Resenha:
FRY,
Peter et all [Orgs.] Divisões
perigosas: políticas raciais no Brasil contemporâneo.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. 366 p.
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Diga-me
tua cor e te direi quem és
Antropólogos,
historiadores, psicólogos, sindicalistas sociólogos, cientistas
sociais e outros intelectuais reuniram-se e editaram uma importantíssima
obra que alerta sobre os perigos eminentes para a sociedade
brasileira da adoção da cor da pele como indicador de raça, como
critério para distribuição de direitos e de políticas
governamentais. O livro Divisões perigosas: políticas
raciais no Brasil contemporâneo (Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 366 pp.) está estruturado em cinco partes, que
agruparam artigos curtos e de agradável leitura, relacionados à raça,
ciência, educação, história, sociologia, saúde e, sobretudo, à
lei de cotas.
A
desigualdade social brasileira é histórica. Sequer o advento da
República acabou com as diferenças de classe, contribuindo, aliás,
para aprofundar o abismo entre ricos e pobres. Da mesma forma, o
preconceito e a discriminação racial acompanham a nossa história.
E agora, novamente, os ‘privilegiados’ encontraram uma fórmula
para dividir o povo sem mexer nas estruturas. Propõe-se a divisão
dos pobres por cores, que certamente aprofundará o racismo e
enfraquecerá os trabalhadores.
Na
obra, o militante do Movimento Negro Socialista José Carlos
Miranda, com muita pertinência, lembra que “só medidas
direcionadas para a igualdade de todos podem ser eficazes para
acabar com o racismo”. Ou seja, “a única política pública, a
única reparação que interessa a todos é aquela que oferecerá
serviços públicos de qualidade, empregos e salários dignos para
todos”.
No
governo de Fernando Henrique Cardoso, foram aprovadas medidas que
garantiram a reserva, para negros, em alguns casos, de vinte por
cento das vagas no serviço público. Nos anos que se seguiram,
outras medidas ‘reparadoras’ foram tomadas utilizando o critério
raça/cor da pele. Um critério perigoso, pois tem como princípio a
divisão dos semelhantes. Num mesmo grupo social temos brasileiros
de cores parecidas. Como se dará a classificação por cor?
O
economista César Benjamin lembra que o americano, o africano e o
europeu iniciaram miscigenação que originou povo singular, “biológica
e culturalmente” mestiço. Como “o que determina a cor de uma
pessoa é a quantidade de uma proteína chamada melanina, que todos
temos na pele”, gêmeos idênticos podem apresentar diferentes
quantidades da proteína, sendo classificados como de raças
distintas, como ocorreu recentemente em Brasília, quando apenas um
de gêmeos idênticos foi aceito como negro em seleção de cotas.
Segundo Benjamin, “havendo uma infinidade de ‘raças’ possíveis,
é claro que não há ‘raça’ alguma”.
O
geneticista e médico Sérgio Pena afirmou igualmente que não
existem raças. “A espécie humana é muito jovem e seus padrões
migratórios demasiadamente amplos para permitir uma diferenciação
e conseqüentemente separação em variados grupos biológicos que
pudessem ser chamados de ‘raças’”.
Sérgio
Pena conclui que “há apenas uma raça – a humana”. E que
“raças continuam a existir como construções sociais”.
Portanto, o caminho óbvio é “fazer todo esforço possível para
construir uma sociedade desracializada”, onde a singularidade do
indivíduo “seja valorizada e celebrada e na qual exista a
liberdade de assumir, por escolha própria, uma pluralidade de
identidades”.
O
historiador José Roberto Pinto de Góes alertou sobre o perigo da
possível divisão entre “negros e brancos”, com a substituição
da “mestiçagem pelo orgulho racial”.
O
geógrafo e cientista social Demétrio Magnoli defendeu o feito
revolucionário dos cativos que desgastaram o regime escravista
lentamente, culminando com sua derrocada em 13 de maio de 1888.
Embora a conquista da liberdade foi sobretudo dos cativos, na luta
pela Abolição participaram de brasileiros de todas as cores. Foi
“uma luta popular moderna”, sem a conotação racial.
O
sociólogo José de Souza Martins entendeu que “a questão racial
aprisiona e imobiliza a própria condição humana possível, a
virtualidade que não se cumpre em relação a todos, não só ao
negro”. Impede assim a emancipação do indivíduo. Finalizou seu
raciocínio repetindo lapso histórico, ao propor “escravidão em
Palmares” e comparou, sem contextualizar, a escravidão brasileira
com a escravidão africana.
Na
segunda parte do livro – “Quem é o negro no Brasil?” – ,
procura-se responder a uma questão, a cor do brasileiro,
tarefa difícil, já que até mesmo brancos, negros, pardos,
morenos, etc. definem-se segundo suas convicções e conveniências.
Entretanto,
o Projeto do Estatuto da Igualdade Racial [PL 3.198/2000], que
tramita pelo Congresso Brasileiro, dividirá a população em apenas
duas cores. Ninguém poderá ‘amarelar’ na hora da resposta.
Seremos classificados como brancos ou negros, simplesmente. Pequeno
ensaio desta classificação foi realizado pelo então Ministro da
Educação Tarso Genro, que obrigou os pais informarem, na hora da
matricula, a cor dos filhos.
Para
Demétrio Magnoli, “esse programa de reengenharia racial almeja
‘retificar’ a obra do Império, passando a borracha sobre a
mestiçagem e suprimindo os ‘pardos’”.
A
genética negou a existência de raças humanas e comprovou a enorme
miscigenação nacional. Praticamente noventa por cento da nossa
população têm alguma ancestralidade africana. Uns com mais
melanina, outros com menos, confundindo os que querem a classificação
por cor.
O
economista Carlos Lessa explicou que “quem nasce pobre tem mais
chances de vir a ser pobre”. Portanto, “a pobreza pesa mais
sobre o contingente de pardos e pretos brasileiros” porque a Abolição
“não foi acompanhada da reforma agrária”.
Efetivamente,
entre os 57 milhões de brasileiros pobres, 34,2% são brancos,
58,7% são pardos e 7,1% são pretos. Somando-se os pardos e os
pretos teríamos 65,8% da nova categoria –negros –, que
continuam entretanto pertencendo à classe dos pobres. A divisão
por raça/cor não propõe nada para alterar o quadro geral da
pobreza, no relativo às grandes massas de miseráveis.
Na
terceira parte o livro apresenta artigos relacionados à educação,
sobretudo, direcionado para o debate referente à Lei de Cotas. O
poeta e jornalista Ferreira Gullar sintetizou o pensamento dos
autores contrários à política de cotas: “Viabilizar a entrada
de pessoas de cor negra ou parda e de índios no ensino superior é
um processo louvável, mas o que estão sugerindo é um critério
que deveria ser antidiscriminatório e que acaba por discriminar os
brancos e pobres”. O problema não é de cor, é de desigualdade.
Para
o físico José Goldemberg e a antropóloga Eunice Durham, a reserva
de cotas tornar-se desnecessária. Basta implementar “uma política
afirmativa correta” que proporcione “aos alunos das escolas públicas,
especialmente negros e pobres, oportunidades de superar as falhas de
sua formação anterior”. Porém, é necessário lembrar que
faltam sobretudo vagas nas universidades e nos locais de trabalho
para todos. Não basta, portanto, apenas melhorar o ensino e a formação.
A
quarta parte aborda a saúde, já que algumas pesquisas apontaram
para a maior incidência de determinadas doenças entre a população
negra, restaurando, por este viés, o princípio de raça,
aniquilado pela ciência. Na realidade, essas doenças são mais
freqüentes entre a população pobre, de todas as cores.
Peter
Fry debate a questão com propriedade. Sobre as estatísticas que
apontam o avanço da Aids entre os negros, assinalou que são as
questões socioeconômicas e culturais determinaram esse aumento, e
não as de raça/cor.
A
antropóloga Yvonne Maggie sugeriu que a sociedade se “mobilize
para que os serviços públicos atendam igualmente cada brasileiro,
independente de cor, classe e religião”. Não é necessário
dividir o povo para atender melhor. Basta potencializar os serviços
públicos na área da saúde.
Na
quinta parte do livro, artigos abordam o perigo da racialização do
Brasil. O historiador Mário Maestri afirmou que “a racialização
reinventa arbitrariamente” o país, propondo a substituição da
luta social pela luta de raças. Lembra que as cotas promovem apenas
alguns poucos felizardos, enegrecendo e consolidando o privilégio.
O
historiador rio-grandense apontou medidas que realmente mudariam o
quadro da desigualdade: “dobrar o salário mínimo, punir o
trabalho informal, expandir o emprego, garantir o direito à saúde,
educação, segurança etc.” para todos, promover a “emancipação
dos grandes setores afro-descendentes empobrecidos”.
O
sociólogo Bernardo Sorj questionou o Parlamento que está aprovando
lei que vai contra a construção de identidade nacional
aparentemente consolidada. Acredita que existem “grupos de
interesse” apoiando as mudanças. São “intelectuais que
acreditam que ‘na falta de luta de classes é bom que tenhamos
lutas de raças’”, e “ONGs que alimentam esse discurso graças
ao qual obtêm recursos e status social”. Também são “pessoas
no governo” que apóiam essas políticas pois têm “custo”
“zero”, enquanto os custos de medidas sociais são “consideráveis”.
O
militante do Movimento Negro e sindicalista, Roque José Ferreira
escreveu que a “maioria esmagadora dos negros brasileiros está
confinada na base da pirâmide”, assim sendo, a única maneira
eficaz de combater o racismo é inserir a luta de classes “como
elemento determinante deste processo”.
Roque
Ferreira apontou caminhos que mudariam a ordem vigente. A ‘base da
pirâmide’ deveria reivindicar “creche, educação pública e
gratuita de qualidade em todos os níveis, saúde de qualidade e
gratuita para todos, reforma agrária, demarcação das terras dos
quilombos remanescentes, emprego, salário decente, fim da violência
policial, defesa dos serviços públicos”. Ele concluiu que a
“atual estrutura republicana capitalista, baseada na propriedade
privada dos meios de produção e na exploração do homem pelo
homem” não apresenta saída para “negros e brancos pobres”.
Os
autores dessa valiosa obra assumiram posição definida quanto à
política de cotas raciais. Não só se posicionaram pela cidadania
plena, como apontaram caminhos que eliminam as desigualdades, sem
precisar classificar a população pela cor, num processo de conseqüências
certamente dramáticas para a população brasileira. Defendem a
efetiva universalização de direitos sociais básicos assegurados
pela Constituição.
por
ADELMIR
FIABANI