por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. É autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Cartas de recomendação: 

reflexões sobre uma (não) prática nacional

 

Recentemente, uma pessoa que conheço no Brasil precisava de uma carta de recomendação. Ele está terminando a faculdade, e quer seguir carreira estudando o mestrado e o doutorado nos Estados Unidos. Para a sua área, esta é uma boa opção e há possibilidades de uma bolsa completa que cobriria a mensalidade, seguro de saúde, e ainda daria a este estudante um pequeno salário. Tudo isto, a troco de 20 horas semanais trabalhadas dentro da própria universidade, em um dos laboratórios do departamento.

Só que, para conseguir se candidatar a esta posição, todo candidato tem que fazer algumas coisas, entre elas o TOEFL (Test of English as a Foreign Language), que testa a parte mais lingüística, e o GRE (Graduate Record Exam), que testa especialmente o raciocínio lógico, matemática, e conhecimentos desta área. Tem também que mandar o histórico escolar da universidade que freqüentou no Brasil, uma carta de auto-apresentação explicando porque quer estudar no departamento, e quais características têm como estudante. Por fim, o candidato tem que ter três cartas de recomendação de ex-professores ou, em alguns casos, de gerentes ou chefes.

Meu conhecido estava se preparando para o TOEFL e já estudando para o GRE nos dois últimos anos da faculdade. Além do mais, tinha excelentes notas. Deixou para falar das cartas de recomendação com os professores agora em outubro, para ter certeza que eles o conheciam muito bem e já tinham visto o seu trabalho. Ele pensou que seria fácil conseguir as cartas.

Mas o resultado foi, se não completamente negativo, pelo menos frustrante e humilhante. Uma professora taxativamente se recusou a dar a carta. “Não conheço você direito,” ela disse. O outro, disse que daria a carta, mas que não usaria nenhum papel oficial da universidade. Uma terceira pediu um formulário para preencher, dizendo que tem muito que fazer e não tem tempo de revisar a carreira do aluno pra poder escrever carta alguma.

Logicamente, este não é um caso isolado. Já várias pessoas — amigos, conhecidos, parentes no Brasil – têm comentado este problema. E eu ainda me lembro muito bem que, quando estava juntando a papelada para fazer meu doutorado na University of Pittsburgh, e precisava de cartas de recomendação de meus ex-professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro onde eu tinha recém terminado o mestrado, nenhum deles sequer respondeu minhas cartas com meu pedido. No meu caso, tive que apelar para pessoas que me conheciam há menos de um ano na cidade em que eu morava na Pensilvânia, as quais me pediram para ler meus trabalhos do mestrado, e conversar comigo sobre minha experiência profissional e meus planos para o doutorado, para poderem escrever as cartas atestando o que tinham observado e como viam meus prospectos como estudante de pós-graduação em Pittsburgh. Aquelas pessoas, que me conheciam há pouco tempo, foram generosas, especialmente contrastando com professores do meu próprio país, que tinham trabalhado comigo por mais tempo, e que provavelmente acharam que estariam arriscando demais ao dar uma carta de recomendação a uma aluna sua que tinha terminado o curso, escrito e defendido uma tese dentro do seu departamento.

Por quê não?

Como eu moro e trabalho em um lugar em que a situação das cartas de recomendação é muito diferente, gostaria aqui de fazer uma comparação e oferecer algumas reflexões sobre as razões para esta má vontade, se não de todos os professores brasileiros, pelo menos de uma grande maioria, em dar cartas de recomendação aos seus alunos.

Na minha experiência, assim como na de todos os professores universitários dos Estados Unidos (que eu conheço), o trabalho do professor é medido pela sua atuação em três áreas: ensino, serviço à comunidade, e pesquisa. Dependendo da universidade, uma destas áreas é enfatizada. Mas em todas, todos os professores devem ter pelo menos um certo nível de qualidade como instrutores em sala de aula, e manter alguma medida de pesquisa, de participação no discurso da sua área e da profissão. A área de serviço consiste de muitas coisas, entre elas, a participação em comitês para a governança da instituição, e o cuidado para que os alunos formados na universidade sigam carreiras de sucesso. Este último quesito é uma das formas pelas quais a excelência de uma universidade é medida, e estas avaliações, em seu turno, fazem com que mais alunos de qualidade queiram vir estudar em uma determinada universidade.

Como eu já comentei em um artigo anterior (http://www.espacoacademico.com.br/057/57bueno.htm), as universidades americanas, todas, têm um escritório que se dedica exclusivamente ao contacto com ex-alunos, seus alumni. Deste contacto este escritório obtém informações sobre o sucesso dos alumni, da sua carreira depois que terminaram os estudos. Logicamente, um outro efeito desta pesquisa é que as universidades solicitam contribuições financeiras de seus ex-alunos para a continuação de vários programas na universidade, e promovem uma festa anual à qual são convidados os ex-alunos. A maioria das universidades e faculdades têm uma associação de ex-alunos, e existe um fluxo de informação e auto-ajuda entre seus membros, o que chamamos de “networking”. Em minha universidade, St. Mary’s, o presidente e o vice-presidente da associação de alumni são os últimos a cumprimentar os formandos quando eles descem do podium depois de terem recebido o diploma. Este gesto indica que, uma vez formados, todos são membros da associação, sempre serão parte da universidade.

Mas o que tem isto que ver com cartas de recomendação? Me parece que é muito claro que os professores não olham os seus alunos e formandos automaticamente como competidores contra eles, mas sim, em favor da universidade. Quanto mais profissionalmente competitivos e bem preparados os formados de uma universidade, melhores empregos conseguem, mais prestígio reverte para a instituição que lhes deu a formação profissional. Ao dar uma carta de recomendação a um estudante que planeja seguir para a pós-graduação, ou está procurando um emprego, o/a professor/a está pondo o peso do seu nome junto ao nome do seu aluno. Está, de uma certa maneira, atestando a qualidade do formando que estudou com ele ou ela.

Logicamente, não podemos dar cartas de recomendação a todos os estudantes, e mesmo quando escrevemos estas cartas, não podemos sempre dizer que este ou aquele aluno é o melhor aluno que já tivemos. Alguns provavelmente o fazem, porque aqui muitas vezes quem julga os candidatos à pós-graduação e a empregos se queixam às vezes do que chamam de “inflação da recomendação”. Mas, para estes casos, existem outras medidas da excelência do candidato/aluno: seu histórico escolar, sua auto-apresentação escrita, e mesmo a entrevista que é parte do processo de seleção para o mestrado e doutorado. Se um/a professor/a erra por excesso de elogio a/o sua/seu aluna/o, muito provavelmente está tentando ajudar a uma pessoa cujos méritos ele/a conhece bem, e expressando votos de que esta pessoa se saia melhor em outro nível de estudo.

Pelo que eu tenho visto da prática de meus colegas, sempre pedimos aos nossos alunos informações concretas sobre o andamento em todas as matérias e seus planos de continuação de estudos. Eu já escrevi várias cartas em que digo, francamente, que o aluno tem potencial, mas que requer supervisão constante para poder alcançá-lo. Mas somente me neguei a dar uma carta de recomendação a uma aluna, porque a conhecia bem e sabia que, julgando pela sua performance nos quatro anos na graduação, a pós-graduação para ela, naquele momento, seria muito difícil. Eu falei com a aluna, e disse que ela precisava amadurecer a idéia melhor antes de tentar um mestrado, porque na minha opinião, não estava em condições de seguir carreira naquele momento. Fui honesta com ela, e espero que não tenha guardado mágoa. Não sei se outros colegas deram as cartas que ela pediu, mas soube que ela foi ao mestrado, e depois de um ano trancou a matrícula. Não sei ao certo as razões, mas acho que talvez tenha sido porque o curso era mais difícil que ela pensava.

Mas, voltando ao caso do Brasil, como pode um professor se negar a dar uma carta de recomendação a um aluno que obviamente tem condições de seguir carreira, que foi um bom aluno durante a graduação, e que tem perspectivas de obter uma bolsa de estudos e fazer um curso em uma universidade de muitos recursos? Seria inveja? Ou seria outra coisa?

Se for inveja, é fácil de entender. Lembro-me de uma pessoa que conhecia no Paraná, da área de física, que foi fazer o doutorado em São Paulo, nos anos 80. Mas o comitê da universidade em São Paulo só o aceitou quando ele garantiu que não queria ficar em São Paulo depois de formado. Obviamente, os professores tinham medo da competição, e provavelmente também inveja da superioridade intelectual deste candidato. Alguns professores de uma universidade regional, também, ao verem que seus alunos podem sair da região, ir estudar em uma instituição de renome internacional, talvez ficam com inveja, e fiquem remoendo a “injustiça” de um aluno destes ser escolhidos e eles terem que ficar no seu cantinho do mundo fazendo, na melhor das hipóteses, um doutorado sanduíche, com sacrifícios pessoais e familiares. Ou talvez a recusa em ajudar o aluno a seguir carreira seja por medo de ser exposto? E se o aluno voltar sabendo mais que o professor? Vai ver que muitas das coisas que ele tinha ensinado na sala de aula estão defasadas, e ele não ficará com sua autoridade afetada?

Mas talvez  a falta de entendimento da função da carta de recomendação no Brasil – e, na minha experiência, também no Japão – seja o resultado de sociedades em que as pessoas não têm muita mobilidade. No Brasil, até muito recentemente, as únicas pessoas que se mudavam de um estado para o outro vinham da classe trabalhadora, que não requer cartas de recomendação. Em geral, as pessoas ficavam onde estavam. Durante os anos em que estudei na UEM, por exemplo, só dois professores vinham da longínqua Londrina. Todos os demais eram “prata da casa”. Assim, ninguém tinha necessidade de dar ou pedir cartas de recomendação porque, de alguma maneira, “todo mundo conhecia todo mundo”. No Japão também, como mudanças de emprego e de região são raras, não existem cartas de recomendação per se, pelo menos não em forma de carta. A recomendação é dada “em pessoa”, no máximo através de um telefonema, e sempre para alguém que já se conhece do outro lado.

Mas muitas coisas mudaram na sociedade brasileira, e muitos jovens agora saem da sua terra natal para estudar a faculdade, e de lá para outros lugares ainda mais longe para fazerem a pós-graduação. Como os alunos podem se representar de uma maneira humana, que seja medida além dos números contidos no histórico escolar, ou da auto apresentação? Uma carta de recomendação de parentes não serviria, por falta de objetividade. Então, a melhor carta tem que ser mesmo a do professor, que atesta, para o empregador em potencial, ou o comitê de admissão à pós-graduação, o histórico humano, o potencial profissional e intelectual do candidato. Quem escreve a carta está apresentando o seu aluno, e a si mesmo/a, neste gesto que faz da ausência uma presença, da distância uma proximidade, do passado do aluno faz o seu presente e seu futuro.

Para concluir

Uma amiga minha de Minas Gerais, comentando sobre este assunto das cartas de recomendação, disse que uma colega sua considera que a profissão de professor é “autofágica”, porque ensinamos aqueles que vão nos “comer”, nos “devorar”. Para essa pessoa, ensinar a quem vai nos suplantar é uma desgraça. A solução seria, então, ser como o deus Cronos, e devorar nossos “filhos”/alunos? Isto me parece uma heresia similar a que seria o obstetra detestar todos os bebês que ele ajuda a nascer porque provavelmente todos eles vão estar vivos quando ele morrer. Ou da mãe que fica com raiva da filha adolescente porque sua pele é mais bonita; ou do pai que fica ressentido dos músculos de seu filho. Aquele professor que está trabalhando hoje, e que fez um doutorado “sanduíche”, com sacrifício, certamente deseja que seus próprios filhos não tenham que repetir seus anos de dificuldades. Assim, também, deveria sempre ficar feliz quando seus alunos mais brilhantes conseguem oportunidades melhores que ele teve.

A função do professor, eu acho, é ensinar pra ser suplantado. Todos nós que formos bons professores seremos suplantados. Isto não quer dizer que seremos irrelevantes. Seremos suplantados porque, primeiro, o conhecimento não pára conosco ou com nossa geração. Segundo, porque quando nossos alunos aprendem conosco, tomam gosto pelo que ensinamos, e vão muito além do que fomos, isto é um crédito para nós, uma prova de como fomos bons professores porque instigamos o amor à disciplina. A nossa função é contribuir com nossa área do conhecimento, e inspirar na geração seguinte o mesmo amor que temos, para que eles sigam, aprofundem, melhorem a nossa área, a profissão, e a si mesmos.

A carta de recomendação, a nossa mensagem para o futuro, certamente  não é um “fecha corpo” que vai garantir aos nossos alunos todas as regalias (a não ser que sejamos “figurões” e “marajás”, mas isto é outro assunto). A nossa carta de recomendação é um voto de confiança naquela pessoa que estudou conosco, tomou os primeiros passos na área, fazer uma profissão dentro dela, ou confirmou seus desejos de seguir a pesquisa, levando o conhecimento adiante.

Escrever uma carta de recomendação para um aluno brilhante, ou mesmo para um aluno menos que brilhante, mas que tem a coragem de tentar, não é só uma obrigação. É uma honra e um grande prazer.

EVA PAULINO BUENO

 

 

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