MÁRIO
MAESTRI & LUIGI CANDREVA. Antonio
Gramsci: vida e obra de um comunista revolucionário.
(2ª edição revista e ampliada). São Paulo: Expressão Popular,
2007 (301 p.)
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Significados
da biografia
A
biografia do revolucionário italiano Antonio Gramsci, escrita por Mário
Maestri e Luigi Candreva, reeditada recentemente (a primeira edição
é de 2001), não é a primeira e provavelmente não será a última.
Na década 1980, por motivação militante, li A vida de Antonio
Gramsci, de Giuseppe Fiori (RJ: Paz e Terra, 1979). Os autores
de Antonio Gramsci: vida e obra de um comunista revolucionário
fazem uso do trabalho de Fiori, relacionado na bibliografia no
idioma italiano. Eles também se valem de outras obras biográficas.
A
pluralidade de biografias é, a meu ver, um fator positivo. O leitor
interessado poderá, inclusive, confrontar dados, descobrir novas
informações, detalhes etc. Há que considerar que as obras também
expressam subjetividades e posições políticas e ideológicas. O
enfoque biográfico, a interpretação de determinadas informações
e épocas da vida do biografado, as ausências etc., não
necessariamente se repetem da mesma forma e intensidade. É preciso
até mesmo considerar qual o público leitor a que se destinam e os
objetivos dos autores, nem sempre declarados.
Este
é um livro sobre um militante comunista e revolucionário escrito
por intelectuais engajados no movimento social e para militantes que
atuam no movimento. À medida que avançamos na leitura fica nítido
que, em hipótese alguma, os autores podem ser acusados de serem
neutros. Não há, como se afirma em linguagem weberiana, neutralidade
axiológica. Em vários momentos, por exemplo, é manifesto o
posicionamento dos autores diante das posições políticas
assumidas pelo biografado em determinados contextos históricos. A
interpretação, é claro, é influenciada pela formação política
e ideológica dos autores. Assim, a crítica ou a ênfase em
aspectos considerados positivos poderiam ter o sinal trocado caso os
intérpretes fossem outros. Considerando-se o caráter da obra, é
compreensível.
Já
o título enfatiza que Gramsci não é apenas comunista, mas também
revolucionário. Pode até parecer um contra-senso ou redundância.
Afinal, ser comunista não é ser revolucionário e vice-versa? A
ideologia comunista não tem como objetivo estratégico revolucionar
a sociedade burguesa? Em tese e em suas origens, a resposta é
afirmativa. Porém, o que a história nos mostra é que as palavras,
os conceitos, não necessariamente se identificam com os seus
significados originais. Dessa forma, por exemplo, social-democrata
no século XIX, e até a crise da II Internacional às vésperas da
I Guerra Mundial, era sinônimo de revolucionário. Logo o termo
afirmou sua identidade reformista e consolidou-se como vinculado à
prática política da maioria social-democrata. Portanto, a ênfase
na valorização do biografado enquanto comunista e revolucionário
expressa uma postura ideológica.
O
Gramsci que se sobressai desta obra não tem cores reformistas. Não
obstante, os autores não caem no apologismo. Com efeito, o risco de
toda biografia é tornar-se uma hagiografia. Os autores apontam, por
exemplo, o idealismo e o voluntarismo do jovem Gramsci diante dos
acontecimentos na Rússia revolucionária. Contudo, a crítica é
suavizada pelo argumento de que Gramsci polemizava com a concepção
positivista e evolucionista muito influente no socialismo italiano e
na II Internacional.
Outro
momento em que Gramsci nos é apresentado em toda a complexidade da
sua condição humana, isto é, como um indivíduo que também se
equivoca politicamente, diz respeito à sua posição diante da I
Guerra Mundial. Neste contexto histórico, Gramsci se aproxima do
nacionalismo de Benito Mussolini, que, ironia da história,
lideraria o movimento fascista.
De
qualquer forma, os autores nos apresentam um modelo de militante.
Longe de fragilizar a imagem revolucionária de Gramsci, os seus
“pequenos pecados” a fortalecem. Os autores nos mostram um
militante que se supera e consolida cada vez mais o seu perfil
revolucionário. Gramsci está entre os que romperam com a linha
reformista do Partido Socialista Italiano e que, sob a égide da III
Internacional, fundam o Partido Comunista Italiano. Mesmo nos anos
do cárcere, e Gramsci passou boa parte da sua vida como prisioneiro
do regime fascista, sua mente criativa ofereceu às gerações
posteriores pensamentos, análises e teorias originais.
O
mais provável é que o leitor se identifique com o biografado.
Isso, é claro, se ideologicamente tiver essa propensão. Assim, na
medida em que nos identificamos com a história de vida do
biografado, a escrita é incorporada e influencia a nossa prática.
As biografias nos apresentam modelos de vida, exemplos a serem
seguidos. A opção e o ato de lê-las já indica uma predisposição
a se espelhar na história de vida. E se não conseguimos imitar os
modelos, no mínimo fica a admiração e a inspiração.
Acima
de tudo, fica o aprendizado. Uma biografia que se preze não se
resume ao relato cronológico da vida do biografado. Ela tem uma
importância ainda maior se consegue nos fazer ver e compreender o
contexto social, econômico e cultural no qual se insere o indivíduo.
É este o caso. Os autores se fundamentam no materialismo histórico
e, assim, enfatizam as condições em que se desenrolam os
acontecimentos políticos e a práxis militante. Assim, a leitura
nos ensina muito sobre a Itália, seu povo e sua história, e a
conjuntura mundial da época.
Finalmente,
não esqueçamos que toda biografia é sempre uma seleção de fatos
da vida. Essa seleção não é arbitrária, mas determinada pela
postura do biógrafo. A biografia política nunca é ingênua, mas
sempre se propõe determinados objetivos. Entre estes está o
fortalecimento de uma determinada ideologia e do exemplo com a qual
esta é identificada. Portanto, não é estranho que o leitor
convertido incorpore elementos que reforçam a sua “crença ideológica”.
O leitor ainda não convertido nada tem a perder com a leitura e
pode até resultar que, da admiração pelo biografado, siga o
exemplo. Isso, é claro, considerando-se que num e noutro caso
trata-se de adesão ou no mínimo de simpatia com a ideologia do
biografado.
Em
geral, lemos apenas o que nos identificamos. Se isso é uma
qualidade, é também um problema. Se temos muito a aprender com os
que nos identificamos, também podemos aprender bastante com aqueles
que confrontam as nossas idéias e simpatias políticas. Em qualquer
caso, é preciso superar o receio e, muitas vezes, o preconceito.
Ler é um excelente antídoto. Mas também é preciso manter o senso
crítico e evitar o efeito apologético da leitura. Nunca é demais
lembrar que o biografado não é um santo, mas um ser humano com
tudo o que é inerente à sua condição. Também é preciso não
esquecer que se trata de uma determinada interpretação sobre a
vida do biografado, com a qual podemos nos identificar ou não. Mas
isto não altera a necessidade da leitura.
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Os nossos melhores modelos
políticos parece que sempre são os que morreram. Em Nossos
mortos, publicado em http://antonio-ozai.blogspot.com/2007/09/os-nossos-mortos.html,
há uma reflexão sobre a necessidade que temos de nos
identificarmos com modelos como Antonio Gramsci.
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Sobre
o autores
MÁRIO
MAESTRI
Nasceu
em Porto Alegre (RS). Estudante, refugiou-se em 1971, no
Chile, vivendo intensamente a revolução chilena.
Participou da resistência ao golpe de 1973, refugiou-se no
México e na Bélgica, onde graduou e pós-graduou em
História. Voltou ao Brasil em 1977. Viveu nba Itália no
período de 1984-1988. entre outros centros universitários,
trabalhou na FURG, UFRJ, UFRGS e PUC-RS. Atualmente leciona
no Programa de Pós-Graduação em História da UPF. É
autor de vários livros.
LUIGI
CANDREVA
É
italiano. Graduado em História, tem escrito para revistas
especializadas e de divulgação sobre história do
movimento operário, em particular da fundação do PCI, do
movimento operário europeu dos anos 1930 e da história do
anti-semitismo e do sionismo. Professor da rede pública
secundária, atua como sindicalista da CGIL. Militante do
Partido Rifondazione Comunista. É colaborador do Instituto
da Resistência e membro do comitê de redação do projeto
internacional ETOL.
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