por RAYMUNDO DE LIMA

Formado em psicologia, mestre em Psicologia Escolar (UGF) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

 

Violência na/da Escola

 

Alunos e professores do curso de pedagogia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) escolheram o tema “Violência na e da escola” para ser examinado na IX Semana de Pedagogia do campus de Cianorte (22 a 26 de outubro de 2007) e na XIV Semana de Pedagogia do campus de Maringá (05 a 10 novembro de 2007).

Os conferencistas convidados que abriram o evento foram: a Profa. Dra. Maria das Mercês F.Sampaio, da PUC/SP, dia 23/10, em Cianorte; os Prof Drs. Roberto Silva e Flavia Schilling, ambos da Faculdade de Educação da USP/SP, dia 06/11 (manhã e noite, respectivamente). Além das conferências sobre o assunto, haverá apresentação de trabalhos científicos dos alunos de diversas instituições do país, mini-cursos ministrados por professores, oficinas, saraus, mesas-redondas, etc. 

Por que debater a violência “na” e “da” escola?

1) Porque as escolas de Maringá, Londrina, Foz, Curitiba, e demais cidades do Paraná, também aparecem no noticiário policial com casos de violência, gerando preocupação e debates na sociedade. Não se trata de indisciplina “normal”, mas de violência que envolve o estabelecimento escolar. É sabido que a violência em nossa época ultrapassa fronteiras. Os sucessivos massacres ocorridos em escolas e universidades nos Estados Unidos, a barbárie terrorista na Escola de Beslan, na Rússia, e a guerra ao narcotráfico no Rio de Janeiro, que vem impedindo o funcionamento de escolas e universidades, são indicativos suficientes para as instituições comprometidas com a pesquisa, o ensino e a extensão investiguem, façam debates e até proponham medidas preventivas dentro e fora da escola.

2) Assuntos como indisciplina, violência, estudo dos grupos, infelizmente ainda não constam no currículo de formação dos professores. Hoje não basta ao professor dominar os conteúdos. Os profissionais do ensino devem estar preparados tanto para despertar nos alunos o interesse pelo saber como lidar com a indisciplina e eventuais casos de violências físicas e psicológicas (re)produzidas na escola. O novo modelo de formação do(a) professor(a) deve ter: mais práxis, efetivo preparo científico e formação cultural. As tendências educacionais de nossa época, ainda influenciadas pelo “escolasticismo” e o “comenianismo”, inviabilizam o preparo mais consistente ou “científico”, “problematizador” da realidade contemporânea e “participante-pluralista” de uma nova geração de professores comprometida com a causa eminentemente ensinante da escola.

3) Embora alguns gloriosos professores realizam sua “formação continuada /PDE-Paraná”, e mestrandos e doutorados estejam investigando assuntos concretos do cotidiano da escola (cultura escolar, indisciplina, violência, baixo rendimento), falta também investigar a dinâmica dos grupos de jovens que sabotam aulas, praticam bullying, formam gangs para cometer pequenos crimes, ameaçam por meios eletrônicos, etc. Há que remediar esse descompasso entre o aluno “ideal” dos programas de governo e o aluno “real” da sala de aula, bem como também é preciso confrontar o currículo formal e a realidade da formação.

Indisciplina e violência

Não se deve confundir indisciplina e violência. Num ambiente com regras existe a possibilidade de haver transgressão. A indisciplina, portanto, pode ser considerada um ato “normal” de transgressão.[1] Mas, a violência tem outro sentido. “Em nossa cultura a violência é entendida como o uso da força física e do constrangimento psíquico para obrigar alguém a agir de modo contrário à sua natureza e ao seu ser. A violência é violação da integridade física e psíquica, da dignidade humana de alguém. Eis que o assassinato, a tortura, a injustiça, a mentira, o estupro, a calúnia, a má-fé, o roubo são considerados violência, imoralidade e crime” (CHAUÍ, 2000, p. 337). Ou seja, a violência se opõe a ética porque trata seres racionais e sensíveis, dotados de linguagem e de liberdade, como se fossem coisas, isto é, irracionais, insensíveis, mudos, inertes ou passivos”, complementa a filósofa M. Chauí. Ainda, é próprio da  violência perturbar acordos e regras que pautam as relações, o que lhe confere uma carga negativa, define A. Zaluar (2000). Enfim, a violência gera sofrimento, causa danos físicos e psicológicos, humilhação, desespero, desamparo, desesperança e anuncia a barbárie onde todos podem ser vítimas. Para Hannah Arendt “a violência pode destruir o poder, mas é totalmente incapaz de criá-lo”.

A escola deve contribuir para evitar que a barbárie tome conta da sociedade, alertava Adorno no pós Guerra.

Violência “na” e “da” escola

A violência que ocorre “na” escola é associada aos graves problemas sócio-econômicos das grandes cidades, o domínio do narcotráfico, as gangues, o declínio da autoridade dos pais e professores, a violência reproduzida da TV e dos jogos eletrônicos, etc.

A violência “da” escola, historicamente, reproduz as desigualdades sociais, produz castigos físicos em nome da “disciplina”, da “moral”, dos “costumes”, da “adaptação à sociedade”. A palmatória é o principal símbolo dessa educação repressiva e tradicional, infelizmente, ainda não abolida em muitas partes do mundo.

Curioso é que, a violência praticada pela professora de antigamente vem sendo substituída por uma nova forma de violência dos alunos contra os professores, seus bens, e o patrimônio da escola. Hoje, professores de todo o país sofrem desrespeito, ameaças, e agressões físicas dos alunos e pais deles.[2] Escolas são depredadas, pichadas, roubadas, aparentemente como simples vandalismo. Principalmente falta envolvimento da comunidade local para evitar que a escola seja violentada por seus próprios alunos ou estranhos, e os professores continuem sendo desrespeitados e ameaçados.

Pesquisa e prevenção

Pesquisa do ISME (Instituto SM para a Educação), em 2006, coordenada pela professora Maria Isabel Leme (USP), compara o Brasil, Argentina, Chile, México e Espanha, mostra que a relação entre alunos e professores é pior em nosso país. Cerca de 20% dos alunos não se sente bem na escola, onde sofre xingamentos (33,1); 20,1% diz sofrer agressões físicas dos colegas, e 17,1 sofre rejeição. Para a maioria dos professores (58,8%) a ausência de limites impostos pelos pais na educação dos filhos é responsável pelos conflitos entre professores e alunos.

Outra pesquisa realizada pela UNESCO, em 2002/3, revela que existe violência em 83;4% das escolas brasileiras. Os furtos ocorrem em 69,4% delas. Cerca de 60% disseram ocorrer roubo em sua sala de aula, 37% declara que já foi furtado e 69% não sabe a razão.

Enquanto a depredação do patrimônio é fenômeno que expõe o vandalismo, os casos de bullying e a violência moral, ainda são considerados simples “brincadeiras de mau gosto”. Os professores devem ficar atentos para reconhecer os indícios e agir preventivamente contra a violência psicológica. Estudos, palestras e debates ajudam a desenvolver uma consciência crítica e geram cobranças de medidas preventivas que beneficiam a vítima e o coletivo da escola. Mas, são necessárias medidas criativas e efetivas que revertam o desenvolvimento da barbárie.

A professora Marília Sposito (USP) constatou que em quinze anos, entre 1980 e 1995, foram defendidas 6092 teses de doutorado e dissertações de mestrado. Desse expressivo volume de trabalhos científicos, apenas quatro examinaram a violência que atinge a escola (SPOSITO, 1998).

Um ato criminoso que causa comoção entre alunos, professores e funcionários, ou quando é constatado o aumento da violência no espaço da escola, medidas emergenciais são tomadas visando coibir novos atos de violência. Instalar câmeras na escola, detector de metais, contratar seguranças, etc, são as medidas mais freqüentes, e muitas vezes tem inspiração política ou de marketing. Existe ceticismo sobre esse tipo de resposta “comum” do poder público e particular, visando prevenir a violência na escola. [3]

Como sinalizamos, acima, aumentou o interesse de investigar e debater sobre o assunto “violência na escola”, mas, ainda existe resistência de parte do professorado e dos governos para investir em pesquisas e debates sistemáticos sobre as causas e o “que fazer” para diminuir a violência “na” e “da” escola.

 

REFERÊNCIAS

CHAUI, M. Convite à filosofia. 7. ed. São Paulo: Ática, 2000.

COM MEDO DOS ALUNOS. Reportagem de Ruth Costas. Fonte: Revista Veja, edição,  nº  1904, 11/05/2005. 

ISME. Pesquisa coordenada pelo ISME detalha problemas de convívio nas escolas de São Paulo. Rev. Idéia, ano 5, n. 6, 2007.

OLIVEIRA, Érika C. S.; MARTINS, Sueli T.F. Violência, sociedade e escola: da recusa do diálogo à falência da palavra. Psicologia & Sociedade, São Paulo, v. 19, n. 1, p. 90-98, jan/abr. 2007. 

SPOSITO, M. A instituição escolar e a violência. Cad. de Pesquisa da Fundação Carlos Chagas. São Paulo, n. 1, jul 1981,

SPOSITO, M. Breve balanço da pesquisa sobre violência no Brasil. Educação e Pesquisa. São Paulo, v. 27, n.1, p. 87-103, jan./jun,2001.

TAVARES DOS SANTOS, J. V. A violência na escola: conflitualidade social e ações civilizatórias. Educação e Pesquisa, v. 27, n.1, p.105-122, jan./jun,2001.

ZALUAR, A. Um debate disperso: violência e crime no Brasil da redemocratização. Rev. São Paulo em Perspectiva. São Paulo, v. 3, n. 13, p.03-17, 2000.


por RAYMUNDO DE LIMA

   

 

 

 

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico

__________

[1] A indisciplina pode ser considerada “normal” até a adolescência, porque as regras de civilidade ainda não foram assimiladas totalmente. A agressividade faz parte do instinto de sobrevivência do ser humano em todas as suas fases de desenvolvimento. Martín-Baró (apud OLIVEIRA e MARTINS, 2007) observa que há necessidade de certa dose de agressividade para que o homem contemporâneo vença os obstáculos do mundo moderno. “Ser agressivo” costuma vir associado a “ser dinâmico”, “vencedor”, “ativo”.

[2] Ver matéria “Com medo dos alunos”Fonte: Revista Veja, edição,  nº  1904, 11/05/2005.

[3] Nos EUA, em 1994, cerca de 70% dos colégios norte-americanos revistavam seus alunos na entrada e faziam inspeções inesperadas em salas de aula. Falta saber se tais medidas têm sido suficientes para evitar atos de violência e de barbárie nas escolas daquele país.

 

clique e acesse todos os artigos publicados...  

http://www.espacoacademico.com.br - © Copyleft 2001-2007

É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída