Os
30 anos da Pós-Graduação em Extensão Rural da UFSM:
interdisciplinaridade e novas realidades do espaço rural
Introdução
Em
2005, o Curso de Pós-Graduação em Extensão Rural (CPGExR) da
Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) comemorou os 30 anos de
sua existência com o Seminário Internacional: A
Extensão Rural no século XXI: Atualidades e Perspectivas de Futuro,
realizado na UFSM contando com a presença de centenas de ex-alunos
para debater a formação acadêmica do profissional em extensão
rural e as realidades encontradas no exercício da profissão.
Ao
longo dos 30 anos do CPGExR, cerca de 250 dissertações foram
defendidas nas mais diversas temáticas que acercam o espaço rural,
questões que tratam da educação, saúde, gênero, reforma agrária,
produtividade, agroecologia entre outras, compilam a produção acadêmica
do curso.
Nesse
período, o objetivo da extensão rural passou por diversas
transformações, desde o avanço da modernização da agricultura,
revolução verde aos movimentos sociais do campo pela reforma agrária
e agricultura familiar. O currículo das ciências agrárias, no
qual é base para a formação dos extensionistas rurais é um ponto
fundamental para entender a dificuldade encontrada pelos
profissionais que atuam diretamente com as comunidades rurais.
Evolução
da assistência técnica e extensão rural no Brasil
A
assistência técnica rural no contexto brasileiro surgiu na década
de 1940 e intensificou-se nas décadas de 1960/70 com a modernização
conservadora,
dentro desse processo percebe-se que ela foi desenvolvida como um
Projeto Educativo para o capital (FONSECA, 1985), mesmo que por
alguns momentos ela se aproximou dos pequenos agricultores, sempre
esteve voltado para uma visão tecnológica baseada na especialização,
no uso de insumos não-renováveis e de máquinas agrícolas, assim
tornando-se dependente do mercado. O técnico extensionista teve um
papel fundamental na difusão dessa tecnologia, quando ele passa a
reproduzir esse tipo de conhecimento, desconsiderando as trajetórias,
experiências e conhecimentos dos agricultores priorizando o
conhecimento científico.
Durante
a modernização da agricultura brasileira, a Assistência Técnica
e Extensão Rural (ATER) tinha um comprometimento maior com aqueles
produtores que lhe dessem um retorno imediato, no sentido de adoção
de tecnologias, restando aos produtores que não tinham condições
para esta resposta imediata, uma política assistencialista, ou
seja, os programas sociais compensatórios. Quem não se enquadrou
nesse processo abandonou o campo e foi para a cidade, resultando no
êxodo rural e como conseqüência às mazelas sociais.
Dentro
deste contexto surge os movimentos sociais que começam a pressionar
o governo para a diminuição da concentração de terras e para uma
reforma agrária mais justa, que contemple os excluídos. Diante
desta nova realidade de crise e exclusão, foi necessária a
reformulação de políticas públicas para uma eficiente assistência
técnica rural voltada para esta nova demanda por parte de
produtores familiares e assentados.
Dentro
das deficiências que foram citadas, percebe-se neste modelo de
educação uma tendência à reprodução do sistema de educação
voltada para os interesses de uma classe elitizada, no caso da educação
para profissionais de assistência técnica, as universidades
possuem uma visão que é baseada no modelo da Revolução Verde, onde deve haver por parte
dos técnicos uma difusão das tecnologias, e este modelo favorece o
processo de exclusão.
Em
2004, a Política Nacional de ATER do Ministério do Desenvolvimento
Agrário afirma a necessidade de valorizar a agricultura familiar e
a transição agroecológica como estratégias de desenvolvimento
para o espaço rural, entendendo que a valorização dos “pacotes
tecnológicos” para a agricultura não resolveu a situação de
desigualdade socioeconômica do espaço rural.
A
formação acadêmica dos extensionistas rurais e a heterogeneidade
do rural
Inicialmente,
o CPGExR se manteve composto por alunos das ciências agrárias
(agronomia, medicina veterinária, engenharia florestal e zootecnia)
mantendo uma homogeneidade nas áreas do conhecimento e das discussões
teórico-metodológicas.
A
inserção de alunos provenientes das diversas áreas do
conhecimento (geografia, pedagogia, economia, turismo, entre outros)
ao longo do período mostrou a necessidade de buscar suporte em
outras matrizes teóricas, além de verificar a importância da
interdisciplinaridade no contexto agrário. A deficiência e carência
em disciplinas humanas no currículo das ciências agrárias é um
agravante na formação do extensionista rural, sobretudo, quando
esse tem que se defrontar com realidades diversas que vão além das
questões meramente produtivas e técnicas.
A
partir das exposições dos ex-alunos no seminário se pode perceber
que existe uma diversidade de concepções em relação à realidade
rural. Por isso, surge a importância de discutir a formação do
extensionista, se ela contempla essa heterogeneidade de atividades e
de categorias sociais.
Os
ex-alunos levantaram questionamentos sobre as múltiplas funções
do rural, atividades agrícolas e não-agrícolas, as diversidades
das categorias sociais, agricultura familiar, agroecologia, patronal
entre outras. Nesse contexto, se questiona a atual formação acadêmica
das ciências agrárias frente a essa diversidade do rural e os
atributos dados aos profissionais, para preparar o extensionista
rural a essa gama de diferenças e realidades.
Encontra-se
na literatura agrária diferentes enfoques para conceituar o
profissional de extensão rural, tem-se como generalista,
especialista, facilitador, mediador
entre outros são facilmente escolhidos para denominar as ações do
extensionista nesse conxteto.
Frente
a essa discussão, uma das alternativas para formar profissionais de
extensão rural diante da multifuncionalidade e das múltiplas
categorias sociais deve se construir a partir de técnicos e técnicas
que tenham condições de situar-se diante dos novos desafios
colocados para os produtores, através de um olhar crítico, sistêmico,
criativo e contextualizado, não descaracterizando os métodos e
princípios convencionais, mas sabendo construir propostas
alternativas em conjunto com as comunidades locais, com critérios
ecológicos e dentro de uma perspectiva economicamente viável.
O
que ficou claro é a deficiência da formação do profissional em
extensão rural devido à complexidade do espaço rural. Apesar das
universidades inserirem disciplinas de outras áreas do conhecimento
nos currículos das ciências agrárias, como educação, pedagogia,
sociologia, filosofia entre outras, a formação ainda tende a ser técnica
e quantitativa, dando ênfase às questões mensuráveis, deixando o
ator principal, o homem, em segundo plano.
Considerações
finais
Analisando
a proposta do seminário, de integrar e debater os rumos da extensão
rural foi bastante favorável às discussões existentes entre os
ex-alunos, pois permitiram verificar a formação acadêmica na
universidade e a prática profissional no espaço rural, suas
possibilidades e contradições da formação do extensionista
rural.
A
formação acadêmica na universidade dá suporte aos extensionistas
até certo momento e a certas realidades no espaço rural. A
diversidade de agricultores, classes sociais, comunidades,
infra-estrutura no espaço rural são desafios aos extensionistas
que devem ultrapassar essas barreiras para executar seu trabalho de
forma coesa.
Existe
uma carência na formação acadêmica dos profissionais
extensionistas, que vem desde a graduação nas ciências agrárias,
pois os currículos não contemplavam (e ainda hoje, a maioria não
contempla) essa heterogeneidade do espaço rural. Essa dificuldade
entre a teoria e a prática foi muito debatida no seminário, onde
os futuros extensionistas precisam de uma formação acadêmica que
envolva a diversidade do espaço rural.
A
interdisciplinaridade é um passo a ser tomado, na medida em que as
conexões de diversas áreas do conhecimento contribuem no debate teórico-metodológico
da extensão rural auxiliando em métodos que contemplem essa gama
de elementos que constroem a organização do espaço rural.
BIBLIOGRAFIA
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Agricultura: trigo e soja. Petrópolis: Vozes, 1987.
FONSECA,
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capital. São Paulo: Loyola, 1985. (coleção Educação
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GRAZIANO
da SILVA, J.
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FLAMARION
DUTRA ALVES
& JANISSE VIERO
GARCIA