por
ANGELITA
MATOS SOUZA
Bacharel em Ciências Sociais pelo IFCH/Unicamp; Mestra em Ciência
Política pelo IFCH/Unicamp; Doutora em Economia pelo IE/Unicamp.
Professora de Ciência Política na Facamp
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As
transformações recentes da economia espanhola e sua expansão
internacional
Na
última década, Brasil e Espanha estreitaram relações econômicas
e político-diplomáticas e são países que têm muito em comum:
“cultura ibérica”; modernização político-econômica tardia,
“pelo alto”, sob regimes autoritários; processos de
redemocratização nos anos 70/80; reformas neoliberais nos anos
80/90 conduzidas por lideranças supostamente “à esquerda”
(González, do PSOE e Cardoso, do PSDB). Não obstante, no caso
espanhol, as “opções” políticas, ao longo dos processos de
redemocratização e reformas econômicas dos anos 80/90, fizeram
diferença nos resultados alcançados – sem esquecer que o êxito
maior da Espanha está diretamente relacionado à sua inserção na
Comunidade Européia (todavia outros países integrados não alcançariam
os mesmos resultados).
Interessa-nos
destacar algumas
características das reformas econômicas empreendidas nos
anos 80/90, que levaram à consolidação do “núcleo duro” da
economia espanhola; sob a liderança do qual a Espanha (re)descobriu
a América Latina, alcançando nos anos 90 a
posição de maior investidor externo na região. Embora a
exposição seja sobre o caso espanhol, comparações com o caso
brasileiro, explícita ou implicitamente, atravessarão o texto
Fundamentalmente,
chamaremos atenção para o fato das inversões estrangeiras em
empresa nacionais - com a abertura econômica, reorganização do
mercado financeiro/acionário e privatizações-, menos que à
compra/controle acionário destinarem-se à sociedade/associação
com o capital local, favorecendo, política e economicamente, o
poder internacional de grupos nacionais. Vale destacar que, nos
governos González, as reformas esbarraram
na resistência dos movimentos sindicais (base social do PSOE),
limitando o avanço do thatcherianismo
sob os governos socialistas, sendo as reformas econômicas
acompanhadas de restrições à participação acionária de origem
estrangeira. Já sob os governos Aznar, a radicalização do receituário
liberal consolidaria o “núcleo duro” da economia
espanhola, com a venda das últimas participações estatais em
grandes empresas espanholas e maior abertura/desregulamentação do
mercado de capitais.
Este
“núcleo duro” encontra-se, hoje, organizado em torno de dois
grandes grupos financeiros privados - o BSCH (fruto da fusão entre
Banco Santader e Banco Central Hispano, em 1999) e o BBVA (Banco
Bilbao Viscaya e Argentaria, privatizado em 1998) – e caixas de
poupança de capitais públicos, com destaque para a La Caixa da
Catalunha e a Caixa Madrid. O controle destes grupos sobre os
setores infra-estruturais - nomeadamente eletricidade, gás natural,
petróleo e telecomunicações - foi concretizado após as últimas
privatizações, tendo empresas de ambos os sectores (financeiro e
produtivo) liderado a expansão internacional da economia espanhola.
Como dito, foi sob a liderança deste núcleo que a Espanha
redescobriu a América Latina na década de 90 e, para além deste núcleo
duro, predominantemente basco-catalão, existem ainda grandes
empresas espanholas, com bases setoriais diferenciadas conforme a
região, que são fortemente internacionalizadas.
Acreditamos
que três movimentos – redemocratização, integração à
Comunidade Européia e internacionalização econômica – estão
estreitamente articulados. A integração à Comunidade Européia,
além de obrigar à ordem democrática, injetou recursos externos na
economia espanhola e, a despeito de efeitos sociais negativos, as
reformas neoliberais fortaleceriam o sistema financeiro local e sua
fusão com o setor produtivo privado ou estatal/privatizado,
consolidando os grandes grupos espanhóis, associados ao capital
financeiro internacional, cuja capacidade de internacionalização
surpreenderia o mundo. O que favoreceu a inserção do País no
sistema internacional e, internamente, o sentimento de
“modernidade” e o fortalecimento dos valores democráticos.
Em
suma, o segredo do sucesso espanhol, indubitavelmente deve ser
buscado na integração à Comunidade Européia, mas passa pelas
“opções” políticas internas que, dentro do rol de
possibilidades abertas pelo sistema capitalista mundial, foram
decisivas à consolidação do capital financeiro espanhol, sem o
qual, dentro do modelo liberal seguido, a economia espanhola
não estaria hoje entre as 10 maiores economias do mundo.
* * *
Durante
dez anos (1982-92), o Partido Socialista governou a Espanha de forma
hegemônica, “controlando” o Parlamento, o Conselho Geral do
Poder Judiciário, o Tribunal Constitucional e o Tribunal das Contas
anulando, na prática, o princípio da separação dos poderes na
monarquia parlamentar espanhola. A inversão desse quadro deu-se
entre 1993-96, coincidentemente, quando o PSOE não detinha mais
maioria parlamentar (a aliança com a CiU garantiu uma maioria exígua
no Parlamento). Neste período, escândalos de corrupção,
envolvendo fatos desde os primeiros anos do governo socialista (e
parcamente investigados, como os casos Gal; Roldán; Filesa, Malesa
e Time Sport), vieram decisivamente à tona. Escândalos que,
somados à crise econômica e ao acirramento do desemprego
“estrutural” espanhol prepararam o caminho para o fim da era
Gonzaléz - os escândalos eram uma traição à imagem da Espanha
européia, democrática
e moderna que havia propagado.
Mas
para entender melhor os anos críticos é preciso voltar um pouco no
tempo, menos que à origem dos escândalos, aos dilemas da política
econômica dos socialistas no poder. Conforme Pérez-Díaz (1996),
quando chegaram ao poder no início dos anos 80, os socialistas
espanhóis acreditavam ter aprendido com os erros do partido
trabalhista britânico e do partido socialista francês: não era
conveniente enfrentar os sindicatos nem os mercados financeiros. De
início tentarão conservar políticas trabalhistas, herdadas do
“franquismo” e conservadas pelo governo UCD, àqueles que já se
encontravam no mercado de trabalho, introduzindo regras mais flexíveis
(quanto à estabilidade no emprego e indenizações às demissões)
para os ingressantes novos, criando assim um mercado de trabalho
dual.
Ao
mesmo tempo, praticariam uma política econômica de juros altos,
oscilando entre valorização/desvalorização cambial,
que não agradava líderes sindicais e lideranças políticas
menos ortodoxas. A relação com essas forças piorará durante a
campanha do referendum
sobre a OTAN (1986) e, em 1988,
após a vitória eleitoral, quando o governo busca estender a
aplicação das novas regras do mercado de trabalho aos antigos
trabalhadores. A essa tentativa, o movimento sindical responderá
com a greve geral de dezembro de 1988, obrigando o governo a voltar
atrás e aumentar gastos sociais com subsídios ao desemprego e pensões.
No tour de force com o movimento sindical, os socialistas
espanhóis não arriscariam o “modelo Thatcher” e,
voluntariamente ou devido à falta de alternativas, essa foi uma das
maiores contribuições do governo Gonzaléz à recém consolidada
democracia espanhola.
Contudo,
os socialistas não queriam atrair a desconfiança do “mercado
financeiro” e a Espanha ingressaria no SME em 1989. Essa política
dúbia parecia comprovar a viabilidade do “social-liberalismo”.
Nos oito primeiros anos do governo socialista (1982-90), sobretudo
após a entrada do País no Mercado Comum em 1986, efetivamente, a
Espanha parecia ter ingressado no 1o Mundo, imagem
coroada em 1992 com alguns eventos: Olimpíadas de Barcelona, Feira
Industrial de Sevilha, Madrid Capital Cultural da Europa e o Quinto
Centenário dos Descobrimentos.
Imagem,
porém, já à prova pelo avanço da recessão e do desemprego,
que tendiam ao agravamento com as políticas previstas no Plano de
Convergência (de 1992, efeito das decisões de Maastricht),
referentes às reformas do mercado de trabalho e da seguridade
social e às decisões em torno da redução do setor público.
Reformas que jamais seriam integralmente implementadas: para o
“mercado” era claro que não seriam os socialistas os thatcherianos
da Espanha. Para piorar, em 1993, com a economia espanhola já
mergulhada na recessão, o governo é obrigado a abandonar o SME e
iniciar uma drástica política de desvalorização cambial.
Os
anos seguintes serão de acentuada crise política, além da econômica.
O surgimento de um novo periódico em 1989, El Mundo,
bastante crítico ao governo, centrará sua atenção nas denúncias
de corrupção, abuso do poder e inércia/conivência do Legislativo
e Judiciário para com o governo. Seu êxito obrigou outros veículos,
como o El País (simpático aos socialistas), a tomarem também
o caminho das denúncias e cobranças aos representantes políticos
e do Judiciário. Sem maioria parlamentar, o governo não pôde
impedir as comissões de inquérito. Da mesma forma, perdera o
controle sobre o Conselho Geral do Poder Judiciário e Tribunal
Constitucional (e fizera um inimigo poderoso, o juiz Baltazar Garzón).
Em
meio à crise, o princípio clássico da separação dos poderes
reafirmava-se e o Judiciário, sobretudo, aumentava seu prestígio
face à opinião pública. Em algumas sondagens, a corrupção
apareceu como o maior problema do governo Gonzaléz - à frente do
desemprego e do terrorismo basco - e o Poder Judiciário no seu
papel investigatório) como a Instituição de maior prestígio
junto aos espanhóis (DÍAZ, 1996). Dessa perspectiva, ao promover
maior independência entre os poderes, entre governo e meios
de comunicação, chacoalhando a opinião pública para os problemas
da corrupção e abusos do poder, a crise política de 1993-96
serviu ao fortalecimento da democracia espanhola. Entretanto, a
despeito das denúncias de corrupção envolvendo o governo
socialista e que serviram à luta política oposicionista, por trás
da crise política estavam os interesses do “mercado financeiro”
(nem só de estabilidade vive esse mercado).
Como
contrapartida ao fortalecimento das instituições e valores democráticos,
do ponto de vista econômico,
os oito anos de governo do PP, que se seguiriam aos governos socialistas,
caracterizar-se-iam pela associação entre crescimento econômico e
regressão social, com a transformação
de uma economia “real” numa economia financeira agressiva,
segundo o modelo liberal conservador. A conclusão das
privatizações no setor de infra-estrutura (Endesa, Repsol, Telefônica,
Iberdrola) consolidam o “núcleo duro” da economia, reunindo
bancos e setores infra-estruturais. Como dissemos, núcleo
organizado em torno de dois grandes grupos financeiros privados, o
BSCH e o BBVA, sob a liderança do qual a Espanha rumou à América
Latina - até porque a
integração na União Européia impunha limites às políticas
monetárias/financeiras dos países membros (quanto às taxas de
juros, por exemplo), que estimularam os investimentos produtivos e a
internacionalização econômica.
Durante
a década de 90, entre todos os países (com a abertura econômica e privatizações das
empresas públicas), a Espanha alcançaria a posição de maior
investidor externo na América Latina. Seu primeiro destino foi à
Argentina e o Chile e, em menor escala, países da região andina
como o Peru e a Colômbia; investindo na compra de bancos, empresas
de serviços financeiros e empresas de infra-estrutura -
telecomunicações, energia, transporte e de produção de gás e
petróleo e gás (processo coroado com a aquisição da empresa
estatal argentina YPF, um dos maiores produtores latino-americanos
de petróleo).
Ao
final da década, os espanhóis dirigiram-se aos dois maiores
mercados do continente – Brasil e México -, com importantes
aquisições nos sectores de telecomunicações e de produção e
distribuição de eletricidade; bem como, no setor bancário, com
destaque para a compra do Banco do Estado de S. Paulo (BANESPA) pelo
BANCO SANTANDER CENTRAL HISPANO (BSCH). No México, concentraram-se
no setor bancário, com o BSCH e o BBVA adquirindo em 2000,
respectivamente, o segundo e o quarto maiores grupos bancários
mexicanos – passando o BBVA/BANCOMER a ser o primeiro grupo
financeiro do México.
Finalmente,
talvez seja possível recorrer à noção de “capitalismo
dependente-associado” na abordagem
do processo de internacionalização da economia espanhola
desde os anos 60 e, sobretudo, a partir do final dos anos 80. com a
abertura econômica, as inversões estrangeiras em empresas
nacionais, menos que à compra/controle acionário, destinaram-se à
sociedade/associação com o capital local, favorecendo, política e
economicamente, o poder internacional dos grupos espanhóis. Sob os
governos socialistas restringiu-se a participação acionária de
origem estrangeira e, sob os governos Aznar, a maior liberalização
do mercado de capitais e a conclusão das privatizações não
teriam efeitos significativos à desnacionalização da economia,
tendo em vista que o capital financeiro espanhol já estava
consolidado (e a maior desregulamentação o fortaleceria ainda
mais).
Não
obstante, a economia espanhola organiza-se basicamente em torno do
setor de serviços, contando com uma estrutura industrial modesta.
Neste sentido, com
problemas político-sociais prementes (precarização do emprego, desemprego, emigrantes, regionalismos,
alto nível de endividamento familiar),
o “modelo coreano” à espanhola é bem mais vulnerável que o
original. Basicamente porque a Coréia do Sul conta com uma base
industrial/produtiva mais potente e a internacionalização da
economia coreana concentrou-se na Ásia. Em todo caso, sob
o predomínio da lógica financista na economia mundial, tendência
geral das economias ocidentais, a Espanha corre, praticamente, os
mesmos riscos que qualquer outra economia desenvolvida da Europa,
tendo, em maior ou menor dimensão, os mesmos problemas sociais.
E
o fato é que a Espanha alcançou o que o Brasil não logrou alcançar:
uma inserção no sistema capitalista internacional mais favorável,
paralelamente à consolidação de uma ordem democrática mais estável
e justa. Acreditamos que, no contexto da América Latina, o Brasil era o único país
que poderia ter trilhado um caminho semelhante. Claro que as
dificuldades eram e são infinitamente maiores, comparadas ao caso
espanhol: enormes desigualdades sociais e disparidades regionais;
dimensão territorial e populacional; cultura autoritária/patrimonial;
corrupção, violência, crime organizado; dívida pública, falência
do Estado, sistema escolar destruído e serviços públicos em
geral. Do ponto de vista econômico, a inconclusão do processo de
monopolização capitalista, a não consolidação de um capital
financeiro nuclear e sua internacionalização, como ocorreu no caso
espanhol, explicam parte do nosso fracasso. Não que a Espanha
esteja livre da obediência às “regras do jogo”, mas sua posição
político-econômica internacional é muito mais vantajosa,
respaldada pela associação com o grande capital financeiro
internacional.
Referências
Bibliográficas:
COSTA,
Ricardo. “Espanha – Privatizações, ‘Núcleos Duros’ e
Grupos Bancários – uma Análise da Estratégia de
internacionalização”. Informação
Internacional, 1999, Lisboa, DPP (www.dpp.pt/gestão/ficheiros/infor_inter_1999).
FIGUEIREDO,
C. e outros. “Os principais centros de decisão empresarial em
Espanha”. Informação
Internacional, 2005, Lisboa, DPP. (www.dpp.pt/gestão/ficheiros/infor
inter 2005)
GUERRA,
A. y TEZANOS, J. F. (eds.). La
década del cambio. Diez años de gobierno socialista 1982-1992.
Madrid: Sistema, 1992.
PÉREZ-DIAZ,
V. España puesta a prueba
1976-1996. Madrid: Alianza Editorial, 1996.
por
ANGELITA
MATOS SOUZA
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