por JOSÉ PROVETTI JUNIOR

Mestre em Cognição e Linguagem com especialização em Filosofia da Mente pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, pesquisador e professor colaborador do Núcleo de Estudos da Antigüidade – NEA – UERJ, vinculado ao Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UERJ.

 

 

O Problema Filosófico e a Linguagem

 

A confecção desse artigo foi motivada por ocasião dos estudos levados a efeito no Núcleo de Estudos da Antigüidade – NEA – UERJ, onde desenvolvo pesquisas nos campos de História das Idéias, das Mentalidades, Comparada e Psicológica, em torno de Platão e Hipócrates de Cós. Consultava a obra do filósofo analítico Richard Rorty (1994), A Filosofia e o Espelho da Natureza e em sua introdução, me chamou a atenção à questão que o autor oferece quando se posiciona a respeito do que chama problema filosófico conforme segue: os problemas filosóficos aparecem, desaparecem ou mudam de forma devido a novas suposições ou vocabulários. (1994:13).

Rorty se vincula à chamada filosofia analítica que atua junto aos campos de pesquisa da Filosofia da Mente, Neuropsicologia Cognitiva e Teoria do Conhecimento, que tem como postulado que toda a linguagem é um produto de interações sociais e que, portanto, não existem termos naturalmente dados. conforme nos informa Teixeira (2000: 116).

De acordo com Rorty (1994:13) a História da Filosofia seria um conjunto de problemas bem diferenciados e especialmente vinculados ao fenômeno da linguagem. Seriam perfeitamente determinados por fatores sócio-históricos estabelecidos e, por conseguinte, muitos deles seriam pseudo-problemas, isto é, careceriam de realidade objetiva, sendo simples jogos de linguagem ao invés da impressão de relativa concretitude que o uso cotidiano que fazemos da linguagem plena, segundo Rorty e os defensores da filosofia analítica, de metáforas oculares inexistentes objetivamente na experiência sensível bruta.

Se utilizássemos o que propõe a filosofia analítica, em termos de uma reforma da linguagem, isto é, reforma de nossa linguagem usual que para a Filosofia Analítica é de caráter psicológico mais do que condizente aos dados sensíveis e empíricos que detectamos, devendo a linguagem, então, ser adequada a uma nova fundamentação que tivesse por estrutura referencial dos signos, os conhecimentos adquiridos através das últimas descobertas e teorias neurobiológicas. Teríamos assim, condições de alcançar um estado avançado e unificado na ciência em todos os seus ramos, exatas e humanas, com sua conseqüente unificação em todas as variantes de investigação da natureza. Conseqüentemente deveria ser excluída de nossa linguagem cotidiana, de maneira escalonada, o que Rorty chama de vocabulário mentalista ou como também é conhecido entre os pesquisadores do campo, folk psychology.

Concordo com Rorty no que se refere à questão da linguagem ser produto vivo e interativo das necessidades e relações sócio-históricas e que as representações feitas por meio dos signos usuais são eivadas de termos e metáforas que inferem em nós, não apenas a existência da mente, bem como a possibilidade da pré-existência e sobrevivência dela aos fenômenos biológicos que nos são peculiares, como bem sugere a tradição filosófica derivada do platonismo. (PLATÃO: s/d). No entanto, no que se refere à questão da necessária pseudo-problematização de certas questões filosóficas como algo desprovido de substância e concretitude no real, parece-me algo exagerado e necessário se faz melhor compreensão sobre o assunto.

No que se constitui o problema filosófico para Rorty? Diz ele (RORTY, 1998, 13-28) que sua intenção não é a de fornecer ao leitor solução alguma aos questionamentos que apresenta à tradição filosófica, mas pretende causar uma provocação, a desconfiança no sentido de tentar compreender a questão sob outro ângulo, isto é, sob a perspectiva da Filosofia Analítica, em especial sob influência de filósofos como Wittgeinstein, Heidegger e Dewey. Neste sentido Rorty se posiciona de maneira indireta quanto ao problema filosófico ao longo de sua Introdução. Logo, para ele, o problema filosófico é um mero fenômeno, um jogo de linguagem que tem características metamórficas, atemporais e com alta adaptabilidade às necessidades antropológicas, históricas, psicológicas e sociais de seus usuários. Em geral, os problemas filosóficos emergem e submergem de tempos em tempos conforme o zeitgeist, isto é, as forças contextuais ou espírito de época (SCHULTZ &SCHULTZ, 2006). Nesta medida, o que Rorty chama de problema filosófico vincula-se necessariamente à história cultural e aos vocabulários possíveis e passíveis de expressarem as relações psicosociais na e pela linguagem em um ou mais idiomas ou conjunto de signos recorrentes nas sociedades.

O problema filosófico então, se submete à evolução (adaptações) da linguagem, logo, a Filosofia é uma linguagem técnica específica caracterizada por um dado vocabulário, em uma das modalidades possíveis do discurso racional que por si só, já se caracteriza como uma linguagem criada na Grécia, entre os séculos VII-IV a. C. (DETIENNE, 1998). Do que decorre que o problema filosófico não tem existência dada, isto é, como produto das interações sociais, sendo especificamente uma construção, um artefato psicocultural expresso na História da Filosofia, ele tem características e aplicações multifacetadas, vinculado necessariamente à linguagem e aos fenômenos cognitivos a ela vinculados e particularizados culturalmente. O que melhor o caracterizaria não seria a condição de problema, mas de pseudo-problema por não ter existência concreta em termos físicos, objetivos, porém por ser necessariamente fundado sobre um fenômeno cognitivo arcaico helênico que Rorty chama de fenômeno metafórico ocular essencialmente caracterizado pela fiel representação mental dos objetos de conhecimento exteriores ao sujeito cognoscente, ao menos no ocidente (PROVETTI JR, J.: 2007).

O que diz a tradição filosófica a respeito de nosso objeto de estudo, isto é, o problema filosófico? Conforme se verifica em Japiassu & Marcondes (1993:202):

1. Em sentido genérico, dificuldade, tarefa prática ou teórica de difícil solução (...)

2. Em sentido mais amplo, filosófico e, em geral, teórico, toda questão crítica, de natureza especulativa ou prática, examinando o fundamento, a justificativa e o valor de um determinado tipo de conhecimento em forma de ação.

Tanto na primeira quanto na segunda acepção percebe-se o caráter de algo que provoca uma atitude específica que em se detendo em analisá-la e nela refletir, encontra-se maior ou menor dificuldade em dirimi-la. Ora, pelo que se vê acima, na definição de Japiassu e Marcondes, um problema é uma coisa prática, empírica, que pode ser de natureza teórica, hipotética ou concreta, sensível, se constituindo como tal, na medida em que se apresenta como uma dificuldade real e concreta, empiricamente posta diante de quem a examina e tem por tarefa solucioná-la, transpô-la ou construir alguma estratégia de relacionamento para diminuir seus efeitos, quando necessário.

Quando Rorty coloca que os problemas filosóficos são pseudo-problemas constituídos sócio-historicamente através de um vocabulário especializado à época, em utilização por seus contemporâneos, supõe transpor a dificuldade em explicar as relações mente-corpo através de uma estratégia de esvaziamento do conceito de mente como se esse fosse mero produto cultural de uso consuetudinário, sagrado pela tradição mentalista que permeia a história do pensamento no ocidente, em especial, quando declarada por Descartes e Locke no século XVII.

Assim procedendo, creio que Rorty, ao invés de solucionar o problema, o acentua, embora seja bem verdade que declare na mesma introdução, que sua intenção não é solucionar a relação mente-corpo, mas estimular a reflexão em torno da questão, no intuito de provocar a desmistificação do mentalismo da linguagem usual, constituindo-se assim, o livro dele, uma forma de terapêutica ao problema, de caráter anti-cartesio-lockeano.

Questiono a posição exposta por Rorty quanto ao pseudo-problema filosófico, pois em verdade, o que problematiza não é a consistência e objetividade do problema ao longo da História da Filosofia, mas nos traz à discussão outra questão, mais delicada ao meu ver, e que foca nossa atenção sobre o que é o real e quais os parâmetros possíveis ao sujeito do conhecimento, para defini-lo e nele, por ele e através dele representá-lo de maneira eficiente e condizente com as necessidades de nossa sociedade; já que um vocabulário fundado em sensações puras e isento de elaborações por parte do entendimento, em alguma linguagem, é discriminado pelo autor como o que provoca a falsa impressão da existência da mente, dos fenômenos mentais e do vocabulário mentalista que usamos. E nesta medida, vale ressaltar, que a princípio, ele se refere direta ou indiretamente, à linguagem usual entre nós, que desde o século VII a. C. tomou vulto ao longo da história do pensamento e no Ocidente determina os mínimos parâmetros de relacionamento e comportamento intra e intersubjetivo, bem como com a natureza como um todo. Tal linguagem é a racional, que exerce em nosso dia a dia, as parametrizações em nosso interagir natural e social, nos mínimos processos para identificação e decodificação dos estímulos recebidos pelo organismo, isto é, a razão recebe o estímulo através dos sensórios em nosso corpo, classifica-o, relaciona-o a outros esquemas neurologicamente armazenados em nossa memória e, a princípio, sem tal elaboração racional, seria impossível o entendimento a respeito do percepto e ao que este se refere.

Eis a verdadeira questão que percebemos na Introdução de Rorty, pois sem o processo descrito anteriormente, ou algum semelhante, a informação sensorial nada mais seria que o fluxo incessante de blocos de sensações, uma chuva de sinapses a mais produzidas em nosso sistema nervoso central, sem sentido semiótico por parte do indivíduo ou em termos filosóficos, do sujeito do conhecimento.

Da mesma maneira, precisamos compreender o que está envolvido na questão de aceitar a proposta revolucionária da linguagem feita pela filosofia analítica. Como bem recorda Teixeira (2000: 42), no que se refere à identificação de fenômenos mentais aos eventos cerebrais, por redução da linguagem a eventos neuronais, informa-nos o autor sobre a colocação feita por Kant sobre os limites do conhecimento humano, que é tão interessante que creio ser pertinente reproduzir, como segue:

As tentativas de resolver o problema mente-corpo seriam, no entender de Kant, um caso típico de uso ilegítimo da razão – um erro que resulta de ignorar que nosso conhecimento está confinado aos limites da experiência possível. Quando sustentamos tanto que a mente e cérebro são a mesma coisa, quanto que não o são, esquecemos que não podemos falar nem de mentes nem de cérebros, mas apenas de como mentes e cérebros se apresentam para nós, pois todas as nossas experiências são modeladas por nosso aparelho cognitivo, inclusive nossas percepções de mentes e cérebros.

Nessa medida, como distinguir a melhor linguagem e vocabulário para determinarmos nossas relações com o real e suas realidades como propõe a filosofia analítica, para realizarmos a mencionada revolução do vocabulário, uma vez que toda percepção que temos de nós e da realidade exterior são modelagens cognitivas possíveis, nos dizeres de Kant apud Teixeira (2000:42), empiricamente falando?

Mais uma vez, a despeito dos esforços de físicos, matemáticos, psicólogos, neurobiólogos e filósofos analíticos nos deparamos com um típico, empírico e não com um metafísico problema filosófico. A despeito de qualquer referencial lingüístico a ser adotado, ele se mostra momentaneamente hermético, pois toda e qualquer inferência a respeito seria não mais que uma das inferências cognitivas possíveis e prováveis a respeito do tema, modeladas por nossa aparelhagem cognitiva através de nosso sistema nervoso central, logo, insolúvel até o momento.

Contudo, esse estado de insolubilidade ou em termo técnico-filosófico, - aporia -, não nos impede de sobre os conceitos de mente, cérebro, fenômenos mentais e neuronais nos debruçarmos e propormos soluções, hipóteses e teorias que melhor esclareçam os meandros que os caracterizam, pois como concordamos com Rorty nas primeiras linhas desse artigo, o vocabulário que usamos é e continuará a ser produto sócio-histórico de fundo cultural, indiferente ao referencial adotado, isto é, mentalista ou oriundo da empiria bruta das sensações. Continuará a ser utilizado e funcionará como veículo comunicacional e de interação entre nós, a natureza e nossos semelhantes, construindo reais possíveis e passíveis de percepção, como frutos generosos de nosso entendimento através das potencialidades ou atos de nosso sistema nervoso central, seja ele compreendido como causa ou efeito da mente, ou melhor, diria como ação-reação da mente, para a mente e pela mente, simultaneamente entendendo por mente, o que nos define tal qual somos e existimos individualmente, isto é, o verdadeiro problema filosófico fundamental de todos os tempos em nossa cultura, a saber, o nó cognitivo-existencial representado por nossa consciência em plena natureza, a dar mostras de sua realidade através da mente e seus fenômenos, embora nos esqueça, quase sempre, que enquanto nos colocamos na posição de sujeito do conhecimento, não somos seres a parte da natureza, somos elementos dela tanto quanto qualquer outro elemento que constitui nosso meio ambiente.

Para finalizar este artigo, vale recordar o bom e velho Sócrates, com o que os pensadores posteriores acreditaram ser sua ironia ao afirmar que a cada dia que passava só sabia que nada sabia e que nos faz refletir sobre algumas das limitações momentâneas de nossa aparelhagem cognitiva, à espera dos aperfeiçoamentos que a evolução de nossa espécie provavelmente nos permitirá atingir por meio dos novos estágios de inter-relacionamento na natureza e desse, certamente, emergirá novo vocabulário com termos que melhor expressem na linguagem, novos problemas filosóficos, com a solução total ou parcial dos anteriores.

por JOSÉ PROVETTI JUNIOR

 

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Bibliografia

DETIENNE, M. (1998) A Invenção da Mitologia . 2ª ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio.

Introdução in RORTY, R. . (1994) . A Filosofia e o Espelho da Natureza . 2ª ed. . Rio de Janeiro: Relume Dumará. p. 13-28.

JAPIASSU, H. & MARCONDES, D.  (1993) . Dicionário de Filosofia . 2ª ed. . Rio e Janeiro: Jorge Zahar. p. 265.

PLATÃO . (s/d) . Fédon. s/ ed. . São Paulo: Nova Cultural.

PROVETTI JR, J. (2007). O Dualismo Psyché-Sôma em Platão . s/ ed. . Campos dos Goytacazes: Dissertação apresentada como quesito de aprovação no Mestrado em Cognição e Linguagem com especialização em Filosofia da mente na UENF. Circulação restrita.

SCHULTZ, D. P. & SCHULTZ, S. E. (2006). História da Psicologia Moderna . 5ª ed. . São Paulo: Cultrix.

TEIXEIRA, J. de F. . (2000) . Mente, Cérebro, Cognição . 1ª ed. Petrópolis: Vozes.

 

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