RIDENTI,
Marcelo Ridenti e REIS, Daniel Aarão (Orgs). História
do marxismo no Brasil
- Volume
6 - Partidos e movimentos após os anos 1960. Campinas
(SP): Editora da Unicamp, 2007 (464 p.)
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Para
a História do Marxismo no Brasil
Organizado
por Marcelo Ridenti e Daniel Aarão Reis, História do
Marxismo no Brasil – Partidos e movimentos após os anos 1960,
Volume 6, representa a conclusão de uma trajetória
iniciada nos dias 9 e 10 de junho de 1988. Nesta data, em Teresópolis,
e com o apoio do CNPq, realizou-se um seminário especial do
grupo de trabalho Partidos e Movimentos de Esquerda, na
época vinculado à Associação Nacional de Pós-Graduação e
Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS); tempos depois, o grupo
migrou para a Associação Nacional de História (ANPUH). Os
participantes discutiram a idéia, apresentada pelo professor
Osvaldo Coggiola, de uma história das esquerdas no Brasil. A idéia
ganhou corpo e se transformou no projeto sobre a História do
Marxismo no Brasil. Em 1991, foi publicado o primeiro volume
sobre “O impacto das revoluções”, organizado por Daniel
Aarão Reis e João Quartim de Moraes.
História
do Marxismo no Brasil (volume 6) está organizado em duas
partes. A primeira, trata dos partidos e organizações; a
segunda, sobre os movimentos sociais. Cada parte apresenta cinco
textos sob a responsabilidade dos diversos autores.
O
primeiro capítulo, intitulado “A valorização da política
na trajetória pecebista dos anos 1950 a 1991”, de autoria de
José Antonio Segatto e Raimundo Santos, objetiva “apresentar
o Partido Comunista Brasileiro (PCB) como exemplo, para as
esquerdas brasileiras, de um agrupamento que, embora não tenha
concluído todo o percurso, transitou da condição de partido
revolucionário a partido com vocação para a política”
(p.13). Os autores revisitam a trajetória política do PCB, da
mentalidade esquerdista à lucidez orientada pelo “praticismo
ilustrado”, ou seja, “um modo realista de apreender as
coisas” (p.15). Na prática, o partido abandonou as veleidades
revolucionárias e, coerente com a estratégia etapista da
“revolução democrática burguesa”, concentrou a ação política
na perspectiva da democratização da sociedade brasileira. A
política pecebista resultou em mero reformismo cada vez mais
distanciado da retórica revolucionária. Os autores resgatam a
discussão sobre o tema da democracia e tem o mérito de mostrar
como a formação da “cultura democrática” impactou o PCB.
Eles também observam como a experiência pecebista se atualiza
nos dramas vivenciados pelo Partido dos Trabalhadores a partir
da eleição de Lula à presidência da república. Sugerem que
o exemplo do PCB oferece pistas para repensar os desafios da política
petista na atualidade. Claro, na perspectiva dos autores.
O
capítulo 2, “Partido Comunista do Brasil: definições ideológicas
e trajetória política”, de Jean Rodrigues Sales, retoma a
história desta organização política fundada em 1962. O autor
se propõe a analisar as características ideológicas e a atuação
política do partido, das origens à atualidade. Nesta
perspectiva, ele resgata a discussão sobre a fundação ou
reorganização do PCdoB, já que seus militantes reivindicam a
tradição e continuidade do Partido Comunista criado em 1922.
É um debate que parece bizarro, mas que revela a importância
da apropriação do espólio simbólico, isto é, dos valores e
da ideologia que plasmou a concepção de partido
marxista-leninista. A disputa pela autoridade da tradição não
é gratuita. O autor analisa as diversas interpretações sobre
a formação do PCdoB, o que permite ao leitor um maior
conhecimento sobre o tema. Ele também expõe outros elementos
que foram fundamentais na trajetória do partido: o alinhamento
internacional, sua atuação durante a ditadura militar, a
experiência da guerrilha do Araguaia e a ação da organização
diante da abertura política e nos anos 1980. O texto trata,
ainda que brevemente, do impacto da crise do socialismo real. Não
obstante, é um trabalho que acrescenta e contribui para a
compreensão do Partido Comunista do Brasil.
No
terceiro capítulo, “Esquerdas Armadas Urbanas (1964-1974)”,
Marcelo Ridenti retoma a análise sobre as diversas organizações
que protagonizaram ações armadas numa perspectiva revolucionária.
Originada dos partidos e movimentos de esquerda atuantes no pré-64,
a “esquerda armada” foi a resposta ao fracasso da esquerda
diante do golpe militar de 1964. A adesão à luta armada
expressou a crítica, na perspectiva dos dissidentes, ao
reformismo, direitismo e pacifismo dos partidos e organizações
troncos. São analisados os grupos guerrilheiros originados do
PCB, POLOP e PCdoB. A despeito das diferenças teóricas e
divergências sobre o caráter da revolução brasileira, formas
de lutas e o tipo de organização, as dissidências que
aderiram ao caminho armado tinham em comum a crítica ao
“suposto imobilismo de partidos como o PCB”, “viam-se como
a vanguarda da revolução, fosse ela nacional ou socialista, e
combatiam o capitalismo e o imperialismo norte-americano” (p.
129). Estas organizações e grupos armados “eram fruto de um
mesmo processo histórico, de uma conjuntura específica,
marcada pelo advento da ditadura militar, após um golpe de
Estado que não encontrou resistência imediata” (p. 130). Há
ainda que considerar o cenário internacional e o surgimento de
uma “nova esquerda” contestatória. Esses aspectos, bem como
o perfil da composição destes grupos e a leitura que faziam da
realidade econômica e política brasileira, são fundamentais
para a compreensão da sua atuação. O autor finaliza
analisando a ascensão e queda da esquerda armada no meio
urbano. Trata-se de uma experiência significativa para os rumos
da esquerda brasileira. “A derrota da experiência armada
marcou os desdobramentos posteriores da história do marxismo no
Brasil. Talvez ela tenha sido a última expressão significativa
do ciclo que se abriu com a fundação do Partido Comunista em
1922, fortemente marcado por concepções ditas de vanguarda da
classe operária” (134), conclui o autor.
O
quarto capítulo, “Os Trotskismos no Brasil (1966-2000)”,
escrito por Dainis Karepovs e Murilo Leal, analisa a atuação
dos agrupamentos comunistas vinculados à tradição da IV
Internacional fundada por Leon Trotsky. Os autores oferecem
informações importantes para a compreensão da história do
trotskismo brasileiro no período. Eles concentram-se nas
correntes trotskistas que consideram mais influentes: a Convergência
Socialista (CS), a Organização Socialista Internacionalista (OSI)
e a Democracia Socialista (DS). A exposição das origens destas
organizações é acompanhada da apresentação das suas
respectivas trajetórias, interpretações sobre a realidade
brasileira e vinculações internacionais. Um dos aspectos que
se destaca nesta trajetória é a posição de cada uma em relação
ao Partido dos Trabalhadores e as conseqüentes metamorfoses que
passam. A CS, por exemplo, terminou por romper com o PT e
estimular a criação do PSTU. O caso da OSI é emblemático: da
resistência inicial à proposta de formação do PT, aderiu com
tal empenho que parte da organização se diluiu na Articulação
dos 113, a corrente majoritária no interior do partido. Os
autores também analisam a atuação dos trotskistas no
movimento estudantil e na conjuntura dos anos 1983-2003.
Salienta-se a importância do trotskismo na luta pelas
liberdades democráticas. A atuação dos trotskistas representa
uma contribuição importante na história do marxismo
brasileiro e das experiências de organização dos
trabalhadores na conjuntura do período analisado.
Paulo
Henrique Martinez fecha a primeira parte da obra. Seu artigo,
“O Partido dos Trabalhadores e a Conquista do Estado
(1980-2005)”, é uma contribuição importante para
compreender os caminhos e descaminhos desta agremiação política.
A análise da trajetória do PT tem como principal referência
os documentos dos encontros e congressos petistas. É amparado
nestas fontes que o autor analisa a formação e a transição
de uma postura contra a ordem à inserção nesta. Ele finaliza
com uma questão: “O PT, partido da ordem?” Embora
importante, o recorte documental compromete a compreensão da
trajetória do PT, cujos rumos são determinados principalmente
por sua prática política institucional. A retórica dos
encontros e congressos não necessariamente corresponde à prática
real do partido. Talvez isto explique a condescendência do
autor diante do desenlace do petismo; talvez explique o fato do
autor colocar uma interrogação que já contém a resposta.
Mas, é claro, trata-se de interpretações, as quais são legítimas.
Chegamos
à segunda parte do livro. Esta é composta pelos seguintes
autores e respectivos capítulos: Denise Rollemberg, “Debate
no exílio em busca da renovação”; Maria Lygia Quartim de
Moraes, “O encontro do marxismo-feminismo no Brasil”; Marco
Aurélio Santana e Ricardo Antunes, “O PCB, os trabalhadores e
o sindicalismo na história recente do Brasil”; Michael Löwy,
“Cristianismo da libertação e marxismo – de 1960 a nossos
dias”; e, por fim, Daniel Aarão Reis, “Marxismo, sociedade
e partidos políticos hoje”.
O
último capítulo representa um balanço do referencial marxista
nos partidos políticos que se consideram representantes dos
interesses dos trabalhadores brasileiros. Daniel Aarão Reis, após
fazer um breve retrospecto do marxismo desde o século XIX,
analisa em que medida os marxismos estão presentes e
resistem no PT, PSB, PCdoB, PSTU e PSOL.
Os
demais textos, considerados em conjunto, expressam as contribuições,
desafios e dilemas gerados pela relação nem sempre tranqüila
entre os diversos movimentos sociais e os marxismos. Denise
Rollemberg mostra como o contexto do exílio influenciou no
sentido do debate crítico e autocrítico, propiciando as condições
para a renovação da cultura e práxis marxista. A esquerda
exilada passa a incorporar “temáticas que até então
desconsiderava ou relegava a segundo plano” (p. 291). É o
caso do feminismo, a politização do cotidiano e a discussão
sobre a democracia. A autora focaliza a análise na revista Debate,
criada por João Quartim de Moraes, cujo primeiro número foi
publicado em Paris, em fevereiro de 1970, e durou até julho de
1982. “A Debate acabou funcionando como um centro de
estudos e, até mesmo, como um movimento cultural, com
presença entre os exilados e elevado nível de discussão teórica”,
afirma (p. 293). O capítulo contribui para que o leitor
compreenda os debates que envolveram os exilados brasileiros, os
quais seriam importantes para a reorganização da esquerda, e
também para a compreensão da vida desses militantes nas condições
do exílio.
A
leitura do artigo de Marco Aurélio Santana e Ricardo Antunes
permite compreender os porquês que propiciaram a hegemonia do
petismo e, conseqüentemente, decretaram a impossibilidade do
Partido Comunista voltar a ocupar o papel proeminente que teve
no sindicalismo brasileiro até o golpe militar. Os autores se
propõem a “analisar com maior profundidade, uma parte
importante da história recente da esquerda brasileira a partir
das orientações e práticas do Partido Comunista Brasileiro
(PCB) e suas relações com a classe trabalhadora, o
sindicalismo e o PT” (p. 375). Sugiro ao leitor que confronte
a análise apresentada pelos autores com aquelas sobre o PCB e o
PT, nos capítulos 1 e 5 respectivamente.
Michael
Löwy faz um excelente retrospecto sobre as origens do
cristianismo da Teologia da Libertação, trajetória e relações
com o marxismo. Ao historiador e pesquisador dos movimentos
sociais, bem como os militantes interessados em conhecer o período
recente da história da esquerda brasileira, é imprescindível
se debruçar sobre este tema. É impossível, por exemplo,
compreender o Partido dos Trabalhadores, a Central Única dos
Trabalhadores e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra,
sem a compreensão do que foi o “cristianismo da libertação”
e a relação deste com o marxismo. Como conclui o autor, “graças
ao cristianismo da libertação, idéias, temas e valores do
marxismo – claro, de forma seletiva e reformulados em termos
político-religiosos – foram assimilados por amplos setores
populares no Brasil – que se encontram não só nas CEBs, mas
também no PT, na CUT e no
MST –, em proporções sem precedentes na história da
esquerda brasileira” (p. 435).
O
projeto História do Marxismo no Brasil chega a bom término
com este volume. Mas, como nota os organizadores, não se
esgotou, pois “o campo continua em aberto, nada impedindo a
publicação de novos volumes que venham a enriquecer ainda mais
a coleção” (p. 10). Oxalá, tenhamos novos volumes, como
novos autores e novas interpretações e aprofundamentos. Aliás,
uma das maiores contribuições deste projeto é precisamente a
superação da concepção monolítica sobre um único e
verdadeiro marxismo. Como já evidenciado na coletânea
organizada por Eric Hobsbawm, há muito que se tornou impraticável
se referir ao marxismo no singular. Essa é também uma
contribuição contra a intolerância ainda presente na
esquerda. Contudo, e felizmente, graças a projetos como este:
“As críticas, inevitáveis, já não poderão ser formuladas
a partir de qualquer ortodoxia reconhecida – elas não existem
mais”. Embora tenha dúvidas quanto à assertiva de que as
ortodoxias “não existem mais”, é tranqüilizante saber
que, a despeito da obstinação dos que ainda se consideram os
únicos e verdadeiros marxistas no universo, as críticas, como
escreve Daniel Aarão Reis: “Nem resultarão na minha desgraça,
ou no meu fuzilamento. Pelo menos a isso posso almejar,
felizmente” (p. 442). Felizmente!
História
do Marxismo no Brasil é uma contribuição fundamental à
compreensão do marxismo em solo nacional, em especial, nos anos
recentes. Numa época em que a esquerda reavalia suas
perspectivas e parte dela ficou perplexa, vale a pena se debruçar
sobre a história, a qual, afinal, definiu muito do que
acreditamos e da nossa atuação política. A leitura de História
do Marxismo no Brasil é um bom começo para a compreensão
da esquerda na atualidade, até porque parece que a história se
repete como tragédia. É especialmente indicada aos novos
militantes e acadêmicos que imaginam conhecer o mundo a partir
do espaço universitário. Conhecer a história, em qualquer
caso, é imprescindível!