A
educação e a integridade humana: uma discussão a partir do filme “A língua das mariposas”
Tenho
assistido profissionais da educação falando e escrevendo sobre
projetos pedagógicos, modelos de aprendizagem, técnicas, funções,
sentidos e papéis, como se houvesse uma receita, uma dose certa e
um uso adequado dos ingredientes que levasse à feitura do tão
sonhado quitute: a competência docente.
Um
filme ao qual assisti recentemente durante a uma aula de Mestrado em
Educação, "A língua das mariposas" (La lengua de
las mariposas), provocou reflexões sobre o assunto. Tendo como
contexto, o início da guerra civil espanhola, o filme apresenta o
cotidiano de uma sala de aula em uma pequena escola interiorana e
seu único professor. O velho mestre, tem alunos de tamanhos e
idades bastante variáveis e como cenário a habitual sala envidraçada
e o clássico quadro negro. Como qualquer professor, comete injustiças
(e tenta repará-las). Muitas vezes é ignorado, preterido,
apreciado. É possível, no entanto, vê-lo como um sólido elo
entre aquelas crianças e o mundo de conhecimentos existente.
Há
uma cena em que o professor tenta falar com a classe, mas vê-se impedido
pela desordem e pelo barulho que os alunos fazem. Ele se
vira para a janela a olhar a paisagem lá fora, em silêncio, até
que as crianças percebam que ele não está mais tentando falar e
se calam. Ele, então, se vira para a classe e não dá sermão
nenhum, ou lição de moral. Apenas diz algo mais ou menos assim:
“A primavera está chegando e poderemos ter nossas aulas no
bosque. Poderemos ver borboletas e mariposas... Vocês sabiam que as
mariposas não têm língua, mas sim probóscide, um órgão que se
assemelha a uma tromba..." E segue contando sobre mariposas e
outros bichos, enquanto têm vidrados nele, dezenas de olhares
curiosos. E quando mais tarde, eles vão ao bosque, o professor vai
ensinando pelo caminho um pouco de biologia, outro tanto de botânica,
outro de geografia... Salpicos de conhecimento, pequenos sutis
convites à descoberta de outros curiosos caminhos; um tênue fio
que, seguido, pode levar a uma caminhada prazerosa ao mundo das idéias
e do saber.
Alguns
educadores assistiram ao filme e admiraram o velho mestre que “não
tinha projetos didático-pedagógicos, não tinha outro material à
disposição que não a natureza, não contava com o apoio de
coordenadores, pedagogos, psicólogos e fonoaudiólogos, mas sabia e
queria despertar o interesse e a curiosidade em seus alunos, e
talvez, neste fato resida a magia e a beleza do ensinar”
(TEIXEIRA, 2002).
Não
pretendo aqui divulgar uma idéia romântica e utópica sobre
educar, nem propor que saiamos todos a passear por bosques e campos,
caçando borboletas e colhendo flores. Não. Proponho que nos
apropriemos de todos os recursos disponíveis, que assumamos o
ambiente escolar como ele se apresenta, seja numa sala de informática
com computadores de última geração, seja numa escola rural com
velhas carteiras e escassez de giz. Proponho que, incorporando esse
ambiente, ele deixe de fazer diferença e o verdadeiro estímulo
para nossos alunos esteja em nossa capacidade e em nosso desejo de
ensinar. O professor tem a obrigação de ser mediador entre o
conhecimento que existe no mundo e as mentes (e a sensibilidade) de
seus alunos.
Furtar-se
disto, culpando as estruturas físicas ou sócio-pedagógicas da
escola pelo seu insucesso, é abrir mão da possibilidade de
descortinar mundos de sensações, experiências e aprendizados para
esses seres que estão sob nossa tutela e responsabilidade. Não há
manuais de auto-ajuda que façam um professor ser um bom professor,
mas há leituras a serem feitas, filmes a serem vistos, músicas a
serem ouvidas, museus a serem visitados e são essas viagens que
poderão fazer diferença na vida e no trabalho de um professor.
Sempre
digo que não se ensina ninguém a desenhar, mas pode-se ensinar a
olhar. E o olhar pode ser mais e mais aprofundado, diverso, curioso.
Esse mundo tão cheio de armadilhas merece de nós um olhar sherlokiano
e isso se aprende sim. E o professor pode ser o “disparador”
dessa aprendizagem. Seja apresentando aos seus alunos a Tarsila ou o
Picasso, ensinando-lhes técnicas de xilogravura ou de papel
reciclado, lendo um poema, ou uma história em quadrinhos, ouvindo
uma canção, examinando atentamente uma formiga ou resolvendo um
problema de física.
Só
que algo se faz imprescindível: como o professor do filme é necessário
que tenhamos conteúdo. É preciso saber, às vezes, que a língua
das mariposas se chama probóscide, pois esse pode ser o instrumento
para se tocar a curiosidade dos alunos. Costumo dizer,
incessantemente: professor tem que ter estofo, tem que ter
"recheio". E não há manuais, repito, com a receita desse
recheio. É por meio de uma prática reflexiva, às vezes solitária,
às vezes grupal, que o professor consegue preencher suas lacunas e
completar seus vazios. Um profissional reflexivo aceita fazer parte
do problema. “Reflete sobre sua própria relação com o saber,
com as pessoas, o poder, as instituições, as tecnologias, o tempo
que passa, a cooperação, tanto quanto sobre o todo de superar as
limitações ou de tornar seus gestos técnicos mais eficazes."
Por
isto me apaixonei por esta obra de arte "A Língua das
Mariposas", um filme do diretor José Luis Cuerda (um ícone do
cinema espanhol), que permite uma reflexão interessante sobre a
escola e a educação. O filme tem como pano de fundo o período
imediatamente anterior à Guerra Civil espanhola e narra as
descobertas do menino Moncho na escola e sua amizade com o dedicado
professor Don Gregório.
Se
você assistiu ao filme e quiser pensar um pouco sobre educação,
convido-o(a) a acompanhar-me em algumas anotações que fiz. Após a
aula, na qual o filme foi exibido, foram propostas várias discussões
e chegamos à conclusão que cabia ali a tarefa de tentar responder
às perguntas: O que pode a escola? O que pode a educação? O
objetivo da nossa professora era que as fizéssemos à luz do filme,
do livro “Cinema & Educação” de Rosália Duarte (2002) e
do livro “Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática
educativa” de Paulo Freire (2003). Inicialmente, respondi que a
escola pode tudo! E que de acordo com o livro da Rosália, a experiência
das pessoas de ir ao cinema contribui para desenvolver o que se pode
chamar de competência para
ver, analisar, compreender e apreciar qualquer história contada
em linguagem cinematográfica. Entretanto, essa “competência” não
é adquirida apenas vendo filmes; a atmosfera cultural em que as
pessoas estão imersas permite-lhes desenvolver determinadas
maneiras de lidar com os produtos culturais, incluindo o cinema. Ir
ao cinema, gostar de determinadas cinematografias, desenvolver os
recursos necessários para apreciar os mais diferentes tipos de
filmes, etc., longe de ser apenas uma escolha de caráter
exclusivamente pessoal, constitui uma prática social importante que
atua na formação geral das pessoas. A educação que é ministrada
no interior da escola é uma das muitas formas de socialização de
indivíduos humanos, um entre muitos modos de transmissão e produção
de conhecimento, de constituição de padrões éticos, de valores
morais e competências profissionais. E em sociedades audiovisuais
como a nossa, o domínio dessa linguagem (cinematográfica) é
requisito fundamental para se transitar bem pelos mais diferentes
campos sociais.
Já
no livro, Pedagogia da autonomia, o autor aponta caminhos de como
ensinar partindo do ser professor. Numa linguagem acessível e didática
ele reflete sobre saberes profissionais necessários à prática
educativo-crítica fundamentados numa ética pedagógica, numa visão
de mundo alicerçadas em rigorosidade, pesquisa, criticidade, risco,
humildade, bom senso, tolerância, alegria, curiosidade, competência,
generosidade, disponibilidade... molhadas pela esperança. Nos
textos, os leitores encontram a necessária Pedagogia
da Autonomia. Autonomia que faz parte da própria natureza
educativa. Sem ela não há ensino e nem aprendizagem.
Seguindo
esta estratégia da criticidade com a esperança de ensinar continuo
trazendo aqui mais algumas anotações sobre estas ricas discussões:
O currículo é o local da mudança, é o espaço onde se colocam as
expectativas e projetos de construção de um ser humano, qualquer
que seja o modelo esperado (competente, vencedor, crítico, cidadão...).
É a escola que, de maneira organizada (ou ainda de modo caótico),
possibilita ao aprendiz a escolha, o posicionamento (crítico ou não)
perante o universo de situações enfrentadas no dia-a-dia escolar.
Na escola, toma-se partido, une-se a um grupo ou outro,
iniciam-se/esboçam-se futuras opções. A educação é o espaço
da formação e da informação. Até sociedades primitivas partem
do exemplo a ser seguido. Na escola, desperta-se o interesse do
aluno para um ou outro aspecto da cultura humana através das
disciplinas. Forma-se o ser humano através da apresentação do
conhecimento acumulado, permitindo que ele também construa o seu. A
escola é um mundo em miniatura, por mais clichê que esta afirmação
possa parecer, e ensina ao aluno a vida em grupo e em sociedade. As
oportunidades esportivas e de trabalho em equipe servirão para
futuras experiências profissionais. É no espaço escolar que se
solidificam valores morais e éticos, ainda que implícitos ou
velados no processo da aprendizagem e nas relações sociais. A
escola é um espaço controlado em que se pode fazer uma leitura do
mundo, e que prepara para ele.
Diversos
momentos do filme comprovam esses seis processos de educação: a
descoberta do menino Moncho e seu encantamento pela escola e a
admiração pelo conhecimento do professor; a sua amizade com o
educador e o maior presente que recebeu – a literatura: A Ilha do
Tesouro – a chave de acesso ao conhecimento; os passeios (estudos
do meio) em que se levava a informação da sala de aula para o
mundo que o menino já conhecia; as conversas e os questionamentos
que ele levava para casa, perguntando isto ou aquilo, ou
simplesmente gabando-se do que havia aprendido; o respeito, a partir
da superação de um trauma (quando o professor demonstra o seu
respeito no primeiro dia de aula); a confiança que depositou no
professor ao perguntar-lhe sobre a morte (o que era?).
Se
analisarmos por estes exemplos, a escola pode tudo, pode realmente
transformar o mundo! Por outro lado, talvez a escola e a educação
nada possam fazer pelo ser humano: Os chamados “apelos” do mundo
são bastante fortes e muitas vezes sufocam e/ou impedem o trabalho
de um professor e de uma escola alternativa. As crenças e os
valores da família e do grupo social a que pertence o aprendiz são
elementos muito poderosos na formação do ser humano. O modelo
social vigente ou considerado superior é uma meta a ser seguida e
nem sempre é o mesmo indicado pela escola que o aluno freqüenta.
Influências culturais seculares muitas vezes servem de atalhos que
levam os alunos a lugares opostos aos que a escola aponta como
adequados. Pressões culturais, étnicas, podem fechar as portas
abertas pela educação, apontando para uma realidade imutável.
Pode haver até a confrontação, o questionamento das posições da
escola.. Fatores econômicos localizados ou globais interferem na
vida do aluno a ponto de levá-lo até à evasão.
Conflitos
emocionais, por sua vez, surgidos fora do espaço escolar também
podem tirar o aprendiz da escola e dificultar o seu desenvolvimento.
Novamente, vamos encontrar exemplos no filme: a influência e a
pressão do pai rico na escola (tentando determinar/orientar o modo
de agir do professor); a pressão do padre que questionava o conteúdo
estudado pelos alunos e o conseqüente distanciamento da religião;
a força da mãe no momento de crise (quando surge a repressão política
e ela orienta o agir e mesmo o falar de cada um); o calar do pai e
seu sofrimento por calar, por ter medo; a postura da sociedade que,
por questões de sobrevivência, reúne-se contra pessoas do próprio
convívio; o medo do menino Moncho, que segue o modelo social e
reage igualmente contra o professor que tanto admirava... Evitando
um posicionamento totalmente positivo da função da escola e do
papel exercido pela educação na formação dos indivíduos, e
evitando o olhar totalmente negativo, é importante lembrar que, se
a sociedade como um todo educa através de seus modelos e exemplos,
sem a escola, a situação estaria ainda pior.
A
educação abre sim portas e permite escolhas. Palavras tão
parecidas essas: escola e escolha... O aluno pode aprender, no meio
escolar, a posicionar-se criticamente perante a sociedade. Lembrando
novamente A Língua das
Mariposas, é como que um “salvamento” do ser humano (o
professor impede uma séria crise de asma). Figurativamente, poderia
impedir que o jovem estudante fosse seja “sugado” e/ou sufocado
pela sociedade em que vivia. O educador pode repetir, como o velho
mestre, que “ninguém lhes roubará o tesouro da liberdade:
Voem!”. Alguns vão ouvir, alguns certamente irão voar...
Infelizmente, para os professores, nem tudo sempre corre bem. É
plantar sem saber se vai haver cuidados com a planta...
Ainda
em referência ao filme, há ocasiões em que nos restam, a nós,
educadores, como a Don Gregório, apenas o vômito, os insultos e as
pedradas. Aos meus amigos e professores eu gostaria de dizer que ao
descerrarem janelas, abrirem portas, disponibilizarem caminhos,
construírem picadas no meio da mata do saber instituído, vocês o
fazem com certeza com um só intuito, o de ensinar a conhecer o
mundo.
__________
Referências
bibliográficas
DUARTE,
Rosália. Cinema & Educação.
Belo Horizonte, Autêntica, 2002.
FREIRE,
Paulo. Pedagogia da autonomia:
saberes necessários à prática educativa. São Paulo, 28 ed.,
Paz e Terra, 2003
PERRENOUD,
Phililippe. Formar Professores
em Contextos Sociais em Mudança. Prática Reflexiva e Participação
Crítica. In: http://www.unige.ch/fapse/SSE/teachers/perrenoud/php_main/php
1999/1999 34 html. Tradução de Denice Bárbara Catane, SENAC,
São Paulo, 2002. Acessado em 01.05.07.
TEIXEIRA,
Ana. A língua das mariposas. Texto
não publicado. São Paulo, 2002. Disponível em: www.anateixeira.cjb.net.
Acessado em 01.05.07.
por
EDNALDO
GONÇALVES COUTINHO