Modelos
para o Brasil: Espanha?
A
Espanha é considerada, hoje, um típico caso de país pobre que
enriqueceu. De país de emigração, se tornou um de imigração,
absorvendo grande quantidade de trabalhadores do norte da África e
da América Latina. De uma nação que parecia viver exclusivamente
das glórias do passado a uma com confiança no futuro. E,
finalmente, um país cuja renda média não passava de uma fração
da européia e que agora consegue, artifícios contábeis à parte,
se aproximar desta.
Uma
percepção bastante comum, especialmente na mídia, é a de que
este “milagre espanhol” foi repentino e derivado, em essência,
da liberalização econômica. A imagem que se passa é de uma
Espanha retrógrada e atrasada, tanto no campo político como no
econômico, que, depois do colapso do franquismo (em 1975-77), adotou
medidas liberalizantes e procurou garantir a estabilidade econômica
e política. Estas medidas e esta estabilidade teriam sido capazes
de, em poucos anos, reverter a herança dos anos de Franco.
Estabilidade política e econômica, associada a medidas
liberalizantes, seriam, pois, a
chave do sucesso espanhol.
Uma
rápida análise da história econômica espanhola e do próprio
regime de Franco são suficientes para demonstrar como a base econômica
de onde partiu este “milagre espanhol” foi bem mais substancial
do que parece e que o contexto regional e internacional também são
fundamentais para explicá-lo.
È
importante perceber, de fato, como o regime de Francisco Franco não
foi uniforme nos quase quarenta anos em que esteve no poder. Entre
1939 e 1945, ele era um regime de extrema direita com base
essencialmente conservadora, mas que se aproximava do fascismo em
alguns pontos. A partir do final da Segunda Guerra, contudo, o caráter
conservador do franquismo se acentuou, com forte presença da Igreja
e das Forças Armadas no seu seio e, a partir dos anos 50, uma
preocupação maior com o desenvolvimento nacional.
Essas
transformações se refletem na política econômica. Até 1950, o
regime franquista procurou construir um sistema autárquico,
auto-suficiente, seguindo o modelo fascista e a realidade da
economia européia de então. Os resultados foram desastrosos, com a
atividade econômica não tendo retornado, ainda em 1950, aos
valores de 1935.
Nos
anos 50, a situação melhorou, mas foi apenas a partir de 1959 que
a economia espanhola realmente deslanchou. Entre idas e vindas, avanços
e retrocessos, a economia da Espanha cresceu bastante nas
décadas de 50, 60 e 70, mudando o perfil do país tanto na
matriz econômica (de agrícola para industrial e de serviços) como
na social, com queda do analfabetismo, melhora dos níveis de vida,
etc. Em termos políticos e morais, a Espanha continuava na rabeira
da Europa, mas, na economia, a situação melhorou bastante.
Há
uma certa controvérsia sobre a maneira como o franquismo conseguiu
estes resultados. Para alguns economistas, a decisão de abrir a
economia e de controlar o gasto público a partir dos anos 50 (e,
especialmente, a partir de 1959) teria permitido o fortalecimento da
moeda, o equilíbrio da balança de pagamentos e o controle da inflação.
Com a estabilidade econômica, a iniciativa privada pôde trabalhar
e o resultado foi o crescimento.
Para
outros, nem a estabilidade nem os planos de desenvolvimento
industrial lançados pelo regime teriam sido tão importantes assim.
A Espanha só teria crescido graças ao desenvolvimento dos seus
vizinhos, o que se refletiu numa grande abundância de capitais e
numa explosão do turismo, que mudou completamente o panorama econômico
espanhol.
Curiosamente,
este mesmo debate sobre o papel da política econômica e do
contexto regional no crescimento econômico espanhol se repete nas
análises referentes ao período pós Franco. Para alguns analistas,
a estabilidade política conseguida com o Pacto de Moncloa em 1977,
mais a manutenção da estabilidade econômica e de medidas
liberalizantes (ainda que com variações evidentes entre
socialistas e liberais) desde 1982 até hoje teriam sido a chave
para que o crescimento prosseguisse, ainda que a níveis médios
inferiores do que na era franquista.
Para
outros, contudo, foi a entrada da Espanha na União Européia que
teria sido a chave da atual prosperidade econômica. Não apenas
pela entrada maciça de recursos comunitários, na faixa dos 100
bilhões de euros entre 1986 e 2005, entre para obras de
infra-estrutura e transportes, mas também pela participação em um
sistema econômico maior. A adesão à Europa também teria
permitido uma maior segurança para investimentos, redução dos
juros e outros benefícios. E o turismo, claro, continuou como um
dos motores da economia espanhola, com 50 milhões de turistas,
especialmente europeus, deixando divisas na Espanha todo ano.
É
provável que os dois elementos tenham sido importantes. Sem o
influxo de recursos do turismo, da União Européia
e das empresas européias interessadas nos custos menores na
Espanha, a simples estabilidade não levaria a nada. Por outro lado,
sem condições macroeconômicas adequadas e um mercado mais livre,
os recursos advindos do turismo poderiam não se converter em
crescimento sustentado e as empresas estrangeiras podiam nem se
interessar pelo mercado espanhol.
O
futuro da economia espanhola, de qualquer forma, é uma incógnita.
É uma potência industrial média e uma superpotência do turismo,
mas não tem condições de competir em áreas chave da economia
global, como alta tecnologia e agricultura. Enfrentará, além
disso, a concorrência por fundos comunitários e capitais por parte
dos novos países membros da União Européia. Mas, com certeza, está
num patamar melhor para continuar na disputa global do que há
algumas décadas atrás.
Para
o Brasil, as lições me parecem claras. A
estabilidade política e econômica e medidas de liberalização
do mercado são fundamentais para garantir a solidez da economia e
do crescimento, mas, por si só, não conseguem fazer o país
crescer aceleradamente. No
caso espanhol, desde a época de Franco até hoje, a entrada na
Europa e o motor do turismo permitiram que o crescimento se
mantivesse. Como nós dificilmente podemos nos tornar uma superpotência
do turismo, dada a distância dos principais centros do mundo e a
violência, e nem pedir entrada na União Européia, convém pensar
em outros métodos, ortodoxos ou heterodoxos,
para que a estabilidade econômica, duramente conquistada,
possa ser mantida, mas associada a um crescimento mais vigoroso.
por
JOÃO FÁBIO
BERTONHA