Ascensão
e declínio de Superpotências
O
declínio dos Estados Unidos
A
história da modernidade é rica em ensinamentos sobre a
ascensão e o declínio de impérios baseados na acumulação
irrefreada de riquezas materiais e alavancados por
conquistas militares que levaram à subjugação e posterior
exploração de outros povos. Às conquistas dos portugueses
e espanhóis no século XVI, seguiu a expansão comercial
holandesa no século XVII, substituída no século XVIII
pelos franceses e britânicos. O império britânico atingiu
seu apogeu no século XIX, entrando em decadência a partir
da 1a guerra mundial que inaugurou o século da
supremacia dos Estados Unidos da América do Norte.
Na
corrida armamentista durante a Guerra Fria, a ex-União Soviética
tentou contestar a hegemonia americana; sem sucesso, entrou
em colapso em 1989.
No
último quartel do século XX, após uma reconstrução inédita
de sua indústria e infra-estrutura, o Japão despontou como
potência industrial e financeira, o que levou vários
estudiosos da geopolítica a indagar: “será o Japão o número
um?”
Contudo,
apesar de avanços espetaculares de sua indústria e
tecnologia, o Japão, com base territorial reduzida e
insular, sem recursos naturais e energéticos próprios,
ficou restrito ao segundo lugar entre os países
desenvolvidos, membros da OCDE – Organização para
Cooperação e Desenvolvimento Econômico –, alcançando
seu PIB – Produto Interno Bruto – o valor respeitável
de 4,5 trilhões de dólares.
A
hegemonia econômico-financeira e militar, desde o fim da 2a
guerra mundial, ficou com os Estados Unidos, apesar da
contestação no âmbito militar pela ex-União Soviética.
Durante a “Guerra Fria”, as duas superpotências construíram
um arsenal de bombas atômicas – aproximadamente 10.000
cada uma, posteriormente reduzido a 5.000 em cada país, com
capacidade de destruição inimaginável de todo o planeta.
Após o desmoronamento da ex-União Soviética, em 1989, os
estrategistas dos dois lados do Atlântico apressaram-se em
proclamar o “fim da história”, com a vitória e
hegemonia incontestável do capitalismo norte-americano.
Efetivamente,
os Estados Unidos têm a maior economia do mundo, com um PIB
de 11,5 trilhões de dólares, embora sofram de um déficit
crescente em sua balança comercial, sobretudo com os países
do Oriente. China, Japão, Taiwan, Coréia do Sul juntos têm
reservas cambiais de mais de 2 trilhões de dólares, o que
revela a vulnerabilidade financeira da potência hegemônica,
cujas finanças seguem desequilibradas, em ritmo crescente.
Os
Estados Unidos têm o maior orçamento de defesa,
praticamente igual ao de todos os outros países juntos e
suas forças armadas – exército, armada naval e força aérea
estão equipados com a mais avançada aparelhagem tecnológica.
Sua frota de navios de guerra, capitaneada por 12 porta-aviões,
está em todos os mares e a força aérea conta com o maior
número de aviões de caça voando com velocidade supersônica
e de bombardeiros capazes de carregar e despejar artefatos
nucleares em qualquer parte do mundo. O número de soldados
efetivos é de 1.500.000, o que permitiu o envolvimento em
duas guerras simultaneamente. Após a invasão do Afeganistão,
em 2001, para aniquilar os combatentes da Al Qaeda e do
Talibã, as tropas norte-americanas invadiram, em 2003, o
Iraque, contrariando a opinião mundial, as Nações Unidas
e seu Conselho de Segurança. O motivo alegado por George W.
Bush e Tony Blair da existência de depósitos de armas de
destruição em massa – químicas, biológicas e nucleares
– nunca foi comprovado.
Quatro
anos depois da invasão, e o aprisionamento, julgamento e
execução de Saddam Hussein, o desastre militar no Iraque
fica cada vez mais evidente e inextrincável. Com 4.000
soldados aliados mortos e dezenas de milhares feridos e
mutilados, o Iraque está submergido numa guerra civil entre
xiitas e sunitas, enquanto mais de 2 milhões de civis
fugiram do país. O número de vítimas civis entre a população
iraquiana é estimado em centenas de milhares, tornando trágica
a pretensão de Bush de implantar um regime democrático no
Oriente Médio.
Enquanto
as perdas em homens e equipamentos alcançam cifras astronômicas,
cresce a pressão interna, nos Estados Unidos, para uma
retirada de seus militares. Mas, como abandonar o Iraque,
sem evocar de novo o desastre da retirada de mais de meio
milhão de soldados do Vietnã, derrotados pelos exércitos
“descalços”, há 32 anos?
Acrescenta-se
o ressurgimento de combates no Afeganistão, onde as tropas
americanas e da NATO enfrentam os guerrilheiros do Talibã,
da Al Qaeda e dos “insurgentes” tribais, evidenciando a
impotência do governo central “eleito” de Hamid Karzai
de impor um mínimo de lei e segurança pública.
O
engajamento das forças armadas dos Estados Unidos nos dois
países estendeu sua capacidade de operar além dos limites
e configura a derrota fragorosa da superpotência. O
Congresso norte-americano, dominado por escassa maioria
democrata, após as últimas eleições de 2006, votou uma
proposta fixando a data de retirada das tropas
norte-americanas do Iraque, prontamente vetada pelo
presidente Bush. Mas, também os democratas não querem
assumir a responsabilidade pública do decreto e não sabem
o que fazer diante da carnificina diária por carros-bomba e
ataques por homens-suicidas contra alvos civis e militares
que já causaram inúmeras vítimas entre os iraquianos e
outros que procuram abandonar
o país destruído.
Apesar
de todo o poderio de suas armas, o prestígio militar dos
Estados Unidos tem sofrido um abalo do qual nenhuma nova
aventura militar (Irã, Coréia do Norte, Síria) poderia
resgatá-lo. Os recursos bélicos estão no limite de sua
utilização eficaz, dado que para cada brigada em combate,
há necessidade de duas em atividades de apoio e
treinamento. O recrutamento de novos voluntários está
ficando cada vez mais difícil o que levou o comando a
baixar as exigências de qualificação de novos recrutas. O
tempo de exposição das tropas ao combate foi aumentado
para seis meses seguidos de igual período de recuperação
e treinamento. As tropas inglesas concentradas na região de
Basra mantêm quatro meses de combate seguidos de oito meses
de recuperação. O número de soldados mortos aumenta
constantemente e, mais ainda aqueles que necessitam de
longos períodos de tratamento psicológico para superar o
trauma e o “stress” permanentes. Cresce também, em
proporções alarmantes, o número de soldados mutilados –
mais de 20.000 – cujo tratamento e readaptação à vida
constituem um imenso problema social e financeiro.
Embora
continue incontestável a supremacia militar dos Estados
Unidos, seu prestígio político e moral têm sofrido sérios
abalos, pelo mundo afora e entre a própria população
norte-americana.
Durante
décadas, as forças armadas norte-americanas foram
treinadas para enfrentar os poderosos exércitos da ex-União
Soviética, dando-se pouca importância a pequenos conflitos
regionais, embora não faltassem advertências de militares
sobre a inadequação do treinamento e do equipamento para
um conflito com guerrilheiros urbanos. Poucas unidades dos
1,5 milhão de soldados estão preparadas para lutar contra
os “insurgentes” no Iraque e no Afeganistão,
entrincheirados sob edifícios civis, onde o emprego maciço
da aviação e de veículos blindados pesados se tem
revelado ineficaz para expulsar os combatentes inimigos,
enquanto tem causado inúmeras vítimas entre civis e destruído
cidades inteiras.
A
doutrina militar herdada da 2a guerra mundial
(“Blitzkrieg”) não funciona em condições de combate
com guerrilheiros urbanos, como bem aprenderam as tropas
norte-americanas e seus mercenários no Iraque, e os
israelenses no curto conflito com o Hezbolah, no Líbano, em
julho de 2006.
Às
perdas enormes em vidas humanas e ao custo financeiro deve
ser acrescentada a decadência do prestígio político e
moral entre os americanos e seus aliados.
O
envolvimento em conflitos sangrentos, reprovado por
praticamente todos os governos e povos, com exceção de
Tony Blair, companheiro de Bush nas mentiras sobre depósitos
de armas de destruição em massa no Iraque, foi seguido
pelo horror causado no mundo após os relatos sobre as
atrocidades cometidas por soldados norte-americanos em Abu
Ghraib, a manutenção em prisão e tortura de prisioneiros
“suspeitos” de atividades terroristas em Guantánamo,
Cuba e a divulgação de operações ilegais da CIA em vários
países europeus.
A
confiança e auto-estima dos norte-americanos foram
profundamente atingidas, moral e legalmente, por medidas
propostas por Bush e aprovadas pelo Congresso, então com
maioria republicana, tais como o Military Commissions Act, a
autorização de torturas em “certas circunstâncias” e
restrição ao habeas
corpus que constituem uma grave ameaça à democracia e
aos direitos humanos. Ainda antes da aprovação dessas leis
pelo Congresso, o Governo Bush lançou mão de seqüestros,
encarceramento e tortura de pessoas que jamais haviam sido
formalmente acusadas de qualquer crime específico.
Efetivamente,
com exceção de Blair que não mais representa o povo britânico,
os Estados Unidos não contam com o apoio ou a solidariedade
de nenhuma região do planeta. Analistas e estrategistas
militares levantam conjecturas sobre os impactos causados
pela guerra do Iraque no “declínio do império” e que
possam resultar em redesenho do mapa e do equilíbrio geopolítico
no mundo.
Tanto
na Europa ocidental, na África e, sobretudo, na América
Latina, alastram-se profundos sentimentos de rejeição e crítica
às políticas norte-americanas. O mundo islâmico, com mais
de um bilhão de pessoas, desde Indonésia e Malásia até o
norte da África condena os Estados Unidos e sua política
no Oriente Médio. Mesmo no Extremo Oriente, cujos países
estão sob o guarda-chuva de proteção nuclear
norte-americana contra possíveis, mas improváveis ataques
da Coréia do Norte, os japoneses, coreanos, taiwaneses
adotam freqüentemente atitudes abertamente hostis contra os
americanos.
As
relações com a Rússia continuam tensas, apesar dos
encontros entre Bush e Putin que, além das 5.000 armas atômicas
armazenadas, controla crescentemente o abastecimento dos países
europeus com o gás combustível. Embora não haja
perspectivas de um conflito armado com a Rússia, seu regime
autoritário, a repressão interna de qualquer oposição e
a venda de armas sofisticadas, inclusive aviões de caça
supersônicos constituem fator de preocupação permanente
do governo norte-americano.
Ademais,
o Governo Putin acaba de anunciar a retirada da Rússia do
tratado sobre a limitação de armas convencionais na Europa
que foi considerado como o primeiro passo em direção ao
desarmamento. A decisão da Rússia é claramente uma reação
à suposta ameaça que representaria a construção, pelos
Estados Unidos de um escudo antimísseis na República
Tcheca e na Polônia, alegando o perigo de mísseis
carregados de bombas nucleares do Irã.
A
contraproposta de Putin de ampliar e administrar em conjunto
a base já existente no Azerbaijão, próxima à fronteira
com o Irão, foi descartada por Bush.
Mas,
a maior fonte de preocupação para a política
norte-americana e concebida como ameaça mais séria a sua
hegemonia é a ascensão da China, com mais de 1,3 bilhões
de população e cuja influência e presença econômica,
comercial e tecnológica permeia o atual cenário
internacional.
Há
um quarto de século a China investe, anualmente,
pesadamente (até 50% de seu PIB) no seu crescimento econômico,
na educação, no desenvolvimento tecnológico e na
modernização de suas forças armadas, e tem construído e
mandado para o espaço naves e satélites, além, também,
de dispor de centenas de armas nucleares.
A
ascensão da China
A
China, junto com a Mesopotâmia, o Egito e a Índia são
considerados os berços da civilização humana, amplamente
documentados e estudados pela Arqueologia, a Antropologia
Cultural e a História oral e escrita transmitidas através
de gerações.
Com
extensão territorial de quase 10 milhões de km2,
o dobro da Europa, excluindo a Rússia, e uma população
que ultrapassa 1,3 bilhões de pessoas, a China possui
enormes recursos naturais e minerais, além de um imenso
potencial hídrico representado pelos rios Yang Tse e
Hoang-Hu cujas águas irrigam as planícies férteis desde
tempos pré-históricos, e permitem o cultivo de milho,
trigo e arroz, alimentos básicos para uma população em
expansão constante.
As
riquezas produzidas pela agricultura irrigada atraíram os
“bárbaros” hunos, mongóis, turcmenos e outros que
invadiram inúmeras vezes as prósperas terras do império.
Para se proteger contra as invasões, os chineses construíram
a “grande muralha” de mais de 2.400 km de extensão, uma
verdadeira maravilha do engenho e da capacidade construtiva
dos chineses.
Durante
a história milenar da China, nota-se a forte presença do
Estado centralizador na organização e administração das
atividades econômicas e de defesa.
Entre
as várias dinastias que dominaram esse país, de dimensões
continentais, destaca-se a dos Souéi (581-619) que impôs
uma série de reformas políticas, sociais e econômicas,
conseguindo pacificar a sociedade. Além da reforma do código
penal, os impostos foram reduzidos por um terço e os dízimos,
pela metade. As terras foram distribuídas entre os
camponeses – 1,5 hectares por adulto – conseguidas pela
expropriação dos senhores feudais. O fortalecimento da
monarquia coincidiu com uma expansão do comércio por via
marítima.
Diferentemente
dos outros países da época, o regime chinês foi mais
democrático e mais igualitário, baseado no direito natural
da posse da terra em comum. A organização social da população
foi configurada por aldeias, cantões e províncias, cujo
funcionamento e segurança foram assegurados pelas forças
militares sob comando do imperador.
O
Estado organizou, também, a instrução e formou um quadro
de administradores admitidos por concurso, além de
estimular os estudos acadêmicos e científicos. Os cargos
político-administrativos não foram hereditários e o novo
código civil pregou os princípios de humanização e
solidariedade.
Quanto
ao culto religioso, diferentemente dos hindus e islâmicos,
os chineses não demonstram atitudes de intolerância ou de
fanatismo. Em vez de se ocupar com o além, os sábios
dirigem suas atenções para a gestão de assuntos terrenos,
do dia-a-dia, para assegurar o bem estar de todos.
Diferentemente das culturas ocidentais, onde a Arte e a Música
foram profundamente influenciadas pela idéia do divino, a
China desenvolveu sua cultura na veneração da natureza. A
liderança na sociedade chinesa não foi exercida por
sacerdotes de personalidade carismática, mas pelos instruídos
nos ensinamentos hedonistas e pragmáticos de Confúcio.
A
história da China não oferece exemplos de intolerância ou
de perseguição religiosas, embora sua estrutura social
tenha sido sempre marcada pela religião. As massas de
camponeses seguiram as crenças e superstições do animismo
primitivo, herança da cultura primeval. As elites instruídas
se definem pela adesão à ética confuciana. Ao longo dos séculos,
a estruturação religiosa configura-se em três grandes
correntes: o confucionismo, o taoísmo e o budismo.
Pela
antiga concepção chinesa, o céu, a terra e os homens
constituem uma completa unidade, donde se deriva a busca de
harmonia entre as ações humanas e a natureza. A observação
da natureza, em seus movimentos cíclicos – as estações
do clima, o crescimento da flora e as correntezas dos
grandes rios, por um lado e a violência das inundações,
tempestades e secas, por outro, deu origem a uma cosmologia
que permeia todo o pensamento e a ação dos chineses. O
princípio do Tao – a unidade e amplitude do universo –
é o fundamento pelo qual a vida em sociedade deve se reger
livre de agressividade e de ganância, em harmonia com a
natureza.
Desde
os primórdios da civilização chinesa e antes de Confúcio
e Buda, os costumes, valores e o folclore tradicionais
procuravam aplacar a ira os demônios e maus espíritos por
sacrifícios os quais ao longo dos séculos se tornaram simbólicos.
Já no 2o milênio antes da era cristã,
instalou-se o culto aos ancestrais, mediante altares e ritos
de luto específicos. A idéia central que permeia esses
ritos é a continuidade da vida, atravessando passado,
presente e futuro representados pelas diversas gerações da
família.
O
imperador, filho do céu, foi venerado como pai benevolente
da nação, visão refletida na relação à propriedade das
terras, lares e outros bens que pertenciam a todos,
inclusive aos entes falecidos. Assim, o culto de reverência
aos parentes mortos constitui ainda parte fundamental da
cultura chinesa.
Os
ensinamentos de Confúcio que impregnam e continuam a pesar
na cultura chinesa atual, podem ser encontrados numa coletânea
de provérbios e injunções éticas do mestre. Segundo
esses preceitos, facilitar a governabilidade e o convívio
em sociedade exige distanciar-se da crença em demônios e
divindades sobrenaturais. Assim, Confúcio rejeitou a sua própria
divinização e preferiu ser considerado como exemplo do
saber e da virtude.
A
ascensão do regime comunista a partir de 1949 e a conseqüente
transformação da ideologia dominante levaram ao
enfraquecimento e até a eliminação, tanto dos ritos
tradicionais, quanto dos cultos de Confúcio. Em 1912, com a
queda do último imperador e a criação da República, a
veneração a Confúcio ficou abalada, embora o governo de
Chiang Kai Chek tenha declarado seu aniversário como
feriado nacional, até hoje celebrado – em Taiwan.
Como
explicar a decadência do poderoso império chinês que
desde a antigüidade mantinha relações comerciais com o
ocidente, construindo e zelando pela segurança da famosa
“estrada de seda”, pela qual transitavam as caravanas de
mercadores, alimentando um fluxo intenso de bens e inovações
tecnológicas da China para o resto do mundo, como a bússola,
a pólvora, a impressão em papel que foram trazidas para a
Europa e contribuíram para o processo de modernização na
época do Renascimento.
Mas,
o fortalecimento dos senhores feudais e o isolamento do
resto do mundo causaram atraso econômico e militar,
sobretudo no século XIX. As constantes lutas
dos generais – senhores feudais entre si,
enfraqueceram o poder central e atiçaram a cobiça pela
conquista de territórios chineses por parte dos países
ocidentais.
Em
1857, a Grã-Bretanha derrotou os exércitos chineses
dotados de armamentos antiquados, na famigerada “guerra de
ópio”, cuja livre importação foi imposta pelos
vencedores. Sucessivamente, os Estados Unidos, Portugal,
França, Alemanha e Inglaterra ocuparam enclaves
territoriais chineses, a partir dos quais importavam suas
mercadorias e exportavam bens demandados em seus países.
Em
1894/5, os exércitos chineses sofreram uma fragorosa
derrota numa guerra contra os japoneses, que se apoderaram
de vastas extensões territoriais da China. Em 1899/1900
ocorreu um levante popular contra a opressão e exploração
pelos países imperialistas, conhecido na História como o
levante dos “Boxers”. Os países ocidentais mandaram uma
força expedicionária que reprimiu o levante de forma
sangrenta e, em seguida, exigiram o pagamento das reparações
pesadas que enfraqueceram ainda mais a autoridade imperial e
abriram o caminho para sua derrubada e a conseqüente
proclamação da República.
As
derrotas militares humilhantes e a ocupação de seus territórios
pelas potências imperialistas, despertaram o nacionalismo
chinês e levaram à criação de um partido nacionalista, o
Kuo Ming-Tang, sob a liderança de Sun Yat Sen, considerado
o pai da China moderna.
Em
1927, sob a inspiração da Internacional Comunista,
comandada por Stalin, o partido comunista chinês esboçou
um levante revolucionário em Cantão, violentamente
reprimido pelos militares.
Nos
anos trinta do século passado, os japoneses se lançaram
novamente à guerra contra a China, enfraquecida
internamente pelas lutas entre seus generais. As tropas
japonesas ocuparam um vasto território no nordeste da
China, a Manchúria, rica em matérias-primas, que foi
declarada um reino “independente” sob proteção do Japão.
Durante
a 2a guerra mundial, pressionada pelos aliados
ocidentais, a China, liderada pelo General Chiang Kai Chek,
declarou a guerra ao Japão e aos seus aliados do “eixo”
Alemanha e Itália.
As
tropas chinesas, mal armadas e treinadas, não conseguiram
resistir aos japoneses e sofreram
também constantes ataques pelos soldados camponeses
liderados por Mao Tse Tung. Em 1949, as tropas de Chiang Kai
Chek se renderam e uma parte dos soldados e suas famílias
fugiram para a ilha de Formosa – hoje Taiwan – onde
proclamaram um Estado independente, em oposição ao regime
comunista.
Apesar
das ameaças das antigas potências coloniais e a pressão
nada amigável da ex-União Soviética, o novo regime
conseguiu unir, integrar e pacificar um povo de 600 milhões
de habitantes, dando início a um processo de construção
de um Estado moderno, dinâmico e militarmente eficaz, como
provou a intervenção das tropas chinesas ao lado da Coréia
do Norte, quase expulsando as tropas americanas da península
Coreana, em 1951.
Nos
anos sessenta, a China passou pelo movimento de “Revolução
Cultural” que mobilizou e despertou, politicamente,
dezenas de milhões de camponeses, trabalhadores e
estudantes. Ao mesmo tempo, foram varridas do cenário
social e político as “elites” tradicionais que tinham
arrastado a sociedade chinesa durante séculos, na mais
abjeta miséria e exploração.
Por
outro lado, apesar das crueldades e eventuais injustiças
cometidas durante a Revolução Cultural, a China emergiu
dela como uma sociedade mais coesa e solidária e seus
membros mais conscientes de seu legado histórico e de sua
identidade nacional e cultural.
Na
fase de transição para uma sociedade industrial moderna,
como comprovam os exemplos da Alemanha e do Japão no século
XIX, a presença do Estado com sua capacidade de
planejar, orientar e regulamentar os investimentos
produtivos tem sido o fator fundamental para a emergência
da China como potência hegemônica no cenário
internacional. A ação do poder público, apoiado em amplo
consenso da população, cria oportunidades para planejar e
fiscalizar a aplicação de recursos materiais, financeiros
e humanos, que asseguraram o êxito na condução do
processo de desenvolvimento.
Indubitavelmente,
a China desponta neste começo de século XXI como a nova
superpotência em ascensão. Há mais de duas décadas a
economia chinesa cresce a um ritmo alucinante, com uma taxa
anual superior a 10% medida pelo PIB , causando assombro e
inveja aos economistas e políticos ocidentais. Junto com o
processo de crescimento econômico ocorreu um acelerado
processo de urbanização que transferiu centenas de milhões
de camponeses para as cidades, a um ritmo e intensidade
superiores a qualquer outro país na história recente,
incorporando-os como produtores e consumidores. Com a pressão
demográfica – são 1,3 bilhão de habitantes –
expandiu-se o desenvolvimento em direção ao interior, ao
longo de milhares de quilômetros beirando os rios Yang-Tse
e Huang-Ho.
Investindo
quase 50% do PIB anualmente, a acumulação de capital e a
incorporação de mão-de-obra prosseguem a um ritmo
acelerado, atraindo, também, mais da metade dos FDI –
Foreign Direct Investment (investimentos estrangeiros) do
mercado mundial. Com uma oferta praticamente ilimitada de mão-de-obra
relativamente qualificada e o acesso e incorporação de
tecnologia de ponta, a China consegue abarrotar o mercado
mundial com seus produtos, exportando bens e serviços no
total de US$ 600 bilhões anuais e acumulando saldos
comerciais superavitários que elevaram suas reservas
cambiais a mais de um trilhão de dólares.
Sem
dúvida, a China enfrenta enormes problemas sociais e
ambientais, cujo equacionamento e solução exigirão
investimentos e esforços adicionais de planejamento da
expansão econômica. No período de 25 anos, a China
conseguiu incorporar à sociedade mais de trezentos milhões
de pessoas como membros produtivos, mais do que todos os países
“emergentes” e em desenvolvimento em conjunto.
A
qualidade de vida da população melhorou nesse período,
revelando uma crescente e próspera classe média. O
coeficiente de GINI – parâmetro de distribuição
desigual da renda é igual ao dos Estados Unidos. Apesar de
previsões pessimistas
afirmando a insustentabilidade do presente
crescimento econômico e das exportações, os avanços nas
transformações e na expansão do mercado interno reforçam
a tendência ao crescimento da economia chinesa, em vias de
ultrapassar a Alemanha e alcançar o Japão.
O
orçamento militar chinês superou o do Japão, seguindo de
perto os da França e da Grã-Bretanha, alimentado por um
crescimento econômico (PIB) que ultrapassou os dois países,
igualou-se ao da Alemanha e persegue o segundo lugar na
economia mundial, atrás dos Estados Unidos.
Durante
o século XX, os Estados Unidos alcançaram sua posição
hegemônica, não somente pela pujança de sua indústria,
comércio e finanças, mas, sobretudo pela irradiação da
democracia liberal e sua cultura – o “American Way of
Life”.
Hoje,
após o descalabro e próxima retirada do Iraque, suas alianças
e prestígio desmoronaram, junto com a sua imagem política
e moral. Procurando um “bode expiatório”, os grupos
conservadores norte-americanos clamam por um sistema
protecionista comercial contra a rival – China; à
semelhança dos anos oitenta quando medidas idênticas foram
advogadas, sem sucesso, contra o Japão. As indústrias de
ponta chinesas e japonesas instalaram-se nos Estados Unidos
e seus produtos eliminam competidores
americanos do mercado.
Finalmente,
os problemas do aquecimento global por efeito estufa e a
questão de combustíveis alternativos e mais limpos afetam
a todos os países industrializados, sendo os Estados Unidos
e a China os maiores emissores de CO2. Ambos dispõem
de imensas reservas de carvão mineral, sendo a fonte energética
mais barata, sobretudo face ao aumento dos preços do petróleo.
Queimar carvão é o processo mais barato de gerar energia
elétrica, mas produz, aproximadamente, 40% de emissão de
CO2.
O
Governo Bush tem resistido sistematicamente a estabelecer
metas de redução das emissões e a China, na sua corrida
desenfreada pelo crescimento econômico, coloca em operação
uma usina movida a carvão de 500 MW por semana.
Enquanto
os Estados Unidos discutem subsídios para a produção de
etanol à base de milho (alto custo e ambientalmente
desaconselhado) a China investe, pesadamente, em energia eólica
e solar.
Qual
dos dois países atenderá mais rápido e eficazmente o
clamor das populações por um mundo mais justo, limpo e
seguro para todos?
por
HENRIQUE RATTNER