Universidade
e desenvolvimento regional
É
recorrente no movimento docente o argumento de que as universidades
estão vivendo uma crise sistêmica. Esse argumento ganha uma dimensão
mais ampla, principalmente quando os docentes estão reivindicando
reajustes salariais, como está ocorrendo agora nas Universidades Públicas
Paranaenses. Eu não faço parte desta parcela que acredita que as
universidades estão passando por uma “crise”. Pelo menos não
na acepção sociológica do termo, onde “crise” é sinônimo de
uma situação repleta de problemas e a conjuntura é totalmente
desfavorável. Não estamos vivendo um momento histórico de
indefinições ou de riscos inquietantes, como aquele que passamos
nas décadas de 1960 e 1970, sob o controle do decreto 477 e o
constante regime de vigilância e de falta de liberdade acadêmica.
Hoje a realidade é outra. As universidades brasileiras são
instituições sólidas, o conhecimento produzido no Brasil tem se
destacado no conjunto da produção mundial e as políticas públicas
de incentivo à ciência e tecnologia são cada vez mais debatidas e
colocadas em práticas.
Mas
isso não quer dizer que estamos vivendo momentos de júbilo e
regozijo. Pelo contrário: temos muitos problemas a enfrentar. Mas
vamos deixar os problemas nesse momento em stand by para
falar das boas possibilidades das universidades, principalmente
daquelas que estão radicadas no interior do Brasil. Aproveitando a
experiência de quem já participou da vida universitária com funções
diferentes (Presidente de Associação Docente, Vice-Reitor e
Reitor), apresento algumas considerações a respeito do que imagino
fundamental para que tenhamos uma universidade de qualidade e com
forte impacto no desenvolvimento regional da sociedade brasileira.
As
universidades, principalmente as estaduais (e elas são mais de 50
espalhadas pelo interior desse enorme Brasil) exercem um papel
preponderante no desenvolvimento regional e na descentralização da
produção do conhecimento e do saber.
A
universidade pública, sendo patrimônio da sociedade, deve oferecer
respostas concretas à sociedade. Uma dessas formas é através da
extensão universitária. Em princípio, a atividade de extensão
deve ser fruto da sintonia da universidade com questões de relevância
social e cultural. Mas a consistência das respostas que podem ser
oferecidas à sociedade depende do grau de envolvimento da
universidade com essas questões. Para isso, precisamos incentivar a
integração e a articulação dos grupos de pesquisa, dos
departamentos, dos cursos de graduação e de pós-graduação, dos
professores e dos alunos estimulando a formulação de atividades de
extensão de caráter amplo, em áreas de grande interesse social. Só
assim estaremos ampliando as fronteiras entre a universidade e a
sociedade.
Ampliar
as fronteiras entre a universidade e a sociedade significa propor a
abertura da universidade para a sociedade. Isso implica em
estabelecer políticas para defender e compartilhar os bens comuns,
que são os conhecimentos e os saberes. São funções tanto da
sociedade como da universidade, colocar o conhecimento e o saber a
serviço da democracia e da justiça social. Sabemos que, no Brasil,
os elos entre as universidades e a sociedade sempre estiveram
voltados para alguns segmentos específicos, sobretudo os setores
produtivos e as elites econômicas.
É
importante reforçar a idéia de que as universidades precisam
privilegiar políticas e ações, pesquisas e atividades de extensão,
que a aproximem de segmentos da sociedade brasileira e de seus
movimentos identificados pela exclusão social e distanciados desse
espaço público de produção de conhecimento e da cultura.
Precisamos ampliar a relação das universidades com o mundo do
trabalho, com as organizações sociais e com os movimentos
populares e sociais. Mas também é função das universidades
garantir o acesso adequado e permanente aos trabalhadores à produção
científica acumulada no âmbito acadêmico .
E
nada mais significativo para ampliar as fronteiras das universidades
do que estimular o desenvolvimento regional e social. O Brasil é um
país com grandes diferenças regionais, como existem diferenças
regionais entre os estados. Diante dessa realidade, é função da
universidade pensar a questão do desenvolvimento regional. Porque
pensar esse tema significa pensar o papel que a Universidade
brasileira exerce em relação à sociedade. Significa colocar no
devido lugar as políticas públicas que esse imenso país chamado
Brasil tem desenvolvido para equacionar as disparidades sociais e
regionais que nos acompanham praticamente há cinco séculos. Este
país só conseguirá fazer justiça social se ele implementar uma
nova política regional capaz de equacionar a herança de
desigualdades que caracteriza a realidade espacial do País. Essa
realidade espacial combina regiões desenvolvidas e industrializadas
com áreas de imensa pobreza e atraso econômico, social e cultural.
É fundamental que se estimule a discussão sobre um Plano Nacional
de Desenvolvimento Regional, que seja um instrumento de avanço do
conjunto das regiões e de apoio à sua inserção ativa no mundo
globalizado.
Mas
se precisamos construir uma nova política de desenvolvimento
regional, precisamos também elaborar uma nova política para as
universidades brasileiras. Como tem enfatizado o ex-ministro da
educação e hoje senador, Cristóvão Buarque, a universidade
brasileira vive uma encruzilhada, que é a mesma encruzilhada da
sociedade. Ou elas (a universidade e a sociedade) caminham para: 1)
continuar a modernidade técnica, desenvolvida ao longo dos últimos
duzentos anos, que culminou com a brutal divisão da humanidade em
dois grupos: entre aqueles que tem acesso à ciência e tecnologia e
aqueles que não tem; ou caminham para 2) construir uma modernidade
ética alternativa, capaz de manter as similaridades da raça humana
e de assegurar a todos o essencial do progresso científico e tecnológico.
Temos
que investir nesse segundo caminho. O conhecimento universitário
muito raramente consegue extrapolar os muros da universidade e
entrar em sintonia com o conhecimento e com as demandas da realidade
social externa a esses muros. A universidade precisa derrubar os
seus muros e abrir-se para a sociedade. Não para qualquer
sociedade: para aquela que produz riqueza, que gera e distribui
rendas; para aquela que se preocupa com o bem estar social; para
aquela que busca a inclusão social ao invés da exclusão; para
aquela que pensa a sua cidade e a sua região como um espaço
importante de convivência e desenvolvimento, enfim: para a
sociedade cidadã.
Queremos
um futuro melhor para nós: participando do mundo global, mantendo a
nossa identidade e soberania nacional e, com certeza, acabando com
as disparidades regionais e sociais. A Universidade Pública pode e
deve ajudar nessa empreitada. Se os governos e os dirigentes
universitários não atrapalharem, já é um bom sinal.
por
ÂNGELO
PRIORI