por
JORGE ANTUNES
Doutor em Estética Musical pela
Sorbonne, Université de Paris VIII (1977), Professor Titular do
Departamento de Música da Universidade de Brasília, Pesquisador
do CNPq, Membro efetivo da Academia Brasileira de Música e
Presidente da Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica
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O
pós-modernismo e a atual conjuntura da nova música erudita
brasileira
Pós-moderno
é expressão que está na moda, usada como uma espécie de guarda-chuva
cobrindo um conjunto de atitudes, ações, obras de arte e conceitos
contemporâneos, cujas análises aprofundadas – se elas viessem a ser
desenvolvidas – permitiriam o surgimento de uma profusão de novas
terminologias para estilos, estéticas, pensamentos e ideologias.
Há mais de 30 anos vários teóricos, das mais diversas
áreas, vêm tentando explicar a possível nova era histórica que teria
surgido após o chamado modernismo.
Conceituação multifacetada
A expressão pós-modernidade começou a ser usada e
divulgada a partir de 1979, quando a editora francesa Minuit lançou
o livro La condition postmoderne de Jean-François Lyotard. O
próprio Lyotard afirmava que a expressão já vinha sendo usada nos
Estados Unidos, desde 1971, por sociólogos e críticos literários.
Aqueles que começaram a usar a expressão, o faziam
com a intenção de se referir ao novo período histórico após a era
industrial. A expressão pós-moderno chegou a ser usada como sinônimo
de pós-industrial.
São identificadas, entretanto, três acepções
diferentes para a expressão. Lyotard dava ao termo o sentido de
apogeu da modernidade, salientando que o pós-modernismo fazia parte
do modernismo: "o pós-modernismo, assim entendido, não é o
modernismo se extinguindo, mas em estado de nascimento" (LYOTARD,
1988, p. 23-24).
Uma segunda acepção, que é a mais comum, se refere a
uma espécie de retorno ao tradicional, em sua etapa pré-modernista.
Esse significado, portanto, passa a rejeitar o modernismo, numa
espécie de condenação deste. Artistas tradicionalistas e
conservadores têm usado esse conceito para qualificar a adesão de
ex-vanguardistas como sendo uma espécie de capitulação.
Um terceiro significado que tem sido dado à expressão
é aquele defendido pelo filósofo francês Luc Ferry, aderindo às
proposições de Habermas. O pós-modernismo seria a ultrapassagem, a
superação, do modernismo: uma espécie de "impulso em direção à
auto-superação da razão" (FERRY, 1990, p. 317-318).
A partir do final do século XIX e durante todo o
século XX, a modernidade, para se sustentar como tal, passou a
exigir uma permanente atitude de busca de rupturas, de novidades, de
inovações. Idéias de uma pós-modernidade passam a apontar, a partir
de um determinado momento, para uma espécie de esgotamento das
novidades e, assim, para o fim das transgressões e o fim das
vanguardas.
Fim da história: uma pregação enganosa
A difusão mundial das propostas neoliberais,
acontecida nos anos 80 do século XX, deu lugar a uma ofensiva brutal
da ideologia burguesa-imperialista. Foi quando o norte-americano
Francis Fukuyama, em artigo de 1989, anunciou o "fim da história".
Com artifícios filosófico-históricos, Fukuyama, em
seu livro O fim da história e o último homem, publicado em
1992, tenta elaborar uma linha de abordagem que vai de Platão a
Nietzsche, passando por Kant e Hegel, para revigorar a tese de que o
capitalismo e a democracia burguesa constituem o coroamento da
história da humanidade.
Essa falácia, baseada na hipotética derrocada do
socialismo, passa a inspirar e fortalecer reacionários,
tradicionalistas e conservadores. Estes começam a anunciar o fim da
inovação, dos arrojos estéticos, do escândalo artístico, da
invenção, das revoluções. Enfim, a direita se aproveita para,
botando as manguinhas de fora, alardear o fim das vanguardas.
O italiano Gianni Vattimo repercute a mentira que,
repetida mil vezes, corre o risco de ser considerada verdade: "a
maneira geralmente mais difundida de caracterizar a pós-modernidade
consiste em considerá-la como o fim da história" (VATTIMO, 1991, p.
13).
Assim, pretendia-se ver decretada a moda da volta ao
passado, o gosto pelo ecletismo e a busca de uma comunicabilidade. A
busca da comunicabilidade compreende o desejo de compreensão
imediata, o que pode se constituir em aventura muito arriscada. Ela
leva o compositor às fronteiras da mediocridade, da renúncia à
complexidade, ao simples retorno à tradição.
Vanguarda: relembrando seu significado
Na arte, assim como na política, vivemos nos últimos
tempos um processo de reavaliação da vanguarda. Hoje são colocados
em questão os processos de inovação e ruptura que nos anos 60 e 70
surgiram propondo novos paradigmas para a sociedade.
Em 1981 a Bienal de Veneza usou como lema, para sua
programação musical, a seguinte barbaridade: "Depois da vanguarda".
Os organizadores do evento e seus financiadores, evidentemente,
pretendiam decretar a morte das vanguardas. Isso demonstra que não é
somente brasileira a ignorância com relação ao significado da
palavra vanguarda.
Antonio Risério nos lembra que "a utilização do
sintagma vanguarda, no mundo artístico e cultural, é
derivada. (…) Dicionariamente, o primeiro sentido do vocábulo
vanguarda remete diretamente à esfera da organização militar.
Vanguarda é a linha de frente, a dianteira do exército ou de um
determinado regimento". (RISERIO, 1995)
Gustavo Bernardo é mais esclarecedor ainda:
"Vanguarda supõe iniciativa e coragem, porque a morte é bem próxima.
Retaguarda pressupõe proteção e medo, pela mesma razão." (BERNARDO,
2002).
Enfim, vanguarda se refere à ação ou à atitude que
está à frente, de peito aberto, enfrentando o inimigo que, em artes,
é personificado pelo conservadorismo. Vanguarda é a ação de coragem
e de risco, para a qual o artista pode, sempre, se quiser, se
apresentar como voluntário.
Ao abordar as origens do conceito de vanguarda, em
seu aspecto referente à organização militar, creio ser interessante
relembrar dois ensinamentos encontrados em A arte da guerra,
de Sun Tzu. O primeiro diz: "Seja sábio para perceber que para obter
a vitória, seus planos devem modificar-se de acordo com as situações
do inimigo". Nas lides da criação musical, muitas vezes o
vanguardista terá que revisitar o passado, buscando o renascimento
de alguma maravilhosa retaguarda esquecida.
Outro ensinamento de Sun Tzu diz que "aquele que
conhece o inimigo e a si mesmo, lutará cem batalhas sem perigo de
derrota". O artista que tem sólida formação tradicional, dominando
técnicas, tecnologias, ideologias, linguagens e estéticas do
passado, conhece com profundidade os gostos e os sonhos dos
conservadores. Aquele mesmo artista, com formação e experiência
avançadas, conhecendo-se a si mesmo, também – tal como o guerreiro
de Tzu – lutará cem batalhas de vanguardista sem perigo de derrota.
A situação no Brasil
Como afirmei antes, a expressão vanguarda se
refere à atitude de quem está à frente, de peito aberto, correndo
riscos. Na batalha das artes essa coragem no confronto tem um
inimigo: o conservadorismo.
No final de 2006 eu apresentei nos CCBBs de Brasília
e do Rio de Janeiro uma série de concertos em que fiz a fusão de
música eletroacústica com bumba-meu-boi e outras manifestações de
raiz. Um compositor, meu colega e amigo, me enviou e-mail dizendo
que admirava a minha audácia. Ele disse, em sua mensagem, que já
havia pensado em projeto do mesmo tipo, mas que nunca teve coragem
de realizá-lo. Eis o que entendo ser vanguardista: fazer a arte que
outros artistas gostariam de fazer, mas que não a fazem por não
terem coragem.
Acho que, para um balanço do atual movimento musical
brasileiro na área da composição musical, seria muito oportuno uma
análise, mesmo que superficial, da pertinência do uso da expressão
pós-modernismo.
Uma boa quantidade de compositores brasileiros da
atualidade tem sido considerada como praticante de uma estética
pós-moderna. O ecletismo é uma das características que levam a esta
classificação. Aliás, grande percentagem desses compositores se
auto-proclama eclética e interessada no uso de centros tonais.
Os caminhos trilhados por cada compositor determinam
nuances que, contemporaneamente, nem todos percebem. É difícil
observar o fenômeno quando se está dentro dele. Por essa razão são
sempre os musicólogos do futuro que têm visão abrangente e
detalhista para entender e identificar diferenças, linguagens e
estéticas.
Assim, no Brasil verificamos que muitos compositores
vêm utilizando elementos comuns de linguagem, tais como os centros
tonais, as citações, a mistura de estilos e as técnicas sintáticas e
formais da tradição, mas cada um a seu modo, com linguagens
diferentes.
Ao ouvido leigo ou desavisado, toda a produção
musical desses compositores parece caber em um mesmo nicho
estilístico: todos são ecléticos; todos são pós-modernos.
Mas é preciso, urgentemente, arrumar a casa tentando
aglutinar cada grupo em seu devido nicho. Essa arrumação seria
importante contribuição em favor da educação auditiva e musical do
público e em favor do futuro de nossa música.
Na música brasileira existem antigos neoclássicos que
sempre viram com maus olhos os experimentalistas e os chamados
vanguardistas. Transgressão, para eles, é coisa de subversivo.
Inovação, para eles, não passa de "vontade de aparecer".
Com a onda de pós-modernidade, onde a tradição,
revisitada, se faz presente, muitos desses eternos e inveterados
neoclássicos passam a se dizer pós-modernos. Essa atitude nada mais
revela do que a vontade de se travestir de atualidade e
contemporaneidade. A tese defendida passa a ser: "O velho é, agora,
o novo".
O oportunismo velhaco chega mesmo ao cúmulo da
zombaria e do escárnio. Alguns dos conservadores neoclássicos,
travestidos de pós-modernos, chegam a pensar e afirmar coisas do
tipo: "Eu estive sempre certo em ser tonal ou quase-tonal! Os
experimentalistas e vanguardistas estavam errados e, com essas suas
surpreendentes incursões neotonais, demonstram estar arrependidos
daquelas inúteis experimentações."
Outra questão que deve ser observada nesse fenômeno
do neotonal, é aquela do oportunismo e da hipocrisia que envolve a
relação compositor-intérprete. Solistas, conjuntos e orquestras, que
nunca se interessaram em tocar música contemporânea, passam a
incluir em seus repertórios e concertos as obras pretensamente
pós-modernas de compositores contemporâneos neoclássicos, de
compositores jovens neotonais e de compositores ex-modernos. A
atitude desses solistas, grupos e orquestras deixa subentendido um
recado do tipo: – Está vendo? Agora que esse compositor se
arrependeu de fazer aquelas loucuras; agora que ele, enfim, começa a
fazer música de verdade, passamos a incluí-lo em nosso repertório!
Esse raciocínio velado e essa realidade percebida
pelos compositores, tem levado estes à mediocrização, porque a
desejada comunicação não pode acontecer se a obra não for tocada.
Outro fenômeno que, a meu ver, vem contribuindo para
com a mediocrização da música contemporânea em geral, mais no
exterior que no Brasil, é a religiosidade. Uma espécie de música
pobre se instaura, com um discurso sonoro muito lento, com tendência
ao misticismo e que ganha a adesão de novos compositores
fundamentalistas que buscam e pregam a paz de espírito através da
frouxidão do pensamento, da renúncia à resistência e do conformismo
celestial.
Enfim, em razão desses acidentes de percurso
histórico-estéticos, a música atual em geral, e a brasileira em
particular, não tem escapado de práticas nocivas que incluem: o
Kitsch, os elementos heterogêneos gratuitos, as colchas de retalhos,
as disparidades e as colagens inconseqüentes.
Ser vanguarda no Brasil
O artista de vanguarda brasileiro, quando ele existe,
não é uma pessoa que, como alguns dizem, está à frente do nosso
tempo. A verdade é que a grande maioria do público está atrás de
nosso tempo. O neoliberalismo, o colonialismo e o imperialismo de
que somos vítimas, massacraram e massacram a abertura das mentes em
nosso país. No Brasil o bruxo Golbery do Couto e Silva, artífice das
ditaduras militares, implementou uma lavagem cerebral e uma
anestesia que emburreceram as novas gerações. Esse emburrecimento
alimentou a educação de má qualidade e a estupidificação promovida
pela indústria cultural. Alguns poucos artistas brasileiros
escaparam desse processo e avançaram em ritmo acelerado. Lamento que
a maioria do público de arte, no Brasil, tenha ficado para trás.
Incomunicabilidade
Para aqueles que, como eu, estão interessados em
fazer música em busca da comunicabilidade, sem hermetismos, sem
cabotinismos, sem concessões, sem simplismos, será um bom exercício
estudar os mecanismos que levaram a música de concerto a se afastar
do público, tornando-a exclusiva de pequenos grupos de esnobes
especialistas.
O progressivo distanciamento entre o público e a
música de concerto começou a acontecer em 1925, quando Arnold
Schoenberg escreveu a Suíte para Piano Op. 25. Foi nessa obra que a
técnica dodecafônica foi aplicada inteiramente, pela primeira vez. A
nova linguagem viria trazer, para o progresso musical do Ocidente,
uma grande contribuição para a abertura de novas vertentes
estético-musicais. Essa abertura se intensificaria com os
desdobramentos praticados por Anton Webern.
Mas a técnica dodecafônica e o pensamento serial
continham um perigoso vírus destruidor da comunicação, porque
desafiava as leis naturais. No método estava proibido o uso de
oitavas simultâneas e, além disso, o intervalo harmônico de 5ª justa
era considerado indesejável.
Afirmo que Schoenberg desafiou as leis da natureza,
porque sabemos que os intervalos de oitava justa e de quinta justa,
os dois primeiros da série harmônica, são elementos que estão na
interseção destes dois complexos sistemas: a cultura e a natureza. O
ser humano também habita essa interseção, pois que ele é ao mesmo
tempo natureza e cultura. Logo, o processo da comunicação musical
sempre ficará prejudicado se forem banidos da música os fenômenos
acústicos justos e perfeitos.
O preconceito schoenberguiano com relação àqueles
dois misteriosos e fascinantes intervalos harmônicos fez com que a
técnica dodecafônica ortodoxa permitisse o nascimento de algumas
importantes obras-primas distanciadas do prazer estético humanizado.
A música com a ausência daqueles intervalos harmônicos é totalmente
frágil no que diz respeito ao vigor dos tutti orquestrais.
Aquela música tem, em sua totalidade, o aspecto de massa musical
diáfana, distante, que não toca ou não desperta emoções ligadas à
identificação do homem ouvinte.
Quando em 1950 Olivier Messiaen foi ministrar cursos
em Darmstadt, lá estavam, como alunos, alguns talentos na faixa
etária entre 22 e 26 anos: Boulez, Nono, Stockhausen e outros.
Inspirados nas idéias de Messiaen, a nova geração desenvolveu o
chamado serialismo integral. Estava, assim, decretada a efetiva,
completa e definitiva incomunicabilidade com o público.
Depoimento e auto-avaliação
Como contribuição para eventuais estudos
musicológicos futuros, entendo ser importante que os atuais sujeitos
da história da música brasileira se disponham a auto-avaliações e
depoimentos acerca de suas démarches. Assim, nesses últimos
parágrafos passo a apresentar um pouco das motivações e preocupações
que movem o meu fazer musical de hoje.
Minha história de compositor pode ser resumida num
quadro dividido em cinco fases. A primeira, a de jovem ainda
estudante, se caracterizou pela influência villalobiana e pela
estética urbano-seresteira carioca, em que eu era festejado como bom
melodista. A segunda fase foi aquela em que passei a fazer
experiências eletrônicas pioneiras no Brasil, mesclando a linguagem
eletroacústica com a canção e a melodia. Observe-se que o ecletismo
e o biestilismo já aconteciam ali, em plenos tempos dourados de
1963. A terceira fase acontece na Europa, quando passei a ser
experimentalista radical. A quarta fase vai se iniciar em 1974, com
o ecletismo da obra Catástrofe Ultra-Violeta em que uso a
justaposição de linguagens: modal, microtonal, tonal e eletrônico. A
quinta fase é a do ecologista de 1980, que seis anos depois viria a
participar da fundação do Partido Verde e da Sabio (Sociedade Amigos
da Biosfera).
Enfim, foram minhas convicções políticas e ecológicas
– e não o modismo que apareceria mais tarde –, que me levaram ao
ecletismo e à utilização de centros tonais. O uso que passei a fazer
de centros tonais, tinha a ver com a minha busca das leis naturais.
Estas, em música, as identifiquei na série harmônica, na oitava
justa, na quinta justa e no fenômeno natural dos modos normais de
vibração encontrados na natureza. Assim, não cheguei ao ecletismo e
ao neotonalismo através daqueles caminhos apontados nas análises e
teorias de Lyotard, Habermas, Vattimo, Eco e Ferry. Minha trajetória
moderna e vanguardista se apoiou na ecologia e na série harmônica,
fenômeno natural desconsiderado pelos dodecafonistas e serialistas e
que, por sintetizar os mistérios harmônicos do homem e da natureza
em geral, certamente facilitam a efetividade da comunicação musical.
O meu ecletismo, por outro lado, é apenas
conseqüência de uma revisão e conscientização de minha completude. O
experimentalista radical dos anos 70 é o mesmo indivíduo melodista,
eletrônico e sideral dos anos 60, que é a mesma pessoa ecologista e
revolucionária de sempre.
Referências
bibliográficas
por
JORGE
ANTUNES
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