por LUIZ ROSEMBERG FILHO* & SINDOVAL AGUIAR**

 

* Luiz Rosemberg Filho é diretor de cinema, escritor e artista plástico na cidade do Rio de Janeiro. Foi roteirista de Adyós General e Viva a Morte.


** Sindoval Aguiar é mineiro e co-dirigiu dois longas, ao lado de Braz Sediak: Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja.

 

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Desfabricando Tom Zé

 

“Todas as minhas verdades são, para mim, verdades sangrentas”.

Nietzsche

 

Um filme constitui um desafio na construção subjetiva de um gozo estético original. Tal experiência exige sonhos, dúvidas e a realidade com todas as suas contradições. O compromisso do realizador é com o público, mas, antes de tudo, com o cinema como linguagem. E o que deveria retornar como imagem deveria ser um desnudamento por completo do que em Hollywood chamam de a harmonização da alienação com o capital. Mas o referencial bélico-religioso deles, por sorte, ainda não é o nosso. Nossa sensibilidade não passa pelo culto da ordem, do poder, do idiotismo ou da guerra. Queremos alcançar conceitos mais profundos e elevados como a história, a paz, a mulher, os sonhos, o prazer e o país. É preciso também confessar que maturidade, para nós, não é imitar o cinema americano e sim destroná-lo da sua posição de deus. Um deus degenerado, mas deus. E o que a nós interessa um deus-degenerado que nos joga uns contra os outros? E em benefício de quem? Quem ganha com isso?

De um modo geral, o cinema deles se serve de autocretinização no uso das imagens. Imagens que servem para vender vedetinhas, canastrões, pilantras, soldadinhos ou papel higiênico. Mas sem diferenciar nada. Claro que quando aqui se opta por um gênio como Tom Zé, espera-se, por parte do realizador, um olhar analítico mais ousado. Ou um exercício cinematográfico complexo como os trabalhos de Eduardo Coutinho. Não é que seja a única referência possível, mas ficou faltando a “Fabricando Tom Zé” (título infeliz), um olhar mais original e poético sobre a linguagem do filme-reportagem que reduz o cinema a uma mera colagem de situações.

Nada contra a boa reportagem. Mas são coisas diferentes. Com o cinema se pode dar substância mais profunda à linguagem. Pode-se ir além da cegueira televisiva que faz do saber, das imagens e do país, múltiplos complôs contra a sensibilidade e o cinema. Nada também contra a útil-televisão como instrumento do saber, e sim contra a nazificação do planeta tão trabalhado sistematicamente por ela. Eis-nos então diante de uma boa reportagem vendida como cinema. É sim uma tímida percepção do verdadeiro artista que é Tom Zé. Ora, a nossa boa música nunca obedeceu a nada. Tom Zé alcança com a sua música g-e-n-i-a-l o que Décio Matos Jr apenas ilustra de maneira respeitosa, mas tímida, no cinema, cabendo a Tom Zé segurar toda ousadia e confrontos.

E ele se sai maravilhosamente bem, ousado, expondo-se e criticando tudo e todos. Um embricamento e uma existência de ser. Uma essência e uma existência, um Tom, de um Zé maior, que ninguém poderá fabricar. Nem os instrumentos que ele fabrica, experimenta e isola para não incomodar, um moto perpétuo, o das descobertas fundamentais em todas as suas conquistas: as de uma liberdade, consciência e desabrigo; incomparáveis. As de uma convicção, como a liberdade na antiga Grécia e a luta desesperada de Demóstenes para salvar os gregos da destruição dos bárbaros! Tom Zé, o de uma liberdade e arte particulares, um governo de si mesmo e uma convicção de que o bem humano só é possível com liberdade e uma construção como a sua, infabricável, particular. Singular, doce, genérica e generosa!

Repetindo: insuportável o título do filme-reportagem: “Fabricando Tom Zé!”. Os conceitos de roliúde e os pré-conceitos da alienação, de um tempo sem história e desmemoriado, invadido e assombrado. Tempo das Ongs e de comandos totalitários fingindo liberdade. Tom Zé, filho da mística construída nos movimentos e com seus próprios deuses, resiste. E existe! Com música, sons e tons, pensamentos conflitantes e confortantes e aforismos desaforados, que ninguém é de ferro!

Mas Tom Zé é feito com os meios de produção de sua mente única e originária. Matérias-primas de Irará e de convivências incomuns com parceiros, mestres e outras coisas finas e sem iguais e em universos que vão se construindo e desaparecendo ao longo da jornada. E nunca indizíveis, porque a boca de Tom Zé é uma mente instrumentada pela banda de sons infinitos. Genérica e de fabricação própria, neste mundo globalizado e de estados alienados, públicos e privados. Onganizados.

E o que nos encanta é o que tem ficado: um imenso caminho que nós, em nossa ignorância, tornamos trilha. Como uma coisa tão boa, que não estivéssemos preparados para usufruir em sua eterna fruição. Tom Zé é o seu filme e sua invenção. Que não conseguiram fabricar! Porque Tom Zé não é uma peça de montagem para ser reproduzida ou fabricada; nem uma arte submetida. Tudo o que pensa, faz e cria, conduz à utopia. Do possível e do impossível porque, além do sonho, experimenta fenomenologia; sabe que a realidade fingida, não vale. Contradições contundentes de uma seriedade incontida, como em Montreux, e em cada improviso, comunicando e superando a si mesmo! Um ponto de constante mutação.

Para o encontro ou o desencontro, mas sempre em busca da arte, vida e beleza, para transgredir e dividir a difícil construção de um grupo, de uma sociedade, e de nós mesmos. Tom Zé, coisa que transcende e se transforma. E, arrebatado, ganha outras formas, inclusive a humana; amiga, generosa, respeitosa. A que pode atingir a perfeição no cultivo de um jardim, a sua diegese, animada pela música, o som das esferas!

Este Tom Zé, coisa muito brasileira, coisa rara e única, infabricável, o verdadeiro Tom Zé do filme-reportagem, em questão. Livre e soberano, neste mundo globalizado de capital e reduzido de democracia; o de uma engenharia única. Que Tom Zé desmonta, para remontar, reduzir, reinventar, afogando às vezes, mas transbordando a entropia, desorganizando a engenharia. E depois de fabricar o mundo, vai dando forma ao seu, ao mundo de Tom Zé, que faz o filme-reportagem, a de mutações e liberdade.

O princípio e o fim. Um ponto. Para encontros e mutações. Desencontros... uma construção que se dá, enfim, em qualquer ponto de nós mesmos e, em Tom Zé, uma catarse, sem solução. Por que, o que é uma solução? Uma invenção, uma arte, uma desconstrução? Talvez, uma fabricação de Tom Zé, sua solução para cada traição de emboscadas e labirintos dessa vida Severina. Fez e faz de sua música genial a liberdade sonhada por anos e anos de resistência. Ontem ao fascismo militarizado. Hoje no poder, burocratizado. Na verdade, nunca se quis um País para Todos. É a mais deslavada mentira de todos os tempos. Mas é onde a publicidade, aliada ao poder, vende o seu peixe ao país: “Brasil um País de Todos”. Só mesmo como piada.

Que se multipliquem os Tons Zés!

por LUIZ ROSEMBERG FILHO & SINDOVAL AGUIAR

   

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* publicado originalmente em Via Política

 

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