A
lei é cega mesmo?
Nestas
últimas semanas aqui nos Estados Unidos, além dos comentários
diários dos horrores da guerra no Iraque e no Afeganistão,
as emissoras de TV, rádio e os jornais têm comentado quase
que obsessivamente a questão do jogador Michael Vick, que é
o quarterback do time do Atlanta Falcons. Para entender a razão
de tal interesse, é bom lembrar que o quarterback é, em
geral, o eixo ao redor do qual funciona um time de futebol
americano em campo. É o quarterback quem organiza as jogadas,
quem corre com a bola e a atira por detrás da linha de defesa
do outro time. Enfim, o quarterback é o “cérebro” de um
time de futebol.
Michael
Vick, um jovem de 27 anos, chegou ao time do Atlanta Falcons
em 2001, em meio a grande esperança e muita bajulação. De
fato, Michael, que vem de uma família muito pobre, foi então
considerado um dos mais sensacionais talentos em futebol
americano, e inclusive decidiu sair da faculdade (Virginia
Tech) antes de se formar, para poder começar a ganhar os milhões
que ganham os jogadores profissionais com a cotação alta
como a dele. O sistema de “draft” — “escolha” - dos jogadores que estão saindo da universidade
é extremamente complicado em todos os esportes aqui nos
Estados Unidos, mas basta dizer que os responsáveis pelo time
do Atlanta Falcons trocaram a possibilidade de escolher outros
jogadores promissores para contratar o jovem Michael Vick.
Eles tinham tanta certeza que o mesmo talento mostrado na
universidade ia continuar, que lhe deram 3 milhões de dólares
de bônus quando ele assinou o contrato. E a dinheirama não
parou aí.
A
fama que ele adquiriu enquanto estava na universidade chegou
antes, por assim dizer, a Atlanta, e foi traduzida em um salário
de muitos milhões de dólares, e mais outros tantos milhões
pagos por companhias que ele se comprometeu a representar.
Este dinheiro se converteu na compra de uma mansão, e outros
bens de consumo. Durante estes anos todos, Vick jogou bem, e,
embora não tenha conseguido levar seu time à Super Copa
(Super Bowl) devido a uma contusão em 2004 que lhe custou
tempo para recuperar, pelo menos a sua presença no time
representou um grande aumento da popularidade do time, do número
de pessoas assistindo o jogo, e comprando bilhetes para a
temporada. Quando voltou da recuperação pela contusão, ele
foi outra vez recebido com aplausos e mais
adulações.
Em
abril deste ano, o escândalo estourou: foi descoberto que em
sua mansão no estado de Virginia ele tinha um canil no qual
ele criava e treinava cachorros da raça pit bull para
participarem em brigas de cachorros. Tais brigas são ilegais
em si, e no caso de Michael Vick, seus cães eram os
“gladiadores” de uma corrente de apostas, também ilegais.
Além destas duas atividades ilegais – briga de cachorros e
apostas nas brigas – de acordo com o sumário legal
apresentado pela acusação feita, em abril deste ano de 2007,
Vick e seus sócios Phillips and Peace executaram pelo menos 8
cães que não tinham lutado bem, nem sido agressivos o
suficiente.
O
clamor da sociedade americana nestes últimos dias só pode
ser comparado com a adulação ao talento de Vick antes de seu
“pecadinho” ser descoberto. De todos os cantos aparecem
pessoas que se pronunciam horrorizadas com o que ele fazia com
os cães. Muitos estão inclusive vendendo seus bilhetes para
o campeonato de futebol deste ano, e outros estão rasgando
publicamente as camisetas com o nome de Vick que tinham
comprado por um bom dinheiro.
Entre
estas pessoas, estão as que simplesmente acham que mexer com
qualquer coisa relacionada com apostas suja o nome e a
idoneidade do sujeito. Mas uma grande parte dos que estão
horrorizados diz que o tratamento dele aos cães é o mais
repreensível e criminoso. Na propriedade de Michael Vick se
encontraram instrumentos que só podem ser descritos como
instrumentos de tortura, e o fato de seus sócios terem dito
que ele pessoalmente matou uns 8 cachorros praticamente a
paulada realmente parecem selar o seu destino. Ele entrou com
uma ação de reconhecimento de sua culpa, e vai receber a
sentença em dezembro. Enquanto isto, ao que tudo indica, fica
em liberdade para lidar com outros problemas que se amontoam,
tais como as questões financeiras, já que seu time quer de
volta o dinheiro que lhe havia dado de bônus, e provavelmente
vai pedir ainda mais dinheiro.
O
homem está realmente arruinado.
E
não poderia deixar de ser desta maneira. O mesmo impulso que
leva um indivíduo a matar cachorros amarrados, a paulada, eu
acho que é o que leva a matar crianças, velhos, ou qualquer
pessoa indefesa. Michael Vick vai pagar por um crime que
cometeu, mas por mais que pague, não pagará o suficiente.
Mas
a culpa é somente dele? De onde este homem tirou a noção
que poderia fazer tal coisa e seguir sua vida como se nada
estivesse acontecendo?
Em
minha opinião, os atletas profissionais — não só dos
Estados Unidos, mas do mundo inteiro — quando são muito
talentosos, ficam com a impressão que pertencem a uma espécie
especial, e que não podem e não fazem nada errado. Isto me
lembra uma entrevista de O. J. Simpson, quando foi acusado do
assassinato da ex-mulher e de um rapaz de 25 anos. Ele disse,
“O. J. jamais faria tal coisa.” O. J então é uma
“terceira pessoa,” da qual o próprio homem que leva este
nome fala como se não fosse ele. Esta “terceira pessoa”
vive no olho do público, e tem as características que o público
vê e adula. Michael Vick também era “Michael Vick,” o
incrivelmente talentoso quarterback, que jamais fazia coisas
erradas. Isto estava estampado em todas as revistas, em todos
os jornais, a cada vitória dele. Não é somente coincidência
que, na sua entrevista depois de haver admitido sua culpa, ele
disse: "So I got a lot of down time, a lot of time to
think about my actions and what I've done and how to make
Michael Vick a better person" - “Então eu tive muito tempo parado, muito
tempo para pensar em minhas ações e no que eu fiz, e em como
fazer de Michael Vick uma pessoa melhor” (entrevista
divulgada pela CNN).
A
“persona” pública dominou a compreensão até mesmo da própria
pessoa, do que ele ou ela é. Isto acontece freqüentemente,
como sabemos. O que existe é somente o que os outros vêem.
Os “pecadinhos” cometidos às escondidas, estes não
existem. A pessoa famosa então passa a viver numa situação
esquizofrênica não muito diferente do caso de criminosos que
levam uma vida normal, tem família, trabalho, etc, e quando
ninguém está vendo, cometem seus crimes.
No
caso dos atletas especialmente, o problema é causado pela própria
sociedade. Quando estes jovens que são “reconhecidos”
quando estão lá escola secundária, daí eles passam às mãos
de técnicos e treinadores que os bajulam desde que continuem
a produzir dentro do esporte; assim estes jovens chegam à
maturidade acreditando que para eles não há limites, desde
que não sejam pegos e tenham suas atividades ilegais ou
criminosas expostas.
E
vejamos que muitas vezes, mesmo quando são pegos, são
perdoados. Que aconteceu –por exemplo – com os jogadores
da seleção brasileira que chegaram ao Brasil depois da Copa
do Mundo de 1994 trazendo um avião cheio de muamba? Depois do
“escandalozinho” inicial, algum dele pagou imposto? Eu
duvido muito. Com certeza trouxeram toda a mercadoria para o
Brasil, e se elas ainda existem, estão sendo desfrutadas. Os
cidadãos comuns, ao trazer um necessário computador, naquela
época, tinha que pagar todo o preço do computador na alfândega.
Quanto
a Michael Vick, resta saber se ele vai receber a sentença que
seus crimes merecem. E, muito importante, quando esta sentença
for decidida, resta saber quanto dela ele vai realmente
cumprir. Estes últimos meses aqui houve dois casos de duas
socialites e “artistas” famosas que foram presas por
dirigirem bêbadas. Uma delas foi solta depois de algumas
horas, e a opinião pública objetou (esta mulher é uma
milionária antipática), e ela foi trazida de volta à prisão,
onde ficou em uma cela especial. Já a segunda “artista” só
passou 82 minutos na prisão. O público desta vez não
protestou, porque os que a soltaram aprenderam com o erro
anterior, e inventaram uma desculpa mais convincente (falta de
espaço na prisão). Se fosse uma qualquer, com certeza
estaria amargando a cela até hoje. Tenho certeza que no
Brasil abundam exemplos destas maneiras diferentes de aplicar
a lei.
O
que fazer então, na nossa sociedade tão sedenta por modelos,
por gente famosa, que usa seu dinheiro para viver como se o
planeta inteiro lhe pertencesse? Uma coisa que resolveria
bastante o problema, eu acho, seria se, por exemplo, os
jogadores profissionais recebessem o mesmo salário de,
digamos, um bombeiro. Ou de um professor. Ou de um encanador.
Um artista, seja de qualquer ramo da arte, deveria receber o
mesmo salário. E qualquer um, independentemente da fama e do
dinheiro, teria que ser responsável por seus atos. Neste
momento, a lei não seria só para os inimigos, mas para
todos.