por RICARDO RICCI UVINHA

Professor Doutor do Bacharelado em Lazer e Turismo da EACH – USP

 

 

Juventude e adolescência na sua relação com o campo do lazer

 

Cena na Praia (Portinari)Serão realizadas breves considerações sobre os elementos juventude e adolescência em sua relação com a sociedade mais ampla e, em particular, com a esfera social do lazer. Defende-se que a questão do estudo do lazer, específico para o público adolescente, e as distintas formas de apropriação do tempo livre, apresentam-se fundamentais na discussão sobre a juventude.

Juventude e Adolescência: breves reflexões 

Deve-se inicialmente elucidar que a fase de vida que costumamos chamar de adolescência não se dá da mesma forma em todas as sociedades, fazendo com que seu começo, meio e fim estejam atrelados necessariamente ao ambiente social em que esta se manifesta. 

Tal fato implica de imediato duas considerações: a- que o adolescente não parece ser “universalmente” o mesmo; b- que “ser jovem” não significa estar condicionado necessariamente a uma idade específica, geralmente oscilando na faixa etária adolescência, já que o final da mesma está cada vez mais difícil de se identificar por ser tal fato característico de cada sociedade.

Acrescenta-se ainda que o dito ‘espírito jovem’, vem cada vez mais permeando a idade adulta na atualidade, consideravelmente nas atividades arraigadas ao campo do lazer.

Quanto tempo dura exatamente a adolescência? Parece não ser possível responder com precisão tal pergunta, já que existem diferentes concepções que versam sobre o tema da juventude.

Como exemplo pode-se citar o enfoque apresentado pela UNESCO, que aponta a adolescência como o grupo de idade entre 15 e 25 anos. Já no enfoque psicanalista, através dos estudos de Erikson sobre os oito estágios do desenvolvimento humano, a adolescência vai dos 13 aos 18 anos. No enfoque médico, a adolescência dura geralmente dos 12 aos 20 anos de idade, iniciada pelo fenômeno universal da “puberdade” (ORSINI, 1977).

É válido frisar ainda que o curso da vida fôra alvo de pesquisas e abordagens não somente na atual sociedade contemporânea e sim também em sociedades consideradas “simples ou de pequena escala”, foco de análise desenvolvido pelas ciências sociais, analisando o rico universo da adolescência, por meio de destacados trabalhos empíricos (MUUSS, 1976; OLIVEN, 1985; CARDOSO; SAMPAIO, 1995).

Assim, a transição entre uma criança e um adulto em determinadas sociedades pode ter como duração apenas poucos dias, configurada através de um único ritual de passagem, como por exemplo estar apto à caça, à guerra ou ainda realizar alguma prova de força (SETIAN et al, 1979).

Já nas sociedades tidas como complexas, costuma-se promover uma prolongada adolescência com duração de muitos anos (muitas vezes nem se precisando bem o final), podendo consequentemente levar a uma certa “descontinuidade” nos papéis sociais durante tal fase. Nesse sentido, Rodrigues (1986) defende que a adolescência corresponde a uma categoria cujo conteúdo é ele mesmo visto como ambíguo, já que o adolescente é aquele que não é mais criança, mas ainda não é adulto, num estado que o autor classifica como sendo ‘intersticial’, com uma certa descontinuidade pela indefinição de papéis.

“Teen”, adolescente, jovem, pré-adulto: defende-se aqui tais elementos como sinônimos, onde a duração, a forma, as situações como são abordados variam intensamente de uma sociedade para outra e até mesmo dentro de uma própria sociedade.

Juventude em sua relação com o elemento “lazer”

Não se revela uma novidade notar que comumente confere-se à adolescência, quando abordada enquanto uma fase do ciclo de vida humana, um período tido como especial, já que são proclamadas intensivas mudanças de ordem física, cognitiva e afetiva num curto período de tempo.

Porém, mesmo considerado um assunto especial por muitos, a adolescência tem sido abordada em poucos estudos no Brasil quando se tem como tema o lazer ligado a este público. Requixa (1980: 08) verifica que a adolescência tem sido abordada em estudos sem um posicionamento crítico, estes apontando-a muitas vezes para um esvaziamento moral e cultural na sociedade contemporânea. Estes estudos, conforme Requixa, acabam por ser “[…] causa e conseqüência de generalizações, sendo o jovem ora uma fonte inesgotável de riquezas, ora um marginal em potencial”.  

Partir do lazer para se estudar o jovem na sociedade mostra-se portanto um desafio a trilhar. Isto também porque o próprio tema “lazer” está visivelmente sujeito a reservas, notadamente no âmbito acadêmico, onde é considerado por muitos como irrelevante.

Por outro lado, mesmo com todas as dificuldades que comumente se observam ao abordar um tema como o lazer, tal campo pode se transformar em um veículo privilegiado de acesso à informações, no caso, sobre a cultura juvenil - que outros campos poderiam omitir.

Defende-se que a questão do estudo do lazer, específico para tal público, e das distintas formas de apropriação do tempo livre apresentam-se fundamentais em qualquer discussão que pretenda hoje refletir o comportamento do jovem na sociedade em que vive. Como sugere Pais (1993: 132), em seu trabalho sobre a juventude portuguesa: “[…] pode-se mesmo dizer que quem não quiser falar de lazer deve calar-se se sobre juventude quiser falar”.

Torna-se assim relevante verificar como a vivência da esfera do lazer pelos jovens pode mostrar-se intensamente reveladora, elucidando elementos que a análise em outros campos, como o do trabalho ou da família, poderiam não demonstrar.

É válido evidenciar que toda uma problemática parece tomar corpo quando se tem por análise o tempo disponível pertinente ao adolescente, e as questões que envolvem aí o lazer e suas características na sociedade moderna. Isto porque estes são indicados como privilegiados nas condições de acesso ao lazer, muitas vezes afirmando-se até que este seria o único grupo capaz de desfrutá-lo integralmente. Ou seja, em nível de senso comum pode parecer que a busca pela “farra”, pela diversão, seria anseio comum, senão exclusivo, apenas ao alcance do jovem.

Entretanto, entende-se como um reducionismo acreditar que o lazer se constitui num campo acessível somente aos jovens, já que tal busca obviamente também é pertinente à toda população, com características que lhe são próprias.

Outra problemática que precisa ser apontada é a de que, frequentemente, apresenta-se como perspectiva o lazer, no que se refere ao jovem, ligado a uma visão “funcionalista” de sociedade, sendo a vertente funcionalista de cunho moralista é a que mais se apresenta quando se tem por discussão tal tema. Esta vertente prega o lazer enquanto uma  espécie de “faca de dois gumes”, onde este campo pode configurar-se em um espaço para a realização de valores conturbadores da tranqüilidade, ordem e segurança social (MARCELLINO, 1996).

De Grazia (1996: 331), ao abordar a questão do moralismo no tempo livre dos jovens americanos na década de 1960, critica a juventude da sua época por não ser livre nem na prática, nem segundo a lei, nem segundo os costumes, isto porque pais, professores e demais vinham assumindo a função de tutelar e vigiar os menores.

Esta característica de moralismo, presente na análise do tempo livre dos jovens, deixa no lazer a marca da ambigüidade, pois ora a sociedade o vê como um tempo possível para a realização de valores tidos como aceitáveis e fundamental para o desenvolvimento e adequação ao “status quo”, ora é visto como desagregador e destrutivo, conturbador da ordem (REQUIXA, 1980).

Jovens e adolescentes de distintas épocas, lugares e ambientes sociais procuram constantemente dar às suas ações um estilo de vida que lhe seja peculiar, estilo este muitas vezes caracterizado pela inovação, pela negação dos valores considerados tradicionais. O lazer assume nesse sentido um contexto de possível fruição destas expectativas, atrelado a valores e significados que influenciam e são influenciados pelo modo  de vida deste jovem em sua cultura mais ampla.

 

por RICARDO RICCI UVINHA

 

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Referências:

Cardoso, R.; Sampaio, H. Bibliografia sobre a juventude. São Paulo: Edusp, 1995.

DE Grazia, S. Tiempo, trabajo y ocio. Madrid: Tecnos, 1966.

MARCELLINO, N.C. Estudos do lazer: uma introdução. Campinas, SP: Autores Associados, 1996.

Muuss, R. Teorias da Adolescência. 5. ed. Belo Horizonte: Interlivros, 1976.

Oliven, R. G. A Antropologia dos grupos urbanos. Rio de Janeiro: Vozes, 1985.

Orsini, M. S. A juventude paulista, suas atitudes e sua imagem. 1977. Tese (Doutorado em Psicologia), Instituto de Psicologia , Universidade de São Paulo. São Paulo, USP, 1977. 363 p.

PAIS, J. M. Culturas juvenis.  Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1993.

Requixa, R. Juventude e tempo livre em países em desenvolvimento. Boletim de Intercâmbio, Rio de Janeiro: jan./mar., p. 8, 1980.

Rodrigues, J. C. Tabu do corpo. 4.ed. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986.

Setian, N. et al. Adolescência. São Paulo: Sarvier, 1979.

 

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