Modelos
para o Brasil: Rússia?
Já
que a Rússia faz parte, juntamente com Brasil, China e Índia, dos
chamados BRICs (ou seja, grandes potências econômicas em ascensão)
e já que ela tem mantido índices substanciais de crescimento econômico
nos últimos anos, vale
a pena examinar o caso russo enquanto modelo de crescimento econômico
a ser seguido pelo Brasil. Para tanto, será inevitável um breve
histórico da economia russa desde o fim da União Soviética e das
suas especificidades frente aos outros BRICs e ao Brasil
Em
termos econômicos, o colapso vivenciado pela Rússia após o final
da URSS é de uma escala sem precedentes nos tempos modernos. Com o
fim do planejamento centralizado e a incapacidade
da perestroika em
estruturar um sistema econômico alternativo, o PIB coletivo das repúblicas
soviéticas encolheu 2% em 1990 e 17% em 1991. Já o PIB russo
diminuiu 20% em 1992 e outro tanto em 1993. Outras ex-repúblicas
soviéticas tiveram reduções ainda maiores.
Com
o passar do tempo, houve alguma melhora da situação econômica,
mas não expressiva. Em 1994, 1995 e 1996, o PIB russo diminuiu
“apenas”, respectivamente, 12, 4 e 3% e houve até um pequeno
crescimento, de 0,3% do PIB, em 1997. Surgiram grupos de pequenos
empreendedores e uma classe média. Mas, já em 1998, com a crise do rublo motivada, em essência, pelos problemas
fiscais russos, a crise retornou.
Com
esses índices, a economia russa reduziu-se pela metade no decorrer
dos anos 90. Em 1999, ela tinha se reduzido a 1/10 da economia
estadunidense e 1/5 da chinesa. No mesmo ano, sua renda per capita
era cerca de cinco vezes menor do que a média dos sete países mais
industrializados do mundo. Se, nos anos 1980, a economia soviética
ainda era, apesar de decadente, a segunda do mundo, em 1994 ela já
estava praticamente no patamar da brasileira.
Depois desse cataclismo econômico dos anos 1990, que
culminou na crise de 1998, a economia russa voltou a crescer nos últimos
anos. Em primeiro lugar, porque a perda do valor do rublo provocou
uma queda das importações, o que fez ressurgir uma indústria de
bens de consumo. O aumento dos preços do
gás natural e do petróleo, principais produtos de exportação
da Rússia, no mercado
internacional também ajudou a balança comercial russa, que começou
a registrar crescentes superávites.
Entre
2000 e 2007, a economia russa cresceu cerca de 6% ao ano, levando a
aumentos nos investimentos e no consumo interno. Reformas no sistema
de impostos e racionalização dos gastos públicos também
permitiram superávit fiscal e melhoria nas condições financeiras
do Estado. Supondo que o cenário internacional continue favorável
e que, especialmente, os preços do petróleo permaneçam em patamar
elevado, tal fase de crescimento durará ainda, provavelmente,
alguns anos.
Mesmo
assim, a Rússia hoje dificilmente poderia ser chamada de potência
econômica. Nesse inicio de milênio, ela responde por apenas 1% do
PIB mundial e é a 16ª economia
do globo. Mesmo que ela continue crescendo esses 6% ao ano por vinte
anos, ela terá apenas recuperado o perdido na década de 1990. Décadas
de crescimento continuo seriam necessárias para recolocar a Rússia
entre as grandes economias mundiais e saber se esse crescimento contínuo
é factível é a grande questão.
Realmente,
para os anos a seguir, otimistas e pessimistas têm vários
argumentos para se sentirem animados ou deprimidos com as
perspectivas russas, sendo todos eles claramente do tipo “copo
meio cheio, como meio vazio” , dependendo do lado em que se está,
como veremos nos parágrafos a seguir.
A
Rússia ainda é, por exemplo, um verdadeiro reservatório de
recursos naturais, incluindo petróleo em abundância, metais e
madeira. Contudo, não apenas boa parte das minas e campos petrolíferos
russos está obsoleta e/ou se esgotando devido aos escassos
investimentos, como poucas grandes economias modernas conseguem se
sustentar apenas com a exportação de recursos naturais. Exportar
petróleo pode ter ampliado substancialmente a influência de Moscou
na economia mundial nos últimos anos, mas dificilmente poderá ser
a solução efetiva para todos os problemas nacionais. Um pequeno país
do Golfo Pérsico pode se manter apenas vendendo petróleo, mas não
um gigante como a Rússia.
Apesar
do colapso dos anos 1990 e da baixa produtividade, a Rússia ainda
é uma grande produtora de carvão, aço, cimento e outros produtos
industriais, o que poderia ser um elemento a seu favor. No entanto,
esses ramos industriais são dos menos dinâmicos no comércio
internacional, enquanto a capacidade da indústria russa para
competir no mercado mundial de informática, biotecnologia, robótica
e outros produtos da era da informação é virtualmente nula, o que
dá prognósticos pouco róseos para o futuro do país.
O
mesmo pode ser dito da sua infra-estrutura. Toda a herança soviética
em termos de ferrovias, rodovias, oleodutos etc. está se
deteriorando rápido pela falta de investimentos, enquanto a mesma
carência de recursos impede a construção de um sistema telefônico,
de redes de informática e outros sistemas necessários para uma
moderna economia. A situação tende a melhorar, provavelmente, com
o passar dos anos, mas ainda é crítica e serão necessárias décadas
para a Rússia atingir, se atingir, os níveis de sofisticação
tecnológica do Ocidente ou da Ásia.
A
cultura do mercado capitalista também está lentamente se
difundindo dentro da sociedade russa, enquanto o poder do Estado está
sendo ao menos parcialmente restaurado. No entanto, boa parte do
sistema capitalista russo ainda é permeado pelo crime e a eficiência
e imparcialidade do Estado ainda são questionáveis.
O
grande trunfo da Rússia frente aos outros BRICs, na verdade, parece
ser a qualidade da sua mão-de-obra. Efetivamente, a população
russa ainda é relativamente instruída e bem formada, ao mesmo
tempo em que a proporção de engenheiros, médicos e outros
profissionais qualificados no conjunto da população está bem
acima da média mundial. A redução nos investimentos do Estado nas
Universidades e no sistema público de ensino nos últimos anos
abalou esta situação
e há uma tendência, em curto e médio prazo, de declínio na
disponibilidade de cientistas e técnicos e na média educacional da
população. Mas a situação russa, em termos de base científica e
tecnológica e em qualidade de mão de obra, é muito melhor do que
a de outros países.
Na
verdade, conforme indicado por textos recentes de Lenina Pomeranz, o
governo russo estaria consciente dos riscos de depender
excessivamente do petróleo e reservando recursos orçamentários
para, aproveitando a mão de obra qualificada do país, criar
centros de alta tecnologia que serviriam como base para a transição
russa para uma economia do conhecimento. A idéia seria utilizar os
recursos do petróleo e a boa base científica e educacional para
transformar a Rússia numa economia moderna antes que os recursos
naturais se esgotem. Um projeto razoável, sendo impossível saber,
contudo, se ele será bem sucedido.
De
qualquer modo, o modelo russo não é perfeitamente aplicável no
Brasil. Não temos a riqueza petrolífera e nem uma herança,
positiva e negativa, de uma superpotência com que lidar. Mas, entre
os BRICs, o caso russo é, provavelmente, aquele com o qual mais
podemos aprender.
Realmente,
entre esses países, Brasil e Rússia estão num patamar diferente
na corrida do desenvolvimento, com amplos recursos naturais,
economias mais diversificadas,
populações urbanas e um padrão de vida e educacional, na média,
melhor. Se os russos acreditam que o único caminho que vai leva-los
realmente ao desenvolvimento é fazer o salto da sociedade
industrial para a do conhecimento, talvez devêssemos escutar com
mais atenção o que eles estão dizendo.
por
JOÃO FÁBIO
BERTONHA