A
Territorialização na Mundialização do Capital
Introdução
Este
ensaio tem por objetivo contextualizar uma das categorias da
Geografia – o território – fazendo um paralelo das discussões
de pensadores que se dedicaram ao estudo desse tema.
Na
tentativa de enfatizar a recente abordagem do conceito de território
dentro das contradições impostas pelo avanço do sistema
capitalista, buscou-se desenvolver um resgate dos conceitos de
território e pontuar as características do processo de mundialização
do capital a partir da influência na formação de novas
territorialidades.
Apontamentos
sobre o conceito de território
A
discussão do conceito de território que teve início com a
modernidade tem sido objeto de intensa discussão para geógrafos e
cientistas sociais. Historicamente, o território tem sido pensado,
definido e delimitado a partir das relações de poder.
Nesse
sentido, merece destaque o pensamento de Claude Raffestin, um dos
grandes autores que se preocupou em conceituar o território. Em sua
obra prevalece o caráter político do território, pois esse é um
espaço onde se projetou um trabalho, mas não de qualquer tipo, um
trabalho que está marcado por relações de poder. Segundo ele
“[...] o território se apóia no espaço, mas não é o espaço,
é uma produção a partir do espaço. Ora, a produção, por causa
de todas as relações que envolvem, se inscreve num campo de
poder” (RAFFESTIN, 1993, p.144).
O
que tem de essencial nessa análise é a necessária compreensão de
que o território é composto por ação e poder que se manifestam
por pessoas ou grupos. Dessa forma, poder e território, são
enfocados conjuntamente, pois estão intrínsecos em todas as relações
sociais.
Heidrich
(2004), também fala da formação deste território, com características
essencialmente voltadas ao campo do poder, mas para ele, o território
completo que envolve apropriação, domínio, identidade,
pertencimento, demarcação, separação, é somente o
desenvolvimento de territorialidades, onde apenas partes destas
características do território estão presentes.
Segundo
esse autor, o princípio da territorialidade consiste na manifestação
de ocupação do espaço que pode ser absoluto ou relativo, absoluto
no sentido do espaço concreto, e relativo como espaço de relações
entre objetos.
Rogério
Haesbaert, que muito tem se dedicado a traçar acepções acerca do
território, também distingue essas duas abordagens da qual cita
Heidrich. Identificando, em relação ao território, leituras que
relatam o seu “caráter ‘absoluto’, como algo ou como coisa
(substrato concreto), ou ‘relacional’, como fruto de relações
sociais ou, de modo mais específico para alguns autores, de relações
de poder” (HAESBAERT, 2004, p.25).
Haesbaert
(2004), ainda organiza o conceito de território diferenciando as
posições materialistas e idealistas. Os materialistas partem da
visão de que o território é constituído predominantemente por
características físico-materiais; por sua vez os idealistas
definem o território, principalmente, pelo “valor territorial”,
no sentido simbólico.
O
autor propõe uma perspectiva integradora no que se refere à oposição
entre as perspectivas materialistas e idealistas de território,
buscando, assim, a superação da dicotomia material/ideal,
considerando que o território envolve, ao mesmo tempo, a dimensão
espacial material das relações sociais e o conjunto das representações
sobre o espaço.
Na
busca de propor uma leitura para a análise do território em
contrapartida aos teóricos que defendem a desterritorialização,
Haesbaert desenvolve, então, uma nova noção, onde o conceito de
território se define a partir da multiterritorialidade. Para ele,
somente partindo da visão integradora, que enfatize os aspectos político,
econômico e simbólico, é possível compreender o que hoje vem a
ser a complexidade do território. Esses três aspectos do estudo do
território são base para a discussão deste autor.
As
três vertentes estão, para ele, assim definidas: 1) política, na
qual o território é visto como um espaço delimitado e controlado
sobre o qual se exerce determinado poder, por exemplo, o território
demarcado pelo Estado-nação. 2) simbólica, onde o espaço passa a
ser concebido pelos aspectos culturais, o território é produto da
apropriação subjetiva do imaginário. 3) econômica, se enfatiza
as relações econômicas, o território é visto como fonte de
recursos no embate entre classes sociais e na relação
capital-trabalho como produto da divisão territorial do trabalho.
Somente
com a visão híbrida do espaço se torna possível a compreensão
do território a partir da leitura integradora. Rogério Haesbaert
define como espaço híbrido a fusão entre sociedade e natureza,
entre política, economia e cultura, e entre materialidade e
idealidade, que acontecem numa complexa interação espaço-tempo
(2004, p.79).
Na
atual sociedade - que tem como principal característica no
desenvolvimento do modo de produção capitalista o fluxo e a
interdependência do capital - a integração e as dinamizações
das sociedades nacionais, que ficaram difundidas como “sociedade
globalizada”, além de reproduzir desigualdades, apresenta uma
nova interdependência ao conectar econômica e culturalmente as
regiões mais longínquas. Dessa forma, não só os indivíduos
vivenciam experiências novas, como novas categorias são criadas ou
transformadas no seu interior.
O
território, nesse sentido, passa a ser estruturado a partir de uma
nova organização, articulado globalmente. Depara-se, dessa
maneira, com a formação de novas territorialidades, diante às
novas dinâmicas da sociedade, de competições entre regiões e a
tendência de desregulação do território como identidade.
O
território passa a ser concebido como territórios-rede
marcados pela descontinuidade e pela fragmentação, possibilitando
assim, a constante passagem de um território para outro. Isso
significa que, em um mesmo dia, em um mesmo lugar, dependendo da
hora ou de circunstâncias especiais, um cidadão pode perceber
diversos sinais de territorialização.
Um
outro aspecto da reafirmação do uso do território é o fenômeno
que Milton Santos (1996) chamou de “guerra dos lugares”, que
utilizou para falar das especialidades dos municípios ao vender seu
território como mercadoria às grandes empresas multinacionais.
Haesbaert fala da evidência do território neste período ao contrário
do seu desaparecimento:
[...]
os municípios para oferecer as condições mais vantajosas em
termos de subsídios, infra-estrutura, mão-de-obra e imagem,
mostram que o espaço – e o território – em vez de diminuir
sua importância, muitas vezes amplia seu papel estratégico,
justamente por concentrar ainda mais, em pontos restritos, as
vantagens buscadas pelas grandes empresas e pela intensificação
da diferenciação de vantagens oferecidas em cada sítio (2004,
p. 187).
Nessa
perspectiva, o processo que se convencionou chamar de globalização,
ao contrário de resultar na eliminação do território como conseqüência
da fragmentação e fragilização do trabalho, condicionou a produção
de um novo complexo geopolítico de território. Que Haesbaert
(2004) vai chamar de multiterritorialidade; onde as
territorialidades, regidas pelo princípio da exclusividade, que
predominaram no mundo moderno estariam cedendo lugar ao mundo das
multiterritorialidades, que respondem diferentemente aos interesses
de cada momento e lugar, de uma determinada sociedade. O autor
define esse conceito como sendo:
[...]
a forma dominante, contemporânea ou “pós-moderna” da
reterritorialização – conseqüência do capitalismo pós-fordista
da acumulação flexível, das relações sociais construídas
através dos territórios-rede – sobrepostos e descontínuos. (HAESBAERT,
2004, p.338)
A
formação de territórios descontínuos passa a ter então,
classificações em escalas diferentes, que são apontadas pelo
autor como: a) territorializações mais fechadas, caracterizada pela
uniterritorialidade, onde pouco ou nada se admite de diversidade de
poderes e identidade; b) territorializações
tradicionais, marcada pela homogeneidade interna através de uma
identidade nacional; c) territorializações
mais flexíveis, que permitem a multifuncionalidade territorial
como o caso das grandes metrópoles, onde se observa diversos territórios
num mesmo espaço; d) territorializações
efetivamente múltiplas, resultante da combinação particular
de controles, concretizada pelos territórios individuais ou de
grupos.
Essa
multiplicidade de territórios se concretiza por meio da concepção
de uma sociedade de redes que permite interligar as várias formas
da reprodução das relações sociais. Desse modo, o território se
produz pela interação dos territórios-rede, onde se cruzam as
diversas manifestações territoriais.
A
existência da multiterritorialidade, que se dá a partir de uma
sociedade reproduzida por meio das redes, é estabelecida ainda,
pelo que Haesbaert (2004) vai chamar de “glocalização”, que
nada mais é do que um processo dialético entre o global e local,
ou seja, as situações locais não podem mais ser reconhecidas nem
como locais e nem como globais, mas pela combinação dos dois
processos.
Santos
(1996), também aponta a dualidade do local e global na influência
do território no momento atual. Contudo, para ele, as redes
expressam o movimento da verticalidade,
constituindo apenas uma parte do espaço e não do espaço de todos.
Para esse autor, o território tem um sentido peculiar e por isso é
acrescido de novas interpretações; nas suas argumentações o
território não é apenas forma, mas produto histórico do trabalho
humano, que resulta na construção de um domínio ou de uma
delimitação do vivido territorial, assumindo múltiplas formas e
determinações.
Nesse
sentido, é possível pensar que o território enquanto “território
usado” comporta uma dialética que se expressa por meio de um espaço
local, que é vivido por todos, onde o limite é o ato de produzir e
de viver; e o espaço global, que é “habitado por um processo
racionalizador e de um conteúdo ideológico de origem distante e
que chegam a cada lugar com os objetos e as normas estabelecidos
para servi-los” (SANTOS, 1996, p. 18). Assim, o território em
momento de globalização, ao mesmo tempo em que responde a
interesses previamente estabelecidos por um novo organismo de
controle representado pelas grandes empresas e grupos econômicos,
engendra em sua reprodução possibilidades de relação unitária
quando aproxima lugares, que são “lócus da multidimensionalidade
da vida, onde a convivência do diverso instiga cada um, posto que são
abrigos que conformam as subjetividades de cada qual”,
fortalecendo novas horizontalidades que se constituem com base
territorial com o objetivo de encontrar novos caminhos ao processo
da globalização perversa. (GONÇALVES, 2004, p. 210)
O
Território pensado a partir da mundialização
A
intensificação do processo de internacionalização do capital,
que se convencionou chamar de globalização após década de 1980,
trouxe como conseqüência a enorme integração dos mercados
financeiros mundiais e o crescimento singular do comércio
internacional, que foi viabilizado pelo avanço das novas
tecnologias, principalmente no ramo da informação, e pela
acentuada desregulamentação financeira do mercado.
Diante
disso, muitos geógrafos e cientistas sociais se colocaram na defesa
de que esse processo justificaria o fim do território devido ao
nascimento de um mundo dominado não mais pelas relações
interestatais e sim pela mobilidade e fluidez do capital. Sem dúvida,
se cria um espaço dos fluxos, materializado na hegemonia dos grupos
transnacionais, porém “o capitalismo avançado e as mudanças
produtivas [...] não aboliram nem anularam o espaço, mas pelo
contrário, lhe deram novo significado, nova dimensão e nova
estrutura” (CICCOLELLA, 1996, p. 297).
Percebe-se,
dessa forma, que o processo do qual se optou chamar de mundialização,
permitiu no campo da Geografia o avanço das discussões acerca das
categorias, dentre elas, a redefinição do território. Esse
conceito, que até então, era feito a partir de uma leitura
fundamentalmente política, passa a ser tratado a partir da
complexidade em diversas escalas das relações sociais. O Estado-nação,
que era quem conferia os limites ao território, se torna
enfraquecido diante a mundialização do capital e o monopólio das
multinacionais. Assim, o território, que não deixa de existir, vai
se fundamentar sob novos patamares, e a sua abordagem se torna cada
vez mais variada pela multiplicidade de significações.
Haesbaert
(2004), que para formular a idéia da multiterritorialidade, estudou
a chamada “desterritorialização” aponta para o fato de que a
partir da interpretação de Marx pode-se visualizar que o modo de
produção capitalista “desterritorializa” os modos de produção
preexistente para reterritorializar segundo sua própria dinâmica.
Então, observa-se que está associado o processo de
internacionalização e as novas formas de territorialidades que vão
passar a ser regida, em grande parte, pelo movimento das grandes
empresas multinacionais. Certamente, o poder do mercado só começa
a ter influência na organização da sociedade com o decréscimo
contínuo do poder estatal. Segundo Chesnais,
Para
os turiferários da globalização, a necessária adaptação
pressupõe que a liberalização e a desregulamentação sejam
levados a cabo, que as empresas tenham absoluta liberdade de
movimentos e que todos os campos da vida social, sem exceção,
sejam submetidos à valorização do capital privado (1996, p.25).
Santos
ainda fala do papel tirânico do mercado e da insuficiência do
Estado:
Nos
espaços da racionalidade, o mercado é tornado tirânico e o
Estado tende a ser impotente. Tudo é disposto para que os fluxos
hegemônicos corram livremente, destruindo e subordinando os
demais fluxos. Por isso, também, o Estado deve ser enfraquecido
para deixar campo livre à ação soberana do mercado (1998,
p.34).
Milton
Santos definiu o avanço da mundialização como meio técnico-científico-informacional.
O espaço geográfico, entendido dessa forma, é constituído por um
grande conteúdo em ciência, técnica e informação, daí
resultando uma nova dinâmica territorial. Isso se deve, sobretudo,
ao processo de globalização marcado, entre outros aspectos, pela
expansão das empresas multinacionais, que investem maciçamente em
pesquisa e desenvolvimento de novos produtos e sistemas de produção.
Essa situação leva a um tipo de produção com um conteúdo em ciência,
tecnologia e informações cada vez maior.
[...]
no começo da vida o homem organizando a produção, organizava a
vida social e organizava o espaço, na medida de suas próprias
forças, necessidades e desejos, [...] essa evolução culmina, na
fase atual, onde a economia se tornou mundializada, e todas as
sociedades terminaram por adotar, de forma mais ou menos total, de
maneira mais ou menos explícita, um modelo técnico único que se
sobrepõe à multiplicidade de recursos naturais e humanos.
(SANTOS, 1998, p. 18)
Nesse
sentido, a sociedade mundializada exige uma civilização
homogeneizada para a padronização da mercadoria, estabelecendo
assim novas relações sociais, até mesmo nos lugares mais longínquos.
Esse novo modelo de organização social, que nada mais é do que a
forma mais desenvolvida do capitalismo, experimentada pela sociedade
burguesa, faz com que os lugares sejam mesclados de experiências
locais e mundiais, e é a partir disso que novas territorialidades
podem ser construídas, como síntese das novas experiências.
Outro
aspecto importante da discussão do território em tempos da
mundialização do capital é a nova divisão internacional e
espacial do trabalho. Segundo Benko “[...] as diferentes fases do
processo de produção são atribuídas no espaço de modo
diferenciado, em função de suas características tecnológicas e
do nível de qualificação que requerem” (1996, p.52).
Complementando esse pensamento, cabe a citação de Chesnais que diz
que “[...] integraliza entre o mercado oligopólio – a
mercadoria, as novas tecnologias, mas não o trabalho – permitindo
que as companhias explorem a seu bel-prazer as diferenças de
remuneração do trabalho em diversas regiões.” (1996, p.40)
Dessa forma, a internacionalização impõe não só a movimentação
do capital, mas reorienta o território do trabalho produtivo nos países
periféricos, condicionando-os às suas regras e necessidades.
Considerações
finais
Sem
pretensão de finalizar a discussão, acredita-se que algumas
considerações podem ser apontadas a partir das idéias explanadas
no texto.
A
abordagem do conceito de território remete a uma série de
estudiosos e, sem dúvida, não foi possível levantar todo debate.
Contudo, o levantamento bibliográfico realizado possibilitou a
interpretação da instigante presença da relação de poder e de
apropriação do espaço na formação do território, ora regido
pelo Estado, ora pela nova ordem econômica.
A
respeito do processo de mundialização do capital, considera-se que
certamente ele amplia a formação de territórios com
multiplicidade de significados, haja vista, que os novos territórios
são formados por uma relação híbrida entre global e local.
Enfim,
conclui-se que a análise integradora, proposta por Haesbaert, é
essencial para a leitura das novas territorialidades, no entanto,
entende-se que somente a partir de um estudo aprofundado do processo
de mundialização do capital, proposto por Chesnais e outros,
torna-se possível ampliar o relevante debate sobre as
territorialidades no atual período.
__________
Para Santos (1998) o território no mundo atual se expressa a
partir de dois movimentos: das horizontalidades e das
verticalidades. As horizontalidades serão os domínios de
contigüidades, constituído por uma continuidade territorial,
enquanto as verticalidades seriam formadas por pontos distantes
uns dos outros, resultado de uma interdependência hierárquica
conseqüente do processo de globalização econômica.
Segundo Chesnais (1996) o processo de mundialização é uma
fase específica do processo de internacionalização do capital
que tem como característica o movimento conjunto da: 1) acumulação
ininterrupta do capital e, 2) as políticas de liberação, de
privatização, de desregulamentação e de desmantelamento das
conquistas sociais e democráticas.
por
JOSIANE FERNANDES DE
CARVALHO