Intelectuais
Brasileiros & Marxismo
Oswald
de Andrade (1890-1954)
Oswald
de Andrade nasceu em São Paulo, no início da Avenida Ipiranga, no
dia 11 de janeiro de 1890. Seu centenário está sendo comemorado
através de numerosas iniciativas, tais como exposições de
pinturas e fotografias, mostras de vídeo, programas de rádio e
espetáculos teatrais. A Secretaria de Cultura do Estado de São
Paulo e a Editora Globo estão relançando os livros do escritor,
que em geral haviam sido publicados pela Editora Civilização
Brasileira nos anos setenta: já saíram Um homem sem profissão:
sob as ordens de mamãe (memórias), Pau Brasil (poemas),
Memórias sentimentais de João Miramar (romance) e Os
dentes do dragão (entrevistas). Além disso, também em convênio
com a Secretaria de Cultura de São Paulo, a Art Editora lançou a
biografia Oswald de Andrade, que vinha sendo pacientemente
preparada por Maria Augusta Fonseca desde 1972.
É
uma excelente oportunidade para revistarmos um autor rebelde,
irreverente, brincalhão, que, exatamente por sua maneira de ser,
nem sempre foi bem compreendido e apreciado na justa dimensão do
importante papel que desempenhou na nossa história cultural.
Oswald
de Andrade foi um fecundo gerador de tumultos, um pioneiro, que se
insurgiu contra o peso de uma tradição literária impregnada de
conservadorismo e abriu caminho para a busca de formas de expressão
mais livres, mais adequadas aos novos tempos.
Filho
de uma família relativamente abastada, o moço Oswald se interessou
desde cedo pela literatura e passou a freqüentar círculos boêmios.
Como ele mesmo diz, em sua linguagem saborosa: “Embarquei sem
dificuldade na ala molhada das letras, onde esfuziava gordamente Emílio
de Menezes”. Através de Ricardo Gonçalves e Oreste Ristori, também
se aproximou com simpatia, na juventude, do inconformismo
anarquista.
Uma
viagem à Europa, em 1912, estimulou-lhe as inquietações e
proporcionou fundamentação teórica a suas posições
agressivamente antiacadêmicas. Segundo Paulo Duarte, foi Oswald
quem, na sua volta a São Paulo, deu início ao movimento
modernista, que aboliu na poesia as exigências da métrica e da
rima: “o modernismo chegava pela primeira vez no Brasil em 1912,
com o regresso de Oswald de Andrade, trazendo no bolso o Manifesto
futurista de Marinetti”.
Em
1917, conheceu Mário de Andrade no Conservatório Dramático e
Musical de São Paulo e ficou entusiasmado com a cultura e a inteligência
do novo amigo. Mário, por sua vez, apesar da diferença de
temperamento, não podia permanecer imune ao charme de Oswald e dele
recebeu influências e incentivos que não são nada desprezíveis.
A atuação conjunta dos dois foi decisiva para a criação das
condições em que se realizou a “Semana de Arte Moderna” de
1922.
Oswald
prosseguiu sua caminhada, fez uma nova viagem à Europa, voltou ao
Brasil; publicou os versos de Pau Brasil; polemizou com o
“grupo da Anta” (de Plínio Salgado), chamando-o de “tribo
sacripanta”; foi outra vez à Europa, conheceu Picasso, Valéry
Larbaud e Jean Cocteau; e, retornando ao nosso país, lançou a Revista
de Antropofagia. Os esforços libertários da nossa cultura –
segundo ele – não poderiam dispensar as idéias e expressões artísticas
produzidas por outros povos. Porém precisavam assumir em face das
produções estrangeiras uma atitude resolutamente “antropofágica”
(em vez de imitá-las ou copiá-las, deveríamos “devorá-las”,
como os índios fizeram com o bispo Sardinha, que naufragou no
litoral da Bahia).
No
final dos anos vinte, verifica-se uma guinada brusca na vida de
Oswald. A quebra da Bolsa de Nova Iorque afetou a economia dos
cafeicultores paulistas e atingiu a base da prosperidade da família
do escritor. Comparecendo a um Congresso da Lavoura, em fins de
1929, ele conta que propôs aos latifundiários de São Paulo que
dividissem com os trabalhadores os lucros de suas fazendas e foi
expulso da assembléia. Na mesma época, seu casamento com a pintora
Tarsila do Amaral chegou ao fim, precipitado por uma escandalosa
ligação de Oswald com a moça Patrícia Galvão (Pagu), vinte anos
mais jovem que ele.
Em
companhia de Pagu, Oswald foi em 1931 a Montevidéu e, de acordo com
seu relato, passou três noites conversando com Luís Carlos Prestes
nos cafés da capital do Uruguai, ouvindo o “Cavaleiro da Esperança”
discorrer sobre a doutrina do comunismo, que, por assim dizer,
acabara de adotar. De volta a São Paulo, o casal se filiou ao
Partido Comunista do Brasil. Mergulhados na militância, Oswald e
Pagu editam um jornal, O Homem do Povo, que se
notabiliza pela criatividade, pela audácia, pela contundência de
seus ataques ao conservadorismo. O Homem do Povo,
contudo, não durou muito: tirou oito edições e foi empastelado
por estudantes de direito, insuflados pela direita e com a conivência
da polícia.
Oswald
era ferino, devastador, em suas críticas. Chamava Getúlio Vargas
de “anão subversivo”. Lindolfo Collor, em vez de ser ministro
do Trabalho, era o “sinistro do Trabalho”. Referia-se aos
cafeicultores e à Faculdade de Direito como “dois cancros de São
Paulo”. A causa do comunismo, a que tinha aderido num movimento de
“conversão” (e com a exaltação dos “convertidos”),
fortalecia-o na convicção da legitimidade de seus rompantes mais
destrutivos: se a sociedade comunista era possível, em nome da
revolução capaz de criá-la os golpes mais truculentos podiam ser
considerados justos.
No
prefácio que escreveu em 1933 para o romance Serafim Ponte
Grande fez um balanço do caminho que havia percorrido e afirmou
que na “bosta mental sul-americana” o contrário do burguês não
era o proletário, mas o boêmio: “ignorando o Manifesto
comunista e não querendo ser burguês, passei naturalmente a
ser boêmio”. Admitiu que a burguesia não tinha sido realmente
ameaçada por sua boemia, porém se alegrou com a idéia de que não
se deixara convencer pelos valores da classe dominante: “do meu
fundamental anarquismo jorrava sempre uma fonte sadia, o sarcasmo.
Servi à burguesia sem nela crer”. E concluiu se declarando
“enojado de tudo. E possuído de uma única vontade. Ser, pelo
menos, casaca de ferro na Revolução Proletária”.
No
primeiro volume de Marco zero (intitulado A revolução
melancólica), cuja redação começou em 1933, Oswald punha na
boca de um personagem (Leonardo) uma denúncia veemente da sociedade
burguesa, que promovia “o massacre sádico e ao mesmo tempo científico
da massa trabalhadora, levado a cabo legalmente nos escritórios dos
advogados, nos conclaves dos bancos, nos corredores da política”.
E o levava a encerrar sua argumentação com a tese de que só havia
dois caminhos para enfrentar a situação: o de Lênin ou o de Al
Capone.
Nas
peças de teatro O rei da vela (escrita em 1933) e O homem
e o cavalo (publicada em 1934) – dois textos que na época não
puderam ser encenados –, Oswald também manifestava sua paixão
comunista. O personagem Abelardo I, de O rei da vela, fala da
ofensiva fascista: “há um momento em que a burguesia abandona a
sua velha máscara liberal. Declara-se cansada de carregar nos
ombros os ideais de justiça da humanidade, as conquistas da
civilização e outras besteiras! Organiza-se como classe.
Policialmente”. O escritor se servia de Abelardo I, burguesão cínico,
para expressar sua convicção de que o comunismo era a única reação
enérgica possível ao fascismo.
Em
O homem e o cavalo se ouvia a voz de Stálin anunciando os êxitos
da industrialização na União Soviética. São Pedro, interrogado
por um tribunal revolucionário, reconhecia que o céu era “uma
tapeação de classe” e declarava: “Eu sou materialista. Nunca
acreditei em Deus, nem quando andei com ele pela Terra Santa”.
Umas das cenas da peça mostrava duas crianças educadas no sistema
comunista explicando a uma terceira que os proprietários eram seres
que obrigavam os outros a trabalharem para eles e, para iludir os
explorados e manter o sistema da exploração, contavam com a ajuda
de “piratas que se chamavam sacerdotes”, que “inventavam que
havia um ser supremo e terrível”. Mas “a teoria de Marx
penetrou nas massas e se tornou força social. Os ricos e
politiqueiros que ficaram vivos e não quiseram trabalhar conosco
envelhecem hoje, honradamente, esmolando nas portas das usinas
socialistas”.
Oswald
se servia da “teoria de Marx” para assustar a burguesia, dando
continuidade a uma ação contestadora que se iniciara bem antes da
sua “conversão” ao comunismo. De certo modo, apesar da ênfase
com que se refere a Marx, há indícios de que não se aprofundou no
estudo das obras do pensador revolucionário alemão. No segundo
volume do romance Marco zero (intitulado Chão), o
autor narra o que se passa na cabeça do personagem Rioja e diz:
“Voltava-lhe à cabeça uma frase de Karl Marx que anotara numa
edição espanhola do Capital – A ideologia [...] a
propaganda [...] não se lembrava mais como era [...] quando penetra
na massa se torna força social”. A hesitação do personagem na
reprodução da frase contrasta com a precisão da informação dada
pelo narrador, segundo a qual o texto se encontrava “numa edição
espanhola do Capital”. No entanto, Oswald se equivocava: a
frase – que é citada mais de uma vez em sua obra – não está
n’O capital, mas na Introdução à crítica da
filosofia do direito da Hegel (um ensaio da juventude de Marx).
O
entusiasmo pelo comunismo durou até 1945. o Estado Novo estava
chegando ao fim, Oswald escreveu a Prestes e foi visitar o líder
comunista na prisão. Quando Prestes saiu da cadeia, Oswald
pretendeu saudá-lo no grande comício do Pacaembu (15-7-1945) em
nome dos intelectuais, porém quem foi designado pela direção do
partido para falar foi Jorge Amado. Cada vez mais decepcionado com a
agremiação, Oswald passou a preconizar sua autodissolução,
propondo que os comunistas se integrassem a uma frente progressista
hegemonizada pelas “forças avançadas da burguesia”. Estava
convencido de que “o eixo da revolução se achava na burguesia
progressista e não no proletariado amortecido pelas leis sociais”
(entrevista ao Diário de São Paulo, 11-11-45, reproduzida
no volume Os dentes do dragão). Nessa época, estava
fascinado pelas idéias de Earl Browder, um marxista norte-americano
que tinha proposto nos Estados Unidos a transformação do PC em
elemento impulsionador de um novo movimento democrático, mais
amplo, no interior do qual os comunistas atuariam em perfeita
simbiose com outras correntes.
O
Partido Comunista do Brasil não seguiu o caminho que o escritor lhe
recomendava e Oswald convenceu-se de que a organização voava para
um desastre: “atirei-me de pára-quedas de um avião sinistrado,
deixando a tempo o Partido Comunista”. O afastamento, entretanto,
não se deu sem um travo de amargura. E o autor de O rei da vela concentrou
sua irritação em Jorge Amado, a quem chamou de “Münchausen da
linha justa”, acusando-o de, no Jornal Meio Dia (onde ambos
tinham trabalhado juntos), ter mantido ligações com alemães
nazistas nos meses em que prevaleceu o Pacto Ribbentrop-Molotov,
antes de Hitler ordenar a invasão da União Soviética: “Em 1940
Jorge convidou-me no Rio para almoçar na Brahma com um alemão
altamente situado na embaixada e na agência Transocean, para que
esse alemão me oferecesse escrever um livro em defesa da Alemanha.
Jorge depois me informou que esse livro iria render-me 30 contos.
Recusei, e Jorge ficou surpreendido, pois aceitara várias
encomendas desse gênero do mesmo alemão” (Os dentes de dragão).
A
ruptura com o PC obrigou Oswald a repensar suas posições teóricas
e sua relação com o marxismo. Referiu-se ao “caráter odioso de
revelação que tomou o marxismo na militância”, num desabafo
feito a Paulo Mendes Campos (em 12-10-47). Resolveu retomar sua
reflexão sobre a antropofagia como “visão do mundo”:
“Só depois da minha ruptura com os comunistas em 45 é que estou
estudando profundamente o assunto, pois somente a partir dessa data
me foi possível uma recuperação intelectual que eu aconselharia
ao sr. Caio Prado júnior”, declarou a um jornalista da revista Trópico
(2-5-50).
Na
verdade, sentia-se confuso, meio perdido. Numa das crônicas
reunidas por Vera Chalmers no volume Telefonema, dizia:
“Somos todos mais ou menos personagens d’O processo de
Kafka” (2-12-49). Em 1948 teve um curto período de enternecimento
diante de Getúlio Vargas, político que sempre abominara (e que em
seguida voltou a abominar). Meteu-se numa aventura eleitoral,
candidatando-se a deputado federal pelo partido de Hugo Borghi em
1950 (foi derrotado). Em A crise da filosofia messiânica e
em A marcha das utopias, emprenhou-se em esclarecer suas idéias
(Leo Lince está preparando um importante estudo sobre esses dois
textos).
Nos
últimos anos de vida, cuidado pela mulher (Maria Antonieta), diabético,
sentia a aproximação do fim: “os pés inchados me
impossibilitaram de andar”. Mas continuava a empunhar a
metralhadora giratória, lançado farpas contra José Lins do Rego,
contra “os livros analfabetos do teatrólogo Nelson Rodrigues”,
contra Sérgio Milliet, contra Guilherme de Almeida (“o pior poeta
paulista”), contra Augusto Frederico Schmidt (“o pior poeta
brasileiro”) e muitos outros. Dava tiros à esquerda e à direita.
Numa entrevista a Frederico Branco, aliás, afirmou: “Direita e
esquerda são termos que não representam mais nada” (Correio
Paulistano, 7-6-53).
03-10-1990
KONDER,
Leandro.
Intelectuais
Brasileiros e Marxismo.
Belo
Horizonte: Oficina de Livros, 1991, pp. 35-41.
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