não acompanha as necessidades do crescimento; problemas no mercado
imobiliário, etc. Mas são questões acessórias num processo
impensável décadas atrás, o qual praticamente igualou a renda per
capita da Irlanda com a da sua vizinha Inglaterra (e já a superando,
segundo alguns cálculos), transformou o país num dos maiores centros
mundiais de software e tecnologia, fez a participação da agricultura
no PIB cair a níveis mínimos e melhorou substancialmente os níveis
de vida da população.
Uma busca em sites e publicações de caráter mais
“liberal” encontra uma explicação direta e simples para o sucesso
irlandês: liberalização econômica. O país teria Estado enxuto e
equilibrado, baixa carga tributária, respeito aos contratos, às leis
e à propriedade intelectual e pequena regulação do Estado na
economia. Um país livre e liberal, que estimularia a livre
iniciativa e buscaria agressivamente o capital internacional e que,
portanto, pelo credo liberal, só poderia dar certo. Bastaria
reproduzir isto no Brasil e poderíamos ter um outro tigre.
Numa primeira análise, tal viés de análise tem alguns
pontos que merecem consideração. O estímulo à livre iniciativa e às
atividades produtivas é perfeitamente adequado e a defesa de um
Estado enxuto, da menor carga tributária possível e de regras
claras para investimentos está correta. Também a atração do capital
internacional pode ser fundamental para o desenvolvimento de um país
e é claro que este capital prefere um ambiente político e econômico
estável e livre como o irlandês.
No entanto, torna-se fundamental não reduzir o
“milagre irlandês” a uma pura e simples questão de liberalização
econômica. O Estado irlandês pode ser considerado enxuto pelos
padrões europeus, mas está longe de ser um exemplo de Estado liberal
puro, se é que isto existe. Alguns setores da economia, mesmo que
poucos, continuam sob controle estatal e, se a simples liberalização
econômica e a privatização resolvessem tudo, talvez a Argentina dos
anos 90 é que devesse ter se tornado uma potência econômica, o que
não foi, claro, o caso.
Depois, um elemento central dentro desse processo de
transformação da Irlanda foi a elaboração, já nos anos 70, de um
plano de desenvolvimento para o país, conduzido com o apoio das
lideranças empresariais, mas sob o controle do Estado. Foi
diagnosticada uma situação (um país pobre, agrícola e com baixa
escolaridade), identificada uma “janela de oportunidade” fantástica
que era a entrada na Comunidade Européia em 1973 e elaborado um
plano para aproveitar esta oportunidade e aquilo que a Irlanda
tinha para mudar o pais. As políticas liberalizantes se encaixam
nesse projeto como parte fundamental, mas dentro de um projeto
maior.
Dentro desse projeto, uma decisão estratégica foi a
de investir em educação. Nos anos 1960, o índice de analfabetismo
irlandês beirava os 35%, o que foi alterado pela decisão das
lideranças nacionais – nos anos 70 - de priorizar a educação acima
de tudo, seja quais fossem os resultados eleitorais no futuro. Ano
após ano, década após década, este esforço foi mantido, tornando-se
obrigatória a freqüência escolar e formando um sistema de ensino
gratuito e de boa qualidade, desde a escola primária até a
universidade. O analfabetismo foi eliminado e uma mão-de-obra
qualificada foi preparada. O país, assim, fez um “choque de
competitividade” na sua economia através da educação.
Dessa forma, é claro que as grandes multinacionais,
especialmente dos Estados Unidos, entraram em massa no país por
terem segurança jurídica e garantia de impostos baixos. Mas também o
fizeram pelos laços culturais e populacionais antigos entre os dois
países e pela certeza de contar com uma mão-de-obra capacitada, de
língua inglesa e mais barata do que no resto da Europa.
A própria entrada na Comunidade Européia, é evidente,
foi fundamental para a decolagem da economia irlandesa. Sendo parte
da Europa, eles tiveram acesso a juros mais baixos, a uma estrutura
econômica estável e a fundos europeus de cerca de 40 bilhões de
dólares para reforçar sua infra-estrutura. Além disso, se a Irlanda
não fosse parte da Europa, poucas multinacionais se sentiriam
estimuladas a se estabelecer lá, já que seu mercado interno é
minúsculo.
É verdade, contudo, que apenas os subsídios europeus
não explicam a ascensão irlandesa. Outros países, como a Grécia,
também receberam estes subsídios e não tiveram resultados similares.
Foi a soma do apoio europeu, do investimento na educação e de
políticas macroeconômicas adequadas à realidade irlandesa, dentro de
um plano claro do que se queria atingir no futuro, que explica o
sucesso deste país.
Importante, assim, tirar as lições adequadas da
Irlanda. Uma política econômica que estimule a atividade produtiva e
a livre iniciativa e atraía capitais externos é correta, mas, por si
só, pode gerar uma Argentina, e não uma Irlanda. Um investimento
maciço em educação é algo mais do que fundamental, mas, dissociado
de uma política que estimule e reforce as condições para o
crescimento econômico, geraria apenas graduados sem emprego e
emigração de talentos. Ambos os elementos, pensados dentro de um
plano mais abrangente de desenvolvimento, são fundamentais.
Enfim, o Brasil não pode copiar simplesmente o modelo
irlandês. É um país muito maior e mais populoso, com uma economia
muito mais diversificada. Nem podemos nem precisamos nos tornar uma
economia centrada unicamente na alta tecnologia. Precisamos criar um
setor de alta tecnologia de peso na nossa economia, e com urgência,
mas a agricultura e a indústria mais tradicional também podem e
devem existir. A opção irlandesa foi a de um pequeno país que buscou
o seu nicho na economia global. Pela nossa potencialidade, temos
condições de buscar nichos muito maiores, o que é a nossa grande
vantagem.
Mas alguns pontos da experiência irlandesa podem ser
recordados quando pensamos no Brasil. A necessidade de uma
reengenharia do Estado, de investimentos imensos na educação (junto
com mudanças estruturais que façam o sistema educacional funcionar)
e de um plano nacional de desenvolvimento são os pontos óbvios. Mas
também salta aos olhos, antes de tudo, como uma nação só pode sair
do subdesenvolvimento (ou, ao menos, tentar) se o quiser. A Irlanda
quis, planejou para tanto e deu certo. Será que a sociedade
brasileira realmente o quer?
por
JOÃO FÁBIO
BERTONHA
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