O
negro na literatura brasileira: a necessidade de um novo paradigma
de crítica social e literária
A
história da África e seus habitantes, especialmente os que foram
trazidos para o Brasil como escravos e seus descendentes, ou seja,
todos nós, transformou-se, ainda que tardiamente, em componente
curricular obrigatório. Talvez não a obrigatoriedade mas o privilégio
de saber sobre o continente africano devesse nos impulsionar a
descobrir mais sobre uma terra tão íntima e ao mesmo tempo
estranha, próxima e distanciada.
Há
mesmo quem chegue a pensar que a África é um país e não um
continente. E normalmente esse país é pensado como um lugar onde
habitam povos “primitivos” que vivem em tribos em meio à
floresta cheia de animais selvagens. (ADINOLFI, 2005: p.1)
Estes
e outros estereótipos encontram-se amplamente divulgados pelos
meios de comunicação e pelo próprio sistema educacional, ainda
representando extensões do pensamento europeu do final do século
XIX, até então considerado científico, mas que veiculou informações
menos científicas do que ideológicas sobre o continente africano,
a fim de justificar o sistema de dominação colonial.
Forjou-se
um conceito de raças humanas pressupondo uma hierarquia em cujo
topo estava, evidentemente, o branco (caucasiano). Na base estariam
os povos africanos e outros de pele escura, como os aborígenes
australianos, vistos como “incapazes”, “preguiçosos”,
“atrasados”, “selvagens” que só poderiam ser salvos pela ação
da colonização européia. (Idem, Ibdem)
O
outro lado da moeda que estampa o africano incapaz e atrasado revela
o branco superior e desenvolvido. A teia de conceitos confunde ciência
com ideologia, individualidades com estereótipos, verdades com
vontades, onde se tece uma outra forma de cativeiro: a escravidão
simbólica que irá castigar incansavelmente a auto-estima dos
afrodescendentes.
O
texto literário do século XIX, ansioso por configurar nossa
identidade nacional, deixa escapar as contradições de uma
sociedade que deseja acompanhar os modelos da modernização européia,
beneficiando-se ainda da herança nefasta da escravidão.(SCHWARZ,
1990) A literatura oficial brasileira, acompanhando o modelo social
hierarquizado, teria desprestigiado as atuações das etnias
diferenciadas até o início do século XX, à exceção de Lima
Barreto e Solano Lopes que, mesmo assim, só bem mais tarde
receberam algum reconhecimento. A representação dos negros na
literatura ficaria restrita a alguns estereótipos, entre os quais,
aqueles do negro dócil, castigado, submisso, ou, por outro lado,
bestial, instintivo, carnal. Assim, ocorreu um processo que
substituiu a invisibilidade por uma visibilidade estereotipada, que
felizmente existiu para que pudesse ser desmentida, tal como aparece
em Solano Trindade ao revelar o homem negro como um ser humano em
sua complexidade, sujeito de uma escritura:
Eu
tenho orgulho de ser filho de escravo...
Tronco,
senzala, chicote,
Gritos,
choros, gemidos,
Oh!
que ritmos suaves,
Oh!
Como essas coisas soam bem
nos
meus ouvidos...
Eu
tenho orgulho em ser filho de escravo.
No
entanto, a literatura encontra-se povoada por estereótipos de todas
as cores: desde o Gaúcho de Alencar, que cavalgava pelos pampas sem
subjetividade, à donzela pálida e assexuada, passando pelo índio
homenageado por bom comportamento, o português rústico, o
sertanejo jeca ou o nordestino retirante. Quanto à representação
do negro, identificam-se dois grupos de autores: um deles
representando os personagens negros a partir de estereótipos que
apenas reproduziriam o modelo social hierarquizante; e um outro que
busca subverter essa representação. Porém, talvez seja impróprio
compará-los e, principalmente, cobrar dos primeiros o
amadurecimento de uma consciência étnica e crítica que se
construiu a partir de um processo histórico e estético que apenas
o segundo grupo vivenciou.
Então,
podemos indagar: Quando os negros participam da produção literária
em forma de estereótipo, não seria possível encontrar do outro
lado dessa moeda desvalorizada o branco também preso ao seu próprio
estereótipo? Ah! Mas aí seria um estereótipo positivo, já que o
europeu seria representado como o Senhor, como aquele que segura o
cabo do chicote. No entanto, se compreendemos essa representação
como “positiva”, não estaríamos compartilhando o mesmo ideário,
a mesma concepção eurocêntrica que preparou tais dicotomias? Será
que a concepção da negritude é uma capacidade epitelial?
Talvez
esse sentimento dependa menos da origem do que da capacidade de
duvidar de verdades construídas para proteger interesses, ou da
vontade de verdade ocidental, que engendrou conceitos como raça,
pureza, desenvolvimento etc. (NIETZSCHE, 1992) No entanto,
reproduzir a ideologia dominante não caracterizaria necessariamente
uma literatura não-negra, mas uma literatura não-crítica. Mas
isso é igualmente uma classificação imprópria, principalmente se
levarmos em consideração que os silêncios do texto também
significam algo; que nós podemos detectar o que foi silenciado,
como detectamos o silenciamento dos personagens negros, de seu
aprisionamento em estereótipos, do mesmo modo que podemos observar
o sacrifício e o sofrimento de Peri e Iracema, por mais que Alencar
desejasse afirmar a harmonia do encontro entre o colonizador e o índio,
ou tapar o sol com a peneira, como diz o ditado popular.
Uma
outra personagem feminina, desta vez não uma índia mas uma mulata,
teria recebido um tratamento inadequado pelo poeta Gregório de
Matos. É em relação ao tratamento dispensado à mulher que o
poeta estabelece uma nítida distinção entre as raças. Assim, ele
retrata a mulher branca como um ser angelical – anjo no nome, angélica
na cara – para deixar patente a sua inacessibilidade como ser
superior, enquanto a visão que projeta da mulher negra corre em
direção contrária, de modo que o rebaixamento no seu tratamento
contrasta com a divinização emprestada à mulher branca. Daí,
enquanto Maria é definida como santa, anjo ou deusa, à personagem
Jelu não seria dispensado tratamento semelhante, restando-lhe os
atributos que pertenceriam ao “sórdido”, “impuro” ou
“bestial”:
Jelu,
vós sois rainha das mulatas.
E,
sobretudo, vós sois rainha das putas.
Tendes
o mando sobre as dissolutas
Que
moram nas quitandas dessas gatas.
Assim,
em contraste com a visão de amor platônico retratada no soneto que
Gregório dedica a Maria, Jelu é transfigurada, sem a menor cerimônia,
em gata dissoluta.(NASCIMENTO, 2006:p.59) Portanto, o poeta
seiscentista ainda não transgride uma concepção de mundo baseada
em dicotomias e hierarquias. No entanto, observando isso, poderíamos
nos perguntar se tal paradigma classificativo é facilmente superável.
Afinal,
quando um determinado paradigma de escolha nos incomoda – carnal
em vez de espiritual, pureza em vez de luxúria, bestial em vez de
humano, puta em vez de santa –, isso significa que ainda estamos
operando nos termos de seu modelo dicotômico e hierarquizante, ou
seja, que não superamos ainda a velha cartilha do pensamento
ocidental que classificou os africanos como inferiores, incapazes e
feios, enquanto ressaltava a inteligência, a beleza e a
superioridade do europeu.
No
fundo, o que efetivamente nos incomoda é a possibilidade de sermos
identificados como pertencentes aos “impuros” ou
“inferiores”, mas não propriamente a existência do modelo
cultural que opera com dicotomias. Ora, pensando ou sentindo nesses
termos, embora não conscientemente, o trabalho de crítica não está
livre de reproduzir a mesma concepção de mundo daqueles que, antes
de escravizarem os africanos, escravizaram os paradigmas de verdade
e autoproclamaram-se modelos de excelência cultural, social ou
racial.
por
ROSÂNGELA
BOYD DE CARVALHO