Artes
mulheris
Minha
mãe foi costureira, a vida inteira. Quando ela se casou, aos
17 anos, trouxe no seu enxoval uma máquina de costura, como
era de costume entre as famílias de alguma posse naquele
tempo. Os pais sabiam que aquela máquina de costura seria
para a sua filha uma espécie de seguro: ela poderia costurar
para os filhos e o marido, além de para si mesma, e, se as
coisas apertassem, ela poderia vender a máquina para ajudar o
marido a sair de algum aperto.
Assim
foi com minha mãe. Em menos de 5 anos depois do casamento,
com as fortunas de meu pai desaparecendo junto com as plantações
comidas pela seca, se foi a máquina de costura, vendida para
pagar dívidas, custear as sementes do ano seguinte, comprar
remédio para as duas crianças.
Mas
minha mãe continuou sendo costureira. Só que, agora,
costurava tudo à mão. Fazia roupas para todos da casa, e
mais lençóis, toalhas de mesa, panos de prato. Logo começou
a costurar para os vizinhos, que admiravam as roupas bem
feitas que a família, embora pobre, sempre usava. Admiravam
até os remendos, feitos com tanto capricho que pareciam parte
do desenho da roupa.
E
não demorou muito, minha mãe estava costurando vestidos de
noiva, ternos completos, roupas de batizado, e até mortalhas
que, de acordo com ela, eram as piores, porque tinham que ser
feitas em poucas horas. “A sorte,” minha mãe dizia com um
sorriso, “era que o cliente nunca reclamava...” Meus pais
moravam em Goiás, “no meio do mato”, como eles mesmos
contavam. Meu pai trabalhava ora na lavoura, ora cuidando de
gado alheio, a vida que muitos brasileiros pobres levavam. A
falta da máquina de costura na verdade era uma vantagem,
porque com as mudanças constantes de um lugar ao outro, seria
difícil carregar tal trambolho. Tudo que minha mãe precisava
era uma tesoura, um metro, agulhas e linhas para trabalhar.
Depois
de algum tempo, meu pai lhe comprou outra máquina, que também
teve que ser vendida para pagar contas. Com o passar dos anos,
várias máquinas vieram e se foram, um tipo de
“fusquinha” que era convertido em dinheiro quando era
necessário. Desde nossa infância, eu e meus irmãos nos
acostumamos a ver nossa mãe costurando, tanto para nós como
para nossos amigos, vizinhos, conhecidos. E nos acostumamos a
ver sacos de retalhos coloridos que os clientes deixavam com
ela. E nos acostumamos a ver nossas camas cobertas com as
colchas de retalho que ela fazia. Às vezes eu e ela nos detínhamos
olhando uma colcha e lembrando de onde tinha vindo um retalho.
Eram mais que simples pedaços de pano: eram histórias da
nossa vida de família, e das nossas conexões com a nossa
vizinhança.
Mas
para nós as colchas de retalhos tinham somente um valor prático:
serviam para cobrir a cama, nos aquecer no inverno. Tínhamos,
como todos que conhecíamos, uma cegueira estética, e não víamos
a beleza daqueles objetos que nossa mãe fazia com cuidado e
gosto. Enquanto alguns de nós cortávamos recortes de revista
contendo reproduções de Rembrandt, ou de Van Gogh, ou de
outros europeus, nossa mãe costurava peças coloridas,
vibrantes, que se destinavam a cobrir camas, ou a limparem
nossos pés.
Um
dia, ao voltar à casa de meus pais depois de 2 anos fora, vi
que minha mãe tinha feito uma série de pequenos tapetes de
retalho para sua cozinha, banheiro, área de serviço. Não
sei se foi porque eu tinha estado fora tanto tempo, ou se foi
porque eu tinha vivido em uma cultura em que este trabalho
“de mulher” tem outra conotação, muito mais positiva, ou
simplesmente porque quando a gente vê uma coisa conhecida
depois de tanto tempo é como se a visse pela primeira vez, de
todas formas eu não me contive, e pedi a minha mãe que me
desse todos os tapetes que ela tinha feito, porque queria
colocá-los na parede em minha casa.
Minha
mãe achou a idéia, como ela dizia, “um despropósito.”
Onde já se viu tal coisa? Mas, na verdade, acho que ela
sentiu que eu tinha visto, pela primeira vez, o valor além do
material que daqueles objetos criados por ela. Imediatamente,
ela apanhou o tapete que estava perto da pia, e colocou na máquina
de lavar, de onde eu o retirei imediatamente. “Está
sujo!” ela disse. “Veja, tem uma manchinha de barro
aqui.” E apontou para uma pequena mancha marrom. “Eu quero
o tapete e a mancha de barro”, expliquei a ela.
Como
sempre fazia quando eu vinha com uma idéia assim, minha mãe
riu, e disse que isto era uma grande bobagem, mas aceitou que
eu trouxesse o tapete e a mancha de terra de Maringá. Também
consentiu em me mostrar as outras coisas que tinha feito com
os retalhos nos últimos anos.
Já
naquele tempo, apesar da vista falhando, ela tinha feito
colchas de retalho para todas os filhos, e para as netas mais
velhas. Eram dezenas de colchas, todas feitas com o mesmo
estilo, mas cada uma diferente da outra, usando retalhos que
amigas e vizinhas lhe davam. E a máquina de costura de pedal,
não elétrica, cúmplice de todo este trabalho, estava sempre
no seu quarto, esperando mais projetos. Ela selecionava os
tecidos, cortava, passava, e colocava em caixas de papelão,
esperando uma chance para costurá-los.
Hoje,
quatro anos depois da morte da minha mãe, eu olho estes
tapetinhos que ela me deu, e que agora estão na parede do meu
quarto, e olho a colcha que ela fez para mim há muitos anos,
e me admiro da sofisticação do seu conhecimento de cor, de
harmonia. O desenho é simples, somente quadradinhos, ou o
entrelaçado começando com um centro vermelho. Mas as cores
dançam, se comunicam, e formam um todo que não fica a perder
de muitos dos quadros mais famosos do mundo.
Como
minha mãe, muitas mulheres no Brasil se dedicam a esta arte
humilde de juntar pedacinhos de pano e formar objetos de uso
para a casa. Assim como muitos ceramistas fazem suas panelas,
tigelas, e outros objetos de barro para uso da família, assim
como muitas mulheres que tecem, que fazem crochê, que fazem
tricô, que fazem bordados, estas costureiras não recebem
nenhum elogio à sua arte que protege o corpo do frio e nutre
o sentido estético, fazendo a casa mais agradável, mais
bonita, e seu usuário portanto mais feliz. Nem só de pão e
política vivem os seres humanos.
Então
temos que enfrentar a questão: Por quê?
Isto
me faz traz à memória os anos em que estávamos “nos
formando” e aprendendo o que significava ser o quê no
Brasil dos anos 60 e 70. Todas as artes eram ou pintura, ou
escultura, ou música, ou teatro. Cada uma destas artes requer
materiais ou instrumentos, e mais lazer, para serem feitas. E
estas artes estão codificadas maiormente como “cultura”
porque são praticadas geralmente por homens. Como muitas
meninas da minha classe social, eu também não tinha dinheiro
para comprar telas, nem um violão (piano é instrumento de
menina rica que também fala francês e tem unhas compridas,
se dizia), nem dias pra treinar uma peça de teatro. Eu tinha
o exemplo de minha mãe costurando roupas e fazendo colchas
com o tecido que sobrava, e minhas irmãs fazendo roupas de
crochê e tricô. Mas isto não era arte, era?[i]
As
artes mulheris, tais como a arte de fazer colchas, ou lidar
com linhas, têm sido degradadas por séculos. Até muito
recentemente, nenhum museu tinha uma colcha, e até muito
recentemente, qualquer mulher que tivesse uma gota de aspiração
intelectual não seria pega morta com uma agulha na mão.
Mas
as coisas estão mudando. Já podemos, nós mulheres
intelectuais, sair do nosso esconderijo com nossas agulhas,
nossas linhas e nossos retalhos, e admitir que nós também
fazemos colchas, bordados, crochê, tricô. E que queremos que
estas manifestações do nosso gosto, da nossa habilidade de
combinar cores e formas sejam consideradas arte que não fica
a dever nada a nenhum quadro. E quantos pezinhos de bebês, e
quantos pescoços e quantas orelhas estas artes aqueceram
durante séculos?
Eu
imagino que em todas as casas do Brasil existe pelo menos uma
colcha de retalhos, uma toalhinha de crochê, um cachecol de
tricô, uma roupa de bebê feita por uma das mulheres da família.
A colcha de retalhos especialmente é uma espécie de memorial
da família, juntando num mesmo espaço histórias dos membros
da família, pelas roupas que usam ou usaram.
Trabalhadoras!
Vamos unir nossos esforços e fazer uma cooperativa de crochê,
tricô, bordados e colchas de retalhos?
Não precisamos falar difícil, nem invocar Marx, nem
usar nenhuma palavra terminando em “ismo.” Vamos celebrar
o que nossas mães e nossas avós nos legaram, em silêncio,
com arte e muita garra. É fácil: só precisamos agulhas,
linhas, tesouras, e retalhos, e vontade de contar, com nossa
arte, quem somos, de que gostamos, e o que podemos fazer.
Quem
não gostar de costurar, ou fazer crochê e tricô, ou tecer,
pode colaborar fazendo um chá, e ficar conosco contando histórias.
Precisamos lembrar nossas histórias e nossos talentos para
podermos passá-los às nossas filhas e netas.