Depois
da “Onda Verde”
Finalmente,
trinta e cinco anos após a 1ª Conferência Mundial sobre o
meio ambiente, realizada em 1972 em Estocolmo, Suécia, e
quinze anos após a Rio 92, os governos dos países mais
poderosos do mundo parecem ter tomado conhecimento dos
graves perigos representados pelos desastres ambientais. Em
abril de 2007, o Conselho de Segurança das Nações Unidas
discutiu pela primeira vez as implicações das mudanças
climáticas para a degradação ambiental e a deterioração
das condições de vida para toda a humanidade. A gravidade
da situação foi dramaticamente enfatizada com a entrega do
relatório do IPCC – Intergovernamental Panel on Climate
Change – o painel intergovernamental sobre as mudanças
climáticas.
A
divulgação do relatório pela mídia permitiu à opinião
pública mundial tomar conhecimento das catástrofes
naturais imanentes e dificilmente reversíveis, ao confirmar
a tendência atual de lançar na atmosfera bilhões de
toneladas de CO2, metano e outros gases poluentes
produzidos pelas atividades humanas em todas as regiões do
globo. Causada pelas mudanças climáticas e pela ação dos
homens, ocorre a desertificação e a perda da
biodiversidade com sérios danos ecológicos. Atualmente, as
áreas desérticas cobrem mais de 1/5
da terra e afetam a vida de mais de um bilhão de pessoas em
várias regiões do mundo. Assim, a desertificação se
tornou um problema global para a sobrevivência dos povos.
Não
é somente o destino das gerações futuras que está em
jogo. Todos os países, até nas regiões mais remotas –
vide o degelo na região ártica – acabam sendo atingidos
pelas mudanças na freqüência e intensidade de chuvas, com
inundações, secas e pragas que, além de provocar doenças
e epidemias, colocam em risco a própria segurança
alimentar, sobretudo dos mais pobres e deserdados.
A
elevação do nível das águas do mar ameaçará o habitat
de centenas de milhões de pessoas estabelecidas nas regiões
costeiras e dará origem ao fenômeno de “refugiados e
migrantes ambientais”.
A
última reunião do G-8 – os sete países mais ricos e
industrializados e a Rússia, ocorrida em junho de 2007 na
Alemanha, teve como pauta principal a elaboração de
propostas concretas para enfrentar as ameaças ao bem estar,
segurança e sobrevivência da humanidade. Os resultados da
conferência de Heiligendamm
foram desanimadores. Com exceção da Alemanha e Grã-Bretanha,
cujos governos propuseram medidas concretas de redução de
emissões, os Estados Unidos continuam com evasivas e
promessas de um “novo” plano de G.W. Bush, sem
comprometer-se com metas e prazos. A Rússia mostrou-se mais
flexível, baseada em suas imensas reservas de gás e, também,
devido à diminuição da demanda interna, em conseqüência
do desmantelamento de suas indústrias após o colapso da
ex-URSS.
A
China, embora desobrigada pelo Protocolo de Kyoto, enuncia
sua estratégia nacional de redução do efeito estufa,
propondo-se a melhorar a eficiência de seu consumo de
energia em 20%, até 2010. Efetivamente, a China é o país
que mais avançou no desenvolvimento e uso de energia eólica
e solar.
Entre
as propostas discutidas, a que mais preocupação causa é a
construção de novas usinas nucleares, além das 450 já em
funcionamento no mundo. Longe de representar uma solução
para substituir a energia “suja” (carvão e petróleo),
os reatores constituem ameaças no presente – exemplos são
os acidentes de grandes proporções como Chernobyl, na
ex-URSS, e Three Miles Island, nos Estados Unidos –, e
considerando as possibilidades de vazamentos e contaminação
do ar e das águas, os problemas serão ainda maiores num
futuro não muito distante.
Até
hoje, meio século após a construção dos primeiros
reatores, não se encontrou uma resposta convincente para o
descarte dos rejeitos ou do lixo atômico. A radioatividade
perdura nos equipamentos e edifícios por milhares de anos,
o que implica em custos enormes de desativação das instalações
após 50 anos de uso. Atualmente, a desativação é feita
por muros de concreto de mais de um metro de espessura ao
redor da usina, cuja proteção se estende no máximo até
cem anos. Da mesma forma, os rejeitos de urânio após o
processo de produção de combustível nuclear são
encerrados em barris de concreto e chumbo que resistem à
vazão da radioatividade por cem anos, enquanto sua meia
vida é de cinco mil anos, ressurgindo do fundo do mar ou da
terra onde são lançados.
Aos
custos supostamente menores por unidade de energia gerada
pelos reatores nucleares devem ser acrescentados os custos
da desativação das usinas após 50 anos de vida útil,
embora não fossem incluídos nas propostas orçamentárias.
É
neste momento histórico, quando a opinião pública
mundial, perplexa e angustiada com as perspectivas de
abastecimento de energia, se volta para as fontes de energia
limpas e renováveis, que o governo brasileiro, com o
discurso vazio sobre o “direito” de poluir dos países
em desenvolvimento, proclama a retomada da construção do
reator Angra 3 no litoral, entre Rio e São Paulo.
O
discurso de Lula vai na contramão da opinião pública
internacional e da imensa maioria da população brasileira
que procura desesperadamente caminhos e projetos
consentidos, sobretudo pelos países grandes emissores de CO2
e que se recusaram a assinar o Protocolo de Kyoto, segundo o
qual o volume de CO2 emitido por cada país
deveria ser reduzido em 5% até 2012, com relação aos níveis
de 1990.
Recentemente,
início de 2007, o governo da Austrália recuou diante da
pressão da população, prometendo reduzir a quantidade de
CO2 emitido, embora seja um dos maiores
produtores e consumidores de carvão mineral. Até os
Estados Unidos, maior emissor de gases de efeito estufa, está
ensaiando medidas para reduzir sua poluição, sempre “à
condição que não prejudique a economia”, o que não tem
impedido a adoção de medidas rigorosas por governos
estaduais, tal como o da Califórnia, de impor padrões
rigorosos de controle de emissões de CO2, aos
fabricantes e usuários de automóveis. O Brasil,
imensamente favorecido por uma matriz energética baseada em
70% de energia hidrelétrica, continua se recusando a
definir metas de redução, embora se saiba que mais de 70%
de nossas emissões de CO2 são resultados de
queimadas. Com uma política de fiscalização e controle
rigorosos de desmatamento e queimadas, o Brasil poderia
assumir a liderança do movimento mundial no enfrentamento
do aquecimento global terrestre. O discurso bombástico
sobre o biodiesel e o etanol como combustíveis alternativos
fica esvaziado enquanto não se implantar um sistema de
inspeção rigorosa e anual de toda a frota de veículos em
circulação.
A
mídia noticiou que a China ultrapassou os Estados Unidos,
tendo lançado no ano passado 6,2 bilhões de toneladas de
CO2, contra os 5,8 bilhões de toneladas dos
Estados Unidos. Paralelamente à expansão da economia
chinesa a taxas anuais superiores a 10% durante os últimos
vinte anos, esse crescimento tem impulsionado a demanda por
energia fóssil, carvão e petróleo, também nos países
fornecedores de insumos energéticos e de “commodities”,
como minério de ferro, alumínio, cobre e outros, para um
mercado praticamente insaciável.
Assim,
em vez de reduzir em 5% as emissões de gases poluentes
produtores de efeito estufa, conforme propõe o Protocolo de
Kyoto, até 2012, houve um aumento de emissões de mais de
35% neste período de 1996 até 2007. Responsabilidade
crescente pelo agravamento do efeito estufa e suas conseqüências
climáticas cabe também aos poucos países “emergentes”
– China, Índia, Brasil, México e África do Sul – que
pleitearam e conseguiram na hora de assinatura do Protocolo
de Kyoto uma
isenção para estabelecer metas de redução de CO2
sob o argumento ridículo de que, para crescer e alcançar o
nível de desenvolvimento dos países ricos e
industrializados, teriam o “direito” de poluir, até
alcançar o nível per capita dos mais ricos.
É
fácil prever que à medida que outros países ingressem e
avancem no processo de industrialização – Índia, Indonésia,
Tailândia, Vietnã, Irã, Egito e Turquia, para mencionar
apenas os mais populosos –, as emissões de CO2
tenderão a aumentar, mesmo que o G-8 faça esforços mais sérios
e consistentes de reduzir suas emissões. O máximo que
concederam, como medida “preventiva”, é o “crédito
de carbono”, que permite aos poluidores ricos comprar
direitos de compensar sua poluição, mediante
reflorestamento e outras atividades captadoras de carbono,
nos países pobres. A proposta de se criar um imposto (carbon
tax) sobre as emissões poluidoras, como anteriormente, também
desta vez foi rejeitada pelos Estados Unidos e outros países
que receiam a perda de competitividade de seus produtos,
devido ao aumento de seus custos.
Quais
seriam então as alternativas aos combustíveis fósseis,
admitindo-se que sua adoção generalizada não seria possível
pelo complexo sistema de produção e transporte que
sustenta as sociedades modernas? Devemos aceitar
passivamente os fracassos das convenções internacionais,
de Kyoto a Montreal, de Buenos Aires a Heiligendamm,
sempre acenando com outra conferência internacional (a próxima
será em Bali, Indonésia, em dezembro de 2007) e todas
fadadas à repetição do desacordo entre os países líderes
do mundo, tal como aconteceu recentemente na conferência da
OMC – Organização Mundial de Comércio, na rodada Doha,
sobre a liberalização do comércio? Será possível manter
uma economia funcionando com baixas emissões poluentes?
Muitas
empresas declararam sua adesão à “onda verde”,
sobretudo os setores financeiros e de comércio que lançam
pouco CO2 na atmosfera. Até algumas companhias
de petróleo entraram na dança, divulgando as baixas emissões
de produção de petróleo; mas não falaram dos gases
gerados pelo uso do mesmo na geração de energia.
No
entanto, os preços de energia gerada por recursos limpos
–eólica e solar – e renováveis – etanol e biodiesel
– , estão diminuindo, o que fortalece os argumentos
daqueles que advogam um imposto sobre o carvão que tornaria
os combustíveis alternativos mais competitivos.
Atualmente,
uma parcela de pouco mais de 10% da demanda de energia
mundial é atendida por recursos renováveis – energia
hidrelétrica, geotérmica e biomassas. Mas a construção
de grandes represas para gerar eletricidade encontra resistência
crescente de ambientalistas e de ONGs, defensores de populações
desalojadas de suas terras a serem inundadas, exigindo a
intervenção dos governos.
A
proposta de maior uso de energia solar – 80% de água
quente na China provém de energia solar – particularmente
no Brasil que necessitaria de apenas 1% de sua superfície
coberta por células solares para suprir a demanda total de
energia, não encontra receptividade por parte do governo e
das grandes empresas.
Na
geração de energia eólica houve avanços tecnológicos
significativos, tanto na altura dos mastros quanto ao diâmetro
das lâminas produzindo cada unidade até 2,5 MW. A vantagem
de turbinas eólicas é a pequena distância entre a fonte
geradora e o consumidor da energia, o que reduz o custo unitário
e dispensa a construção de imensas redes de distribuição.
Surgem aplicações de energia eólica em bombas de água e
esteiras rolantes que, além de mais baratas, são limpas e
renováveis, e imunes às pressões de políticos e
empreiteiras interessadas em obras de grande escala.
O
custo elevado do petróleo e os protestos crescentes contra
o uso de carvão mineral têm ressuscitado o interesse e
pressões por energia nuclear. Existem, hoje,
aproximadamente 450 reatores no mundo que contribuem com uma
parcela considerável para atender as necessidades energéticas,
18% na Grã-Bretanha, 19% nos Estados Unidos e 80% na França.
Sua substituição por termoelétricas à base de carvão
iria imediatamente repercutir no nível das emissões de CO2.
Vários
países europeus, após acalorados debates públicos, têm
decidido desativar seus reatores e não construir mais novas
instalações nucleares. Mas, nos Estados Unidos e na Europa
Oriental surge um renovado interesse pela construção de
reatores, supostamente mais seguros e, eventualmente,
suprindo energia a um custo unitário mais baixo.
Em
alguns países, Noruega e Estados Unidos, pesquisa-se a
tecnologia de “seqüestro de carbono”, reinjetando o CO2
no fundo do mar ou na terra. Provavelmente, os custos dessas
operações tornarão esses projetos não competitivos,
embora o processo de circulação – extração e retorno
à origem – pareça lógico.
Apesar
de tudo, as pressões para elevar a eficiência de combustíveis
continuam, sobretudo, na indústria automotiva. Até o
presidente Bush consentiu, com a demanda do Congresso,
diminuir em 4% ao ano a emissão de poluentes por combustíveis
fósseis. Avanços foram conseguidos pela introdução de
carros híbridos, elétricos ou movidos a etanol. Embora
positiva, essa resposta da indústria automotiva é
insuficiente e mal compensa a elevação de consumo de
combustíveis, causada pelo aumento do número de veículos
em circulação e dos anualmente incorporados à frota.
O
uso do etanol à base do milho encontra sérios obstáculos,
provocando inclusive a escassez da matéria-prima para a
produção de alimento básico no México. No Brasil, onde o
etanol à base da cana de açúcar constitui 1/3
do combustível para automóveis, multiplicam-se os
problemas ambientais e sociais causados pela expansão
irracional de monoculturas, em detrimento de biomas
tradicionais, nas áreas do cerrado, da caatinga e, também,
na Amazônia.
Na
área de transportes ocorrem investimentos crescentes no
desenvolvimento de veículos movidos a energia alternativa.
A Europa Ocidental adiantou-se ao introduzir um sistema de
créditos de emissões negociáveis. Controles mais rígidos
são propostas para assegurar os padrões de eficiência de
combustíveis. O governo da Califórnia está exigindo que
todas as montadoras coloquem no mercado, nos próximos três
anos, veículos rodando 15 km por litro de combustível,
como já o fazem as fábricas japonesas, enquanto a indústria
norte-americana não chega a 10 km por litro.
A
geração de energia nos Estados Unidos constitui a maior
fonte de emissão de gases poluentes no mundo. Mas, China e
Índia, grandes emissoras de CO2, não dão
sinais de adesão às metas do Protocolo de Kyoto e de seu
sucessor, a entrar em vigor em 2013. Essa atitude negativa
serve de exemplo para os outros países “emergentes”,
tais como o Brasil, África do Sul e México.
Outro
fator de preocupação crescente são os impactos ambientais
da aviação, por enquanto responsável por meros 3% do
aquecimento global terrestre. Os reatores dos jatos emitem
CO2, metano, e poeira de matérias particuladas,
de elevados efeitos tóxicos.
Por
isso, crescem as pressões para que o governo
norte-americano tome a liderança do combate à mudança
climática. A tímida resposta, que mais parece agradar às
grandes corporações, é a de “cap and trade” –
estabeleça um teto de emissões e negocie o excesso sob
forma de “certificado de crédito”. Esse novo mercado de
carbono envolveria bilhões de dólares, a serem
transferidos pelo governo às empresas. Os certificados que
estabeleceriam o número de toneladas de carbono autorizadas
para emissão serviriam aos vendedores e compradores dos
“créditos”. Contudo, as emissões de gases poluentes não
têm parado de aumentar no mundo todo.
Nas
páginas anteriores, tem-se avaliado os maiores problemas
relacionados com o aquecimento global terrestre. As tímidas
propostas para reduzir as emissões de CO2 e de
metano, relacionadas com a produção e o consumo de energia
fóssil – carvão e petróleo – não encontrariam
receptividade e atitudes construtivas por parte dos
principais atores econômicos.
A
imposição de um imposto aos consumidores de carvão e petróleo
(carbon tax) encontra resistência encarniçada do mundo de
negócios, sob a alegação de que este tornaria seus
produtos mais caros e, portanto, menos competitivos. No
clima geral criado pelo neoliberalismo, ninguém quer ceder
para viabilizar um acordo internacional cujas normas seriam
obrigatórias e extensivas a todos os países do mundo, sob
pena de sanções por parte da comunidade internacional.
Este
seria o primeiro passo para a determinação de políticas
globais, visando reduzir e até eliminar o uso de materiais
e processos de produção que contaminam além da atmosfera,
o solo, as águas, os alimentos e, assim, constituem uma
ameaça à própria sobrevivência da humanidade.
Ciência
e tecnologia conseguiram desvendar a estrutura do átomo
liberando energia nuclear e abrir o código genético pela
descoberta do DNA/RNA. Mas, seremos capazes de enfrentar os
desafios do efeito estufa, causado pelos próprios homens?
por
HENRIQUE RATTNER