RESENHA
Paulo
Fábio Dantas Neto. Tradição, autocracia e carisma: a política
de Antônio Carlos Magalhães na modernização da Bahia (1954 –
1974). Belo Horizonte, Editora UFMG/Rio de Janeiro, IUPERJ,
2006, 587 p.
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Antônio
Carlos Magalhães: a face exposta da elite autoritária brasileira
A
literatura sobre a carreira política de Antônio Carlos Magalhães
ainda não é suficientemente vasta e profunda como deveria,
todavia, a produção existente nos possibilita demarcar os limites
de sua atuação nos últimos cinqüenta anos.
Nela,
o entusiasmo político, o carisma irretocável e a ambição
desmedida são, quase sempre, os pontos de partida, central ou final
das apreciações. O fato de que essas características podem ser
atribuídas ao homem que ocupou quase todos os cargos executivos e
legislativos do país, em pouco mais de meio século de carreira, não
parece ser suficiente para esgotar o assunto nesse circulo vicioso.
As contribuições da memória, das atitudes, das ideologias, das
conjunturas e das instituições para esse processo devem ser
levadas em conta. O enfoque unitário no conjunto da elite reerguida
pelo golpe de 1964 é outro aspecto que não pode ser perdido de
vista. A bibliografia existente aborda, sob vários aspectos, essas
questões.
João
Carlos Teixeira Gomes publicou, em 2001, pela Geração Editorial, o
controvertido livro Memória das trevas: uma devassa na vida de
Antônio Carlos Magalhães, que esgotou sua primeira edição em
poucos dias. O foco principal dessa narrativa foi a perseguição
empreendida pelo “prefeito do século” contra o autor e o Jornal
da Bahia em função de antagonismos vários. Apesar do estrondoso
sucesso do livro, que expôs publicamente as práticas nefastas da
elite política do estado durante a recente ditadura brasileira, a
tentativa de construir um referencial teórico a partir de diversos
matizes, cristalizando-se no Príncipe de Maquiavel, não foi
bem sucedida. A obra, bem redigida e rica em detalhes, também
estaria a salvo de críticas contundentes se não viesse atrelada a
uma visão mitificada do “diabólico” ACM.
No
mesmo ano, José Batista Freitas de Mattos fez publicar um desagravo
ao seu correligionário, intitulado: ACM: o mito, pela RGB
editora. Sem nenhuma pretensão teórica, o texto reproduz de forma
linear uma versão bastante comum, segundo a qual, apesar de
personagem polêmico, o sucesso da carreira política de Antônio
Carlos Magalhães é fruto do seu carisma e de sua vibrante atuação
como administrador público.
A
paixão pela política e pela Bahia já havia sido reiterada na
entrevista concedida a Ancelmo Góis, Marcelo Pontes, Maurício
Dias, Mírian Leitão e Rui Xavier, publicada pela Revan, em 1995,
como Política é Paixão: Quem é Antônio Carlos Magalhães.
O maior mérito dessa publicação foi dar ao ator político em
destaque a oportunidade de exacerbar a sua imagem fictícia, construída
aleatoriamente, mas largamente aproveitada por ele.
No
meio acadêmico, a tese de Gilberto Wildberger de Almeida, Política
e Mídia na Bahia, defendida em 1999, no Programa de Pós-Graduação
em Comunicação e Cultura Contemporânea da UFBA insinua-se entre
os primeiros estudos de fôlego sobre a matéria. Nesse caso, embora
esteja presente uma refinada qualificação coronelística, o autor
evitou o infrutífero caminho da obstinação carlista meramente
fantasiosa preferindo conhecer a interseção de suas relações com
o poder e a mídia.
Além
das obras citadas que representam os grandes blocos do universo
literário sobre o carlismo, dezenas de artigos, capítulos de teses
ou livros e textos monográficos foram escritos ao longo dos últimos
anos, ora enfocando o federalismo, ora o populismo e quase sempre
avaliando o carisma do líder político baiano. Parte expressiva
dessa literatura sustenta sua argumentação em torno de questões
relevantes para o conhecimento do tema. Entretanto, em outros casos,
é recorrente uma certa frouxidão quanto à manipulação da imagem
de Antônio Carlos Magalhães que varia do extremo autoritarismo à
abnegação apaixonada, na verdade, uma cortina de fumaça que
encobre os reais objetivos da elite política com a qual esse ator
sempre esteve comprometido. Mesmo quando os autores fogem ao lugar
comum, categorias como coronelismo, conservadorismo e obscurantismo
são, via de regra, utilizados como características irrefutáveis
da personalidade de ACM, em defesa das quais se cometem anacronismos
sutilmente combinados com elementos passionais.
Em
casos extremos, o eixo da análise é fruto de mera especulação
que nada produz, senão, diagnósticos imprecisos e conclusões
precipitadas que vão sendo reproduzidas sem que se verifique a
consistência dos fatos ou se observe o menor rigor teórico.
A
razão do interesse em torno do percurso político de Antônio
Carlos Magalhães deve-se, principalmente, à sua vertiginosa ascensão
durante os anos da ditadura. Hoje, ele ocupa, simbolicamente ou não,
a cátedra dos mais influentes líderes da elite política na Bahia
no século XX, em nível semelhante à Jose Joaquim Seabra, Otávio
Mangabeira, Luís Viana Filho e Juracy Magalhães.
Entre
os trabalhos acadêmicos mais qualificados sobre a supremacia
carlista está, indubitavelmente, a tese de Paulo Fábio Dantas
Neto. Premiada como seu autor, ela foi defendida em 1998, no IUPERJ
e lançada, recentemente, em livro.
O
texto não é de leitura fácil para o público em geral: à
irritante e desnecessária repetição de palavras como verbo,
contencioso, canga, alcaide, etc., junta-se uma quantidade enorme de
expressões estrangeiras sem a correspondente tradução e trechos
eivados de um vocabulário técnico, jargões próprios da ciência
política. Tão ranzinza observação não desmerece o trabalho do
autor, um intelectual que, como a maioria, escreve para seus pares.
Apesar disso, a organização coerente das idéias e a perfeita
articulação do arcabouço teórico com a demonstração empírica,
ameniza, para o leitor razoavelmente esclarecido, as dificuldades
apontadas.
O
seu mérito maior consiste em desconstruir “a priori” todos
os mitos em torno de Antônio Carlos Magalhães e reconstruir, a
partir daí, uma análise prudente, corajosa e responsável sobre a
sua ação política.
No
referido estudo, Dantas Neto recompõe a gênese do carlismo e
analisa seu papel naquilo que ele chamou de “modernização
conservadora brasileira”. Ao longo de oito capítulos ele consegue
mostrar, numa perspectiva histórica, as diversas razões da
longevidade da hegemonia carlista na Bahia. Considera para tanto a
conjuntura política, fator determinante para ascensão do grupo
carlista, e a atuação orgânica da elite
“moderno-conservadora” da qual Antônio Carlos Magalhães foi um
quadro atuante. Em suas conclusões fica evidente que o carlismo não
se explica como continuidade oligárquica e nem como imposição
militar. Mas, o que explicaria o carlismo, afinal? Na perspectiva do
sociólogo à capacidade de ACM em executar na Bahia a “missão”
da elite, que consistia em transpor a modernidade sem risco ao
conservadorismo, atuando num regime autocrático.
Com
a perspicácia dos melhores analistas, Dantas observou que se a memória
construída foi (in) justa com os demais integrantes da elite baiana
relegando-os ao obscurantismo político ou poupando-os da ingrata
vinculação com a ditadura, não se pode onerar Antônio Carlos
Magalhães com todas as responsabilidades. Em parte porque ele
instrumentalizou, mas, também, foi instrumento da elite e serviu a
interesses dos co-responsáveis pelos rumos da história social e
política da Bahia, porém, não respondem por isso, porque não
colheram os dividendos dessa tarefa.
Pode-se
discordar de algumas das premissas do autor em tela, e eu me incluo
entre os tais, porém, seus objetivos de desmistificar o carlismo
foram brilhantemente alcançados, mesmo às vistas do mais exigente
leitor. Finda-se o equívoco com o seguinte pressuposto: o carlismo
radica-se num pacto de elites eficaz e durável.
Arguto
observador, a Dantas não passa despercebido o fato de que a
autonomia perseguida por Antônio Carlos Magalhães não entra em
conflito com o pacto das elites. Havia sincronia e sintonia entre
ACM e a elite dirigente na ditadura. Munido de tabelas, o escritor
demonstra a incidência de temas recorrentes no discurso carlista.
Primeiro como deputado estadual ambicionando a indicação a
prefeito e depois no executivo municipal cobiçando o governo
estadual. Essa retórica, perfeitamente combinada com os objetivos
da ditadura, iria conduzir o ator ao cenário político estadual e,
posteriormente, ao nacional. A um só tempo, duas atitudes condensam
o seu comportamento: pragmatismo e instrumentalismo.
Lacunas
existem e foram destacadas pelo próprio autor.
São todas resultantes de dificuldades na localização de
determinadas fontes, obrigando-o a concluir por conexões com outros
fatos, especular ou deixar em aberto a questão. No conjunto, não
representaram graves prejuízos ao trabalho de pesquisa.
A
sua estratégia conceitual é bastante arrojada e corajosa na medida
em que se aventura a unir categorias complicadíssimas como
“modernização conservadora”, “revolução pelo alto e dentro
da ordem” e “unidade contraditória”. Ao final, exceto por
algumas ressalvas que ousarei fazer adiante, o resultado foi
bastante satisfatório.
O
pesquisador usa a noção de “autoritarismo instrumental” para
explicar a intervenção do “prefeito do século” contra o
atraso e o clientelismo nas relações entre executivo e
legislativo. Essas aparentes contradições manifestas nas relações
construídas por Antônio Carlos explicam-se através de outro
conceito: “amizade de resultados”. Essa rede de relações foi
construída nesse momento com a cooptação de vereadores do MDB e
da ARENA e favoreceram a formação de uma ampla maioria na casa.
Decerto, o autor não desprezou o contexto autoritário que
domesticava as Câmaras Municipais brandindo fuzis e baionetas, como
também os artifícios legais da Constituição de 1967 que limitava
a fiscalização sobre o executivo, especialmente no que respeitava
ao orçamento.
A
expressão “amizade de resultado”, reutilizada por Dantas, além
de explicar coligações e rompimentos inimagináveis em outro
contexto, abre o compasso para compreender o pragmatismo político
de ACM. Seu perfil de empreendedor moderno, especialmente, na condição
de prefeito biônico de Salvador, não foi uma construção casual.
Quando promoveu a reforma urbana da capital baiana, executando em
curto prazo, os projetos já existentes do arquiteto Mario Leal
Ferreira, com verbas vultosas concedidas pelo amigo-general Castelo
Branco, às vésperas de sua substituição no Planalto, Antônio
Carlos Magalhães acentuava uma estratégia que seria vitoriosa ao
longo de sua carreira e que consistia em mover cuidadosamente as peças
políticas como num jogo de xadrez.
Vez
por outra, o pragmatismo resvalava para o campo cultural. Mais que
qualquer outro, ACM percebeu o filão político que se escondia nas
ruelas do centro histórico da cidade de Salvador e nos grupos
afro-descendentes. Ao mesmo tempo em que reabriu o espaço à
exploração das elites, temerosas dos supostos guetos marginais
instalados no pelourinho, acariciou a opinião pública com
demonstração de apreço a cultura baiana e às suas tradições
africanas. Isso se explica na “síntese da unidade contraditória”.
Segundo Dantas, esse era o perfil buscado pela elite da ditadura.
Faço
agora a ressalvas a que me referi inicialmente. O autor em debate
caracterizou a modernidade política (austeridade administrativa e
financeira), a modernidade econômica (valorização do capital
imobiliário através da expansão viária que possibilitou uma
elasticidade da ocupação do solo) e a modernidade cultural (intercâmbio
entre tradição e modernidade no espaço público), como exemplos
da ação de Antônio Carlos Magalhães dentro da ordem de transição
para a modernidade e em perfeita sintonia com a ditadura. Por
tratar-se de um tipo de modernização adequado a um regime autocrático
e fundado em relações sociais de tipo tradicional pareceu-lhe bem
denominar esse processo de “modernização conservadora” e
caracteriza-lo como um processo de revolução passiva dentro da
ordem.
Embora
esses conceitos lhe sejam caros, não me parecem suficientemente
explicativos de toda essa trama histórica. Em princípio porque
todas as revoluções promovidas pela elite são, invariavelmente,
dentro da ordem uma vez que visam a manutenção das estruturas
vigentes e, mais ainda, dos atores históricos. O mesmo se aplica à
idéia de “unidade contraditória” no qual embasa o argumento de
“modernização conservadora”. Parece-me essencial analisar que,
ao executar a sua “missão”, o líder carlista tinha consciência
das mudanças provocadas pelo golpe de 1964 no partido e nas instâncias
de poder. Por isso, executou com precisão a missão da elite de
transpor a modernidade sem risco para os privilégios conservadores
e sua estratégia foi a de operar com as mudanças e não de
operacionalizar a mudança.
Antônio
Carlos Magalhães e os seus adversários viviam uma conjuntura
contraditória, que tem raízes antigas, como revelou Maria Victória
Benevides ao investigar a UDN e o udenismo, e essas contradições
permaneceram com o golpe, a ditadura e a ARENA. Outras lideranças
como Juracy Magalhães e Luís Viana Filho buscaram construir um
movimento unitário na contradição que fosse útil para dominar os
espaços de decisão. Esse movimento consistia em adequar os
interesses da elite política (outrora multiparditária e àquela
altura comprimida na ARENA) e de suas bases sociais na Bahia, num
extenso arco de alianças que compreendia a elite financeira e
industrial, os grupos médios urbanos e as oligarquias rurais. Essa
fórmula já havia falhado com o governador Lomanto Júnior em 1964
e por diversas outras vezes com os experientes condutores da política
baiana que se tornaram reincidentes contumazes nessa estratégia
fracassada. No entanto, ao aproximarem o neófito Antônio Carlos
Magalhães dos militares, dos setores ambíguos da política e da
economia baiana, deram-lhe a oportunidade de perceber que a unificação
de forças políticas contraditórias só seria possível se as
ditas contradições fossem alocadas em planos diferenciados e
tratadas com perícia nos momentos de aproximação e refração.
Essa é a razão mais evidente da longevidade e supremacia do
carlismo que, entre as demais, mostra com clareza a especificidade
de sua atuação.
Fábio
Dantas Neto, abre com essa obra, um debate salutar sobre a história
política brasileira na contemporaneidade, possibilitando, a ampliação
do universo literário e de futuras análises comparativas.
por
JOSÉ ALVES DIAS