por
REGINA
M. A. MACHADO
Doutora
pela Universidade Paris 3/La Sorbonne Nouvelle, e tradutora. |
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De
grão em grão a literatura brasileira –
Alencar, Machado e tantos
outros
...
eu sei como as coisas se passaram e refiro-as tais quais. Quando
muito explico-as, com a condição que tal costume não pegue.
Explicações comem tempo e papel, demoram a ação e acabam por
enfadar. O melhor é ler com atenção.
Machado
de Assis, Esaú e Jacó; Capítulo “Há contradições
explicáveis”.
Ler com atenção, como
aconselha o velho bruxo, vale a pena, pois há tesouros insuspeitados
nos mais antigos, que ainda não mereceram essa tal leitura atenta.
Entre escritores, porém, todos se leram, respeitaram e citaram uns
aos outros. Entre releituras, recriações e escritura, a obra de cada
um ecoa e homenageia os que os tinham precedido. E desde bem antes
de Machado já começaram ou continuaram –em todo caso desenvolveram -
um sistema, pondo uma pedrinha atrás da outra, construindo já uma
literatura nacional, cuja leitura atenta, conforme a recomendação em
epígrafe, pode ilustrar essa continuidade e empenho desde
tempos remotos. Podemos começar pelo
facundo
Joaquim Manuel de Macedo, cujo sobrinho de seu tio, afiliado
a Le neveu de Rameau de Diderot, é já um narrador inimigo de
si mesmo, que se desqualifica com petulância, jogando as bases do
método narrativo que Machado vai condensar nas suas obras da
maturidade.
Macedo encontra em Martins Pena vários de seus temas, citando, na
A carteira de meu tio, a comédia O juiz de paz na roça
para reforçar a defesa que faz o compadre Paciência da instituição
do júri popular, denegrida pelos coronéis da guarda nacional e
outros potentados.
Numa outra de suas peças, este autor tinha também introduzido
o tema do “presente vivo”, do ser humano degradado em objeto. Em
Os dous ou O inglês maquinista, Martins Pena traz à cena um
traficante que oferece à heroína um moleque dentro de um balaio,
trazido às costas de outro escravo, um negro de ganho.
«Negreiro ajuda o preto a botar o cesto no
chão. Clemência, Mariquinha chegam-se para junto do cesto, de
modo porém que este fica à vista dos espectadores. (...)
- Clemência – Descubra. (Negreiro descobre o
cesto e dele levanta-se um moleque de tanga e carapuça
encarnada, o qual fica em pé dentro do cesto.)” (scène XIII)
O presente é apreciado, julgado “bonitinho”,
“gordinho”, com “bons dentes”.
A mesma reificação é em seguida denunciada por Macedo, com a mesma
discrição a recobrir uma ironia pelo menos parcial, pois se nós
esquecemos que autor e público faziam parte do mesmo mundo, o da
escravidão, eles não podiam esquecer nem escapar dele, como nós não
escapamos senão parcialmente dos valores dominantes no nosso. No
romance de Macedo, é um coronel, fazendeiro e senhor de escravos,
cujo bom caráter é tão ostensivamente louvado que não se pode deixar
de enxergar aí também uma certa ironia, que dá um ser humano de
presente a outro. Ele oferece à afilhada, filha do vizinho tão
excelente quanto ele, um presente de aniversário do mesmo gênero que
o visto acima.
Era o dia feliz que marcava o décimo primeiro
aniversário natalício de Cândida. (...) Tanto ardor festival
indicava claramente a importância e o merecimento do pai de
Cândida. Florêncio da Silva era um honrado, inteligente e rico
negociante da pequena cidade de ... (...) Bom, afável e
generoso, repartindo as sobras da riqueza que acumulava com os
pobres que não eram vadios (...)
A figura da menina de nome evocador é de uma
enjoativa doçura loira e pura, para a qual o narrador moralista teme
as alterações do porvir, que viriam perturbar sua natureza angélica.
O presente do padrinho, impacientemente aguardado, chega afinal. A
surpresa toma a forma de uma crioula da idade de doze anos,
vestida com apropriado esmero, e calçada de botinas pretas, o
que, note-se, era em princípio proibido aos escravos.
- Trago-te uma escrava quase da tua idade, a
quem mandei ensinar de propósito para ser tua mucama.
E voltando-se para a crioula, disse-lhe:
- Lucinda, eis aí tua senhora.
E logo, falando à afilhada, acrescentou:
- Toma conta dela, Cândida, e se te desagradar
a figura, e não gostares do serviço dessa crioula, hás de mo
dizer, para que eu a troque por outra.
José de Alencar vai retomar esse tema, mas com outros
figurantes. No O tronco do ipê, o casal de escravos, cujo
molde se encontra nas Metamorfoses de Ovídio, fica fora do
tema do « presente vivo ».
Aqui, é o bacharel pobre, encarnado no protagonista Mário, que entra
no cenário de brinquedo e, revoltado contra um destino sem saída e
sem escolha, quebra o mundo reduzido que reproduz até à vertigem
visual o mundo da fazenda.
Enchia o tapete do sofá uma profusão de
objetos, que aos olhos do menino-homem são uma ninharia, mas aos
olhos do homem-menino parecem um tesouro das mil e uma noites.
Eram trastes, camas, berços, guarda-roupas, lavatórios,
poltronas, aparelhos de louça, talheres; um oratório com imagens
e candelabros; jardins, com alamedas de flores, repuxo e
estátuas; casas com repartimentos, carros puxados por parelhas
de cavalos; uma fazenda cheia de árvores, de bois, carneiros e
outros animais; tudo isto em delicada miniatura.
O presente, cujo cenário amplificado como as
paisagens infinitas do bonzai, parece engolir até o narrador, espera
a chegada de Mário para poder funcionar como palco do «casamento das
bonecas».
-…Acendo
as velas ?
- Não,
Mário ainda não chegou, respondeu Alice.
- Onde anda ele?
- Foi
se despedir de Benedito.
- É
verdade, ele vai amanhã. Tão depressa.
- Foi
ele mesmo que pediu; não foi, nhãnhã?
- Mário
quer estudar depressa para se formar logo, disse Alice com um
suspiro. Depois vem morar aqui na fazenda e não há de sair mais.
Papai me prometeu.(ipê, p. 242, ch.
XVIII)
Assim, para completar a cena com o personagem
adequado, a menina tem direito a uma promessa do pai, que implica um
ser humano cujo destino é depositado entre suas mãos infantis. Na
ordem escravocrata, Mário é apenas mais um “homem livre e pobre”,
sem lugar na sociedade, caso não siga o caminho indicado pelo barão
que quer o seu bem e pelo desejo de Alice que o ama sem reservas.
Nosso paternalismo vesgo, o clientelismo e o regime do favor que
Roberto Schwarz aponta na obra madura de Machado, já estão mais do
que esboçados nesses romances da maturidade de Alencar.
Só que, neste autor, a maioria dos críticos só viu, em vez de
maturidade, a amargura, o desencanto, enquanto que Machado, é fácil
constatar, já o tinha lido com atenção desde o começo.
Machado, em crônica de 5/11/1893, durante a Revolta
da Armada, satiriza a sede de novidade dos cariocas citando suas
lembranças e suas admirações por outros escritores. Há na comédia
Verso e Reverso, de José de Alencar, diz ele, um
personagem que não vê ninguém entrar em cena, que não lhe pergunte:
- Que há de novo? À repetição da mesma pergunta por seus
contemporâneos, ele responde com informações sobre o terremoto de
Lisboa, ocorrido naquela mesma semana, um século e meio atrás. Em
seguida desfaz de seu programa do dia 2 de novembro, afirmando:
Mas não há cemitério que valha contra o personagem de Verso e
Reverso. Aproveita para prestar homenagem também a Gonçalves
Dias e, finalmente, para tirar toda grandiloqüência às lembranças do
passado como às agruras do presente, a crônica termina com uma
última citação da comédia de Alencar – no final das contas, o que há
de novo é apenas Que vamos almoçar..
Nos romances, seu personagem defunto e autor que se diverte às
nossas custas tem o mesmo nome que o pobre débil mental de Til,
Brás, que já trazia à baila a representação da nacionalidade.
Aliás, o personagem de Machado aproveita outra idéia lançada pelo
predecessor, que já declarara: desejaria fazer-me escritor
póstumo, trocando de boa vontade os favores do presente pelas
severidades do futuro.
E assim chegamos ao que nos interessa, esse momento
de transmissão do legado literário entre José de Alencar a Machado
de Assis. Se essa continuidade já não é mais questionada, as
possibilidades de enriquecimento que ela pode trazer à leitura de um
e de outro estão longe de ser esgotadas. Se o leitor de Machado de
Assis já aprendeu a “ler direito”, conforme recomendação do volúvel
narrador, graças à acumulação de leituras eruditas e perspicazes de
sua obra,
o mesmo não se pode dizer de José de Alencar, cuja crítica ainda
sofre de um certo biografismo limitador. Apesar de trabalhos que
esclarecem o perfil do jurista e do político,
a análise de sua produção literária sempre tem de se referir ao
conservadorismo do escritor, à misantropia de sua segunda fase, sem
reconhecer a complexidade crescente dessa parte de sua criação que
ele assinou como Sênio. Embora não seja apenas aí que aparece o tema
do homem tornado objeto do homem, talvez seja aí que se elabora a
dimensão que ele vai tomar na obra de Machado de Assis.
Se a invenção da maturidade de Machado de Assis, o
“narrador volúvel”, personagem fugidio e pouco confiável, cujo
discurso é suficiente para denunciá-lo, é reconhecida como uma
conquista formal que torna sua prosa capaz de dar conta de
implicações estruturais do quadro histórico,
a obra de José de Alencar, que sofre também uma mudança radical nos
anos da maturidade, está ainda a pedir para ser lida com atenção.
Para seu filho, essa produção dos últimos anos é fundamentalmente
política,enquanto
Araripe Jr. vê nessa fase uma profunda decepção com a época e os
valores da década de 1870, em tudo oposta aos anos da produção do
O guarani, que teriam sido de tranqüilidade para a sociedade
imperial.
O mais ligeiro abalo não vinha quebrar a
monotonia da vida política [entre 1852
e 56]; na atmosfera moral, reinava completa serenidade; nem
sequer uma dessas perturbações na república literária, que
deslocam o talento das sendas habituais para, por uma forte
emoção, transportá-lo a plainos desconhecidos, inexplorados. A
nau do Estado corria placidamente, ao som das águas, sob a doce
influência do sistema constitucional. (...) não tínhamos chegado
à época dissolvente que atravessamos [1879],
época que tem gerado em nós, brasileiros, tão pronunciado
desgôsto de nós mesmos, em que o desengano rege a estética e o
sarcasmo serve-lhe de forma.
Tanto para Araripe Jr. como para Sylvio Romero, a
década de 1870 é um tempo de grande efervescência intelectual,
« dissolvente » para o primeiro, enquanto que para o segundo,
O decênio que vai de 1868 a 1878 é o mais notável
de quantos no século XIX constituíram a nossa vida espiritual.
Na capital imperial, para a qual converge essa
efervescência intelectual, Alencar, decepcionado com a política e de
volta à literatura, desenvolve uma intensa atividade literária.
Limitar-nos-emos a evocar os romances alencarinos da fazenda,
sobre os quais Roberto Schwarz declara: A
mim, em matéria do que poderia ter sido, parece que são estes dois
os seus melhores livros.
O tronco do ipê, de 1871, passa-se no vale do Paraíba, e é
seguido por Til, de 1872 que, seguindo a marcha do café,
desloca sua ação para o Oeste, situando-se
na confluência do Atibaia com o Piracicaba.
Aqui, já vão aparecer os habitantes dos « bairros
caipiras »
em interação com os fazendeiros. Sem independência de ordem
alguma, vivendo ao azar do capricho alheio, conforme análise que
faz Schwarz do nosso cordial regime do favor pessoal,
a posição peculiar dos pobres no Brasil
já se encontra bem ilustrada nesse segundo romance da fazenda.
É só ler com atenção: a sedução da caipira bonita e pobre pelo filho
do fazendeiro, seu assassinato pelo marido ciumento e a atuação da
filha adotada por uma família de sitiantes dependentes, que evoluem
também na esfera da fazenda. Aqui os escravos não são mais
idealizados; aparece o capanga, que aluga seus serviços, pois
Afora estes, não imaginava Jão Fera outros meios
de ganhar dinheiro sem humilhação. O trabalho, ele o tinha como
vergonha, pois o poria ao nível do escravo.
Também o escritor regionalista Valdomiro Silveira,
numa de suas belas recriações da linguagem caipira, faz menção da
lei promulgada por José de Alencar em 1869, cujo artigo 2° proibia a
separação entre pais e filhos menores de 15 anos.
A homenagem é tão complexa quanto fora ambígua a atuação do jurista
nessa área. Face à destruição do cafezal pela geada, um fazendeiro
se vê obrigado a se desfazer de seus únicos bens vendáveis com algum
lucro, que são os escravos. Decidido a vender uma velha escrava
pouco produtiva, ele vai ter de se separar também da filha que
tivera outrora com ela e que, como era de lei, herda a condição
servil da mãe.
- De certo! Inda se ‘o menos ela fôsse que nem
a filha, que tem préstimo p’r’um isto e p’r’um aquilo; vá! Mas
porém é uma tigüera cansadona, que não dá mesmo nada!
Estava descaroçando o algodão, parou um
instante:
- Mas como é, seu Romualdo? Você não se
alembra que não pode passar para diante o coirão sem a cria?
Foi água na fervura. Êle pôs-se a bater as
mãos, muito pensativo e aborrecido:
- Ora, e esta! Uma coisa que não há gato nem
cachorro que não saiba!
Nesta série de leituras e releituras de que se nutre
toda literatura, podemos também lembrar que a heroína de O tronco
do ipê, Alice, tenta passar do outro lado do espelho das águas
em busca de uma solução mágica para seu amor por Mário. Este
representa a decadente aristocracia do café, espoliada por um
novo-rico tornado barão do império, que vem a ser o pai da heroína.
Alice no país das maravilhas, de Lewis Carrol, tinha sido
publicado em 1865, ano do nascimento do filho do escritor, que por
sinal dá o nome ao herói do romance. Nessa obra se encontram várias
outras aberturas para a literatura inglesa, com a qual ele se
familiariza ao se casar com Georgiana Cochrane.
Mais tarde, Mário de Andrade, na
Gramatiquinha da fala brasileira,
declara que a coragem para levar adiante a revolução lingüística e
literária que lhe parecia necessária, viera-lhe do exemplo bonito de
José de Alencar. Outro bom leitor, além de admirador confesso de
Alencar, é Gilberto Freyre, que cria e consagra para a sociologia e
a historiografia brasileiras uma expressão chave, cuja invenção se
encontra em O tronco do ipê. A invenção literária, por sua
vez, restabelece a verdadeira paternidade da célebre denominação:
A casa de habitação, chamada pelos pretos
Casa Grande, vasto e custoso edifício, estava assentada em cima de
formosa colina, donde se descortinava um soberbo horizonte.
Leitores atentos e análises minuciosas, paralelismos
esclarecedores entre ficção e história
podem fornecer novos eixos de leitura para obras da maturidade, como
O tronco do ipê ou o Memorial de Aires. A importância
da produção escravagista do café no vale do Paraíba na história do
Segundo Reinado, por exemplo, permite uma análise renovada desses
dois romances e evita opiniões do tipo é um
pesadelo
para o primeiro, ou, para o segundo, é um
livro bocejado e não escrito.
O melhor é ler com atenção, tanto o texto como o mundo em que
ele se insere, como felizmente se faz cada vez mais com Machado, e
como também pede para ser lida a obra de Alencar, como a de tantos
outros.
por
REGINA
M. A. MACHADO |
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Bibliografia
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