Juventude
e adolescência na sua relação com o campo do lazer
Serão
realizadas breves considerações sobre os elementos juventude e
adolescência em sua relação com a sociedade mais ampla e, em
particular, com a esfera social do lazer. Defende-se que a questão
do estudo do lazer, específico para o público adolescente, e as
distintas formas de apropriação do tempo livre, apresentam-se
fundamentais na discussão sobre a juventude.
Juventude
e Adolescência: breves reflexões
Deve-se
inicialmente elucidar que a fase de vida que costumamos chamar de adolescência
não se dá da mesma forma em todas as sociedades, fazendo com
que seu começo, meio e fim estejam atrelados necessariamente ao
ambiente social em que esta se manifesta.
Tal
fato implica de imediato duas considerações: a- que o adolescente
não parece ser “universalmente” o mesmo; b- que “ser jovem”
não significa estar condicionado necessariamente a uma idade específica,
geralmente oscilando na faixa etária adolescência, já que o final
da mesma está cada vez mais difícil de se identificar por ser tal
fato característico de cada sociedade.
Acrescenta-se
ainda que o dito ‘espírito jovem’, vem cada vez mais permeando
a idade adulta na atualidade, consideravelmente nas atividades
arraigadas ao campo do lazer.
Quanto
tempo dura exatamente a adolescência? Parece não ser possível
responder com precisão tal pergunta, já que existem diferentes
concepções que versam sobre o tema da juventude.
Como
exemplo pode-se citar o enfoque apresentado pela UNESCO, que aponta
a adolescência como o grupo de idade entre 15 e 25 anos. Já no
enfoque psicanalista, através dos estudos de Erikson sobre os oito
estágios do desenvolvimento humano, a adolescência vai dos 13 aos
18 anos. No enfoque médico, a adolescência dura geralmente dos 12
aos 20 anos de idade, iniciada pelo fenômeno universal da
“puberdade” (ORSINI, 1977).
É
válido frisar ainda que o curso da vida fôra alvo de pesquisas e
abordagens não somente na atual sociedade contemporânea e sim também
em sociedades consideradas “simples ou de pequena escala”, foco
de análise desenvolvido pelas ciências sociais, analisando o rico
universo da adolescência, por meio de destacados trabalhos empíricos
(MUUSS, 1976; OLIVEN, 1985; CARDOSO; SAMPAIO, 1995).
Assim,
a transição entre uma criança e um adulto em determinadas
sociedades pode ter como duração apenas poucos dias, configurada
através de um único ritual de passagem, como por exemplo estar
apto à caça, à guerra ou ainda realizar alguma prova de força (SETIAN
et al, 1979).
Já
nas sociedades tidas como complexas, costuma-se promover uma
prolongada adolescência com duração de muitos anos (muitas vezes
nem se precisando bem o final), podendo consequentemente levar a uma
certa “descontinuidade” nos papéis sociais durante tal fase.
Nesse sentido, Rodrigues (1986) defende que a adolescência
corresponde a uma categoria cujo conteúdo é ele mesmo visto como
ambíguo, já que o adolescente é aquele que não é mais criança,
mas ainda não é adulto, num estado que o autor classifica como
sendo ‘intersticial’, com uma certa descontinuidade pela
indefinição de papéis.
“Teen”,
adolescente, jovem, pré-adulto: defende-se aqui tais elementos como
sinônimos, onde a duração, a forma, as situações como são
abordados variam intensamente de uma sociedade para outra e até
mesmo dentro de uma própria sociedade.
Juventude
em sua relação com o elemento “lazer”
Não
se revela uma novidade notar que comumente confere-se à adolescência,
quando abordada enquanto uma fase do ciclo de vida humana, um período
tido como especial, já que são proclamadas intensivas mudanças de
ordem física, cognitiva e afetiva num curto período de tempo.
Porém,
mesmo considerado um assunto especial por muitos, a adolescência
tem sido abordada em poucos estudos no Brasil quando se tem como
tema o lazer ligado a este público. Requixa (1980: 08) verifica que
a adolescência tem sido abordada em estudos sem um posicionamento
crítico, estes apontando-a muitas vezes para um esvaziamento moral
e cultural na sociedade contemporânea. Estes estudos, conforme
Requixa, acabam por ser “[…] causa e conseqüência de
generalizações, sendo o jovem ora uma fonte inesgotável de
riquezas, ora um marginal em potencial”.
Partir
do lazer para se estudar o jovem na sociedade mostra-se portanto um
desafio a trilhar. Isto também porque o próprio tema “lazer”
está visivelmente sujeito a reservas, notadamente no âmbito acadêmico,
onde é considerado por muitos como irrelevante.
Por
outro lado, mesmo com todas as dificuldades que comumente se
observam ao abordar um tema como o lazer, tal campo pode se
transformar em um veículo privilegiado de acesso à informações,
no caso, sobre a cultura juvenil - que outros campos poderiam
omitir.
Defende-se
que a questão do estudo do lazer, específico para tal público, e
das distintas formas de apropriação do tempo livre apresentam-se
fundamentais em qualquer discussão que pretenda hoje refletir o
comportamento do jovem na sociedade em que vive. Como sugere Pais
(1993: 132), em seu trabalho sobre a juventude portuguesa: “[…]
pode-se mesmo dizer que quem não quiser falar de lazer deve
calar-se se sobre juventude quiser falar”.
Torna-se
assim relevante verificar como a vivência da esfera do lazer pelos
jovens pode mostrar-se intensamente reveladora, elucidando elementos
que a análise em outros campos, como o do trabalho ou da família,
poderiam não demonstrar.
É
válido evidenciar que toda uma problemática parece tomar corpo
quando se tem por análise o tempo disponível pertinente ao
adolescente, e as questões que envolvem aí o lazer e suas características
na sociedade moderna. Isto porque estes são indicados como
privilegiados nas condições de acesso ao lazer, muitas vezes
afirmando-se até que este seria o único grupo capaz de desfrutá-lo
integralmente. Ou seja, em nível de senso comum pode parecer que a
busca pela “farra”, pela diversão, seria anseio comum, senão
exclusivo, apenas ao alcance do jovem.
Entretanto,
entende-se como um reducionismo acreditar que o lazer se constitui
num campo acessível somente aos jovens, já que tal busca
obviamente também é pertinente à toda população, com características
que lhe são próprias.
Outra
problemática que precisa ser apontada é a de que, frequentemente,
apresenta-se como perspectiva o lazer, no que se refere ao jovem,
ligado a uma visão “funcionalista” de sociedade, sendo a
vertente funcionalista de cunho moralista é a que mais se apresenta
quando se tem por discussão tal tema. Esta vertente prega o lazer
enquanto uma espécie
de “faca de dois gumes”, onde este campo pode configurar-se em
um espaço para a realização de valores conturbadores da tranqüilidade,
ordem e segurança social (MARCELLINO, 1996).
De
Grazia (1996: 331), ao abordar a questão do moralismo no tempo
livre dos jovens americanos na década de 1960, critica a juventude
da sua época por não ser livre nem na prática, nem segundo a lei,
nem segundo os costumes, isto porque pais, professores e demais
vinham assumindo a função de tutelar e vigiar os menores.
Esta
característica de moralismo, presente na análise do tempo livre
dos jovens, deixa no lazer a marca da ambigüidade, pois ora a
sociedade o vê como um tempo possível para a realização de
valores tidos como aceitáveis e fundamental para o desenvolvimento
e adequação ao “status quo”, ora é visto como desagregador e
destrutivo, conturbador da ordem (REQUIXA, 1980).
Jovens
e adolescentes de distintas épocas, lugares e ambientes sociais
procuram constantemente dar às suas ações um estilo de vida que
lhe seja peculiar, estilo este muitas vezes caracterizado pela inovação,
pela negação dos valores considerados tradicionais. O lazer assume
nesse sentido um contexto de possível fruição destas
expectativas, atrelado a valores e significados que influenciam e são
influenciados pelo modo de
vida deste jovem em sua cultura mais ampla.
por
RICARDO
RICCI UVINHA
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