por HENRIQUE RATTNER

Professor na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA/USP); e na pós-graduação no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Fundador do Programa LEAD Brasil e da ABDL - Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças

 

 

O impasse no Oriente Médio

 

Apesar de inúmeras tentativas de intermediar entre as forças beligerantes e convencê-las a sentar à mesa de negociações, a região do Oriente Médio permanece a mais conflituosa e convulsionada no cenário político internacional.

Entre os principais atores no complicado xadrez do Oriente Médio se destacam os Estados Unidos, com interesses estratégicos, políticos e econômicos centrados, basicamente, nas fontes de petróleo cujas maiores reservas confirmadas situam-se na região do Golfo Pérsico.

A Grã-Bretanha, aliada histórica dos Estados Unidos desde a 1a Guerra Mundial, associou-se, sob a liderança de Tony Blair, à invasão do Afeganistão e do Iraque em oposição da opinião pública e, sobretudo, dos outros países da União Européia; mantendo no Iraque um contingente de 12 mil soldados, cuja retirada foi prometida pelo novo primeiro ministro Gordon Brown.

Os principais países da União Européia – França e Alemanha – se posicionaram, desde o início, contra a invasão do Iraque. A Espanha retirou suas tropas após a vitória eleitoral de José Luís Zapateiro e o primeiro ministro italiano, Romano Prodi, também, pretende retirar seus soldados até o fim deste ano.

Outro ator importante, embora menos aparente, é a Rússia, cujo presidente, Vladimir Putin, tem adotado atitudes e ações ambíguas com relação ao conflito na região. Após o desmoronamento da ex-União Soviética, os países independentes que surgiram na Ásia Central – Kazakistão, Quirguistão, Uzbequistão e outros menores têm populações em sua maioria islâmica, e o exército russo trava uma luta sem trégua contra os “terroristas”(?) chechenos; Moscou receia a expansão do extremismo islâmico, mas apóia a Síria e continua a fornecer armas e equipamentos ao Irã para a construção de centrífugas de urânio, matéria-prima para a produção de artefatos nucleares.

Embora parceiros do “Quarteto de Madri”, a União Européia e o Conselho de Segurança das Nações Unidas não têm tido influência e poder sobre a definição das políticas dos Estados Unidos e, menos ainda, na condução das negociações de paz entre Israel e os palestinos.

Os esforços das tropas norte-americanas e da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte – de conter a violência e os ataques suicidas dos talibãs no Afeganistão e dos “insurgentes” no Iraque não conseguiram diminuir o número de vítimas – civis e militares que aumentaram de forma alarmante no primeiro e dramática no segundo – tanto para as famílias dos soldados mortos dos Estados Unidos quanto para a população civil no Iraque.

Apesar das pressões crescentes da população e do congresso norte-americano, Bush tem recusado qualquer mudança na condução do conflito, sob o pretexto de aguardar o relatório a ser apresentado pelo comandante-chefe no Iraque, o general David Petraeus, prometido para setembro de 2007.

Recentemente, Bush convocou uma reunião regional ampla para discutir a paz no Oriente Médio, particularmente entre Israel e os palestinos. Na mesma reunião, Tony Blair deverá prestar contas de sua missão.

Entretanto, a tensão militar tem aumentado na região com o anúncio de Putin de reativar suas bases navais na Síria; provavelmente uma reação aos planos de construção de “escudos” antimísseis pelos Estados Unidos nos países da Europa Oriental, República Tcheca e Polônia.

Crescem, também, os rumores em Israel sobre uma próxima guerra contra a Síria, apoiada, indisfarçavelmente, com armas e equipamentos pelo Irã que, por sua vez, se abastece com o que há de mais avançado em armamento na Rússia.

Mas, há um consenso crescente entre os estrategistas militares quanto a uma postura crítica à política e ao planejamento militar dos Estados Unidos e seus supostos “aliados” no Oriente Médio – Israel e os países árabes “moderados” e autocráticos.

Os conflitos futuros não serão mais decididos pela quantidade e mesmo a superioridade qualitativa dos armamentos convencionais. No combate contra guerrilheiros urbanos as armas pesadas são de pouca eficácia, além de causar destruição e sofrimentos incontáveis à população civil.

O principal foco do conflito, de mais longa duração, é a questão envolvendo Israel e palestinos, ou seja, a criação de um estado palestino, implicando a devolução dos territórios ocupados em 1967, a cessão de parte de Jerusalém como capital do estado a ser criado e a questão do retorno dos refugiados cujos descendentes continuam mantidos em enclaves na Jordânia, Síria e Líbano.

Uma solução viável e realista seria alcançada somente com negociações e diálogo entre todos os atores envolvidos, inclusive o Hamas, atualmente isolado na faixa de Gaza - uma área de 1.500 km2 e 1,5 milhões de habitantes cuja maioria sobrevive com menos de um dólar por dia.

A situação dos palestinos complicou-se após a expulsão do Fatah – a Autoridade Palestina - da Faixa de Gaza pelo Hamas, grupo intransigente que se recusa a reconhecer a existência de Israel e, portanto, sentar-se à mesa de negociações. Mesmo isolado do resto do mundo, inclusive os países árabes, os guerrilheiros do Hamas continuam a bombardear, diariamente, com foguetes Kassam as colônias judaicas vizinhas, provocando reações da aviação e da artilharia israelenses nas quais, inevitavelmente, a população civil é a maior vítima.

No Líbano, após a trégua imposta pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, em agosto do ano passado, o Hezbollah continua a rearmar-se e a treinar novos militantes após as pesadas perdas sofridas no conflito anterior. Os xiitas do Hezbollah contam com a proteção da Síria e do Irã, duas peças importantes no tabuleiro do Oriente Médio.

Por outro lado, os governos dos países árabes sunitas moderados – Egito, Jordânia e Arábia Saudita – estão preocupados com a expansão do islamismo militante em seus territórios e gostariam de patrocinar um acordo de paz entre Israel e palestinos.

Comprometeram-se, publicamente, a reconhecer Israel e estabelecer relações diplomáticas e comerciais com o estado judeu, à condição que volte às fronteiras pré 1967 e resolva a criação de um estado palestino, nas condições acima apontadas. Uma delegação composta pelos ministros de exterior do Egito e da Jordânia oficializou a proposta em nome dos 22 países árabes, numa visita inédita a Jerusalém.

A missão de Tony Blair, nomeado por Bush, para coordenar e impulsionar as negociações, provavelmente terá o mesmo destino das anteriores, de Javier Solano e de Hernan de Souto, em nome da União Européia e das Nações Unidas. Em junho de 2007, ocorreu uma visita relâmpago de Condoleezza Rice, secretária de Estado e Robert Gates, secretário da defesa dos Estados Unidos que trouxeram em sua bagagem a oferta de 63 bilhões de dólares, como ajuda militar aos países árabes aliados e, obviamente, também para Israel. Essa ajuda militar está em flagrante contradição com a legislação norte-americana que condiciona a venda ou doação desses equipamentos somente para fins defensivos, proibindo sua concessão a países que violam os direitos humanos internacionalmente reconhecidos. Israel receberá 30 bilhões ao longo de dez anos, 13 bilhões são destinados ao Egito e 20 bilhões para a Arábia Saudita e os países do Golfo Pérsico.

Indubitavelmente, o radicalismo islâmico tende a crescer no Iraque, no Afeganistão, na Faixa de Gaza – dominada pelo Hamas - e no Líbano, com a presença do Hezbollah. Esse grupo de guerrilheiros, fortemente apoiado pelo Irã e a Síria, contribui para complicar o quadro político libanês, palco de pressões e conflitos étnicos e religiosos nas últimas três décadas.

A situação é ainda mais complicada em Israel, militarmente forte, mas politicamente enfraquecido por divergências e contradições políticas internas, aparentemente insolúveis no curto prazo.

No parlamento, mais de 20 partidos têm deputados e o governo se sustenta numa aliança precária entre o Kadima, partido do primeiro ministro Ehud Olmert, os trabalhistas e o apoio condicional do partido nacional religioso. O novo ministro da defesa, o ex-primeiro ministro Ehud Barak, após uma carreira militar brilhante, carrega o ônus do fracasso de uma tentativa de acordo de paz com os palestinos mediado, em 2000, por Bill Clinton.

Apesar de concordar com mais de 90% das reivindicações palestinas, o acordo foi recusado na hora da assinatura por Yasser Arafat. Outra tentativa, ainda na era de Clinton, numa reunião em Taba, na fronteira com o Egito, também fracassou, causando grande frustração em Israel e para Clinton que teria gostado de deixar como legado de seu governo a celebração de um acordo de paz histórico.

Além do impasse com os palestinos perdura a situação de conflito com a Síria, que teria acenado com um acordo de paz em troca da devolução do território do Golan, ocupado por Israel em 1967. Trata-se, não somente, de terras férteis e ocupadas por colonos israelenses que desenvolveram a região e sua infra-estrutura para fins de turismo. Um acordo com a Síria implicaria, além da devolução das terras, o acesso deste país ao Mar da Galiléia, que abastece todo o país com água potável.

Porta-vozes do Hamas manifestaram-se, veladamente, sobre a possibilidade de aceitar a criação de um estado palestino, prometendo uma “trégua de longa duração” nos ataques a Israel, sem, contudo, renunciar ao resto da Palestina e sem se comprometer com um tratado de paz.

Continuam, assim, a desafiar as três condições propostas pelo Quarteto de Madri: o reconhecimento de Israel, o fim das ações bélicas e a aceitação dos acordos celebrados anteriormente entre Israel e a A.P. – a autoridade palestina.

Dificilmente o relatório de Tony Blair, a ser apresentado em setembro, permitirá algum avanço em direção à paz, apesar do ambiente aparentemente mais favorável após a declaração dos ministros da Jordânia e do Egito em nome dos 22 países árabes.

Em Israel, o discurso dos políticos e da mídia começou a mudar. Sem se comprometer com um acordo final com os palestinos, aventa-se a possibilidade de negociar um acordo de “princípios” para criar o estado palestino, abrangendo 90% do território da Cisjordânia.

Mas, nenhum dos atores no jogo de xadrez – Bush, Blair, Olmert, Abbas, líderes árabes moderados – parece disposto a enfrentar as questões explosivas como a divisão de Jerusalém, a saída dos assentamentos na Cisjordânia, o redesenho das fronteiras e o futuro dos refugiados.

A fraqueza e incapacidade de Olmert para encaminhar propostas construtivas são evidenciadas pela continuidade, por inércia, dos assentamentos no território do futuro estado palestino. A precária maioria do governo Olmert no parlamento, pressionada pela extrema direita de Benjamin Netanyahu, os religiosos ortodoxos e o grupo radical de imigrantes da ex-União Soviética inviabilizam qualquer tentativa de acordo, baseado em concessões inevitáveis.

Os dez países mediterrâneos também protestam contra o âmbito restrito da planejada conferência e exigem passar por cima do “mapa da estrada” e, sobretudo, advertem contra o isolamento do Hamas em Gaza, ao contrário do que quer a maioria da população israelense. Assim, os tímidos passos de apoio a Mahmud Abbas que formou um governo de tecnocratas na Cisjordânia, a libertação de 250 prisioneiros palestinos e a entrega de recursos financeiros, retidos até agora, para evitar o colapso da Cisjordânia, à semelhança do que ocorreu em Gaza, parecem insuficientes. Os Estados Unidos e seus aliados na região apóiam o governo de Abbas enquanto os sauditas e os emirados do Golfo receiam a expansão do radicalismo islâmico para seu país.

No equacionamento e planejamento estratégico dos países ocidentais para o Oriente Médio é imperativo considerar o “mar” muçulmano de mais de um bilhão de crentes que se estendem da Indonésia, Malásia, Bangladesh, Paquistão, Índia, no Oriente Médio e todo o Norte da África, afora os milhões de imigrantes islâmicos que residem em solo europeu.

Embora os sunitas sejam, em sua imensa maioria, inimigos dos xiitas desde as primeiras décadas da história do Islã desde o século VII, tanto a solidariedade para com os palestinos, quanto o ódio e a revolta contra o ocidente têm se manifestado e propagado através da mídia, com reações violentas contra a publicação de caricaturas envolvendo o Profeta na Dinamarca.

O pronunciamento do Papa Bento XVI sobre a violência do Islã e a invasão do Iraque e do Afeganistão, com suas conseqüências trágicas, têm estimulado e incentivado as correntes mais radicais e fanáticas do mundo islâmico.

Finalmente, cabem algumas considerações sobre as relações entre Israel e as comunidades judaicas no mundo.

Como em todos os grupos religiosos, também entre os judeus, cresceu nas últimas décadas o número de religiosos ortodoxos, radicais em sua crença e cada vez menos tolerantes para com indivíduos judeus liberais e mesmo sinagogas mais secularizadas. Além de dominar o Código Civil e as normas que definem “quem é judeu” em Israel, vedando conversões e casamentos mistos, a imensa maioria dos religiosos israelenses é contrária à devolução dos territórios, de parte de Jerusalém e uma parte até advoga a expulsão dos árabes – cerca de um milhão e trezentos mil habitantes – legalmente cidadãos de Israel. Embora de espírito bélico – querem ocupar todo o território de Israel bíblico que inclui áreas que pertencem à Síria e Jordânia – seus filhos não prestam serviço militar, sob o pretexto de dedicação aos estudos bíblicos.

Essa tendência para o conservadorismo e o retorno à religião militante manifesta-se, também, na diáspora, dividindo as comunidades judaicas. Afinal, quem é judeu? E, como defini-los, se não for pela religião?

Face aos extremos – os judeus ultra-ortodoxos e os reformistas secularizados - a postura da auto definição parece a mais adequada: judeu seria aquele que assim se considera e se identifica em suas atitudes, comportamento e valores.

Particularmente delicada é a questão da relação com o sionismo e o retorno de todos os judeus para Israel, sendo que uma facção de ultra-ortodoxos nega a própria existência do estado judeu. As lideranças comunitárias têm adotado atitudes mais conservadoras e rejeitam qualquer crítica às políticas do estado de Israel. Acusam de anti-semitismo qualquer censura ou crítica, mesmo quando essas são feitas pela própria mídia israelense. Nos Estados Unidos, onde vive o maior número de judeus (cerca de seis milhões), parte da liderança comunitária tem se transformado em influente lobby junto ao Congresso norte-americano e presta apoio incondicional ao governo Bush.

Ressurge, assim, no início do século XXI, o debate sobre o papel da religião e suas relações com um estado laico, liberal, democrático e tolerante, particularmente, no que diz respeito ao status de não-judeus nessa sociedade. Entre todos os outros, talvez este seja o maior desafio para a sobrevivência da cultura judaica e da sociedade israelense.

 

por HENRIQUE RATTNER

   

 

 

 

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