O
impasse no Oriente Médio
Apesar
de inúmeras tentativas de intermediar entre as forças
beligerantes e convencê-las a sentar à mesa de negociações,
a região do Oriente Médio permanece a mais conflituosa e
convulsionada no cenário político internacional.
Entre
os principais atores no complicado xadrez do Oriente Médio
se destacam os Estados Unidos, com interesses estratégicos,
políticos e econômicos centrados, basicamente, nas fontes
de petróleo cujas maiores reservas confirmadas situam-se na
região do Golfo Pérsico.
A
Grã-Bretanha, aliada histórica dos Estados Unidos desde a
1a Guerra Mundial, associou-se, sob a liderança
de Tony Blair, à invasão do Afeganistão e do Iraque em
oposição da opinião pública e, sobretudo, dos outros países
da União Européia; mantendo no Iraque um contingente de 12
mil soldados, cuja retirada foi prometida pelo novo primeiro
ministro Gordon Brown.
Os
principais países da União Européia – França e
Alemanha – se posicionaram, desde o início, contra a
invasão do Iraque. A Espanha retirou suas tropas após a
vitória eleitoral de José Luís Zapateiro e o primeiro
ministro italiano, Romano Prodi, também, pretende retirar
seus soldados até o fim deste ano.
Outro
ator importante, embora menos aparente, é a Rússia, cujo
presidente, Vladimir Putin, tem adotado atitudes e ações
ambíguas com relação ao conflito na região. Após o
desmoronamento da ex-União Soviética, os países
independentes que surgiram na Ásia Central – Kazakistão,
Quirguistão, Uzbequistão e outros menores têm populações
em sua maioria islâmica, e o exército russo trava uma luta
sem trégua contra os “terroristas”(?) chechenos; Moscou
receia a expansão do extremismo islâmico, mas apóia a Síria
e continua a fornecer armas e equipamentos ao Irã para a
construção de centrífugas de urânio, matéria-prima para
a produção de artefatos nucleares.
Embora
parceiros do “Quarteto de Madri”, a União Européia e o
Conselho de Segurança das Nações Unidas não têm tido
influência e poder sobre a definição das políticas dos
Estados Unidos e, menos ainda, na condução das negociações
de paz entre Israel e os palestinos.
Os
esforços das tropas norte-americanas e da OTAN – Organização
do Tratado do Atlântico Norte – de conter a violência e
os ataques suicidas dos talibãs no Afeganistão e dos
“insurgentes” no Iraque não conseguiram diminuir o número
de vítimas – civis e militares que aumentaram de forma
alarmante no primeiro e dramática no segundo – tanto para
as famílias dos soldados mortos dos Estados Unidos quanto
para a população civil no Iraque.
Apesar
das pressões crescentes da população e do congresso
norte-americano, Bush tem recusado qualquer mudança na
condução do conflito, sob o pretexto de aguardar o relatório
a ser apresentado pelo comandante-chefe no Iraque, o general
David Petraeus, prometido para setembro de 2007.
Recentemente,
Bush convocou uma reunião regional ampla para discutir a
paz no Oriente Médio, particularmente entre Israel e os
palestinos. Na mesma reunião, Tony Blair deverá prestar
contas de sua missão.
Entretanto,
a tensão militar tem aumentado na região com o anúncio de
Putin de reativar suas bases navais na Síria; provavelmente
uma reação aos planos de construção de “escudos”
antimísseis pelos Estados Unidos nos países da Europa
Oriental, República Tcheca e Polônia.
Crescem,
também, os rumores em Israel sobre uma próxima guerra
contra a Síria, apoiada, indisfarçavelmente, com armas e
equipamentos pelo Irã que, por sua vez, se abastece com o
que há de mais avançado em armamento na Rússia.
Mas,
há um consenso crescente entre os estrategistas militares
quanto a uma postura crítica à política e ao planejamento
militar dos Estados Unidos e seus supostos “aliados” no
Oriente Médio – Israel e os países árabes
“moderados” e autocráticos.
Os
conflitos futuros não serão mais decididos pela quantidade
e mesmo a superioridade qualitativa dos armamentos
convencionais. No combate contra guerrilheiros urbanos as
armas pesadas são de pouca eficácia, além de causar
destruição e sofrimentos incontáveis à população
civil.
O
principal foco do conflito, de mais longa duração, é a
questão envolvendo Israel e palestinos, ou seja, a criação
de um estado palestino, implicando a devolução dos territórios
ocupados em 1967, a cessão de parte de Jerusalém como
capital do estado a ser criado e a questão do retorno dos
refugiados cujos descendentes continuam mantidos em enclaves
na Jordânia, Síria e Líbano.
Uma
solução viável e realista seria alcançada somente com
negociações e diálogo entre todos os atores envolvidos,
inclusive o Hamas, atualmente isolado na faixa de Gaza - uma
área de 1.500 km2 e 1,5 milhões de habitantes
cuja maioria sobrevive com menos de um dólar por dia.
A
situação dos palestinos complicou-se após a expulsão do
Fatah – a Autoridade Palestina - da Faixa de Gaza pelo
Hamas, grupo intransigente que se recusa a reconhecer a
existência de Israel e, portanto, sentar-se à mesa de
negociações. Mesmo isolado do resto do mundo, inclusive os
países árabes, os guerrilheiros do Hamas continuam a
bombardear, diariamente, com foguetes Kassam as colônias
judaicas vizinhas, provocando reações da aviação e da
artilharia israelenses nas quais, inevitavelmente, a população
civil é a maior vítima.
No
Líbano, após a trégua imposta pelo Conselho de Segurança
das Nações Unidas, em agosto do ano passado, o Hezbollah
continua a rearmar-se e a treinar novos militantes após as
pesadas perdas sofridas no conflito anterior. Os xiitas do
Hezbollah contam com a proteção da Síria e do Irã, duas
peças importantes no tabuleiro do Oriente Médio.
Por
outro lado, os governos dos países árabes sunitas
moderados – Egito, Jordânia e Arábia Saudita – estão
preocupados com a expansão do islamismo militante em seus
territórios e gostariam de patrocinar um acordo de paz
entre Israel e palestinos.
Comprometeram-se,
publicamente, a reconhecer Israel e estabelecer relações
diplomáticas e comerciais com o estado judeu, à condição
que volte às fronteiras pré 1967 e resolva a criação de
um estado palestino, nas condições acima apontadas. Uma
delegação composta pelos ministros de exterior do Egito e
da Jordânia oficializou a proposta em nome dos 22 países
árabes, numa visita inédita a Jerusalém.
A
missão de Tony Blair, nomeado por Bush, para coordenar e
impulsionar as negociações, provavelmente terá o mesmo
destino das anteriores, de Javier Solano e de Hernan de
Souto, em nome da União Européia e das Nações Unidas. Em
junho de 2007, ocorreu uma visita relâmpago de Condoleezza
Rice, secretária de Estado e Robert Gates, secretário da
defesa dos Estados Unidos que trouxeram em sua bagagem a
oferta de 63 bilhões de dólares, como ajuda militar aos países
árabes aliados e, obviamente, também para Israel. Essa
ajuda militar está em flagrante contradição com a legislação
norte-americana que condiciona a venda ou doação desses
equipamentos somente para fins defensivos, proibindo sua
concessão a países que violam os direitos humanos
internacionalmente reconhecidos. Israel receberá 30 bilhões
ao longo de dez anos, 13 bilhões são destinados ao Egito e
20 bilhões para a Arábia Saudita e os países do Golfo Pérsico.
Indubitavelmente,
o radicalismo islâmico tende a crescer no Iraque, no
Afeganistão, na Faixa de Gaza – dominada pelo Hamas - e
no Líbano, com a presença do Hezbollah. Esse grupo de
guerrilheiros, fortemente apoiado pelo Irã e a Síria,
contribui para complicar o quadro político libanês, palco
de pressões e conflitos étnicos e religiosos nas últimas
três décadas.
A
situação é ainda mais complicada em Israel, militarmente
forte, mas politicamente enfraquecido por divergências e
contradições políticas internas, aparentemente insolúveis
no curto prazo.
No
parlamento, mais de 20 partidos têm deputados e o governo
se sustenta numa aliança precária entre o Kadima, partido
do primeiro ministro Ehud Olmert, os trabalhistas e o apoio
condicional do partido nacional religioso. O novo ministro
da defesa, o ex-primeiro ministro Ehud Barak, após uma
carreira militar brilhante, carrega o ônus do fracasso de
uma tentativa de acordo de paz com os palestinos mediado, em
2000, por Bill Clinton.
Apesar
de concordar com mais de 90% das reivindicações
palestinas, o acordo foi recusado na hora da assinatura por
Yasser Arafat. Outra tentativa, ainda na era de Clinton,
numa reunião em Taba, na fronteira com o Egito, também
fracassou, causando grande frustração em Israel e para
Clinton que teria gostado de deixar como legado de seu
governo a celebração de um acordo de paz histórico.
Além
do impasse com os palestinos perdura a situação de
conflito com a Síria, que teria acenado com um acordo de
paz em troca da devolução do território do Golan, ocupado
por Israel em 1967. Trata-se, não somente, de terras férteis
e ocupadas por colonos israelenses que desenvolveram a região
e sua infra-estrutura para fins de turismo. Um acordo com a
Síria implicaria, além da devolução das terras, o acesso
deste país ao Mar da Galiléia, que abastece todo o país
com água potável.
Porta-vozes
do Hamas manifestaram-se, veladamente, sobre a possibilidade
de aceitar a criação de um estado palestino, prometendo
uma “trégua de longa duração” nos ataques a Israel,
sem, contudo, renunciar ao resto da Palestina e sem se
comprometer com um tratado de paz.
Continuam,
assim, a desafiar as três condições propostas pelo
Quarteto de Madri: o reconhecimento de Israel, o fim das ações
bélicas e a aceitação dos acordos celebrados
anteriormente entre Israel e a A.P. – a autoridade
palestina.
Dificilmente
o relatório de Tony Blair, a ser apresentado em setembro,
permitirá algum avanço em direção à paz, apesar do
ambiente aparentemente mais favorável após a declaração
dos ministros da Jordânia e do Egito em nome dos 22 países
árabes.
Em
Israel, o discurso dos políticos e da mídia começou a
mudar. Sem se comprometer com um acordo final com os
palestinos, aventa-se a possibilidade de negociar um acordo
de “princípios” para criar o estado palestino,
abrangendo 90% do território da Cisjordânia.
Mas,
nenhum dos atores no jogo de xadrez – Bush, Blair, Olmert,
Abbas, líderes árabes moderados – parece disposto a
enfrentar as questões explosivas como a divisão de Jerusalém,
a saída dos assentamentos na Cisjordânia, o redesenho das
fronteiras e o futuro dos refugiados.
A
fraqueza e incapacidade de Olmert para encaminhar propostas
construtivas são evidenciadas pela continuidade, por inércia,
dos assentamentos no território do futuro estado palestino.
A precária maioria do governo Olmert no parlamento,
pressionada pela extrema direita de Benjamin Netanyahu, os
religiosos ortodoxos e o grupo radical de imigrantes da
ex-União Soviética inviabilizam qualquer tentativa de
acordo, baseado em concessões inevitáveis.
Os
dez países mediterrâneos também protestam contra o âmbito
restrito da planejada conferência e exigem passar por cima
do “mapa da estrada” e, sobretudo, advertem contra o
isolamento do Hamas em Gaza, ao contrário do que quer a
maioria da população israelense. Assim, os tímidos passos
de apoio a Mahmud Abbas que formou um governo de tecnocratas
na Cisjordânia, a libertação de 250 prisioneiros
palestinos e a entrega de recursos financeiros, retidos até
agora, para evitar o colapso da Cisjordânia, à semelhança
do que ocorreu em Gaza, parecem insuficientes. Os Estados
Unidos e seus aliados na região apóiam o governo de Abbas
enquanto os sauditas e os emirados do Golfo receiam a expansão
do radicalismo islâmico para seu país.
No
equacionamento e planejamento estratégico dos países
ocidentais para o Oriente Médio é imperativo considerar o
“mar” muçulmano de mais de um bilhão de crentes que se
estendem da Indonésia, Malásia, Bangladesh, Paquistão, Índia,
no Oriente Médio e todo o Norte da África, afora os milhões
de imigrantes islâmicos que residem em solo europeu.
Embora
os sunitas sejam, em sua imensa maioria, inimigos dos xiitas
desde as primeiras décadas da história do Islã desde o século
VII, tanto a solidariedade para com os palestinos, quanto o
ódio e a revolta contra o ocidente têm se manifestado e
propagado através da mídia, com reações violentas contra
a publicação de caricaturas envolvendo o Profeta na
Dinamarca.
O
pronunciamento do Papa Bento XVI sobre a violência do Islã
e a invasão do Iraque e do Afeganistão, com suas conseqüências
trágicas, têm estimulado e incentivado as correntes mais
radicais e fanáticas do mundo islâmico.
Finalmente,
cabem algumas considerações sobre as relações entre
Israel e as comunidades judaicas no mundo.
Como
em todos os grupos religiosos, também entre os judeus,
cresceu nas últimas décadas o número de religiosos
ortodoxos, radicais em sua crença e cada vez menos
tolerantes para com indivíduos judeus liberais e mesmo
sinagogas mais secularizadas. Além de dominar o Código
Civil e as normas que definem “quem é judeu” em Israel,
vedando conversões e casamentos mistos, a imensa maioria
dos religiosos israelenses é contrária à devolução dos
territórios, de parte de Jerusalém e uma parte até advoga
a expulsão dos árabes – cerca de um milhão e trezentos
mil habitantes – legalmente cidadãos de Israel. Embora de
espírito bélico – querem ocupar todo o território de
Israel bíblico que inclui áreas que pertencem à Síria e
Jordânia – seus filhos não prestam serviço militar, sob
o pretexto de dedicação aos estudos bíblicos.
Essa
tendência para o conservadorismo e o retorno à religião
militante manifesta-se, também, na diáspora, dividindo as
comunidades judaicas. Afinal, quem é judeu? E, como
defini-los, se não for pela religião?
Face
aos extremos – os judeus ultra-ortodoxos e os reformistas
secularizados - a postura da auto definição parece a mais
adequada: judeu seria aquele que assim se considera e se
identifica em suas atitudes, comportamento e valores.
Particularmente
delicada é a questão da relação com o sionismo e o
retorno de todos os judeus para Israel, sendo que uma facção
de ultra-ortodoxos nega a própria existência do estado
judeu. As lideranças comunitárias têm adotado atitudes
mais conservadoras e rejeitam qualquer crítica às políticas
do estado de Israel. Acusam de anti-semitismo qualquer
censura ou crítica, mesmo quando essas são feitas pela própria
mídia israelense. Nos Estados Unidos, onde vive o maior número
de judeus (cerca de seis milhões), parte da liderança
comunitária tem se transformado em influente lobby junto ao Congresso norte-americano e presta apoio
incondicional ao governo Bush.
Ressurge,
assim, no início do século XXI, o debate sobre o papel da
religião e suas relações com um estado laico, liberal,
democrático e tolerante, particularmente, no que diz
respeito ao status de não-judeus nessa sociedade. Entre
todos os outros, talvez este seja o maior desafio para a
sobrevivência da cultura judaica e da sociedade israelense.
por
HENRIQUE RATTNER