Intelectuais
Brasileiros & Marxismo
Caio
Prado Júnior (1907–1990)
Para
podermos começar a avaliar o papel desempenhado por Caio Prado Júnior
na história do marxismo no Brasil, precisamos reconstituir, de
algum modo, as condições em que se deu a sua entrada na cena histórica.
Qual era o quadro em que ocorreu o aparecimento da Evolução
política do Brasil?
No
prefácio que escreveu para a primeira edição da obra, Caio Prado
Júnior advertiu que não se tratava de uma “História do
Brasil”, mas de uma “síntese”, de “um simples ensaio”.
Admitiu, contudo, que se serviria de um “método relativamente
novo”, que era a “interpretação materialista”.
O
advérbio “relativamente”, posto antes do adjetivo “novo”,
constituía uma expressão de modéstia, talvez também o
reconhecimento de que filosoficamente é raro o novo se apresentar
em estado “puro” (é difícil o absolutamente
novo), mas, em todo caso, abria caminho, igualmente, para o
reconhecimento de que a “interpretação materialista” tivera,
entre nós, antes da Evolução
política do Brasil, alguns precursores.
Há,
por exemplo, o caso do professor de latim Antonio Piccarollo,
italiano, que chegou ao Brasil em 1904 e em 1908 já se dispôs a
escrever uma síntese da evolução histórica e da situação política
do Brasil, publicada no manifesto programático do Centro Socialista
Paulistano. Mas o materialismo de Piccarollo era um materialismo
mecanicista, que não tinha muito a ver com a “interpretação
materialista” a que depois Caio Prado Júnior viria a se referir:
Piccarollo dissolvia a dialética no evolucionismo, combinava
elementos do folheto de Engels Do
socialismo utópico ao socialismo científico com a idéia de
que nem a natureza nem a história podem realizar saltos. Sua
perspectiva subordinava a mudança à continuidade.
Há,
também, o caso do jornalista Antonio dos Santos Figueiredo,
intelectual socialista independente, autor do livro A
evolução do Estado no Brasil, publicado em 1926. o
materialismo de Antonio dos Santos Figueiredo, contudo, pagava
elevado tributo às facilidades do ecletismo, que dissolviam a coesão
interna do pensamento e permitiam a mistura de Marx com o
historiador Henri Sée, discípulo de Werner Sombart. Além disso, o
materialismo de Antonio Figueiredo era meramente contemplativo,
constatativo, e por isso se deixava absorver por um pessimismo
paralisador, que correspondia à situação de um sujeito que não
enxergava nenhuma possibilidade de intervenção no movimento do
real, limitando-se a deplorar que esse movimento não se realizasse
como devia.
Em
certo sentido, o materialismo de Antonio Figueiredo lembrava o de
Feuerbach e merecia as críticas que Marx tinha feito ao autor de A essência do cristianismo. Faltava ao brasileiro, como faltava ao
velho filósofo alemão, uma compreensão materialista da práxis
humana, da ação material pela qual os sujeitos humanos estão
sempre modificando a realidade objetiva e se transformando a si
mesmos: o materialismo deles ficava restrito ao plano da existência
de objetos maciços, densos, movidos por uma força própria,
assustadoramente imunes ao poder revolucionador dos homens.
Não
sei se Caio Prado Júnior sabia da existência de Antonio Piccarollo,
nem se ele havia lido o livro de Antonio Figueiredo quando escreveu Evolução política do Brasil. Na medida, porém, em que tinha se
interessado pelo marxismo, é provável que o nosso historiador
tenha ouvido falar de Octávio Brandão, o farmacêutico autodidata
que se havia transformado no principal teórico da agremiação que
congregava as poucas centenas de pessoas que, no Brasil dos anos
vinte, aderiam ao ideal comunista de Marx: o Partido Comunista do
Brasil.
Em
1924, Octávio Brandão escreveu o livro Agrarismo
e industrialismo, que só pôde ser publicado em 1925, indicando
como autor um fictício Fritz Mayer e como lugar da publicação
(ardilosamente, para driblar a repressão) a cidade de Buenos Aires,
na Argentina. A obra serviu de base para o programa que o PC adotou
na segunda metade dos anos vinte. Teria Caio Prado Júnior tomado
conhecimento do documento programático dos comunistas brasileiros?
Teria ele lido o texto de Octávio Brandão? Não sei. Mas a
ressalva sugerida em sua caracterização do método materialista
como “relativamente novo” pode se referir, implicitamente, ao
esforço pioneiro realizado por Brandão.
De
qualquer modo, a interpretação materialista da história, em Agrarismo e industrialismo, não correspondia àquilo que Caio Prado
Júnior buscava em seu ensaio. Brandão, fascinado por Lênin, esforçava-se
por completar o materialismo com a dialética, para torná-lo mais
conseqüente, para permitir que a práxis revolucionária dos homens
também fosse pensada em termos materialistas. Sua dialética,
entretanto, ficava prejudicada por uma formalização exarcebada, de
tipo positivista. Era uma dialética que – conforme procurei
mostrar em artigo
anterior, neste volume –, ficava reduzida ao esquema triádico
de Hegel (tese, antítese, síntese), que era esquematicamente
aplicado, como fórmula definitiva e universalmente válida, pronta
e acabada, a uma gama notavelmente vasta de processos históricos
particulares, tais como a história do levante militar de 1924, a
história do movimento operário brasileiro, os quatro séculos de
transformação da sociedade brasileira e os vinte e tantos séculos
de transformação da sociedade italiana (que então se achava sob o
controle dos fascistas de Mussolini).
O
grande desafio, para um materialismo dialético, sempre foi o de
pensar a relação entre a força transformadora (e
autotransformadora) do sujeito e a força inerente ao movimento
mecanicista ou do chamado “evolucionismo vulgar”, a criatividade
do sujeito se esfuma e se dissipa, desaparece o espaço em que a
iniciativa do sujeito poderia desempenhar um papel realmente
significativo, o movimento subjetivo tende a se reduzir a um epifenômeno,
a um apêndice do movimento objetivo: os homens passam a ser
marionetes, bonecos manipulados pelo crescimento das forças
produtivas e por uma estranha dinâmica cega derivada das relações
de produção. O ser social não só determina a consciência (como
ensinou Marx), mas também a determina de forma unívoca, direta e
imediata.
Por
outro lado, não é casual que, ao longo da história, o
reconhecimento da importância da ação específica do sujeito
tenha ocorrido, com enorme freqüência, no campo do idealismo filosófico.
Se o vigor criativo dos sujeitos humanos minimizar; por um momento
que seja, o peso do condicionamento material em que a intervenção
subjetiva se realiza, a criatividade humana deixa de ser efetiva,
torna-se mítica, escorrega para a afirmação inócua do
“voluntarismo”, que é uma modalidade de idealismo.
Octávio
Brandão não se mostrou capaz de enfrentar o desafio que se punha
no caminho de um materialismo dialético. Quando tentava discernir
os “lugares” em que a vontade transformadora dos sujeitos
revolucionários poderia se impor, encontrava dificuldades e seu
discurso se tornava enfático porém vago. Há uma passagem de Agrarismo
e industrialismo, aliás, que evidencia a impotência do autor
para encaminhar uma solução adequada aos problemas que o
preocupavam: não conseguindo formular indicações suficientes para
as possibilidades da ação revolucionária aqui dentro, no âmbito
da realidade brasileira, ele se consola através da convicção de
que as chances da revolução
viriam de fora, da situação mundial, já que o mundo, a seu ver,
estava transformado num “vulcão prestes a explodir” e, na
primeira ocasião, um conflito entre o imperialismo inglês e o
imperialismo norte-americano desencadearia “uma guerra formidável
na América do Sul e no mundo inteiro”. Não se pode ignorar nessa
visão o ânimo de combate e o pressentimento valioso de uma nova
guerra que depois explodiu em 1939; porém o ímpeto do lutador
estava mal pensado e o presságio encerrava um equívoco óbvio (e
sintomático): a “guerra formidável” não se deu entre
norte-americanos e ingleses (que combateram juntos contra os alemães),
nem ocorreu “na América do Sul”, a não ser em episódios
menores.
Caio
Prado Júnior não podia se apoiar no materialismo de Octávio Brandão;
seu projeto obrigava-o a ir além dos horizontes teóricos do
combativo intelectual “oficial” do Partido Comunista. A
perspectiva materialista da Evolução política do Brasil exigia que o historiador reconhecesse
simultaneamente toda a dureza das condições objetivas e todos os
empenhos subjetivos que cabiam no quadro constituído pela
objetividade, pela sociedade brasileira.
Caio
Prado Júnior não olhava para o mundo como o lugar de onde viria
uma catástrofe redentora (a guerra): a situação lá fora era,
para ele, a situação do mercado mundial, que deveria ser avaliada
em função da nossa situação interna, isto é, das vicissitudes
do nosso modo de produção. Nossos problemas eram os problemas da
nossa sociedade e da nossa articulação com o mercado mundial.
Objetividade
e subjetividade estavam mutuamente imbricadas uma na outra; e a
predominância das condições objetivas não poderia dissipar a
irredutibilidade dos momentos subjetivos que marcam a história.
Caio Prado Júnior, logo no começo do seu ensaio, examinava as
questões impostas objetivamente aos homens (portugueses) pela
colonização e se dava conta das iniciativas – subjetivas – que
eles tiveram para fazer face às circunstâncias: ele se referia,
por exemplo, à tentativa representada pelas capitanias hereditárias,
e observava que ela não tinha sido eficaz: “este ensaio de
feudalismo não vingou”. Havia a necessidade da colonização
(objetiva), havia as circunstâncias (objetivas) drasticamente difíceis
para um país de pequena população e escassos recursos, como
Portugal, e houve, também, a iniciativa da malograda feudalização
(o momento subjetivo).
Em
outro período da nossa história, lembrado pelo ensaio, o método
de Caio Prado Júnior, sua interpretação materialista, nos permite
perceber claramente suas características fundamentais: a vinda de
Dom João VI com sua corte para o Brasil, fugindo das tropas de
Napoleão, desencadeia objetivamente o processo de mudanças que haveria de resultar na
nossa independência política; por suas peculiares condições objetivas,
esse processo descartou a luta armada que, em outros países do
continente, viabilizou a conquista da autonomia; no entanto, a
concretização da independência, entre nós, dependeu da mobilização
subjetiva da classe dos
proprietários rurais que podiam promover o movimento separatista.
A
situação objetiva impõe, a cada passo, limites aos movimentos
subjetivos. A massa escrava, que chegou a representar metade da
população do Brasil num certo período da época colonial, era
mantida em estado de divisão e desarticulação, impossibilitada
– objetivamente – de constituir uma massa coesa; por isso, era
incapaz de desempenhar, naquelas circunstâncias, um papel político
(subjetivo) de real importância. No entanto, o ímpeto rebelde
subjetivo, cercado e reprimido, nem por isso desaparecia: algo dele
ecoava em expressões de insatisfação e revolta que se
manifestavam em outras áreas, e que teriam influenciado o movimento
de 26 de fevereiro de 1821 que levou Dom Pedro a reorganizar seu
mistério com políticos de prestigio popular, no Rio de Janeiro.
Essa
é a concepção de Caio Prado Júnior: nem a história se faz por
si mesma, automaticamente, nem os homens a fazem de maneira arbitrária,
impondo-lhes desenvoltamente seus desígnios. Marx já havia
ensinado, antes, que cada geração, ao surgir, se vê posta diante
de problemas herdados da ação das gerações precedentes, e é
compelida a viver numa situação que não foi por ela livremente
escolhida; no entanto, a reação da nova geração em face do
quadro que lhe foi imposto não é predeterminada, comporta variações,
passa por escolhas, depende de opções. O historiador materialista
comprometido com um projeto revolucionário precisa reconstruir o
quadro, compreender os problemas postos pela vida, avaliar as condições
materiais, para poder entender criticamente as iniciativas, as
propostas, os anseios, o ânimo com que os homens se movem na arena
de luta na qual se vêem colocados.
Caio
Prado Júnior assimilou essa dimensão do pensamento de Marx e por
isso foi capaz de aplicar pioneiramente, entre nós, a concepção
da história elaborada pelo autor d’O
Capital. Para podermos avaliar como há de ter sido difícil
essa conquista, devemos lembrar que, no começo dos anos trinta, no
centro do movimento comunista mundial, estava se cristalizando uma
codificação doutrinária – o “marxismo-leninismo” – que
impunha pesados sacrifícios à dialética marxiana original. O
autor da Evolução política
do Brasil, como comunista que era, não ficou imune ao charme da
União Soviética (conforme se vê no livro URSS,
um novo mundo, de 1934). Não se notam, entretanto, em sua
“interpretação materialista” da história do Brasil, as marcas
mais evidentes do estilo que o stalinismo conferiu ao
“marxismo-leninismo”, como, por exemplo, o esvaziamento da
subjetividade (reduzida à liderança do partido revolucionário e
praticamente negada às massas populares), o primado de uma
objetividade cega (a inexorabilidade da marcha para o socialismo,
sustentada por um conjunto de fórmulas dogmáticas), uma
esquematização empobrecedora de todas as contradições, uma
atitude de feroz reserva em face do “novo” e das surpresas que
lhe são inerentes, bem como o recurso sistemático a um bem montado
arsenal de citações legitimadoras. O marxismo utilizado pelo nosso
historiador não tinha nada disso e se combinava com uma extraordinária
abertura para o ineditismo da aventura brasileira. Paulo Sérgio
Pinheiro chegou a escrever: “O marxismo de Caio Prado não é o
recitativo de fórmulas ou citações, mas uma via de interpretação
de um viajante infatigável e implacável pela realidade de seu próprio
país e de seu tempo” (Isto É, 7-7-1982).
Caio
Prado Júnior, em 1933, realizou uma autêntica façanha, ao superar
o obstáculo interno, constituído pelas graves insuficiências teóricas
de seus predecessores brasileiros no campo da “interpretação
materialista”, e ao escapar da pressão externa, decorrente da
codificação oficial do “marxismo-leninismo”.
É
verdade que a reflexão marxista pessoal e independente que permitiu
a elaboração da Evolução
política do Brasil (e depois permitiria o preparo do esplêndido
Formação do Brasil contemporâneo)
não conseguiu se cristalizar em resultados filosóficos satisfatórios,
no esforço que Caio Prado Júnior realizou para explicar a
fundamentação gnosiológica de suas investigações.
Independentemente das divergências que se manifestam entre os críticos
de Caio Prado Júnior na avaliação da Dialética
do conhecimento e das Notas
introdutórias à lógica dialética, parece-me que predomina na
impressão dos leitores do grande historiador paulista uma certa
decepção: os dois trabalhos ficam aquém dos ensaios anteriormente
publicados. Ao se debruçar sobre si mesma, reflexivamente, a teoria
não conseguiu produzir textos tão bem sucedidos como aqueles em
que se aplicou à pesquisa histórica.
Mas
também é verdade que o êxito alcançado pela teoria aplicada não
se perdeu. Evolução política
do Brasil e Formação do
Brasil contemporâneo não são apenas momentos brilhantes da
nossa história escrita, não contêm somente ricas observações
empíricas: são obras capazes de suscitar estudos metodológicos
surpreendentemente enriquecedores, cheios de implicações teóricas.
Evolução política do Brasil,
então, mais do que “um simples ensaio” (como modestamente o
classificou seu autor) é um marco na história do marxismo no
Brasil.
O
simples fato de que a obra de estréia de Caio Prado Júnior tenha
sido escrita, tenha sido publicada e se tenha tornado acessível a
todos, nos obriga a um rigor crítico maior no julgamento das
interpretações que os marxistas brasileiros posteriores fizeram da
realidade brasileira: em diversos aspectos decisivos, tais
interpretações constituíram um grave retrocesso em relação ao
livro de 1933, um recuo para uma perspectiva materialista
“vulga”, um restabelecimento de esquemas sociológicos de tipo
“positivista” e uma adaptação mental à ideologia sancionada
pela direção do Partido Comunista da União Soviética.
O
aparecimento da Evolução política
do Brasil era a comprovação inequívoca de certas
possibilidades de reflexão crítica sobre a realidade brasileira
que os marxistas, no Brasil, ao longo das duas décadas que se
seguiram à publicação, não souberam aproveitar.
24-5-1990
KONDER,
Leandro.
Intelectuais
Brasileiros e Marxismo.
Belo
Horizonte: Oficina de Livros, 1991, pp. 13-18.
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