Intelectuais
Brasileiros & Marxismo
Octávio
Brandão (1896-1980)
No
século dezenove apareceram muitos loucos que, fascinados pela
personalidade do imperador dos franceses, tinham a mania de ser
Napoleão Bonaparte: imitavam seus gestos, sua postura, e andavam
com a mão sobre o estômago, como se também sofressem de úlcera.
No
século vinte, o modelo mudou. Sob o impacto da “Revolução de
Outubro”, ocorrida na Rússia em 1917, numerosos ativistas
revolucionários, em vários países, fortemente impressionados pela
vigorosa personalidade do líder russo, começaram a dar sinais de
que estavam atacados pela mania de ser Lênin.
O
Brasil tem diversos casos desse tipo. Um deles é particularmente
interessante: o caso de Octávio Brandão, o intelectual que maior
influência exerceu sobre o pensamento dos comunistas brasileiros
durante a primeira década de existência do PCB.
Brandão
se dedicou integralmente, com espírito generoso e radical, à luta
em prol dos explorados e oprimidos, à organização dos
trabalhadores, à revolução socialista. Foi preso várias vezes,
perseguido, sofreu muito, mas suportou com estoicismo todas as
agruras em nome da grandeza da sua causa: o comunismo.
Animava-o,
desde 1919, o ideal de se tornar um herói. Escrevia que sua meta não
consistia em fazer a vida boa ou má, “e sim em fazê-la heróica,
isto é, vibrante, agitada, gloriosa”. Lênin arrebatou-o como
exemplo vital; e ele se dispôs a ser o Lênin brasileiro. Desgraçadamente,
contudo, foi um Lênin que não deu certo.
*
* *
Octávio
Brandão conta a sua vida num livro intitulado Combates e
batalhas, cujo primeiro volume foi lançado em 1978 pela editora
Alfa-Omega. A importância do documento foi sublinhada por Paulo Sérgio
Pinheiro no prefácio: através das recordações de Brandão,
podemos obter elementos preciosos para o aprofundamento dos nossos
estudos a respeito do movimento operário nas primeiras décadas da
história republicana. Se tantos intelectuais ligados aos valores
das classes dominantes nos trazem dados significativos, em suas memórias,
para compreendermos as razões conservadoras da versão da nossa
história que os de “cima” nos impingem, faltam-nos, contudo,
elementos que nos esclareçam o que se passava na cabeça dos
intelectuais comprometidos com a revolta e com os anseios dos de
“baixo”. Por isso, o testemunho de um trabalhador como Octávio
Brandão é precioso.
Mas
a autobiografia, além do interesse que tem para o estudo da história
dos trabalhadores, ainda apresenta o interesse literário de nos
revelar umas das personalidades mais bizarras que a cultura nacional
já produziu.
Brandão,
nas memórias, fala de si mesmo, com freqüência, na terceira
pessoa. Na infância, ele é “a criança”, que nas histórias de
Carlos Magno e dos Doze Pares de França “bebeu lições de
bravura e de heroísmo”. Depois, se torna “o jovem autor”,
“o jovem escritor” que “não temia a derrota”, ou “o jovem
intelectual” que denunciava as “bambochatas políticas” e
desejava que “os frutos da sua alma” fossem “sugados por milhões
de lábios sequiosos”, mas ficava frustrado por não encontrar
entre os intelectuais das classes dominantes “calor e simpatia,
apoio e estímulo, justiça e compreensão”.
Com
certa candura, Brandão registra orgulhosamente o fato de que,
“embora os outros alunos disputassem muito”, ele sempre
conseguiu ser, no colégio, o primeiro da classe. E – em maré de
autopromoção – assinala os méritos da “longa tese científica”
que apresentou em 1914, ao se formar no curso de farmácia, dedicada
às peculiaridades da erva-cidreira.
Uma
característica que impressiona na personalidade de Brandão é a
sus total ausência de senso de humor: ele se leva terrivelmente a sério,
o tempo inteiro. A magnitude dos seus objetivos não lhe deixa espaço
para a ligeireza inconseqüente de um sorriso despreocupado. Com
toda a gravidade exigida pela situação, ele dirigia apelos aos
povos do mundo, concitava os trabalhadores da Índia a se sublevarem
contra a Grã-Bretanha, convidava os povos da Indochina à luta pela
independência, chamava os povos da áfrica ao combate contra os
“brancos” parasitas. Recomendava-lhes (ainda que dificilmente
pudessem ouvi-lo): “Contrapor às vagas reacionárias os vagalhões
revolucionários”.
Quando
as condições de luta pioram, ele se encastela em suas convicções
inabaláveis e as endurece ainda mais. O único alívio que o seu
ascetismo lhe permite é a elaboração de versos parnasianos,
cheios de retórica humanista e de brados de revolta. No Nordeste,
pouco antes de vir para o Rio, enquanto trabalhava como farmacêutico,
o revolucionário (ainda anarquista) escreveu numerosos poemas. Como
ele mesmo diz: “Em 1918-1919, fui invadido por uma onda de
lirismo”. Para termos uma idéia desse lirismo, Brandão
transcreve um poema escrito quando se achava preso em Maceió, no
qual podemos ler: “É glorioso marchar para a Cadeia / por
defender o ideal em mil batalhas”.
Em
seu interesse pela poesia, cultivado na leitura de traduções
francesas de antigos poetas da Índia, Brandão deixa claro que
repele “a sensualidade grosseira”. O revolucionário que
enfrenta os preconceitos políticos da burguesia se transforma num
conservador moralista quando se defronta com certos aspectos da
mudança dos costumes; e se escandaliza diante de fenômenos que lhe
parecem despudorados.
A
psicanálise perturba-o, incomoda-o: “O freudismo é obra de maníacos
do sexo. Tenta transformar o instinto sexual em força motriz da
história”.
Sua
chegada à então capital da república deixou-o consternado. Ele
descreve suas impressões em termos sintomáticos: “O Rio de
Janeiro era uma cidade de grande beleza e democratismo.
Infelizmente, perdia-se nas piadas e futilidades, no carnaval e
futebol, no jogo e no álcool, na macumba e espiritismo, nos
excessos sexuais e dramas passionais. Daí, sofrimentos espantosos
para o jovem escritor e cientista”.
Brandão
foi um pioneiro. Denunciou, com firmeza, os males da exploração
das riquezas minerais do solo brasileiro por empresas estrangeiras.
Desde 1917, sustentava a tese de que existia petróleo no nosso
subsolo. Acusava o ceticismo a respeito da existência do petróleo
de ser cultivado por interesses imperialistas. Essa atitude de
defesa das riquezas nacionais, entretanto, se misturava a uma
postura político-cultural ingenuamente “nativista”.
Empolgado
com a idéia de que os artistas deveriam se voltar para as coisas do
Brasil, acabava por assumir a posição de “diretor de consciência”
deles, advertindo-os de que não se entregassem à “amplificação
de baboseiras européias”. Aos poetas, recomendava: “Poderão
cantar o meu pau d’arco, a minha árvore de ouro; o angelim, tão
roxo, tão nostálgico; a sapucaia, tão rósea, tão linda; o
pindobal, tão majestoso”. E aos pintores determinava que
pintassem “os cenários das minhas lagoas, os visgueiros admiráveis,
os socós tristonhos, os piri-pirizais divinos”.
Na
cabeça do revolucionário romântico se mesclavam causas
importantes e motivações pitorescas, convicções amadurecidas e
ardores provincianos. De um lado, um quadro de referências
estreito, a recusa das “baboseiras européias”; de outro a
conversão ao marxismo, a sensação de ser um “cidadão do
mundo”, instalado no convívio com os grandes da cultura
universal.
Brandão
mandava seus folhetos para Maksim Górki, para Anatole France, para
Henri Barbusse, para Rabindranath Tagore; e ficava triste ao
constatar que eles não lhe respondiam. “Admirava os homens de
tendências universais: Goethe, Shakespeare, Leonardo da Vinci”.
Houve um período curto em que se entusiasmou pelo estilo de
Nietzsche, porém os “erros terríveis” do pensador alemão logo
o levaram à conclusão de que Nietzsche “foi um pobre homem
doente e infeliz”.
Em
sua auto-suficiência de autodidata, Brandão exalta os autores que
lhe parecem “progressistas” e condena inapelavelmente ao opróbrio
as expressões culturais que considera “reacionárias”. Aplaude
Heráclito e Epicuro, Giordano Bruno e Spinosa, porém se orgulha de
proclamar: “Nada aprendi com a Bíblia, Sócrates e Platão”. No
Brasil, elogia Tobias Barreto e repele Machado de Assis.
A
quintessência da dimensão universal a que podia chegar um ser
humano, segundo Brandão, se achava em Lênin. “Lênin –
escreveu – é a maior personalidade da História Universal em
todos os tempos”. Perto de Lênin, o “Mestre sem par”,
Alexandre o Grande, Júlio César, Carlos Magno e Napoleão
Bonaparte passavam a ser figuras de segunda categoria. Comparada à
influência de Lênin, empalideciam as influências de Aristóteles,
Santo Tomás de Aquino e Kant.
A
maior importância de Marx para o marxista Brandão consistia no
fato de o pensador alemão ter inspirado a ação do “Mestre sen
par” Lênin. Era normal, portanto, que o revolucionário
brasileiro trouxesse, para a difusão das idéias de Marx no Brasil,
um terrível mal-entendido, que até hoje produz efeitos deletérios:
Brandão aderiu entusiasticamente à dialética sem tê-la
entendido.
Para
o autor de Agrarismo e industrialismo (1925), a dialética se
reduzia à tríade “tese-antítese-síntese”, uma fórmula
simplificadora muito difícil de ser encontrada em Hegel, mas que
Brandão aplicava, avidamente, a tudo. O esquema triádico era
aplicado, por exemplo, à interpretação do levante de 1924 e
resultava no seguinte: Artur Bernardes, presidente da república,
representante do agrarismo feudal, era a tese; Isidoro Dias Lopes, o
general sublevado, representante da pequena-burguesia e do capital
industrial, era a antítese; e a síntese, ainda por vir, era a
revolução proletária, comunista.
Empolgado
com sua “dialética”, Brandão submetia a trajetória do
movimento operário no Brasil ao mesmo esquema triádico; e concluía:
a tese era o período inicial, da hegemonia anarquista; a antítese
era o período das perseguições desencadeadas por Epitácio
pessoa; e a síntese, mais uma vez, era o período da revolução
proletária, inaugurado pela fundação do PCB.
Brandão
vai além e enquadra na “dialética” toda a história do Brasil,
dividindo-a em dez ciclos e colocando-a a girar em torno da
dicotomia “centralização-descentralização”. No primeiro
ciclo, a tese é a descoberta do Brasil (a terra pertence a uma só
pessoa, Dom Manuel, o Venturoso, rei de Portugal); a antítese é a
descentralização provocada pela divisão em capitanias hereditárias;
e a síntese é a nova centralização operada pelo governo central
de Tomé de Souza. Seguem-se os demais ciclos, até o décimo, que
se encerra com a síntese a ser promovida – sempre! – pela
revolução proletária, socialista.
Por
fim, sem se conter, Brandão se lança à mais ambiciosa das suas
aplicações da “dialética”: para exemplificar a pujança do
seu método, submete os vinte e seis séculos da história de Roma
à articulação triádica. Surpreendentemente, ele divide a evolução
da sociedade romana em apenas oito ciclos (número inferior ao dos
ciclos da sociedade brasileira). No primeiro ciclo da história
romana, a tese é o início do período dos reis de Roma, em 753
a.C.; a antítese é a república, proclamada em 510 a.C.; e a síntese
é o império, que prevalece a partir de 29 a.C. Seguem-se os demais
ciclos. E no oitavo e último a tese é a república burguesa
liberal, a antítese é o fascismo de Mussolini (que então estava
instalado no poder) e a síntese – que será a “síntese de
todas as sínteses passadas” – é, naturalmente, o comunismo.
A
influência de Octávio Brandão sobre os comunistas brasileiros foi
imensa. O documento programático aprovado pelo PCB em seu segundo
congresso, em 1926, se baseou no livro Agrarismo e industrialismo.
O ascetismo de Brandão fascinava os militantes mais impressionáveis
e, em certos momentos, valia como modelo de comportamento para eles.
Havia
em Brandão uma autenticidade que o tornava digno de admiração.
Sua abnegação chegava a comover. Sua revolta contra o elitismo da
nossa sociedade revela uma coragem excepcional, nas condições de
isolamento em que ele viveu. Brandão era audacioso em suas formulações
e íntegro em seu caráter. Era, também, obviamente insensato. Mas
a insensatez evidente de tantos dos seus critérios e de tantas das
suas posições nos parece reveladora de uma situação marcada pela
extrema fraqueza teórica e política do marxismo no Brasil. Brandão
não pode ser transformado em bode expiatório: com seus exageros e
unilateralidades, ela era a expressão de um momento extremamente
difícil da história do pensamento de esquerda no Brasil.
Observando-o
à distância, evocando-o, examinando-lhe o estilo exaltado de ação
e pensamento, hoje, nos dar conta de como é alto o preço pago pela
ilusão de nos levarmos exageradamente a sério, de pensarmos que
sabemos mais do que efetivamente podemos saber, de pretendermos ser
mais do que realmente podemos ser.
28-4-1990
KONDER,
Leandro.
Intelectuais
Brasileiros e Marxismo.
Belo
Horizonte: Oficina de Livros, 1991, pp. 13-18.
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LEANDRO
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