As
migrações nas relações entre Cuba e EUA até a metade do século
XX
O
presente artigo tem como objetivo fazer uma análise do fenômeno
das migrações entre Cuba e Estados Unidos até a metade do século
XX. Aqui se pretende problematizar a tese difundida principalmente
pela extrema-direita cubano-americana de que, antes de 1959, Cuba
nunca foi um país de emigração.
Procura-se
a partir de uma análise preliminar das relações entre Cuba e
Estados Unidos anteriores a Revolução de 1959, bem como, a situação
da ilha caribenha nos períodos anteriores a este fato, demonstrar a
falácia que corresponde esta tese.
As
migrações têm sido um dos fatores de maior atrito nas relações
entre estes dois países, sobretudo, a partir da Revolução Cubana
de 1959 e a adoção do socialismo na ilha caribenha. Esse fato
representou uma ruptura nos laços de dependência que Cuba mantinha
com os EUA ao longo da primeira metade do século XX, e fez com que
a emigração de cubanos tivesse uma grande dimensão nas disputas
políticas, sendo inclusive uma das estratégias utilizadas pelo
governo norte-americano para a desestabilização do governo cubano.
Esta
desestabilização se faz a partir de um duplo processo. De um lado,
o caráter diferencial adquirido na recepção dos cubanos emigrados
pós-Revolução de 1959, com a chamada Lei de Ajuste Cubano de
1966, segundo o qual todo cubano que ingressou nos EUA a partir de
1959 e que esteja no país durante um ano pode ser “ajustado”
como estrangeiro admitido legalmente para residir permanentemente,
medida também aplicada a sua esposa e filho. Em outras palavras,
significa admitir que todo cubano que ingressar em território
norte-americano, independente das razões para isto, será
considerado exilado político. Por outro lado, a desestabilização
também se faz a partir do discurso, sobretudo, da extrema-direita
cubano-americana de que anteriormente a Revolução de 1959, Cuba
nunca foi um país de emigração.
As
migrações entre Cuba e Estados Unidos começam a ganhar corpo
durante o processo de Independência das Treze Colônias Inglesas em
1776, quando a Espanha enviou tropas formadas por criollos
cubanos para combater ao lado das tropas de independência
norte-americanas (GUEVARA, 1996: 180).
Durante
o século XIX as relações entre a ilha caribenha e os EUA eram tão
profundas que em 1850 no Estado de Lousiana iniciaram-se os
primeiros movimentos militares no sentido da independência de Cuba.
Estes movimentos foram duramente reprimidos pela Espanha e com o
fracasso da tentativa de independência partiu-se para a estratégia
de transformar a ilha em mais um Estado da união norte-americana, o
que representaria um fortalecimento no regime escravista dos Estados
do Sul (GUEVARA, 1996: 180). Esta estratégia também foi
fracassada, porém, será nos EUA que se formaram inúmeros clubes
revolucionários, formados por cubanos emigrados, que entre 1868 e
1898 se dedicavam a coletar fundos, remédios, alimentos e armas
para a preparação de expedições de luta pela causa revolucionária
cubana.
Aqui
chama atenção o fato de que desde a metade do século XIX já há
um contingente significativo que imigrantes cubanos que, devido à
proximidade geográfica, a possibilidade de ganhar um determinado e
mais seguro emprego, a perspectiva de um possível desenvolvimento
pessoal no campo cultural ou profissional e um possível refugio
para continuar a luta revolucionária, vão fundar colônias nos
EUA, majoritariamente ao sul na Flórida, mas também em Cayo Hueso,
Tampa, Jacksonville, New Orleans, New York e em menor escala na
Filadélfia. Assim, em
1890 viviam nos Estados Unidos mais de 15 mil cubanos entre
emigrados permanentes e temporários (RODRIGUEZ, 2003: 1).
Estas
e outras características levam o historiador Louis Pérez Jr. a
constatar que “no habia en América Latina otra nación con la
que los Estados Unidos se hubieran involucrado tan estrecha y
tempranamente, ni con la que percibieran más directamente
relacionadas sus necesidades comerciales y estratégicas” (PÉREZ
JR.,1996: 5). Isto se demonstrou de forma mais objetiva com a
intervenção das tropas norte-americanas em 1898 no sentido de
garantir a independência da ilha em relação à Espanha e, assim,
evitando que a ex-colônia caísse na esfera de dominação inglesa
como acontecera com outras nações do continente. Os EUA somente
deixaram Cuba quando em 1901 foi aprovada a Emenda Platt, segundo o
qual, Cuba aceitaria a sua tutela econômica e militar, bem como,
“o direito norte-americano de instalar bases militares e portos na
Ilha, além de outras concessões territoriais e privilégios econômicos”
(SADER, 2001: 18). Além, disso os EUA poderiam intervir e ocupar
Cuba quando quisessem, o que feria profundamente a soberania política
da nação recém independente.
A
interferência norte-americana em Cuba irá inverter
significativamente o fluxo migratório, conforme Pérez Jr.(1996:
6):
“Después
de la guerra de independência de 1898, la emigración se invertiô:
miles de norteamericanos llegaron a Cuba, una nueva generación de
autoproclamados pioneros que volvió a representar conscientemente
el drama de la conquista de la selva, solo que desta vez en el trópico.
Llegaron a Cuba desgarradas por la guerra como aventureros y
jugadores, como especuladores y corredores de bienes raíces, pero
sobre todo como pequeños proprietários y colonos, atraídos a
Cuba por la promesa de tierras e médios de subsistencia.
Invadieron la isla buscando tratos ventajosos y tierras baratas, y
en el proceso desplazaron a los cubanos, reclamando la posesión
de vastas extensiones del territorio nacional”.
Esta
inversão faz com que Cuba até o início da década de 1930 fosse
considerada um país de imigrantes, principalmente como grande
centro de turismo para os norte-americanos. Este fenômeno irá se
aprofundar a partir da adoção da Lei Seca nos EUA, quando as
bebidas alcoólicas, o jogo, a prostituição, as drogas, ou seja, o
que era proibido no vizinho do norte tornou-se um grande atrativo na
ilha. Isto fez com que o número de turistas norte-americanos em
Cuba, que na década de 1910 era estimado em 200 mil, aumentasse
para 500 mil na década de 1920 (PÉREZ, 2001: 84). Por sua vez, o número
de cubanos residentes nos EUA era apontado no censo de 1920 em 15
mil, o mesmo número estimado em 1890. Já em 1940 o número era de
18 mil, o que demonstra que entre 1920 e 1940 não há um grande
fluxo de emigração cubana para os EUA (RODRIGUEZ, 2004: 2).
No
início da década de 1940 a emigração cubana começa novamente a
despontar. Em 1940, não era muito grande o número de emigrados
cubanos em relação a 1920. Porém, senso de 1950 já se demonstra
um crescimento de 78% em relação à década anterior, chegando ao
número 32 mil cubanos residentes nos EUA. Entre 1946 e 1950,
emigraram para os EUA 10.807 cubanos, 132% a mais do que entre 1941
e 1945, e entre 1951 e 1955 foram 22.759 cubanos que ingressaram no
território norte-americano, o que representa um aumento de 110% em
relação a 1946-1950 (PÉREZ, 2001: 84).
Para
Miriam Rodriguez (2004: 2), a situação política, a crise econômica,
a situação social, as famílias cubanas assentadas em territórios
norte-americanos que arrastavam seus parentes garantindo a eles
apoio e sustento para a busca de emprego, foram os grandes responsáveis
por este aumento do fluxo de emigrantes. Porém, um outro fator
relevante é o de que, durante as décadas 1930 e 1950, há uma
forte repressão política em Cuba o que levou muitos cubanos,
sobretudo, jovens a buscarem refugio nos EUA. Este fenômeno faz com
que se repitam situações parecidas as do século XIX com a formação
de células revolucionários em apoio à luta contra a ditadura de
Fulgêncio Batista. A partir de 1955, estes movimentos revolucionários
são visto em New York, Miami, Tampa e Cayo Hueso.
Esta
situação irá se aprofundar a partir de 1956. Conforme Pérez,
“la crise se profundiza con el tiempo, y ya a partir de 1956,
unida a um recrudescimiento en la represión, se encuentra em pleno
apogeo. En solo três anos -1956, 1957 y 1958 – entran a los
Estados Unidos, como inmigrantes, 40.267 cubanos”(PÉREZ, 2001:
84). E importante também levar em conta o grande número de cubanos
que neste período solicitavam vistos de não imigrantes e partiam
para os EUA e por lá permaneciam mais tempo do que lhes era
autorizado para depois incorporarem-se a luta revolucionária que se
travava nas montanhas de Cuba a partir de fins de 1956. Em 1958,
viajaram aos Estados Unidos 72 mil cubanos com vistos de não
imigrante (RODRIGUEZ, 2004: 2).
Isto
demonstra que as emigrações de Cuba para os EUA foram uma
constante a partir de fins do século XIX. O que nos leva a
discordar da idéia de que antes da Revolução de 1959, Cuba nunca
foi um país de emigração. Não é isto que os dados e as análises
feitas por historiadores e sociólogos, sobretudo, cubanos têm
apontado. Para eles, antes mesmo da Revolução, já há uma tendência
de emigração bastante forte e constante em Cuba, tendência esta
que terá um crescente nas duas décadas que precedem à queda da
Ditadura de Fulgêncio Batista. Porém, como os emigrados cubanos até
1958 têm as mesmas restrições que possuem os dos demais países,
esta tendência era contida.
Após a Revolução e principalmente com a declaração do caráter
socialista desta, a recepção dos cubanos emigrados ganhará um
diferencial. Com a Lei de Ajuste Cubano de 1966 todo cubano que
ingressou nos EUA a partir de 1959 e que esteja no país durante um
ano pode ser “ajustado” como exilado político, admitido
legalmente para residir permanentemente, medida também aplicada a
sua esposa e filho. Este privilégio do imigrante cubano,
independente de ser um imigrante legal ou ilegal, em relação aos
imigrantes oriundos de outros países para os EUA, demonstra que a
política norte-americana em relação ao emigrado de Cuba possui na
verdade um caráter de fortalecimento do discurso da extrema-direita
cubana, bem como, uma tentativa de desestabilização do governo de
Fidel Castro mediante uma verdadeira lei de incentivo a emigração.
Como
podemos ver os dados referentes ao fluxo de migrações entre Cuba e
Estados Unidos a partir do final do século XIX, apontam para o fato
de que tanto a emigração de cubanos como a emigração de
norte-americanos foram muito forte na primeira metade do século XX,
tendo momentos de maior fluxo da ilha para o continente e do
continente para a ilha de acordo com a conjuntura interna de cada um
dos países. Neste sentido, é que podemos afirmar que o discurso
segundo o qual a Revolução criou a emigração cubana para os
Estados Unidos não corresponde com a história das migrações
entre os dois países, sendo, portanto, parte do jogo ideológico de
busca da desestabilização do governo cubano.
Referências
Bibliográficas:
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Freitas Lima (Org.) América Latina: cidadania, desenvolvimento e
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PÉREZ,
Lisandro. La emigración y la crisis estructural de la República.1946-1958.
IN: Revista Temas. Nº24-25. La Habana – Cuba:
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SADER,
Emir. Cuba: um socialismo em construção. Petrópolis-RJ:
Vozes, 2001.
por
LEONARDO DA ROCHA BOTEGA