A
sacralização da política e a profanação da religião
“Toda
concepción religiosa del mundo implica la distinción entre lo
sagrado y lo profano”, afirma Caillois (1996:11). Do
ponto de vista religioso, sagrado e profano são opostos. Porém,
tal oposição não ocorre de uma maneira dicotômica na qual os
pólos se excluem; sagrado e profano se relacionam, se
complementam. A religião diz respeito ao sagrado e pressupõe
uma atitude que “impone al fiel um particular sentimiento de
respeto que inmuniza su fé contra el espíritu de libre exame,
la sustrae a la polémica y coloca fuera y más allá de la razón”
(id.:12).
A
relação entre o sagrado e o profano é mediada pelo ritual. As
instituições religiosas são responsáveis por esta mediação;
é preponderantemente nelas e através delas que os fiéis
adentram no mundo sagrado. A experiência do sagrado pressupõe
o culto, personagens específicos imbuídos de sacralidade,
determinados lugares e tempo. No mundo moderno, as igrejas
concentram estas características e se confirmam como instituições
que administram os bens simbólicos religiosos, isto é, o
sagrado. É no espaço e tempo destas instituições, com seus
cultos específicos, pastores, sacerdotes etc., isto é, indivíduos
legitimados pela instituição, que os fiéis vivenciam o
sagrado.
A
experiência do sagrado pressupõe a elevação do eu
para além do mundo profano. Os homens e mulheres, numa mescla
de terror, submissão e esperança, reconhecem no sagrado uma
força superior capaz de lhes socorrer. As concepções de mundo
predominantes se alimentam deste teor religioso: o sucesso e o
fracasso, a bonança e as calamidades, a vida e morte, se
vinculam aos fundamentos referentes ao sagrado. Este surge como
o refúgio humano à realidade opressiva e miserável do mundo
profano. Em sua angústia existencial, homens e mulheres buscam
o conforto do sagrado e, ao mesmo tempo, o temem. Os humanos
vivem simultaneamente entre o terror da punição – de arder
no mármore do inferno – e a esperança de que a divindade o
recompense – na terra e no céu.
A
política diz respeito ao mundo profano, ao mundo comum.
A modernidade afirmou categoricamente a sua autonomia diante da
religião. Se no mundo medieval a religiosidade, instituições
religiosas e organização política e social se confundiam,
isto é, poder espiritual e poder temporal se mesclavam e
determinavam os destinos dos indivíduos, a modernidade
significa a possibilidade de separação entre Igreja e Estado
e, neste sentido, da relativa autonomia de ambos na sociedade. A
crescente secularização consolidou este processo. Contudo, à
maneira da relação entre o sagrado e o profano, também a
secularização não expressa uma contradição absoluta com a
religião. Esta permanece forte e influente, seus preceitos
morais e religiosos, bem como o poder dos sacerdotes e da
organização, não podem ser simplesmente descartados pelo
poder do Estado. De certa forma, o poder espiritual também se
reveste de poder temporal, na medida em que tem influência real
sobre o mundo da política.
Se
o mundo profano (comum) se vincula à política e as igrejas são,
por excelência, os espaços de manifestação do sagrado, não
há um muro intransponível entre eles. Com efeito, o mundo
profano da política se reveste, em determinados casos, de
sacralidade; e, por sua vez, o mundo sagrado vinculado às
instituições religiosas revela, sob certas circunstâncias,
manifestações profanas. Observe-se, por exemplo, como a política
gera os “profetas” prenhes de carisma e, à maneira
religiosa, constitui um grupo de seguidores (“discípulos”).
Observemos ainda como, em certos contextos históricos,
ideologias seculares se manifestam religiosamente, com a presença
de determinados “ritos” e o culto à personalidade. A razão
produziu um novo crente que tem fé na ciência e também
uma nova crença amparada na esperança utópica da
construção do paraíso na terra. Eis uma das funções
principais das ideologias seculares críticas à sociedade
moderna capitalista.
Se
a religião reflete os desejos humanos de uma sociedade
essencialmente justa, realizável apenas no nível do “céu”,
isto é, post mortem – e, neste sentido, toma como
inevitável a miserabilidade da vida terrena e a condição
humana falível e imperfeita –, a ideologia política
sacralizada inverte os pólos e afirma a possibilidade da utopia
social no plano terreno, ou seja, a construção do paraíso na
terra. Os crentes perseguem o paraíso como algo impossível de
ser atingido no plano da vida material; os utopistas buscam o
possível onde afirmam o inexistente.
Mas,
para que tenha efeito prático, as utopias necessitam se
manifestar enquanto ideologias capazes de influenciar e de serem
“encarnadas” pelas massas e, talvez o mais importante,
precisam ser eficazes na produção de novos crentes. Se
a religião pressupõe a fé; a ideologia também não pode
prescindir da crença no impossível, no devir longínquo
e na possibilidade de que o vir-a-ser deixe de ser apenas
uma promessa para se tornar realidade. Portanto, a ideologia
também se reveste de sacralidade e religiosidade: tem os seus
profetas, seus seguidores e as instituições onde se manifestam
os rituais e realizam os cultos.
Se
as religiões, como escreve Berger (1985:46), têm como função
legitimar e manter o mundo social e historicamente construído;
e, se esta legitimação consiste em “conceber a ordem
institucional como refletindo diretamente ou manifestando a
estrutura divina do cosmo”; as ideologias seculares têm dupla
função: manter e transformar a sociedade existente. Para que
efetivem essas funções, isto é, na medida em que as idéias
se apoderam das mentes e se traduzem em manifestações reais e
práticas, estas ideologias também precisam se revestir de
aspectos religiosos. Assim, por exemplo, as ideologias
conservadoras se alimentam de valores morais vinculados à tradição,
aos costumes e à religião. Já as ideologias críticas, por
sua vez, também não podem simplesmente desconsiderar estes
fatores. Para serem eficazes precisam convencer e arrebanhar
seguidores. Seu caráter, porém, não será definido pela
religiosidade e sacralidade, mas por um apego cientificista. A
ideologia, então, fundamentará a sua utopia em argumentos
pretensamente científicos, sem, no entanto, abrir mão de
slogans e mensagens nada científicas, pois exigem, como toda
religião, a crença. O fanático fundamentalista religioso não
difere muito do fanatismo militante vinculado a ideologias
seculares. Se o primeiro acredita em Deus, o segundo acredita na
inexorabilidade da história e também cultua os seus ídolos.
Os
crentes de determinados movimentos e instituições religiosas vêem
o mundo com desconfiança e, invariavelmente, buscam se afastar
das coisas mundanas. “É do mundo”, dizem. O afastamento das
coisas do mundo é uma das manifestações de resistência
à secularização. Eles buscam o sagrado, vinculam-se a este na
esperança de que a divindade os socorram e os libertem das iniqüidades
humanas. Na verdade, dilaceram-se diante do dilema de cultuar o
sagrado e negar o profano, como se estes expressassem uma relação
de pólos excludentes. Ao “fugirem” do mundo, negam a condição
humana que lhes é inerente. E, no entanto, têm que se haver
cotidianamente com esta condição. Assim, procuram trazer o
sagrado para o seu dia-a-dia. É como se o sagrado rompesse os
muros dos templos: profano e sagrado passam a conviver nos
mesmos espaços-tempos. Isto, porém, não significa a perda do
específico, isto é, do tempo e espaço consagrados ao culto.
Como não é possível negar plenamente a condição humana e a
realidade social, os crentes deste tipo intensificam os vínculos
com o sagrado e, assim, tendem a alimentar o sectarismo, o espírito
de seita e o fanatismo – um dos efeitos deletérios deste
procedimento é a intolerância religiosa.
Ao
contrário dos “crentes religiosos”, os “crentes
seculares” de determinadas ideologias se apegam freneticamente
ao mundo. Para estes o mundo real é a medida de todas as
coisas. Tudo o que não pode ser explicado sob este prisma não
merece consideração. Deste ponto de vista, a religião
expressa alienação, ópio, distanciamento do real. São
herdeiros da “crítica óbvia” do século XIX”.
Escapa-lhes a compreensão sobre os porquês de homens e
mulheres buscarem o transcendente. No extremo oposto, negam as
necessidades espirituais, a existência da divindade, e ao
negarem confirmam-no; não compreendem a religião como parte da
condição humana.
A ironia é que fazem isto reafirmando religiosamente as suas
“crenças” e, na suprema necessidade de se afirmarem, e também
ao seu projeto utópico de sociedade, terminam por repetir os
mesmos procedimentos dos que criticam. São igualmente
intolerantes.
A
concepção religiosa dos “crentes em ideologias seculares”
é sociologicamente determinista – mas do que isso, é
mecanicista, pois imaginam que a religião é apenas reflexo das
estruturas econômicas. Sacrifica-se a dialética no altar da crítica
à religião. Trata-se de um pensamento tosco e reducionista.
Esquece-se, como afirma Berger, “que a mesma atividade
que produz a sociedade também produz a religião, sendo que a
relação entre os dois produtos é sempre dialética” (id.:
61).
Se
a religião é o ópio do povo e fator de legitimação da ordem
social vigente, e se esta repousa numa dada estrutura econômica,
então, é lícito supor que, na perspectiva do reducionismo
economicista, o ser humano superará a religião quando a
estrutura, as “condições objetivas”, se transformar e
possibilitar a superação do reino da necessidade. Este é um
argumento que desconsidera a psique e os dilemas da condição
humana que transcendem os aspectos materiais. Por outro lado,
seja na perspectiva religiosa, seja na secular, os mesmos
fatores que legitimam o status quo – religião e
ideologia – também podem questioná-lo. Se isto fica evidente
no que diz respeito às ideologias críticas à sociedade
capitalista, parece escapar à compreensão de alguns dos que se
debruçam sobre o fenômeno religioso. Observe-se que a mensagem
religiosa pode ser conformista, mas também pode representar a
promessa de construção de uma sociedade mais justa e igualitária
espelhada nas palavras do livro sagrado. A leitura crítica
da bíblia e sua aplicação prática pelos que abraçaram a Teologia
da Libertação é um exemplo.
A
religião, para além de considerações críticas, cumpre ainda
um papel importante na medida em que contribui para que os indivíduos
se sintam minimamente seguros no mundo. Não é por acaso que a
secularização não conseguiu suprimir os sentimentos
religiosos e em lugar do desencanto religioso vemos, nos tempos
atuais, a busca crescente da religião. Talvez isto se explique
pela necessidade de segurança ontológica. Como escreve
Berger: “A religião serve, assim, para manter a realidade
daquele mundo socialmente construído no qual os homens existem
nas suas vidas cotidianas” (Id.: 55).
É
interessante observar que as ideologias também cumprem esta função.
Os homens e mulheres adeptos de determinadas ideologias
apegam-se, à maneira religiosa, em certezas e verdades que, a
depender do grau de adesão e das características destas, não
admite a dúvida. E, tal qual o religioso crítico em sua
instituição, os que ousarem questionar as certezas
compartilhadas fervorosamente serão expurgados como hereges. Um
bom exemplo deste procedimento é a crise, até mesmo
existencial, em que mergulham os adeptos de determinadas
ideologias quando estas perdem as suas referências e desabam
como castelos de areia (atente-se para eventos históricos
como a queda do muro de Berlim e a desintegração da URSS).
Concluindo
estas reflexões, afirmo a hipótese de que a separação
sagrado/profano, religião/política, Igreja/Estado, não é tão
absoluta como poderíamos imaginar. A relação entre estes
pares não é dicotômica e excludente. Mais do que
complementares, parece-me que o melhor método para compreender
estes fenômenos é aquele que nos permita observar as contradições
e o movimento dialético com parte de uma totalidade resultante
da práxis humana. Os homens e mulheres historicamente
determinados produzem a vida material, mas também ideologias e
a religião. E estas são tão necessárias para a vida
cotidiana como o pão que os alimentam e os bens materiais que
tornam as suas vidas mais suportáveis. Dessa forma, é possível
avançar na direção do aprofundamento de outra hipótese: a de
que as ideologias seculares, para serem eficazes, também atuam
à maneira religiosa, com seus cultos, mitos, templos, livros
sagrados, sacerdotes, profetas e discípulos.
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