por EDNALDO GONÇALVES COUTINHO

Professor da Escola Agrotécnica Federal de Uberlândia e mestrando em Educação pelo Centro Universitário do Triângulo – UNITRI.

 

 

A educação e a integridade humana: uma discussão a partir do filme “A língua das mariposas”

 

Tenho assistido profissionais da educação falando e escrevendo sobre projetos pedagógicos, modelos de aprendizagem, técnicas, funções, sentidos e papéis, como se houvesse uma receita, uma dose certa e um uso adequado dos ingredientes que levasse à feitura do tão sonhado quitute: a competência docente.

Um filme ao qual assisti recentemente durante a uma aula de Mestrado em Educação, "A língua das mariposas" (La lengua de las mariposas), provocou reflexões sobre o assunto. Tendo como contexto, o início da guerra civil espanhola, o filme apresenta o cotidiano de uma sala de aula em uma pequena escola interiorana e seu único professor. O velho mestre, tem alunos de tamanhos e idades bastante variáveis e como cenário a habitual sala envidraçada e o clássico quadro negro. Como qualquer professor, comete injustiças (e tenta repará-las). Muitas vezes é ignorado, preterido, apreciado. É possível, no entanto, vê-lo como um sólido elo entre aquelas crianças e o mundo de conhecimentos existente.

Há uma cena em que o professor tenta falar com a classe, mas vê-se impedido pela desordem e pelo barulho que os alunos fazem. Ele se vira para a janela a olhar a paisagem lá fora, em silêncio, até que as crianças percebam que ele não está mais tentando falar e se calam. Ele, então, se vira para a classe e não dá sermão nenhum, ou lição de moral. Apenas diz algo mais ou menos assim: “A primavera está chegando e poderemos ter nossas aulas no bosque. Poderemos ver borboletas e mariposas... Vocês sabiam que as mariposas não têm língua, mas sim probóscide, um órgão que se assemelha a uma tromba..." E segue contando sobre mariposas e outros bichos, enquanto têm vidrados nele, dezenas de olhares curiosos. E quando mais tarde, eles vão ao bosque, o professor vai ensinando pelo caminho um pouco de biologia, outro tanto de botânica, outro de geografia... Salpicos de conhecimento, pequenos sutis convites à descoberta de outros curiosos caminhos; um tênue fio que, seguido, pode levar a uma caminhada prazerosa ao mundo das idéias e do saber.

Alguns educadores assistiram ao filme e admiraram o velho mestre que “não tinha projetos didático-pedagógicos, não tinha outro material à disposição que não a natureza, não contava com o apoio de coordenadores, pedagogos, psicólogos e fonoaudiólogos, mas sabia e queria despertar o interesse e a curiosidade em seus alunos, e talvez, neste fato resida a magia e a beleza do ensinar” (TEIXEIRA, 2002).

Não pretendo aqui divulgar uma idéia romântica e utópica sobre educar, nem propor que saiamos todos a passear por bosques e campos, caçando borboletas e colhendo flores. Não. Proponho que nos apropriemos de todos os recursos disponíveis, que assumamos o ambiente escolar como ele se apresenta, seja numa sala de informática com computadores de última geração, seja numa escola rural com velhas carteiras e escassez de giz. Proponho que, incorporando esse ambiente, ele deixe de fazer diferença e o verdadeiro estímulo para nossos alunos esteja em nossa capacidade e em nosso desejo de ensinar. O professor tem a obrigação de ser mediador entre o conhecimento que existe no mundo e as mentes (e a sensibilidade) de seus alunos.

Furtar-se disto, culpando as estruturas físicas ou sócio-pedagógicas da escola pelo seu insucesso, é abrir mão da possibilidade de descortinar mundos de sensações, experiências e aprendizados para esses seres que estão sob nossa tutela e responsabilidade. Não há manuais de auto-ajuda que façam um professor ser um bom professor, mas há leituras a serem feitas, filmes a serem vistos, músicas a serem ouvidas, museus a serem visitados e são essas viagens que poderão fazer diferença na vida e no trabalho de um professor.

Sempre digo que não se ensina ninguém a desenhar, mas pode-se ensinar a olhar. E o olhar pode ser mais e mais aprofundado, diverso, curioso. Esse mundo tão cheio de armadilhas  merece de nós um olhar sherlokiano e isso se aprende sim. E o professor pode ser o “disparador” dessa aprendizagem. Seja apresentando aos seus alunos a Tarsila ou o Picasso, ensinando-lhes técnicas de xilogravura ou de papel reciclado, lendo um poema, ou uma história em quadrinhos, ouvindo uma canção, examinando atentamente uma formiga ou resolvendo um problema de física.

Só que algo se faz imprescindível: como o professor do filme é necessário que tenhamos conteúdo. É preciso saber, às vezes, que a língua das mariposas se chama probóscide, pois esse pode ser o instrumento para se tocar a curiosidade dos alunos. Costumo dizer, incessantemente: professor tem que ter estofo, tem que ter "recheio". E não há manuais, repito, com a receita desse recheio. É por meio de uma prática reflexiva, às vezes solitária, às vezes grupal, que o professor consegue preencher suas lacunas e completar seus vazios. Um profissional reflexivo aceita fazer parte do problema. “Reflete sobre sua própria relação com o saber, com as pessoas, o poder, as instituições, as tecnologias, o tempo que passa, a cooperação, tanto quanto sobre o todo de superar as limitações ou de tornar seus gestos técnicos mais eficazes."[1]

Por isto me apaixonei por esta obra de arte "A Língua das Mariposas", um filme do diretor José Luis Cuerda (um ícone do cinema espanhol), que permite uma reflexão interessante sobre a escola e a educação. O filme tem como pano de fundo o período imediatamente anterior à Guerra Civil espanhola e narra as descobertas do menino Moncho na escola e sua amizade com o dedicado professor Don Gregório.

Se você assistiu ao filme e quiser pensar um pouco sobre educação, convido-o(a) a acompanhar-me em algumas anotações que fiz. Após a aula, na qual o filme foi exibido, foram propostas várias discussões e chegamos à conclusão que cabia ali a tarefa de tentar responder às perguntas: O que pode a escola? O que pode a educação? O objetivo da nossa professora era que as fizéssemos à luz do filme, do livro “Cinema & Educação” de Rosália Duarte (2002) e do livro “Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa” de Paulo Freire (2003). Inicialmente, respondi que a escola pode tudo! E que de acordo com o livro da Rosália, a experiência das pessoas de ir ao cinema contribui para desenvolver o que se pode chamar de competência para ver, analisar, compreender e apreciar qualquer história contada em linguagem cinematográfica. Entretanto, essa “competência” não é adquirida apenas vendo filmes; a atmosfera cultural em que as pessoas estão imersas permite-lhes desenvolver determinadas maneiras de lidar com os produtos culturais, incluindo o cinema. Ir ao cinema, gostar de determinadas cinematografias, desenvolver os recursos necessários para apreciar os mais diferentes tipos de filmes, etc., longe de ser apenas uma escolha de caráter exclusivamente pessoal, constitui uma prática social importante que atua na formação geral das pessoas. A educação que é ministrada no interior da escola é uma das muitas formas de socialização de indivíduos humanos, um entre muitos modos de transmissão e produção de conhecimento, de constituição de padrões éticos, de valores morais e competências profissionais. E em sociedades audiovisuais como a nossa, o domínio dessa linguagem (cinematográfica) é requisito fundamental para se transitar bem pelos mais diferentes campos sociais.

Já no livro, Pedagogia da autonomia, o autor aponta caminhos de como ensinar partindo do ser professor. Numa linguagem acessível e didática ele reflete sobre saberes profissionais necessários à prática educativo-crítica fundamentados numa ética pedagógica, numa visão de mundo alicerçadas em rigorosidade, pesquisa, criticidade, risco, humildade, bom senso, tolerância, alegria, curiosidade, competência, generosidade, disponibilidade... molhadas pela esperança. Nos textos, os leitores encontram a necessária Pedagogia da Autonomia. Autonomia que faz parte da própria natureza educativa. Sem ela não há ensino e nem aprendizagem.

Seguindo esta estratégia da criticidade com a esperança de ensinar continuo trazendo aqui mais algumas anotações sobre estas ricas discussões: O currículo é o local da mudança, é o espaço onde se colocam as expectativas e projetos de construção de um ser humano, qualquer que seja o modelo esperado (competente, vencedor, crítico, cidadão...). É a escola que, de maneira organizada (ou ainda de modo caótico), possibilita ao aprendiz a escolha, o posicionamento (crítico ou não) perante o universo de situações enfrentadas no dia-a-dia escolar. Na escola, toma-se partido, une-se a um grupo ou outro, iniciam-se/esboçam-se futuras opções. A educação é o espaço da formação e da informação. Até sociedades primitivas partem do exemplo a ser seguido. Na escola, desperta-se o interesse do aluno para um ou outro aspecto da cultura humana através das disciplinas. Forma-se o ser humano através da apresentação do conhecimento acumulado, permitindo que ele também construa o seu. A escola é um mundo em miniatura, por mais clichê que esta afirmação possa parecer, e ensina ao aluno a vida em grupo e em sociedade. As oportunidades esportivas e de trabalho em equipe servirão para futuras experiências profissionais. É no espaço escolar que se solidificam valores morais e éticos, ainda que implícitos ou velados no processo da aprendizagem e nas relações sociais. A escola é um espaço controlado em que se pode fazer uma leitura do mundo, e que prepara para ele.

Diversos momentos do filme comprovam esses seis processos de educação: a descoberta do menino Moncho e seu encantamento pela escola e a admiração pelo conhecimento do professor; a sua amizade com o educador e o maior presente que recebeu – a literatura: A Ilha do Tesouro – a chave de acesso ao conhecimento; os passeios (estudos do meio) em que se levava a informação da sala de aula para o mundo que o menino já conhecia; as conversas e os questionamentos que ele levava para casa, perguntando isto ou aquilo, ou simplesmente gabando-se do que havia aprendido; o respeito, a partir da superação de um trauma (quando o professor demonstra o seu respeito no primeiro dia de aula); a confiança que depositou no professor ao perguntar-lhe sobre a morte (o que era?).

Se analisarmos por estes exemplos, a escola pode tudo, pode realmente transformar o mundo! Por outro lado, talvez a escola e a educação nada possam fazer pelo ser humano: Os chamados “apelos” do mundo são bastante fortes e muitas vezes sufocam e/ou impedem o trabalho de um professor e de uma escola alternativa. As crenças e os valores da família e do grupo social a que pertence o aprendiz são elementos muito poderosos na formação do ser humano. O modelo social vigente ou considerado superior é uma meta a ser seguida e nem sempre é o mesmo indicado pela escola que o aluno freqüenta. Influências culturais seculares muitas vezes servem de atalhos que levam os alunos a lugares opostos aos que a escola aponta como adequados. Pressões culturais, étnicas, podem fechar as portas abertas pela educação, apontando para uma realidade imutável. Pode haver até a confrontação, o questionamento das posições da escola.. Fatores econômicos localizados ou globais interferem na vida do aluno a ponto de levá-lo até à evasão.

Conflitos emocionais, por sua vez, surgidos fora do espaço escolar também podem tirar o aprendiz da escola e dificultar o seu desenvolvimento. Novamente, vamos encontrar exemplos no filme: a influência e a pressão do pai rico na escola (tentando determinar/orientar o modo de agir do professor); a pressão do padre que questionava o conteúdo estudado pelos alunos e o conseqüente distanciamento da religião; a força da mãe no momento de crise (quando surge a repressão política e ela orienta o agir e mesmo o falar de cada um); o calar do pai e seu sofrimento por calar, por ter medo; a postura da sociedade que, por questões de sobrevivência, reúne-se contra pessoas do próprio convívio; o medo do menino Moncho, que segue o modelo social e reage igualmente contra o professor que tanto admirava... Evitando um posicionamento totalmente positivo da função da escola e do papel exercido pela educação na formação dos indivíduos, e evitando o olhar totalmente negativo, é importante lembrar que, se a sociedade como um todo educa através de seus modelos e exemplos, sem a escola, a situação estaria ainda pior.

A educação abre sim portas e permite escolhas. Palavras tão parecidas essas: escola e escolha... O aluno pode aprender, no meio escolar, a posicionar-se criticamente perante a sociedade. Lembrando novamente A Língua das Mariposas, é como que um “salvamento” do ser humano (o professor impede uma séria crise de asma). Figurativamente, poderia impedir que o jovem estudante fosse seja “sugado” e/ou sufocado pela sociedade em que vivia. O educador pode repetir, como o velho mestre, que “ninguém lhes roubará o tesouro da liberdade: Voem!”. Alguns vão ouvir, alguns certamente irão voar... Infelizmente, para os professores, nem tudo sempre corre bem. É plantar sem saber se vai haver cuidados com a planta...

Ainda em referência ao filme, há ocasiões em que nos restam, a nós, educadores, como a Don Gregório, apenas o vômito, os insultos e as pedradas. Aos meus amigos e professores eu gostaria de dizer que ao descerrarem janelas, abrirem portas, disponibilizarem caminhos, construírem picadas no meio da mata do saber instituído, vocês o fazem com certeza com um só intuito, o de ensinar a conhecer o mundo.

 

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[1] PERRENOUD, Phililippe. Formar Professores em Contextos Sociais em Mudança. Prática Reflexiva e Participação Crítica. In: http://www.unige.ch/fapse/SSE/teachers/perrenoud/php_main/php 1999/1999 34 html. Tradução de Denice Bárbara Catane, SENAC, São Paulo, 2002.

Referências bibliográficas

DUARTE, Rosália. Cinema & Educação. Belo Horizonte, Autêntica, 2002.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo, 28 ed., Paz e Terra, 2003

PERRENOUD, Phililippe. Formar Professores em Contextos Sociais em Mudança. Prática Reflexiva e Participação Crítica. In: http://www.unige.ch/fapse/SSE/teachers/perrenoud/php_main/php 1999/1999 34 html. Tradução de Denice Bárbara Catane, SENAC, São Paulo, 2002. Acessado em 01.05.07.

TEIXEIRA, Ana. A língua das mariposas. Texto não publicado. São Paulo, 2002. Disponível em: www.anateixeira.cjb.net. Acessado em 01.05.07.

por EDNALDO GONÇALVES COUTINHO

 

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