por CIBELE VIEIRA MACHADO

Professora de português e francês, licenciada em Letras pela USP

José Rodrigues Máo Júnior. A Revolução Cubana e a Questão Nacional (1868-1963). São Paulo: Núcleo de Estudos d’O Capital, 2007 (406 p.) - pedidos: www.mamadeiramolotov.com 

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Publicado livro que narra quase 100 anos da história de Cuba

 

Nos últimos anos, a imprensa brasileira e os trabalhos acadêmicos não têm poupado munição para atacar intermitentemente Fidel Castro, a Revolução Cubana e suas conquistas. A informação que nos chega diariamente via jornais, televisão, revistas e teses defendidas nas universidades, sempre objetiva pintar, para Cuba, um cenário pouco pior do que o do inferno no imaginário medieval. Cada artigo que lemos pode ser tranqüilamente ilustrado com uma figura do Presidente cubano com rabo e chifres, empurrando para o fogo eterno os pobres pecadores desertados do Regime. Muito se fala sobre Cuba, muito se escreve sobre Cuba, muito se condena e se exalta Cuba, mas muito, muito poucos se dedicam a estudar a fundo a História de Cuba.

Na contramão dessa tendência, A Revolução Cubana e a Questão Nacional (1868-1963), tese de Doutorado defendida no Departamento de História Econômica da USP e lançado em livro neste agosto de 2007, traz ao leitor um estudo profundo e apaixonado dos principais acontecimentos históricos que marcaram a Ilha por quase 100 anos anteriores à Revolução. Com riqueza de detalhes são narrados no livro fatos ignorados pelo grande público, tais como a Primeira e a Segunda Guerras de Independência, as constantes intervenções militares e políticas dos EUA, a contradição crescente entre a burguesia açucareira – tão subserviente ao capital estrangeiro – e os trabalhadores cubanos - tão ávidos por liberdade.

Além da abundância de informação sobre a História da Ilha, algo difícil de se encontrar na bibliografia até hoje publicada no Brasil, outro elemento que torna o livro precioso para o leitor comum é a forma como o historiador relaciona os principais episódios históricos de Cuba com a trajetória de vários de seus heróis. Impossível não se emocionar com a tenacidade do poeta José Martí que, apesar do corpo franzino, fez questão de lutar no campo de batalha da Segunda Guerra de Independência; ou com a morte de Antonio Guiteras, assassinado após uma covarde delação; ou ainda com os sempre eloqüentes discursos de Fidel Castro e sua brava atuação frente ao grupo de guerrilheiros que até hoje encanta os jovens revolucionários de toda a América Latina. No livro, que pode ser comparado a um verdadeiro poema épico, o herói individualizado aos poucos cede lugar ao povo cubano que, em Playa Girón e nas Brigadas de Alfabetização se transforma, como um todo, no maior e mais honrado herói de sua pátria.

Ao contrário de outras teses aprovadas pela academia, que tanto se orgulham de cultivar uma linguagem hermética, para não dizer pedante, o autor de A Revolução Cubana e a Questão Nacional (1868-1963) busca o entendimento do leitor e sai vitorioso de seu intento. Com exceção do primeiro capítulo, no qual é apresentado um panorama das diferentes posições sobre a questão nacional entre os marxistas, o restante do livro é de fácil leitura para o grande público, pois possui ritmo e fluência elogiáveis.

Pela coragem de se colocar ao lado de Cuba – e não de Miami – neste momento crucial da História da Ilha, pela riqueza de detalhes, pela profundidade da pesquisa e pela linguagem elaborada, porém acessível, o livro A Revolução Cubana e a Questão Nacional (1868-1963), sem dúvida, é obra de leitura obrigatória para todos os que se interessem por aquela fascinante Ilha do Caribe.

por CIBELE VIEIRA MACHADO

 

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