Rússia
1917, Espanha 1937: nascimento e morte de duas esperanças utópicas
(I)
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TERRA
E LIBERDADE (Land and Freedom)
ITÁLIA, ESPANHA, REINO UNIDO E ALEMANHA 1986
DIREÇÃO: Ken Loach
DURAÇÃO 109 minutos
ELENCO: Ian Hart, Rosana Pastor, Icíar Bollaín, Tom Gilroy e
Marc Martinez
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Uma
esperança utópica nasceu em 1917, quando a insurreição
de outubro cravou o comunismo no centro de oito décadas do
século XX. A outra morreu em 1937, quando a revolução
espanhola foi finalmente controlada, desarmada e
desmoralizada no golpe de maio em Barcelona. O comunismo
sobreviveu à tragédia espanhola, mas a revolução proletária
socialista desapareceu da história, relegada a partir de
então a mera ameaça caricatural nas mãos dos que ajudaram
a enterrá-la.
O
comunismo nasceu de fato quando os bolcheviques tomaram o
Palácio de Inverno e depuseram o governo provisório, no
que parecia um golpe militar fortuito, despercebido no
momento até para transeuntes das ruas próximas. A formação
do governo bolchevique, contudo, liberou de forma
insuspeitada o formidável impulso da Revolução Russa,
iniciada longos meses antes, em fevereiro, com o levante
quase espontâneo dos trabalhadores de Petrogrado contra os
horrores da guerra imperialista a que estavam submetidos
desde 1914.
A
segunda maior revolução operária do século XX começou
na Espanha em 1936, também de forma quase espontânea,
quando os trabalhadores transformaram o modesto programa da
Frente Popular, a campanha eleitoral e a vitória nas urnas
em ação revolucionária contra o capital. A resistência
dos trabalhadores ao levante fascista de julho de 1936 também
liberou em plenitude o formidável impulso da Revolução
Espanhola.
Na
Rússia de 1917 o golpe militar bolchevique de outubro deu
curso livre à revolução. Na Espanha de 1936-37, os
comunistas, herdeiros do bolchevismo, organizaram o golpe
militar de maio para conter a revolução, para desarmá-la
e liquidá-la.
A
esperança utópica comunista sobreviveu aos horrores
perpetrados na Espanha, aos assassinatos de opositores e de
seus próprios combatentes, mas sobreviveu ferida,
transformada em instrumento da tirania totalitária a que o
regime bolchevique conduziu.
Na
Espanha morreu a esperança utópica e secular da revolução
operária, a utopia da massa proletária destinada a se
erigir em classe dominante, classe capaz de organizar a
produção socialista e, ao fazê-lo, extinguir
progressivamente todas as classes, toda a opressão política,
econômica e social sobre os trabalhadores, sobre a grande
maioria da humanidade.
A
esperança no proletariado revolucionário morreu porque
nunca mais se materializou, morreu por se transformar em
promessa cada vez mais distante dos sonhos dos que deveriam
um dia fazê-la real, daqueles que tentaram fazê-la real na
Rússia de 1917 e na Espanha de 1936.
A
esperança na Comuna, herdeira de antigos sonhos libertários,
tantas vezes ensaiada, acreditava que o século XX iria trazê-la
enfim à luz, pelas mãos das massas operárias agrupadas
pelo capitalismo triunfante nas grandes cidades européias.
Em
dois extremos da Europa a Comuna brilhou intensamente, mas
logo se consumiu.
A
Rússia Soviética foi clarão que sobreviveu ao próprio
brilho, a Alemanha de 1919 se desfez depressa, a Espanha de
1936 foi brilho fugaz e curto, liquidado já no ano
seguinte.
Dois
tempos longos se cruzaram em vinte anos cruciais. A esperança
na revolução proletária, vinda de tão longe, esgotou-se
na Espanha de 1937, com a ajuda inestimável dos herdeiros
da grande esperança de 1917 que sobreviveria por várias décadas
como fantasma insepulto da esperança morta em 1937.
Comemorações
da insurreição de 1917, momento decisivo da grande revolução
começada em fevereiro, não deveriam esquecer o golpe de
1937, momento decisivo do aniquilamento da grande revolução
de 1936, coveiro da utopia da Comuna libertária proletária
que pareceu se afirmar em 1917.
Quando
tanto se fala de outubro de 1917, quero lembrar maio de
1937.
Não
tenho palavras novas e não quero procurá-las. Reproduzo as
palavras que escrevi dez anos atrás, na emoção de Terra
e Liberdade, o belo filme que fez chorar a mim e a
tantos de nós.
São
dois artigos publicados na revista Teoria e Debate,
motivados pelo surpreendente sucesso do filme de Ken Loach
em São Paulo.
Vale
a pena ver de novo, vale a pena comemorar de novo, vale a
pena questionar de novo. |
Terra
e Liberdade:
a
revolução espanhola de volta ao cinema
A
revolução aparece em fotos amareladas, recortes de jornais, um lenço
vermelho com um punhado de terra. A mala de recordações do avô
revirada pelo olhar curioso da jovem neta. Tudo aquilo é novidade
para ela? Seriam histórias contadas e recontadas pelo velho e seus
amigos, sabidas de cor pelos netos, e que só agora, na dor da
morte, ela quer enfim olhar com vistas próprias? Ou só terá
descoberto a mala e aquele mundo quando o avô já se fôra?
O
jovem David, operário inglês desempregado, membro do Partido
Comunista, partiu por conta própria para a Espanha como voluntário.
Foi parar no centro da revolução e dos graves conflitos que a
destruiriam meses depois. Alistou-se meio por acaso na milícia do
POUM, partido de que nunca ouvira falar.
Tudo
ali é improvisado, desordenado. O comandante quer imprimir alguma
disciplina militar. Parece inútil, ou até cômico. Mas foram
pessoas como aquelas que derrotaram o levante fascista em metade da
Espanha poucas semanas antes. Sem armas e sem disciplina, o povo
cercou os quartéis e imobilizou os rebeldes. Alguns generais
golpistas hesitaram, outros permaneceram leais à república, uns
poucos não quiseram ou não puderam impedir que os civis se
apoderassem de algum armamento. Com estas poucas armas, com bombas
caseiras e dinamite, com as mãos quase nuas, os trabalhadores
liquidaram o levante na maioria das grandes cidades, tomaram os
quartéis dos rebeldes e se tornaram o poder de fato em boa parte do
país.
A
sublevação militar fascista queria liquidar a revolução
espanhola, e não apenas a república. Instaurada em 1931, a república
era odiada pela direita, mas não conseguira encaminhar políticas
que atendessem aos interesses da maioria do povo espanhol. A repressão
ao movimento operário prosseguiu, a reforma agrária não saía do
papel. O levante dos mineiros nas Astúrias em 1934 foi esmagado
selvagemente pelos militares, comandados pelo general Francisco
Franco. A luta heróica e a grave derrota estimularam a reaproximação
das forças populares.
No
Partido Socialista destacava-se nitidamente uma ala esquerda, com
posições cada vez mais radicais e procurando agir em conjunto com
os anarquistas, depois de terem vivido às turras por décadas. O
anarquismo era amplamente majoritário na Catalunha, especialmente
em Barcelona, mas também nas regiões agrárias vizinhas e na
Andaluzia, e representava mais da metade do movimento operário e
camponês de toda a Espanha. Os comunistas tinham influência muito
reduzida no movimento operário. Uma de suas facções formou o POUM,
Partido Operário de Unificação Marxista. Organizado em 1935,
definia-se como marxista revolucionário e mantinha boas relações
com os anarquistas. Era violentamente criticado pelo PC e pelos
trotsquistas, com os adjetivos infamantes típicos da época. Sua
influência era pequena, mas vinha crescendo com certa rapidez,
especialmente na Catalunha.
Em
1935 formou-se uma coligação eleitoral, a Frente Popular,
envolvendo o PS, o PC e alguns partidos centristas e antifascistas.
A promessa de anistia aos milhares de presos políticos foi decisiva
para convencer os anarquistas a votar. Em fevereiro de 1936 a vitória
eleitoral da Frente Popular transformou-se rapidamente em um
movimento revolucionário. Os presos foram arrancados das cadeias
por multidões eufóricas e autoconfiantes. As greves iam num
crescendo, com seguidas vitórias em suas reivindicações.
Multiplicavam-se as ocupações e as coletivizações de terras.
O
governo da Frente Popular ficou desorientado. Socialistas e
comunistas não integravam o ministério, embora apoiassem o
governo. Os partidos republicanos hesitavam. Os generais, a direita,
a igreja e os fascistas conspiravam abertamente. "Exilado"
pela Frente Popular no Marrocos, colônia espanhola, Franco
comandava os preparativos para a sublevação. Para transportar as
tropas coloniais até o continente, incluindo soldados árabes (os
"mouros"), os golpistas dependiam do apoio da aviação
nazista. Não contavam, porém, que o povo fosse reagir com tamanha
fúria e determinação, derrotando o levante nas principais cidades
do país. Começava uma guerra longa e sangrenta, que se estenderia
até março de 1939.
As
jornadas de julho de 1936 geraram um triplo poder na Espanha. Cerca
de metade do país ficou em poder dos militares e dos grupos
fascistas, sob o comando dos "quatro generais" sublevados,
aos quais Franco acabaria se impondo como comandante único. Na
outra metade o poder legal era o governo republicano de Madri,
apoiado por parte das forças armadas, pelos partidos centristas,
pelo Partido Socialista e pelos comunistas. Na maior parte da
Espanha republicana, porém, o poder de fato era dos trabalhadores.
Organizados em milícias e sob o impulso das grandes vitórias de
julho, tomaram terras e fábricas e passaram a tocar a produção
por conta própria em muitas regiões.
Os
partidos e as organizações dos trabalhadores, contudo, não
tomaram o poder político, não trataram de organizar um novo
governo. Comunistas e socialistas mantinham o apoio ao governo da
Frente Popular. O líder da ala esquerda do PS, Largo Caballero,
tornou-se primeiro-ministro.
Os
anarquistas tornaram-se o único poder de fato em Barcelona e na
maior parte da Catalunha, situação inédita em sua história.
Derrotado o levante, o governo regional catalão chamou os líderes
anarquistas e colocou-se à disposição para fazer o que eles
quisessem, inclusive apoiá-los na organização de um novo governo.
Os anarquistas recusaram. Deixaram o governo no seu posto, aceitaram
alguns cargos de menor importância e se dedicaram a organizar a
produção coletiva em fábricas e fazendas e a combater os rebeldes
fascistas, formando milícias para defender a Catalunha e libertar
as províncias vizinhas, em especial o Aragão.
David
chega à Espanha neste momento, outono de 1936. É engajado nas milícias
revolucionárias que defendem as posições republicanas na
Catalunha e no Aragão. Algumas semanas depois as milícias passam
à ofensiva para libertar as aldeias dominadas pelos fascistas.
David descobre o que é a guerra. Na aldeia atacada pelos milicianos
a população cai no meio do fogo cruzado. Os fascistas usam
mulheres como reféns. Da torre da igreja, o padre atira nos civis e
nos milicianos. Enfim agarrado, descobre-se que ele havia denunciado
os jovens anarquistas da aldeia às tropas fascistas e ajudado a
assassiná-los. O padre é fuzilado, a igreja é incendiada.
Os
camponeses ocupam a casa do chefete local e discutem de forma
apaixonada se devem coletivizar todas as terras ou não. David
parece confuso com a exaltação dos ânimos. Estão contra a
coletivização um camponês enriquecido e alguns dos estrangeiros.
A coletivização é decidida no voto, por ampla maioria.
Será
que David sabia do que se passava em outras partes da Espanha
naqueles meses? Se sabia, o que pensava? Enquanto na frente de Aragão
se discutia a aplicação imediata ou não do programa revolucionário,
Franco concentrava suas forças para conquistar Madri. Batalhas
ferozes se sucediam nos arredores da capital ameaçada. O governo se
retirou para Valência e a cidade ficou nas mãos das poucas tropas
leais, do povo armado e das brigadas internacionais.
A
heróica defesa de Madri fortaleceu o prestígio e a influência dos
comunistas. Organizadores competentes e incansáveis, apareciam como
os únicos que sabiam exatamente o que fazer e os únicos
capacitados a fazê-lo. Sua política era simples: submeter tudo ao
esforço de guerra. Para eles a revolução social era um equívoco
naquele momento. Coletivizar terras ou aplicar medidas socialistas
seria um apoio efetivo aos fascistas, pois desuniria a frente
popular e isolaria a república do possível apoio externo da França
e da Inglaterra, abrindo caminho para uma intervenção aberta da
Alemanha nazista e da Itália fascista. Conselheiros soviéticos
auxiliavam as tropas mal preparadas a defender Madri. Nas brigadas
internacionais os comunistas de muitos países se destacavam pela
abnegação e pela disciplina. O material bélico que chegava da
URSS era pouco, mas era o único que a república conseguia obter.
Junto
com o prestígio dos comunistas crescia sua hostilidade aberta às
outras forças de esquerda, em especial os anarquistas e o POUM.
Para agravar o quadro, a coluna anarquista formada em Barcelona para
defender Madri não se saía bem naquele tipo de luta, na qual não
tinha qualquer experiência ou preparação. Era uma luta de
trincheiras, casa por casa, prédio por prédio, diante de tropas
bem preparadas, as melhores que os generais sublevados conseguiram
reunir. Os anarquistas eram bravos e heróicos, mais de metade deles
morreu ali, mas não conseguiam deter o avanço dos mouros nos
trechos a eles confiados. A falta de disciplina e de organização
aparecia cada vez mais como um problema decisivo frente à ameaça
mortal representada pelas tropas de Franco. Se os mouros tomassem
Madri, não haveria revolução nem frente popular.
Os
fascistas foram afinal detidos nos arredores da cidade, depois de
combates sangrentos. No início de 1937 os comunistas apresentaram a
fatura. Exigiram a integração das milícias no exército regular,
o fim das coletivizações e a devolução das propriedades a seus
donos. Mais grave ainda, a máquina policial soviética operava com
crescente desenvoltura em território espanhol. Forjaram acusações
de que o POUM conspirava com Franco e de que os anarquistas
preferiam a vitória dos fascistas a uma política de colaboração
com os demais partidos da Frente Popular. Os socialistas de esquerda
se opuseram às intrigas, mas os comunistas conseguiram a demissão
de Largo Caballero. Formou-se um governo bem mais à direita e que
deixou os comunistas à vontade para liquidar seus adversários na
esquerda e acabar com as milícias e as coletivizações.
Recuperando-se
de um ferimento em um hospital de Barcelona, David não parece
compreender bem o que ocorre. Prefere confiar que o partido deveria
ter razões para fazer tudo aquilo. Abandona a milícia do POUM e se
alista nas brigadas internacionais, controladas pelos comunistas.
Neste momento, maio de 1937, estoura o conflito armado em Barcelona.
O PC decide tomar o prédio da companhia telefônica, em poder dos
anarquistas desde as jornadas de julho de 1936. Provocação
deliberada ou apenas mais um passo na escalada para assumir o poder
completo e destruir a esquerda?
Os
operários anarquistas entrincheiram-se no prédio, dispostos a
resistir a qualquer preço. Não conseguiriam mantê-lo por mais que
alguns dias e logo deporiam as armas. Acusados de agentes
provocadores e aliados do fascismo, o POUM e a Federação
Anarquista Ibérica, FAI, foram declarados ilegais. Líderes do POUM
retirados em segredo das prisões foram assassinados por agentes
soviéticos. A revolução espanhola chegara ao fim, embora a guerra
ainda fosse prosseguir por quase dois anos mais.
A
esquerda não-comunista estava enfraquecida e intimidada e não
conseguiu reagir à altura quando os comunistas provocaram os
conflitos armados nas ruas de Barcelona. É espantoso que isto possa
ter ocorrido com as mesmas forças que a reação espanhola não
conseguira dobrar depois de décadas de repressão brutal e sistemática.
As mesmas forças que, menos de um ano antes, haviam derrotado o
levante dos militares em condições bem mais adversas, quase sem
armas e tomadas de surpresa.
É
impossível explicar uma mudança desta magnitude apenas pela violência
implacável dos comunistas. O rápido debilitamento da esquerda
revolucionária deveu-se muito mais às suas próprias dificuldades
para enfrentar a conjuntura criada pelo magnífico triunfo de julho
de 1936. Foi fatal o desinteresse ou a incapacidade de organizar o
poder conquistado. Os que detinham o poder de fato, como os
anarquistas na Catalunha, não tinham clareza sobre a necessidade de
transformá-lo em poder efetivo, em um novo governo. Os que sabiam
que organizar o poder seria decisivo, caso dos comunistas, queriam
concentrar o poder exclusivamente em suas mãos, para deter a revolução
e acabar com a ação independente dos trabalhadores, acabar com os
comitês populares e com as milícias armadas.
Nos
meses seguintes os principais líderes anarquistas hesitaram
continuamente em colaborar ou não com o esforço de guerra nos
moldes propostos pelos comunistas. Hesitaram em submeter ou não as
milícias à disciplina exigida pelos conselheiros soviéticos, em
condições que implicavam o fim do caráter revolucionário das
tropas. Fábricas e fazendas coletivizadas sofriam com as restrições
e a sabotagem do governo e dos capitalistas. Organizações
anarquistas de base denunciavam os seus líderes inclinados a
colaborar com os comunistas e a aceitar a restauração de aspectos
cada vez mais importantes do antigo regime. Uma facção do POUM
rompeu com sua direção, acusando-a de falta de espírito
revolucionário.
David
acaba envolvido no conflito pelo prédio da telefônica e só então
percebe a gravidade dos acontecimentos. Abandona o tiroteio, dizendo
a si mesmo que não dava mais para continuar naquilo. Rasga sua
carteira do PC britânico e volta para a milícia do POUM, a tempo
de participar de uma batalha desesperada com as tropas fascistas em
que os milicianos são deixados à própria sorte, sem apoio nem
cobertura. É o fim. Após uma retirada difícil, a Guarda Civil e o
Exército aparecem para dissolver a milícia e prender seus líderes,
acusados de colaborar com os fascistas. No tumulto, atiram nos
milicianos que haviam acabado de voltar das trincheiras. Mortos e
feridos. David tem que fugir da Espanha republicana. Acaba aí seu
relato.
Tudo
muito chocante e cruel para o nosso olhar, sessenta anos depois.
Muitos de nós choramos na platéia. A dor é insuportável. Como
pode ter ocorrido tudo aquilo?
A
dor é tão grande quanto a consciência de quão grosseiras e
superficiais são as respostas simplificadoras, repetidas durante
tantos anos, sempre colocando os trabalhadores como vítimas de
alguma "direção traidora", como se os próprios
trabalhadores não fossem responsáveis por sua história e como se
as tais direções não fossem formadas em grande parte pelos
trabalhadores mais interessados e mais experientes na luta sindical
e política, os mais capacitados para dirigi-la.
A
dor é tão grande quanto a consciência de que o impasse criado em
julho de 1936 era real. Levar a revolução adiante demandava a
ampliação das coletivizações e do controle popular sobre a produção
e o fortalecimento das milícias armadas. Isto só seria possível
pelo desmantelamento do Estado e de sua autoridade. Os anarquistas não
se propunham a fazê-lo, os poumistas queriam fazê-lo mas não
tinham força para tal, os socialistas de esquerda apoiariam quem
fizesse mas não tinham disposição para tomar a iniciativa. Por
outro lado, reforçar o governo republicano e ganhar a confiança de
Paris e Londres só seria possível sufocando a revolução:
devolver fábricas e terras, dissolver as milícias e submeter seus
membros à disciplina do Exército regular. Os socialistas de
direita queriam fazê-lo, mas não tinham autoridade política para
tanto. Os comunistas o fizeram, com os métodos implacáveis do
stalinismo.
A
dor é tão grande quanto a consciência de que a possibilidade de
levar adiante a revolução em 1936 não era um delírio irresponsável
dos anarquistas. Poucas vezes os trabalhadores estiveram tão próximos
do poder como na Espanha. O poder não estava ao alcance de suas mãos:
estava praticamente em suas mãos. Os operários industriais
passavam massivamente a posições revolucionárias, crescia um
amplo movimento camponês disposto a invadir e coletivizar as
terras. As idéias revolucionárias estavam profundamente difundidas
e enraizadas em grande parte dos trabalhadores e da sociedade
espanhola. O capital estava desorientado e dividido, havia uma grave
questão nacional separando a Catalunha e o País Basco do governo
de Madri. A sublevação militar empurrara a maior parte do povo
para a revolução.
O
contexto internacional era favorável e dava margem de manobra para
a revolução, como na Rússia de 1917. A Frente Popular estava no
governo na França e ainda não havia se desmoralizado, os EUA
resistiam a intervir na Espanha e a Inglaterra hesitava em tomar
atitudes que pudessem internacionalizar o conflito espanhol e abrir
caminho para a intervenção militar aberta da Alemanha no sul do
continente. Declarar a independência do Marrocos poderia
enfraquecer as tropas de Franco. Em boa parte da Europa parcela
crescente dos social-democratas passava a posições radicais e
aceitava a unidade de ação com os comunistas e os anarquistas. A
ânsia de derrotar o fascismo era enorme. A simpatia pela luta
antifascista e pela revolução espanhola atraiu grande número de
voluntários, de todas as correntes políticas de esquerda e democráticas,
intelectuais, operários, exilados, perseguidos políticos.
Os
argumentos dos comunistas não eram absurdos, porém. Apostar na
revolução era muito arriscado, por certo, e a ameaça militar dos
golpistas era muito real. O aumento do seu prestígio se deveu em
parte a esta consciência clara. Deveu-se também ao medo do
desconhecido, ao medo da revolução. As camadas médias que odiavam
o fascismo também odiavam os anarquistas e temiam o povo
organizado. Ofereciam sólida base de apoio para a política dos
comunistas. A burguesia republicana não tinha escolha: ou dava
liberdade de ação aos comunistas ou se rendia a Franco.
Mas
os comunistas não eram apenas mais uma força política espanhola,
com opiniões próprias sobre questões complexas. Eram também uma
força de natureza totalitária. Queriam submeter tudo a seu
controle e acabar com a ação independente dos trabalhadores. E
mais: representavam os interesses de uma grande potência
estrangeira, de sua política externa. A URSS não queria a revolução
na Espanha. Tudo devia ser submetido à busca de um acordo defensivo
com a França e à neutralização da Inglaterra e dos EUA, para
evitar a formação de um bloco único com a Alemanha para
agredi-la. Cruel ironia: em 1941 a Alemanha agrediu a URSS sem
qualquer ameaça a oeste, dispondo da indústria e dos recursos
naturais da França e de boa parte da Europa ocupada.
Não
sabemos o que David pensou de tudo isso nos longos anos que se
passaram desde que saiu da Espanha revolucionária. Terá se
empenhado em discutir e compreender? Terá guardado a dor em silêncio?
David agora está morto, a revolução também. A terra da Espanha e
o lenço vermelho o acompanham. À beira do túmulo a neta declama
um belo poema, quer trazer de volta a esperança. Os velhos amigos
cerram os punhos. Como nos velhos tempos.