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por
ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI
Professor do
Mestrado em Educação nas Ciências da UNIJUÍ - RS. Doutor em Ciências
Econômicas e Sociais pela Universidade de Osnabrück – Alemanha
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Marxismo e Cristianismo
A
teoria marxista surgiu da reflexão crítica e científica sobre os
mais importantes movimentos de trabalhadores surgidos na história e
é, sem dúvida, a teoria mais relevante para entender a economia
capitalista e a possibilidade de emancipação dos oprimidos. Iniciado
pelo filósofo alemão Karl Marx, o marxismo continuou sendo
desenvolvido e aperfeiçoado por outros pensadores, como Friedrich
Engels, Rosa Luxemburgo, Wladimir Lênin, Leon Trotski, Antônio
Gramsci, Georg Lukács, Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Ernst
Bloch. A maior vantagem do marxismo, como teoria, é que ele é um
movimento crítico e, por isso, ele renasce com nova força da
reflexão sobre seus próprios erros e permite que continue sendo
interpretado e experimentado com maior rigor e eficácia. O marxismo
é um pensamento em movimento, diferente do positivismo que é
estático e conservador.
O
cristianismo, maior expressão religiosa do ocidente, surgiu antes do
capitalismo, e baseia sua fundamentação na vida e ação de Jesus
Cristo. O ideal da vida cristã é a partilha, a comunhão.
Este é o sentido da comunidade, expressando a idéia de
uma vida em comum-unidade com os outros. Não cabe ali a
propriedade privada, a exploração e a desigualdade social. Por
defender o ideal de uma sociedade onde o importante é o comum,
aquilo que é de todos, Cristo foi crucificado pelos poderosos de sua
época, os romanos e fariseus, e, inclusive, os sumo-sacerdotes
(religiosos que não comungavam dos ideais cristãos).
Entretanto, em torno do século VI, no reinado de
Constantino, o cristianismo foi utilizado como ideologia a serviço
da dominação pelo Império Romano. Os senhores feudais negaram o
cristianismo e constituíram sociedades injustas, instrumentalizando
ideologicamente a crença cristã para integrá-la politicamente ao
Estado. Mais tarde, com o advento do capitalismo, os burgueses
tentaram conciliar sua forma de vida parasitária com a fé cristã.
Entretanto, os capitalistas mais autênticos se assumiram como
liberais e se contrapuseram à Igreja, na tentativa de superar o
cristianismo e acabar com a hegemonia do feudalismo.
Podemos afirmar que tanto os capitalistas que se
“autodenominam cristãos” como aqueles que se identificam como
liberais, negam a vida em comunhão e pregam a acumulação pessoal com
o sacrifício da maioria. Seu combate é o mesmo, a luta contra o
comunismo, termo que, até hoje, utilizam para confundir as
pessoas. E essa é uma luta política, como não poderia deixar de ser,
embora os opressores continuem afirmando que só eles é que podem
fazer “política”. Como negar que o cristianismo é político se o
maior líder de uma Igreja cristã é chefe de um Estado, o Vaticano,
que em toda sua história organiza movimentos políticos em todo o
mundo? Cristo foi morto como “preso político”, por defender idéias
que contestavam a estrutura injusta da sociedade. Assim, todo
cristão que vive o evangelho de forma coerente, desagrada àqueles
que oprimem o povo.
Há mais de um século, o marxismo passou a ser a
principal expressão do pensamento da esquerda mundial, tendo em
vista que a teoria liberal se converteu em ideologia do capitalismo.
Esta, além de ser anterior ao marxismo, não consegue apresentar
perspectivas à esmagadora maioria da população, principalmente aos
problemas da exclusão social e da destruição ambiental. Onde
estariam os liberais cristãos? Teoricamente sua base é contraditória
e conflituosa. Sua ação é, em sua maioria, disfarçada, secreta e
geralmente hipócrita. A maioria dos capitalistas, não se revela como
liberal (inclusive partidos deixam de declarar publicamente como
liberais) para não assustar a população, reunindo-se em torno de
movimentos empresariais, claramente opostos ao cristianismo e, mesmo
assim, mantendo a aparência de “cristãos devotos” na sociedade.
Como o liberalismo passou a legitimar a opressão
capitalista, para manter os privilégios de classe, muitos liberais
negam o saber ao povo, se apresentando, eles mesmos, como estudiosos
e “colecionadores” de obras do marxismo, mas reprimindo e
discriminando a leitura marxista à população em geral.
Atualmente, é freqüente
verificarmos que os mesmos que estiveram a serviço da ditadura
militar, que mataram e torturam pessoas para manter os capitalistas
no poder, vêm a público combater o marxismo. Aliás, assumem a mesma
prática dos que mataram Cristo: não querem que o povo conheça
realmente o ideal cristão, assustando as pessoas sobre teorias que
possam alterar a ordem que favorece aos poderosos. Da mesma forma
que reprimiram a leitura do marxismo no período de ditadura militar,
prendendo, perseguindo e assassinando marxistas no Brasil. São esses
os liberais brasileiros que se apresentam como defensores da
democracia.
Partindo do entendimento do significado do marxismo e
do cristianismo, podemos verificar que as duas correntes de
pensamento, em sua origem, convergem para o mesmo sentido: a vida em
comum, o comunismo. O que não é possível é ser capitalista e cristão
ao mesmo tempo e os liberais demonstram isso claramente em sua
teoria, que surgiu, objetivamente, para combater o cristianismo, em
torno do século XVII. Os equívocos de algumas experiências
socialistas com relação ao cristianismo são evidentes, assim como
foram contraditórias com o próprio marxismo, instrumentalizado para
legitimar o poder de Estados autoritários e burocratizados. Mas, o
marxismo permanece vivo, lado a lado com o cristianismo, com
inúmeros cristãos marxistas, adeptos da Teologia da Libertação, o
que não ocorre com o liberalismo.
Como o marxismo estimula o pensamento livre, sua
leitura e debate devem ser oportunizados a todos, sem distinção.
Através do marxismo tornou-se possível aos trabalhadores compreender
a exploração capitalista, permitindo a sua mobilização e organização
social contra os opressores, numa perspectiva de construção de uma
sociedade socialista, sem classes e desigualdades sociais, coerente
com o propósito cristão de que “todos tenham vida e a tenham em
abundância”.
por
ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI
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