por MAX ROGÉRIO VICENTINI

Doutorando em Filosofia (USP)

Professor do Departamento de Ciências Sociais - Universidade Estadual de Maringá

 

 

 

MARQUES, José Oscar de Almeida (Org.). Verdades e mentiras: 30 ensaios em torno de Jean-Jacques Rousseau. Ijuí: Editora UNIJUÍ, 2005 (Coleção Filosofia; 15), 520 p.

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Rousseau caleidoscópico

Aqui está o único retrato que existe de um homem pintado exatamente a partir do original e em toda sua verdade, e que, provavelmente, jamais existirá.

J-J Rousseau

O livro Verdades e mentiras: 30 ensaios em torno de Jean-Jacques Rousseau é o resultado de uma coletânea de artigos, em sua maioria, apresentados no I Colóquio Rousseau, acontecido em 2003 na Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara e organizada por José Oscar de Almeida Marques. Como é próprio desse tipo de publicação, temos um retrato bastante rico das idéias do filósofo.

Quem foi J-J Rousseau? Esta é a pergunta que deve estar na mente do leitor ao se debruçar sobre seus 30 artigos, que, à maneira de um caleidoscópio, apresentam uma imagem colorida e multiforme do autor em questão.

A interpretação de Rousseau tem desafiado os estudiosos de sua obra no decorrer dos últimos dois séculos[1]. É interessante constatar que os principais intérpretes não se puseram de acordo nem mesmo quanto às idéias mais básicas e fundamentais da obra do genebrino. Seria ele um individualista ou um coletivista? Um defensor das idéias liberais ou um comunista? Afinal, por que haveria Rousseau escrito sua obra? Questões que, sem dúvida, merecem um tratamento bastante mais amplo do que aquele efetivado nos ensaios que integram o livro em análise, porém não estranhas ao conteúdo dos mesmos. O primeiro artigo, do Professor Roberto Romano, merece destaque por introduzir a importante questão sobre a interpretação da obra de Rousseau. Afinal, a sinceridade foi preservada pelos intérpretes de Rousseau? A questão que se coloca como mote de reflexão sobre o filósofo é espelhada e refletida para seus intérpretes, incluindo os desta publicação. Este movimento nos dá uma noção do interesse pelas idéias de Rousseau e da dificuldade de se emitir um juízo preciso sobre as mesmas, tantas vezes apropriadas por movimentos diversos e, até mesmo, antagônicos.

Como o próprio título indica, o livro se organiza em torno das idéias de Jean-Jacques, com foco na discussão sobre a verdade e a mentira e a constelação de conceitos que orbita ao seu redor como “sinceridade, autenticidade, dissimulação, ilusão, aparência, ficção, engano e esclarecimento” (p. 11). Através de seis seções temáticas, que ressaltam seu caráter interdisciplinar, o livro nos conduz a uma reflexão sobre os mais variados assuntos tratados pelo filósofo. A primeira, intitulada “Os filósofos e a mentira” trata deste tema em autores que instigaram ou se nutriram das idéias de Rousseau a este respeito, construindo um amplo pano de fundo da história das idéias, no qual o tema em Rousseau adquire significação e coerência.

Na seção “Sensibilidade e dissimulação”, somos convidados a passear em meio a questões sobre a subjetividade, sobre a expressão dos sentimentos do próprio Rousseau, ocasião em que é analisada a sinceridade e mendacidade das afirmações presentes em seus relatos. A reflexão realizada nesta seção caminha em direção à análise da presença e ocultação da figura do autor quer seja quando discorre sobre a constituição do contrato social ou da educação de Emílio, quer quando, de maneira mais leve, fala sobre os jardins franceses e ingleses.

Em “Rousseau e a antropologia” temos contato com um fascinante aspecto do pensamento de Rousseau: suas idéias acerca do homem e o papel da sociedade e da natureza em sua constituição. Nesta seção são debatidas questões acerca da fundação das ciências do homem, que, de certa maneira, poderiam ter em Rousseau seu fundador. A leitura desta seção é de particular interesse para os estudantes das ciências sociais, que terão a oportunidade de entrar na problemática desta fundação por meio de textos conceitualmente ricos e primorosamente escritos. Na seqüência encontramos a seção “Natureza, política e sociedade”, na qual são discutidas as relações de Rousseau com Sêneca e Hegel, além de conceitos chave para se compreender o pensamento deste autor e o desenvolvimento da filosofia que se seguiu a ele, tais como sociabilidade, liberdade, individualismo e propriedade privada.

Nas duas últimas seções, “Rousseau educador” e “A herança literária”, vê-se a obra de Rousseau ser utilizada como um manancial de idéias para se pensar o momento presente, tanto na educação, quanto na teoria literária. De uma maneira mais livre são tratadas as possíveis orientações que Rousseau poderia dar ao pedagogo atual, bem como as inspirações que suas idéias ainda oferecem aos escritores atuais, mostrando como o pré-romantismo rousseauista tem a virtude de se renovar em importantes escritores como Kleist e Clézio.

Por fim, vale apontar que da mesma forma que o Sócrates de Platão brilha sobre os demais, quanto mais capaz o intérprete, mais interessante o personagem. Embora em alguns artigos que integram este livro tenhamos uma imagem um tanto esmaecida do filósofo em foco, em outros, ele se mostra verdadeiramente digno de nosso permanente interesse. Neste sentido, o mais atraente é o Rousseau de Rousseau! E o livro tem a virtude de renovar e fortalecer a curiosidade por esta Obra tão comentada.

 

por MAX ROGÉRIO VICENTINI

 

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[1] Veja Cassirer, E. A questão Jean-Jacques Rousseau. São Paulo: Edunesp, 2005.

 

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