Cartas
de recomendação:
reflexões
sobre uma (não) prática nacional
Recentemente,
uma pessoa que conheço no Brasil precisava de uma carta de
recomendação. Ele está terminando a faculdade, e quer
seguir carreira estudando o mestrado e o doutorado nos Estados
Unidos. Para a sua área, esta é uma boa opção e há
possibilidades de uma bolsa completa que cobriria a
mensalidade, seguro de saúde, e ainda daria a este estudante
um pequeno salário. Tudo isto, a troco de 20 horas semanais
trabalhadas dentro da própria universidade, em um dos laboratórios
do departamento.
Só
que, para conseguir se candidatar a esta posição, todo
candidato tem que fazer algumas coisas, entre elas o TOEFL (Test
of English as a Foreign Language), que testa a parte mais lingüística,
e o GRE (Graduate Record Exam), que testa especialmente o
raciocínio lógico, matemática, e conhecimentos desta área.
Tem também que mandar o histórico escolar da universidade
que freqüentou no Brasil, uma carta de auto-apresentação
explicando porque quer estudar no departamento, e quais
características têm como estudante. Por fim, o candidato tem
que ter três cartas de recomendação de ex-professores ou,
em alguns casos, de gerentes ou chefes.
Meu
conhecido estava se preparando para o TOEFL e já estudando
para o GRE nos dois últimos anos da faculdade. Além do mais,
tinha excelentes notas. Deixou para falar das cartas de
recomendação com os professores agora em outubro, para ter
certeza que eles o conheciam muito bem e já tinham visto o
seu trabalho. Ele pensou que seria fácil conseguir as cartas.
Mas
o resultado foi, se não completamente negativo, pelo menos
frustrante e humilhante. Uma professora taxativamente se
recusou a dar a carta. “Não conheço você direito,” ela
disse. O outro, disse que daria a carta, mas que não usaria
nenhum papel oficial da universidade. Uma terceira pediu um
formulário para preencher, dizendo que tem muito que fazer e
não tem tempo de revisar a carreira do aluno pra poder
escrever carta alguma.
Logicamente,
este não é um caso isolado. Já várias pessoas — amigos,
conhecidos, parentes no Brasil – têm comentado este
problema. E eu ainda me lembro muito bem que, quando estava
juntando a papelada para fazer meu doutorado na University of
Pittsburgh, e precisava de cartas de recomendação de meus
ex-professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro onde
eu tinha recém terminado o mestrado, nenhum deles sequer
respondeu minhas cartas com meu pedido. No meu caso, tive que
apelar para pessoas que me conheciam há menos de um ano na
cidade em que eu morava na Pensilvânia, as quais me pediram
para ler meus trabalhos do mestrado, e conversar comigo sobre
minha experiência profissional e meus planos para o
doutorado, para poderem escrever as cartas atestando o que
tinham observado e como viam meus prospectos como estudante de
pós-graduação em Pittsburgh. Aquelas pessoas, que me
conheciam há pouco tempo, foram generosas, especialmente
contrastando com professores do meu próprio país, que tinham
trabalhado comigo por mais tempo, e que provavelmente acharam
que estariam arriscando demais ao dar uma carta de recomendação
a uma aluna sua que tinha terminado o curso, escrito e
defendido uma tese dentro do seu departamento.
Por
quê não?
Como
eu moro e trabalho em um lugar em que a situação das cartas
de recomendação é muito diferente, gostaria aqui de fazer
uma comparação e oferecer algumas reflexões sobre as razões
para esta má vontade, se não de todos os professores
brasileiros, pelo menos de uma grande maioria, em dar cartas
de recomendação aos seus alunos.
Na
minha experiência, assim como na de todos os professores
universitários dos Estados Unidos (que eu conheço), o
trabalho do professor é medido pela sua atuação em três áreas:
ensino, serviço à comunidade, e pesquisa. Dependendo da
universidade, uma destas áreas é enfatizada. Mas em todas,
todos os professores devem ter pelo menos um certo nível de
qualidade como instrutores em sala de aula, e manter alguma
medida de pesquisa, de participação no discurso da sua área
e da profissão. A área de serviço consiste de muitas
coisas, entre elas, a participação em comitês para a
governança da instituição, e o cuidado para que os alunos
formados na universidade sigam carreiras de sucesso. Este último
quesito é uma das formas pelas quais a excelência de uma
universidade é medida, e estas avaliações, em seu turno,
fazem com que mais alunos de qualidade queiram vir estudar em
uma determinada universidade.
Como
eu já comentei em um artigo anterior (http://www.espacoacademico.com.br/057/57bueno.htm),
as universidades americanas, todas, têm um escritório que se
dedica exclusivamente ao contacto com ex-alunos, seus alumni.
Deste contacto este escritório obtém informações sobre o
sucesso dos alumni, da sua carreira depois que
terminaram os estudos. Logicamente, um outro efeito desta
pesquisa é que as universidades solicitam contribuições
financeiras de seus ex-alunos para a continuação de vários
programas na universidade, e promovem uma festa anual à qual
são convidados os ex-alunos. A maioria das universidades e
faculdades têm uma associação de ex-alunos, e existe um
fluxo de informação e auto-ajuda entre seus membros, o que
chamamos de “networking”. Em minha universidade, St.
Mary’s, o presidente e o vice-presidente da associação de alumni
são os últimos a cumprimentar os formandos quando eles
descem do podium depois de terem recebido o diploma.
Este gesto indica que, uma vez formados, todos são membros da
associação, sempre serão parte da universidade.
Mas
o que tem isto que ver com cartas de recomendação? Me parece
que é muito claro que os professores não olham os seus
alunos e formandos automaticamente como competidores contra
eles, mas sim, em favor da universidade. Quanto mais
profissionalmente competitivos e bem preparados os formados de
uma universidade, melhores empregos conseguem, mais prestígio
reverte para a instituição que lhes deu a formação
profissional. Ao dar uma carta de recomendação a um
estudante que planeja seguir para a pós-graduação, ou está
procurando um emprego, o/a professor/a está pondo o peso do
seu nome junto ao nome do seu aluno. Está, de uma certa
maneira, atestando a qualidade do formando que estudou com ele
ou ela.
Logicamente,
não podemos dar cartas de recomendação a todos os
estudantes, e mesmo quando escrevemos estas cartas, não
podemos sempre dizer que este ou aquele aluno é o melhor
aluno que já tivemos. Alguns provavelmente o fazem, porque
aqui muitas vezes quem julga os candidatos à pós-graduação
e a empregos se queixam às vezes do que chamam de “inflação
da recomendação”. Mas, para estes casos, existem outras
medidas da excelência do candidato/aluno: seu histórico
escolar, sua auto-apresentação escrita, e mesmo a entrevista
que é parte do processo de seleção para o mestrado e
doutorado. Se um/a professor/a erra por excesso de elogio a/o
sua/seu aluna/o, muito provavelmente está tentando ajudar a
uma pessoa cujos méritos ele/a conhece bem, e expressando
votos de que esta pessoa se saia melhor em outro nível de
estudo.
Pelo
que eu tenho visto da prática de meus colegas, sempre pedimos
aos nossos alunos informações concretas sobre o andamento em
todas as matérias e seus planos de continuação de estudos.
Eu já escrevi várias cartas em que digo, francamente, que o
aluno tem potencial, mas que requer supervisão constante para
poder alcançá-lo. Mas somente me neguei a dar uma carta de
recomendação a uma aluna, porque a conhecia bem e sabia que,
julgando pela sua performance nos quatro anos na graduação,
a pós-graduação para ela, naquele momento, seria muito difícil.
Eu falei com a aluna, e disse que ela precisava amadurecer a
idéia melhor antes de tentar um mestrado, porque na minha
opinião, não estava em condições de seguir carreira
naquele momento. Fui honesta com ela, e espero que não tenha
guardado mágoa. Não sei se outros colegas deram as cartas
que ela pediu, mas soube que ela foi ao mestrado, e depois de
um ano trancou a matrícula. Não sei ao certo as razões, mas
acho que talvez tenha sido porque o curso era mais difícil
que ela pensava.
Mas,
voltando ao caso do Brasil, como pode um professor se negar a
dar uma carta de recomendação a um aluno que obviamente tem
condições de seguir carreira, que foi um bom aluno durante a
graduação, e que tem perspectivas de obter uma bolsa de
estudos e fazer um curso em uma universidade de muitos
recursos? Seria inveja? Ou seria outra coisa?
Se
for inveja, é fácil de entender. Lembro-me de uma pessoa que
conhecia no Paraná, da área de física, que foi fazer o
doutorado em São Paulo, nos anos 80. Mas o comitê da
universidade em São Paulo só o aceitou quando ele garantiu
que não queria ficar em São Paulo depois de formado.
Obviamente, os professores tinham medo da competição, e
provavelmente também inveja da superioridade intelectual
deste candidato. Alguns professores de uma universidade
regional, também, ao verem que seus alunos podem sair da região,
ir estudar em uma instituição de renome internacional,
talvez ficam com inveja, e fiquem remoendo a “injustiça”
de um aluno destes ser escolhidos e eles terem que ficar no
seu cantinho do mundo fazendo, na melhor das hipóteses, um
doutorado sanduíche, com sacrifícios pessoais e familiares.
Ou talvez a recusa em ajudar o aluno a seguir carreira seja
por medo de ser exposto? E se o aluno voltar sabendo mais que
o professor? Vai ver que muitas das coisas que ele tinha
ensinado na sala de aula estão defasadas, e ele não ficará
com sua autoridade afetada?
Mas
talvez a falta de
entendimento da função da carta de recomendação no Brasil
– e, na minha experiência, também no Japão – seja o
resultado de sociedades em que as pessoas não têm muita
mobilidade. No Brasil, até muito recentemente, as únicas
pessoas que se mudavam de um estado para o outro vinham da
classe trabalhadora, que não requer cartas de recomendação.
Em geral, as pessoas ficavam onde estavam. Durante os anos em
que estudei na UEM, por exemplo, só dois professores vinham
da longínqua Londrina. Todos os demais eram “prata da
casa”. Assim, ninguém tinha necessidade de dar ou pedir
cartas de recomendação porque, de alguma maneira, “todo
mundo conhecia todo mundo”. No Japão também, como mudanças
de emprego e de região são raras, não existem cartas de
recomendação per se, pelo menos não em forma de
carta. A recomendação é dada “em pessoa”, no máximo
através de um telefonema, e sempre para alguém que já se
conhece do outro lado.
Mas
muitas coisas mudaram na sociedade brasileira, e muitos jovens
agora saem da sua terra natal para estudar a faculdade, e de lá
para outros lugares ainda mais longe para fazerem a pós-graduação.
Como os alunos podem se representar de uma maneira humana, que
seja medida além dos números contidos no histórico escolar,
ou da auto apresentação? Uma carta de recomendação de
parentes não serviria, por falta de objetividade. Então, a
melhor carta tem que ser mesmo a do professor, que atesta,
para o empregador em potencial, ou o comitê de admissão à pós-graduação,
o histórico humano, o potencial profissional e intelectual do
candidato. Quem escreve a carta está apresentando o seu
aluno, e a si mesmo/a, neste gesto que faz da ausência uma
presença, da distância uma proximidade, do passado do aluno
faz o seu presente e seu futuro.
Para
concluir
Uma
amiga minha de Minas Gerais, comentando sobre este assunto das
cartas de recomendação, disse que uma colega sua considera
que a profissão de professor é “autofágica”, porque
ensinamos aqueles que vão nos “comer”, nos “devorar”.
Para essa pessoa, ensinar a quem vai nos suplantar é uma
desgraça. A solução seria, então, ser como o deus Cronos,
e devorar nossos “filhos”/alunos? Isto me parece uma
heresia similar a que seria o obstetra detestar todos os bebês
que ele ajuda a nascer porque provavelmente todos eles vão
estar vivos quando ele morrer. Ou da mãe que fica com raiva
da filha adolescente porque sua pele é mais bonita; ou do pai
que fica ressentido dos músculos de seu filho. Aquele
professor que está trabalhando hoje, e que fez um doutorado
“sanduíche”, com sacrifício, certamente deseja que seus
próprios filhos não tenham que repetir seus anos de
dificuldades. Assim, também, deveria sempre ficar feliz
quando seus alunos mais brilhantes conseguem oportunidades
melhores que ele teve.
A
função do professor, eu acho, é ensinar pra ser suplantado.
Todos nós que formos bons professores seremos suplantados.
Isto não quer dizer que seremos irrelevantes. Seremos
suplantados porque, primeiro, o conhecimento não pára
conosco ou com nossa geração. Segundo, porque quando nossos
alunos aprendem conosco, tomam gosto pelo que ensinamos, e vão
muito além do que fomos, isto é um crédito para nós, uma
prova de como fomos bons professores porque instigamos o amor
à disciplina. A nossa função é contribuir com nossa área
do conhecimento, e inspirar na geração seguinte o mesmo amor
que temos, para que eles sigam, aprofundem, melhorem a nossa
área, a profissão, e a si mesmos.
A
carta de recomendação, a nossa mensagem para o futuro,
certamente não
é um “fecha corpo” que vai garantir aos nossos alunos
todas as regalias (a não ser que sejamos “figurões” e
“marajás”, mas isto é outro assunto). A nossa carta de
recomendação é um voto de confiança naquela pessoa que
estudou conosco, tomou os primeiros passos na área, fazer uma
profissão dentro dela, ou confirmou seus desejos de seguir a
pesquisa, levando o conhecimento adiante.
Escrever
uma carta de recomendação para um aluno brilhante, ou mesmo
para um aluno menos que brilhante, mas que tem a coragem de
tentar, não é só uma obrigação. É uma honra e um grande
prazer.
EVA PAULINO BUENO