Para
compreender a Ontologia de Lukács
O
texto que agora vem a público, graças ao estímulo de Paulo
Denisar Fraga, com o título Para compreender a Ontologia de Lukács,
é uma reedição, revista e ampliada, de A Ontologia de Lukács.
Este texto conheceu duas edições anteriores, ambas pela Editora da
Universidade Federal de Alagoas em 1995 e 1997. Escrito em 1991, se
propõe como uma introdução à Ontologia
de Lukács. Inicia-se pela fábula de um indivíduo covarde que se
torna herói e dá origem a uma dinastia hereditária depois de um
ato de extrema coragem por mero acaso e, a partir de vários
momentos dessa fábula, analisa as categorias trabalho, reprodução,
ideologia e alienação, as categorias principais da ontologia lukácsiana.
Além de algumas atualizações e a adoção da tradução de Entfremdung
e Entäusserung como alienação e exteriorização,
respectivamente, foram acrescentados um novo capítulo sobre a relação
entre o trabalho e as classes sociais no capitalismo atual e dois
artigos que poderão auxiliar na introdução ao pensamento lukácsiano.
Não
deixa de ser curioso que um livro alcance sua terceira edição
antes da publicação do texto do qual pretende ser uma introdução.
Essa, aliás, foi a resistência de alguns editores. A curiosa
trajetória da Ontologia de Lukács entre nós sem dúvida é
responsável por esse fato: das obras marxistas ainda não
publicadas em nosso país, provavelmente é a que conseguiu maior
divulgação e a que gerou um maior corpo de pesquisadores. Esse
fato é significativo, também, se considerarmos ser ela um
manuscrito de difícil leitura e que dela há apenas uma edição em
italiano (a mais utilizada entre nós) e outra alemã (uma raridade,
da qual tenho conhecimento de apenas 3 exemplares em nosso país). Não
nos ocorre outro texto que tenha gerado tal interesse e – em
muitos casos – uma tal paixão, antes de ser traduzido.
Como
explicar esse fato?
Agora,
já de uma perspectiva de três décadas, evidencia-se que a onda pós-moderna
nada mais é que a explicitação dos pressupostos ideológicos últimos
da assim chamada reestruturação produtiva do capital. Seu
individualismo, sua concepção de mundo centrada na singularidade,
sua negação da história e das tendências históricas universais,
sua valorização abstrata dos procedimentos formais da democracia,
sua adoração ao mercado, etc., serviram e servem apenas para
tentar tornar aceitável no plano ideológico o inaceitável para a
humanidade: o aprofundamento e a intensificação das alienações típicas
do capital. As teses de
Jameson (1997) e de Harvey (1992), para os quais estaria de fato
havendo uma alteração objetiva no tempo que, ao menos em parte,
justificaria o pós-modernismo, soam hoje como indevidas concessões
ao conservadorismo pós-moderno. Ao contrário, as análises, ainda
que mais rápidas e de menor fôlego de Calinicos (1989) e de Perry
Anderson (1998) se revelaram certeiras: muito mais que a
contrapartida teórica de mudanças objetivas, o pós-modernismo é
a radicalização até o limite do individualismo burguês em um período
de crise geral do capital e, portanto, de crise geral de sua
sociabilidade. Nenhum dos dois autores, é verdade, na análise de
crise chegam à precisão e riqueza que encontramos em Mészáros
(2002), todavia a crítica que realizaram ao pós-modernismo mantém
muito de sua atualidade e vigor, mesmo tantos anos depois.
Apesar
de haver falecido muito antes da expansão da modalidade pós-moderna
do irracionalismo e ainda que tivesse como seus adversários teóricos
imediatos o estruturalismo e o stalinismo, ao se propor a gigantesca
tarefa de resgatar os fundamentos últimos do pensamento de Marx,
Lukács terminou trazendo uma contribuição fundamental ao combate
de idéias contemporâneo – ainda que, repetimos, esse tenha sido
um "efeito colateral" de modo algum antecipado pelo autor
húngaro. Não seria uma falsidade afirmar-se que a Ontologia
está entre as obras da segunda metade do século XX que mais
frontalmente se opõem a todos os pressupostos e a todos os
desdobramentos importantes dos pós-modernos. Em primeiro lugar,
porque demonstra a insuperável conexão entre singular e universal,
tanto do ponto de vista da existência da singularidade como da
existência da totalidade. Demonstra, muito mais do que argumenta,
que não há singular que não seja partícipe de uma totalidade e
que, por isso, não há totalidade que não seja síntese de
singularidades. E, portanto, que a totalidade contém uma qualidade
distinta de cada singularidade, na medida em que a síntese das
singularidades em totalidade dá origem a um processo que é mais
amplo, rico e articulado que as singularidades tomadas isoladamente.
Em segundo lugar, porque demonstra a insuperável historicidade de
todo o existente, desde o inorgânico, orgânico até o social. A
historicidade comparece, ao final da Ontologia, como uma
determinação ontológica universal por excelência.
Em
terceiro lugar, e decorrente dos dois pontos anteriores, o confronto
de Lukács com o pós-modernismo é radical porque demonstra que a
essência é uma determinação da história, da qual é
parte movida e movente, na feliz expressão do autor húngaro. A
humanidade (ou, como prefere o "gênero humano") é um
processo histórico no qual os atos singulares dos indivíduos se
sintetizam em tendências históricas universais as quais, por sua
vez, retroagem sobre a situação histórica em que vivem os indivíduos,
articulando desse modo, em uma rica, contraditória e sempre dinâmica
inter-relação os atos individuais com as tendências mais gerais
do desenvolvimento humano. E, por fim, como a reação dos indivíduos
à situação histórica concreta é sempre mediada pelas suas
consciências, a subjetividade comparece como uma mediação insuperável
de todos os processos históricos, sejam eles mais universais ou
mais singulares. A subjetividade, a personalidade de cada um de nós,
é, portanto, uma mediação objetiva – isto é, que exerce
efeitos objetivos, materiais -- da reprodução social. Apenas por
ser subjetividade é que a idéia (e, por extensão, os complexos
ideológicos) pode exercer uma ação efetiva, real, sobre o
desenvolvimento dos processos sociais, sejam eles os mais singulares
(a reprodução das personalidades dos indivíduos) ou as tendências
históricas mais universais.
Cada
um desses tópicos é uma questão fascinante e que tem merecido
estudos aprofundados, na maior parte das vezes em pesquisas de pós-graduação.
O que procuraremos argumentar, nesse artigo, é outro aspecto desse
complexo de questões: toda essa articulação categorial apenas é
possível porque tem o trabalho como a categoria fundante do mundo
dos homens e, portanto, todos os outros complexos sociais são
fundados pelo trabalho. De fato, sem a totalidade social ter seu
momento fundante no trabalho, nenhuma das demonstrações que Lukács
alega (até agora, pelo menos, com toda razão) haver retirado de
Marx permaneceria de pé.
A
razão de o trabalho ser a categoria fundante do mundo dos homens
brota diretamente da história; ou seja, nem é uma dedução filosófica
de qualquer tipo, nem sequer é um axioma. Ao menos não no
pensamento de Lukács. Para o autor húngaro, como o ser social é
precedido pelo desenvolvimento da vida, em particular pelo
desenvolvimento dos hominídeos, herdamos a condição de que sem a
transformação da natureza não há qualquer reprodução social
possível na exata medida que não há qualquer reprodução biológica
dos indivíduos. Portanto, converter a natureza nos meios de produção
e de subsistência é a razão primeira da vida gregária dos
humanos: vivemos em sociedade porque apenas assim podemos produzir o
indispensável à nossa reprodução biológica e, portanto, para
que o atendimento da condição primeira da reprodução social. Em
sendo assim, será nesse intercâmbio orgânico com a natureza que
serão produzidas as necessidades e as possibilidades que tenderão
a predominar ao longo da história (daqui o desenvolvimento das forças
produtivas
ser o momento predominante do desenvolvimento das formações
sociais). E é também aqui que tem seu fundamento o fato de ser o
trabalho a categoria fundante do mundo dos homens. Será na
transformação da natureza que serão produzidas as necessidades e
possibilidades que tenderão a ser predominantes ao longo do tempo e
que expressam o modo peculiar dos humanos converterem a natureza no
que necessitam: apenas os humanos constroem na consciência antes de
construírem objetivamente.
O
fato de todo ato humano (e, portanto, não apenas o trabalho) ser a
conversão em um ente objetivo de algo previamente idealizado (isto
é, construído na consciência antes que na objetividade), faz com
que a transformação do real favoreça o confronto entre o que
pensamos acerca do mundo e o que de fato o mundo é. Ou seja, nossa
concepção de mundo é colocada em xeque toda vez que agimos e,
desse modo, é possível a produção de conhecimentos e habilidades
que não se possuía antes. Analogamente, ao produzir um novo ente
(seja ele natureza transformada, como no caso do trabalho, ou uma
nova relação social) a sociedade passa a contar com possibilidades
e necessidades que não possuía antes. Portanto, ao produzir sua
finalidade imediata, tanto o trabalho como os outros atos humanos
geram necessidades e possibilidades, subjetivas e objetivas, que
remetem para muito além das suas finalidades mais imediatas. É por
isso que, em se tratando do trabalho, Lukács vai argumentar que ele
remete sempre para além de si próprio, gera muito mais do que sua
finalidade imediata, sendo por isso a origem de um processo de
reprodução social que tende a ser muito mais amplo, rico e mediado
que o próprio ato de trabalho.
Trabalho
e reprodução social, desse modo, articulam-se de tal modo que um não
pode existir fora da relação com o outro: todo trabalho é um
momento da reprodução de uma dada formação social a qual, por
sua vez, tem no padrão do intercâmbio orgânico que desdobra com a
natureza (o trabalho), seu momento fundante. O trabalho escravo
funda o escravismo mas, todavia, apenas pode existir no interior do
modo de produção escravista; o mesmo para o trabalho servil e o
feudalismo e o trabalho proletário e o capitalismo maduro, etc.
Indivíduo e totalidade social, pessoa e história, estão, desse
modo, ricamente articulados: não há ato individual (ou não há
indivíduo) fora da reprodução social (ou, fora de uma formação
social) pela mesma razão que sem indivíduos que agem
cotidianamente não pode haver qualquer história.
Confrontada
à densa e rica articulação categorial da Ontologia de Lukács,
frente à sua demonstração do processo pelo qual os homens se
fizeram humanos (ainda que alienadamente humanos), a debilidade das
teses pós-modernas é tão palmar que apenas o fato de serem
expressões ideológicas das misérias do presente confere a elas
alguma aparência de verdade. Não é, por tudo isso, descabido
dizer que encontramos na Ontologia de Lukács uma das obras
que mais frontalmente se opõem à concepção de mundo pós-moderna.
Se
a contribuição da obra póstuma de Lukács se limitasse a esse seu
confronto com o pós-moderno, já seria de enorme monta. Todavia, há
ainda outro aspecto no qual a Ontologia tem uma contribuição
fundamental para o debate contemporâneo, agora mais especificamente
no campo da esquerda. Ainda que seja uma questão bastante complexa,
com vários aspectos muitas vezes indevidamente confundidos, é possível
se resumir a questão nesses termos: o trabalho categoria fundante
do mundo dos homens é sempre trabalho manual. Pois, no dizer de
Marx, "[...] como o homem precisa de um pulmão para respirar,
ele precisa de uma 'criação da mão humana' para consumir
produtivamente forças da natureza" (Marx, 1985: 17). Não há
qualquer sociabilidade que não tenha seu fundamento nessa relação
com a natureza e, correlativamente, não há riqueza social que não
seja produzida pelo trabalho manual. Os escravos produzem toda a
riqueza do escravismo, os servos do feudalismo e os operários do
capitalismo maduro. Essa é uma determinação ontológica
decorrente de ser o trabalho fundante do mundo dos homens: é pelo
trabalho das mãos (por mais complexo que ele se torne, por mais que
tenha entre os dedos e a natureza toneladas de ferramentas, etc.)
que a riqueza social é produzida. E daqui, também, que todo
trabalho intelectual, momento de preparação, organização,
coordenação, avaliação – de controle, enfim, do trabalho
manual, não se confunde com a produção da riqueza das sociedades.
Essa
tese causa, quase sempre, espanto: não seria hoje, com o
desenvolvimento das novas tecnologias, a ciência (por exemplo) uma
força produtiva? Para Habermas, certamente o seria. Para Lukács e
para Marx, absolutamente não. Pois, tal como há uma enorme diferença
ontológica entre o controle e organização do trabalho escravo
pelo senhor de escravo (com o auxílio de seu empregado assalariado,
o feitor ou o soldado) e a produção realizada pelo escravo, também
há uma fundamental divisão de classe entre os indivíduos que
realizam tais atividades. Os que realizam o controle do trabalho, o
assim denominado trabalho intelectual, fazem parte da classe
dominante ou de seus auxiliares assalariados. Eles compõem a porção
parasitária da sociedade que vive da riqueza produzida pelos
escravos. Algo análogo (não semelhante porque há mediações
inteiramente novas) ocorre no capitalismo contemporâneo: de um lado
a burguesia e o que Marx denominou de "classes de transição",
de outro lado os trabalhadores manuais que produzem o "conteúdo
material da riqueza social" (Marx, 1983:46). Tanto na sociedade
escravista, quanto na mais contemporânea, o caráter fundante do
trabalho impõe, com rigor histórico, o peculiar caráter de classe
de quem o realiza: escravos, servos e proletários.
Como
se postulam marxistas uma boa parte das teses que afirmam o fim do
proletariado, quer pela sua dissolução entre os assalariados, quer
pela conversão da classe média em proletária, elas terminam
enredas em um ecletismo sem remissão. Pois pretendem afirmar a tese
marxiana do trabalho como categoria fundante do mundo dos homens e,
ao mesmo tempo, postulam que há riqueza produzida fora do intercâmbio
orgânico com a natureza, de tal modo que os assalariados em geral
(e não apenas os proletários) seriam a gênese da riqueza
capitalista. Se Lukács estiver correto, há uma contradição entre
as teses da dissolução de classe (e, portanto, a dissolução da
sua função na reprodução social) do proletariado e a tese do
trabalho enquanto categoria fundante do mundo dos homens. Postular
pertencerem à mesma classe social os assalariados e os proletários
apenas é possível, se Lukács estiver correto, pelo abandono do
trabalho (do intercâmbio orgânico com a natureza) como a categoria
fundante do mundo dos homens (por exemplo, Habermas), ou que
adotemos uma definição de trabalho de modo a incluir nele outras
atividades que não apenas o intercâmbio com a natureza (como
ocorre com enorme freqüência nos dias de hoje).
Em
outras palavras, as transformações técnicas e gerenciais
contemporâneas, a crise estrutural do capital que é seu
fundamento, por mais que alterem e modulem a relação entre as
classes, não pode abolir o proletariado fabril e agrícola pela sua
dissolução entre os assalariados. Sua existência decorre do caráter
fundante do trabalho manual
que o proletariado realiza para a sociabilidade burguesa. E, conseqüentemente, por ser a única classe que vive da
riqueza que ela própria produz, é a classe revolucionária por
excelência, pois a única classe que nada tem a perder com a superação
da propriedade privada, das classes sociais, do Estado e do
casamento monogâmico senão seus grilhões.
É
isso, a nosso ver, que torna a obra de Lukács tão importante a
ponto de se difundir entre nós -- e propiciar o surgimento de um
corpo de pesquisadores não desprezível -- mesmo antes de ter sido
traduzida. E é ao redor dessas questões que nos parecem centrais
que organizamos o texto de introdução que agora vem a público.
por
SERGIO LESSA