por JOÃO FÁBIO BERTONHA

Doutor em História, Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá/PR e Pesquisador do CNPq.

 

 

Modelos para o Brasil: Rússia?

 

Já que a Rússia faz parte, juntamente com Brasil, China e Índia, dos chamados BRICs (ou seja, grandes potências econômicas em ascensão) e já que ela tem mantido índices substanciais de crescimento econômico nos últimos anos,  vale a pena examinar o caso russo enquanto modelo de crescimento econômico a ser seguido pelo Brasil. Para tanto, será inevitável um breve histórico da economia russa desde o fim da União Soviética e das suas especificidades frente aos outros BRICs e ao Brasil

Em termos econômicos, o colapso vivenciado pela Rússia após o final da URSS é de uma escala sem precedentes nos tempos modernos. Com o fim do planejamento centralizado e a incapacidade  da perestroika em estruturar um sistema econômico alternativo, o PIB coletivo das repúblicas soviéticas encolheu 2% em 1990 e 17% em 1991. Já o PIB russo diminuiu 20% em 1992 e outro tanto em 1993. Outras ex-repúblicas soviéticas tiveram reduções ainda maiores.

Com o passar do tempo, houve alguma melhora da situação econômica, mas não expressiva. Em 1994, 1995 e 1996, o PIB russo diminuiu “apenas”, respectivamente, 12, 4 e 3% e houve até um pequeno crescimento, de 0,3% do PIB, em 1997. Surgiram grupos de pequenos empreendedores e uma classe média. Mas, já em 1998,  com a crise do rublo motivada, em essência, pelos problemas fiscais russos, a crise retornou.

Com esses índices, a economia russa reduziu-se pela metade no decorrer dos anos 90. Em 1999, ela tinha se reduzido a 1/10 da economia estadunidense e 1/5 da chinesa. No mesmo ano, sua renda per capita era cerca de cinco vezes menor do que a média dos sete países mais industrializados do mundo. Se, nos anos 1980, a economia soviética ainda era, apesar de decadente, a segunda do mundo, em 1994 ela já estava praticamente no patamar da brasileira.

            Depois desse cataclismo econômico dos anos 1990, que culminou na crise de 1998, a economia russa voltou a crescer nos últimos anos. Em primeiro lugar, porque a perda do valor do rublo provocou uma queda das importações, o que fez ressurgir uma indústria de bens de consumo. O aumento dos preços do  gás natural e do petróleo, principais produtos de exportação da Rússia,  no mercado internacional também ajudou a balança comercial russa, que começou a registrar crescentes superávites.

Entre 2000 e 2007, a economia russa cresceu cerca de 6% ao ano, levando a aumentos nos investimentos e no consumo interno. Reformas no sistema de impostos e racionalização dos gastos públicos também permitiram superávit fiscal e melhoria nas condições financeiras do Estado. Supondo que o cenário internacional continue favorável e que, especialmente, os preços do petróleo permaneçam em patamar elevado, tal fase de crescimento durará ainda, provavelmente, alguns anos.

Mesmo assim, a Rússia hoje dificilmente poderia ser chamada de potência econômica. Nesse inicio de milênio, ela responde por apenas 1% do PIB mundial e é a 16ª  economia do globo. Mesmo que ela continue crescendo esses 6% ao ano por vinte anos, ela terá apenas recuperado o perdido na década de 1990. Décadas de crescimento continuo seriam necessárias para recolocar a Rússia entre as grandes economias mundiais e saber se esse crescimento contínuo é factível é a grande questão.

Realmente, para os anos a seguir, otimistas e pessimistas têm vários argumentos para se sentirem animados ou deprimidos com as perspectivas russas, sendo todos eles claramente do tipo “copo meio cheio, como meio vazio” , dependendo do lado em que se está, como veremos nos parágrafos a seguir.

A Rússia ainda é, por exemplo, um verdadeiro reservatório de recursos naturais, incluindo petróleo em abundância, metais e madeira. Contudo, não apenas boa parte das minas e campos petrolíferos russos está obsoleta e/ou se esgotando devido aos escassos investimentos, como poucas grandes economias modernas conseguem se sustentar apenas com a exportação de recursos naturais. Exportar petróleo pode ter ampliado substancialmente a influência de Moscou na economia mundial nos últimos anos, mas dificilmente poderá ser a solução efetiva para todos os problemas nacionais. Um pequeno país do Golfo Pérsico pode se manter apenas vendendo petróleo, mas não um gigante como a Rússia.

Apesar do colapso dos anos 1990 e da baixa produtividade, a Rússia ainda é uma grande produtora de carvão, aço, cimento e outros produtos industriais, o que poderia ser um elemento a seu favor. No entanto,  esses ramos industriais são dos menos dinâmicos no comércio internacional, enquanto a capacidade da indústria russa para competir no mercado mundial de informática, biotecnologia, robótica e outros produtos da era da informação é virtualmente nula, o que dá prognósticos pouco róseos para o futuro do país.

O mesmo pode ser dito da sua infra-estrutura. Toda a herança soviética em termos de ferrovias, rodovias, oleodutos etc. está se deteriorando rápido pela falta de investimentos, enquanto a mesma carência de recursos impede a construção de um sistema telefônico, de redes de informática e outros sistemas necessários para uma moderna economia. A situação tende a melhorar, provavelmente, com o passar dos anos, mas ainda é crítica e serão necessárias décadas para a Rússia atingir, se atingir, os níveis de sofisticação tecnológica do Ocidente ou da Ásia. 

A cultura do mercado capitalista também está lentamente se difundindo dentro da sociedade russa, enquanto o poder do Estado está sendo ao menos parcialmente restaurado. No entanto, boa parte do sistema capitalista russo ainda é permeado pelo crime e a eficiência e imparcialidade do Estado ainda são questionáveis.

O grande trunfo da Rússia frente aos outros BRICs, na verdade, parece ser a qualidade da sua mão-de-obra. Efetivamente, a população russa ainda é relativamente instruída e bem formada, ao mesmo tempo em que a proporção de engenheiros, médicos e outros profissionais qualificados no conjunto da população está bem acima da média mundial. A redução nos investimentos do Estado nas Universidades e no sistema público de ensino nos últimos anos abalou  esta situação e há uma tendência, em curto e médio prazo, de declínio na disponibilidade de cientistas e técnicos e na média educacional da população. Mas a situação russa, em termos de base científica e tecnológica e em qualidade de mão de obra, é muito melhor do que a de outros países.

Na verdade, conforme indicado por textos recentes de Lenina Pomeranz, o governo russo estaria consciente dos riscos de depender excessivamente do petróleo e reservando recursos orçamentários para, aproveitando a mão de obra qualificada do país, criar centros de alta tecnologia que serviriam como base para a transição russa para uma economia do conhecimento. A idéia seria utilizar os recursos do petróleo e a boa base científica e educacional para transformar a Rússia numa economia moderna antes que os recursos naturais se esgotem. Um projeto razoável, sendo impossível saber, contudo, se ele será bem sucedido.

De qualquer modo, o modelo russo não é perfeitamente aplicável no Brasil. Não temos a riqueza petrolífera e nem uma herança, positiva e negativa, de uma superpotência com que lidar. Mas, entre os BRICs, o caso russo é, provavelmente, aquele com o qual mais podemos aprender.

Realmente, entre esses países, Brasil e Rússia estão num patamar diferente na corrida do desenvolvimento, com amplos recursos naturais, economias mais diversificadas,  populações urbanas e um padrão de vida e educacional, na média, melhor. Se os russos acreditam que o único caminho que vai leva-los realmente ao desenvolvimento é fazer o salto da sociedade industrial para a do conhecimento, talvez devêssemos escutar com mais atenção o que eles estão dizendo.

por JOÃO FÁBIO BERTONHA

 

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