Conjuntura
Nacional e as Organizações Populares
1.
Uma
conjuntura pautada pelo governo federal
O
governo Lula redefiniu (e continua redefinindo) todo cenário
nacional. Pauta toda a política do país, incluindo as ações
dos movimentos sociais, quase que exclusivamente reativas.
O
governo Lula deve, então, ser objeto de análise mais precisa
para compreender sua natureza e origem da sua força política.
Há
duas características principais do estilo de governar da gestão
Lula: o pragmatismo e sua vocação ao centro político-ideológico
do país.
O
pragmatismo de governo é uma característica de Lula, mas uma
prática tipicamente sindical, já que o núcleo central
petista do governo federal é oriundo de sindicatos cutistas
mais poderosos. Com efeito, a prática sindical metalúrgica
(e bancária) estruturou um modo de negociação absolutamente
focalizada, objetiva e racional. Também organizou um sistema
de controle político interno que qualificou o aparelho
sindical como nunca antes se havia percebido na história
sindical do país. Quando Lula afirma que não é um líder de
esquerda, mas um metalúrgico, cria uma frase de efeito e de
duplo sentido. Ser dirigente metalúrgico, na tradição de São
Bernardo do Campo, é ter um modo de gerir e dirigir poderosas
máquinas burocráticas e de mobilizar a sua base social.
Controle da burocracia e discurso carismático sempre andaram
juntos.
A
segunda característica é a vocação ao centro político-ideológico.
O centro é mais um posicionamento entre forças ideológicas
que propriamente um ideário ideológico. Ser centro significa
estar eqüidistante da direita e da esquerda, estas sim,
declaradamente ideológicas. Analistas políticos sugerem que
as lideranças de centro são mais moderadas, que defendem
reformas sociais a partir das regras estabelecidas, sem
rupturas frontais com o status
quo. Na prática, a prática centrista leva ao
pragmatismo, possibilitando a oscilação da agenda, ora mais
à esquerda, ora mais à direita. O pragmatismo de centro não
é ideológico, mas uma prática de preservação do poder.
Algio Mastropaolo, no Dicionário de Política (organizado por
Norberto Bobbio), sugere que o centrismo se baseia na
dicotomia mudança-conservação. Progresso sem aventuras
foi o slogan utilizado por muitas lideranças centristas.
Governos de centro tendem a gerar um pluralismo moderado, pela
sua capacidade de fagocitar forças políticas menos
ideologizadas no espectro partidário.
É
importante ressaltar que na conjuntura política mundial,
embora as forças centristas não consigam ganhar eleições
isoladamente, nenhuma força política de esquerda ou direita
demonstram capacidade de ganhar eleições ou governar sem as
forças centristas. Talvez, seja a característica de um
momento de transição ou reacomodação de projetos ideológicos.
Mas, também, é reflexo da polarização ideológica
eleitoral em todo o ocidente, fruto da radicalização das
posições xenófobas e dos processos de exclusão advindas do
processo de globalização econômica.
A
origem do que podemos denominar de lulismo
é justamente a expressão do pragmatismo centrista. O lulismo
(que vai além da figura de Lula) é a somatória do
pragmatismo sindical metalúrgico, com o liberalismo econômico
(construído a partir das formulações da PUC-RJ e FGV-RJ) e
do controle burocrático de organizações marxistas inseridas
no Partido dos Trabalhadores (em especial, aquelas que se
desgarraram do PCB nos anos 60) e que passaram a controlar a máquina
administrativa deste partido a partir de meados dos anos 80.
O
governo Lula, a partir do expediente centrista, rearticulou o
mapa eleitoral e político do país e desorganizou o discurso
e a ação do que poderíamos denominar de campo popular
democrático do Brasil.
Vejamos, ainda que brevemente, esta nova situação.
Lula
criou o que denomina de coalizão,
de tipo presidencial. A coalizão não foi um projeto político,
mas uma reação ao cenário eleitoral. As últimas eleições
do país (as eleições ocorrem a cada dois anos e favorecem
uma leitura da movimentação da opinião e das forças políticas
regionais, o que é sempre difícil perceber em sistemas
presidencialistas) revelaram grande força de lideranças
regionais. Levantamento realizado pelo Instituto Cultiva
indica que 13 governadores eleitos no ano passado controlam
mais de 50% das bancadas estaduais e federais (fazem parte da
coalizão de governo dos governadores). Lula avançou
rapidamente sobre as bases regionais, desconsiderando a origem
partidária, apesar de manter distância em relação às
lideranças do DEM e procurar dividir o PSDB, isolando lideranças
tucanas (tendo como pivô a aproximação cada vez mais
evidente com Aécio Neves, já indicado como possível
sucessor de Lula, em 2010).
Com
o falecimento de ACM (em 20 de julho último) e o ocaso de
Jorge Borhausen, o DEM mergulha numa fase de reacomodação de
grupos internos, sofrendo sangrias crescentes. No caso da
Bahia, PMDB e PT disputam o espólio de ACM, com ampla
vantagem para o primeiro partido.
Lula,
assim, redefiniu a construção da sempre almejada ampla
maioria, que antes estava mais concentrada no Congresso
Nacional. Agora, utiliza cargos públicos para consolidar uma
articulação mais fácil de controlar e testar. Em outras
palavras: com cargos distribuídos a partir de dirigentes
regionais, amarra governadores e bancadas ao mesmo tempo. Os
acordos específicos com as bancadas passam a ser
administrados pelos ministérios aos quais estão vinculados.
Em
relação ao campo popular democrático, que incluiria grande
parte das organizações não-governamentais vinculadas à
ABONG e Interedes, Fóruns de Direitos, movimentos sociais e
organizações de representação da sociedade civil que
adotam como estratégia a radicalização democrática do país
(incluindo algumas organizações confessionais), a primeira
gestão Lula foi responsável por sua desarticulação e
debelou o discurso e ideário original. Originalmente, este
campo, que foi se constituindo ao longo da década de oitenta,
pregava total autonomia em relação aos governos (muitas
vezes, envolvendo o aparelho de Estado nesta determinação) e
elaboração de um projeto alternativo de desenvolvimento
nacional, privilegiando o avanço da organização coletiva em
detrimento do apoio ao redor de uma liderança individual.
No
caso da oposição mais à esquerda, composta, em especial,
pelo PSTU e PSOL, sua estrutura é tipicamente a clássica dos
partidos de esquerda do século passado, sem sustentação de
massas, tendo como base política organizações sindicais (em
especial, do funcionalismo público) e organizações
estudantis. Neste momento, não se constituem em alternativa
real à estrutura de poder montada pelo lulismo.
A
vitória de Lula desarticulou os princípios e práticas deste
campo político (popular democrático). Muitas lideranças
foram cooptadas para cargos da gestão federal. Várias
entidades passaram a sobreviver a partir das benesses de
verbas públicas, fartamente distribuídas a partir do princípio
da parceria, antes muito questionado por estas entidades. A
base social destas organizações populares apoiou, desde o início
o Presidente Lula, figura carismática e identificada como de
sua classe social.
Somente
a partir da crise aberta com o caso do mensalão,
parte das lideranças deste campo iniciou um processo de
reflexão mais crítica sobre o comportamento político caudatário
que até então pareciam enredados. Mas a redefinição de práticas
não ocorreu na dimensão e intensidade que os discursos
sugeriam.
O
segundo turno das eleições presidenciais do ano passado
obrigou às organizações do campo democrático popular a se
posicionarem novamente a favor de Lula. Foi mais tímido que
na eleição anterior, mas a base social respondeu com maior
intensidade que suas lideranças. Além da identidade de
classe e o carisma de Lula, as políticas de transferência de
renda vem impactando significativamente a população mais
pobre do país.
A
pesquisa CNT/Census, divulgada no final de junho confirmou o
que já era patente. Revelou que o governo Lula é aprovado
por 47,5% dos brasileiros. O desempenho de Lula, contudo, é
ainda maior: 64% aprovam sua performance. A avaliação do
governo apresenta melhora em sua popularidade a partir de
abril de 2007, mas apresenta uma leve queda em junho. No caso
da popularidade pessoal de Lula, sua popularidade se mantém
estável. Lula volta ao patamar de popularidade do período
anterior à crise aberta com o mensalão.
O
mais impressionante é o cruzamento desses dados com a avaliação
que a população faz dos principais problemas do país, ao
menos aqueles amplamente divulgados pela grande imprensa.
Somente 8% dos entrevistados revelaram que foram prejudicados
pelos atrasos nos vôos (o apagão
aéreo) e 67% afirmaram que desconhecem alguém que tenha
sido prejudicado. Pouco mais de 30% ouviram falar nesta crise
aérea e 20% afirmaram não saber do que se trata.
Sobre
a violência e criminalidade, 76,1% afirmaram que está fora
de controle (acima do índice de 71,5% verificado em abril) e
18,7% afirmaram estar razoavelmente controladas.
O
partido da preferência do eleitor é o PT (21,4%), seguido
pelo PMDB (10%). PSDB e DEM, os dois partidos que lideram a
oposição ao governo federal possuem, juntos, 10,5% da preferência
do eleitorado (sendo 7,7% para o PSDB).
Parece
evidente que a imagem de Lula está definitivamente blindada.
Lula é um personagem, uma figura pública desgarrado do jogo
político de bastidor. Seu governo, pelo contrário, é menor
que seu personagem. Este fenômeno sempre marcou a relação
que o eleitor fez entre Lula e o PT. Agora, transfere a avaliação
para a relação entre Lula e o seu próprio governo.
Neste
sentido, o projeto alternativo de desenvolvimento, de promoção
de direitos, da participação popular na gestão da política
pública e combate à desigualdade social perdeu empatia.
Envolve apenas o segmento mais organizado e, mesmo assim,
muitas vezes limitado ao discurso, mas não à prática
cotidiana para sua efetivação. Esta situação parece
perigosa por diversos motivos. Um deles é a cristalização
do conformismo frente à desigualdade que campeia no Brasil.
Nosso país figura como 9ª economia mundial, mas está entre
os quatro países com maior desigualdade social do planeta.
Lula dialoga com este consentimento tácito da maioria da
população. Outro risco é uma oscilação significativa de
muitas entidades e organizações populares, sem saber como
manter sua legitimidade (e até mesmo sobrevivência política
e estrutural) num cenário como este.
E
o governo Lula continua avançando nesta trincheira. Anunciou
um pacto, vinculado ao PAC, de urbanização de favelas, de
3,24 bilhões de reais, sendo 2 bilhões de reais destinados
ao Rio de Janeiro. O pacote é uma parceria entre todos entes
federativos.
Na
outra ponta do mundo não totalmente incluído, O Plano Safra
2007/2008, anunciado no último dia 27, destinou 12 bilhões
de reais à agricultura familiar (20% superior ao recurso para
a safra anterior), com redução média de 34% dos juros das
principais linhas de crédito. O piso cairá de 1,15% para
0,5% ao ano. A taxa anual destinada aos assentamentos rurais
será de 0,27%. O Ministério do Desenvolvimento Social propôs,
ainda no dia 22 último, bônus de 400 reais aos filhos de famílias
beneficiadas do Bolsa Família que completarem o ensino
fundamental e 800 reais para os que concluírem o ensino médio,
além do reajuste de 18% ao benefício mensal.
Este
é o mundo do crescimento do consumo familiar. Segundo o IBGE,
o PIB do primeiro trimestre deste ano cresceu 4,3% puxado pelo
aumento do consumo familiar em 6%. O consumo familiar sobe há
14 trimestres.
Gráfico: Variação trimestral do consumo familiar no
PIB (%)
O
aumento de consumo teve como carro-chefe o aumento de 6,4%, no
trimestre, da massa salarial. A classe C (entre 4 e 10 salários
mínimos) puxou o aumento dos gastos com alimentos, bebidas,
higiene pessoal e produtos de limpeza nos primeiros cinco
meses do ano. Um aumento médio, deste segmento social, de 7%
no gasto com esses produtos, se comparado ao ano anterior.
Este é o segmento social mais importante no aumento de
consumo doméstico do Brasil neste ano, acima do aumento de
consumo da classe A (+ 5%) e classes D e E (+ 2%). Algumas
consultorias especializadas em varejo, como Gouvêa de Souza
& MD, sustentam que este segmento vem utilizando mais o
cartão de crédito.
Este
é o mundo do aumento do poder de compra dos metalúrgicos do
ABC, berço político do Presidente da República, que
receberam aumentos reais de salário de 22,6%, entre 2002 e
2006, segundo o DIEESE. Inflação controlada e o desempenho
positivo da indústria automobilística propiciaram os
reajustes.
2.
Organizações
Populares e a relação com o governo federal
Num
cenário tranqüilo, o governo federal lidera absolutamente o
mundo político. E define uma estratégia clara de relação
com as lideranças sociais mais aguerridas e mais resistentes
ao movimento de apoio acrítico à sua gestão. A palavra que
sintetiza sua tática é divisão.
Divide
os interlocutores do governo para negociações e divide as
negociações por tema ou pauta específica. Esta é uma velha
tática de negociação sindical. O governo, nas negociações
com movimentos sociais e organizações populares, indica
ministros e assessores ministeriais distribuindo o perfil mais
agressivo e intransigente e aqueles mais negociadores e
afetivos. É comum os negociadores governamentais dotados de
um perfil mais ameno desabafarem nas reuniões, criticando seu
próprio governo. Mas, não abandonam o governo e reaparecem
em outras mesas e fóruns, com discurso semelhante, ladeados
por governistas mais raivosos. Esta composição de mesa
negociadora é clássica e procura abrir um espaço do que
poderia ser considerado campo de negociação mais realista, obrigando o outro lado a ceder.
Mas
não se divide apenas na negociação. Divide a pauta e evita
qualquer possibilidade de articulação nacional. Divide a
distribuição de verbas por ministérios e secretarias
nacionais. E divide a montagem do PPA por temas, conselhos e
conferências.
A
estratégia fica, assim, toda comandada pelo governo federal.
Restaria ao campo popular democrático negociar a partir da
estratégia definida.
Há,
ainda, uma profunda alteração no perfil dos movimentos
sociais brasileiros e organizações populares que
potencializam sobremaneira o cenário atual nacional.
A
primeira alteração é a gradativa transição de movimentos
sociais em organizações. Os movimentos sociais são plurais,
centram-se em mecanismos de tomada de decisão fincados em
instrumentos de democracia direta, legitimam-se pela
capacidade de mobilização permanente e por lideranças que são
delegados dos representados, ou seja, não possuem mandato
permanente ou capacidade de decisão sem aprovação expressa
da assembléia que o elegeu para uma tarefa. As organizações,
por seu turno, são auto-referentes, possuem hierarquia de
mando e estrutura administrativa, além de produzirem
programas de formação de quadros internos, porta-voz
institucional e disputa de recursos financeiros.
Muitas
organizações populares passaram a se pautar pela forte
institucionalização que foi conquistada a partir da
Constituição Federal de 1988. Hoje, temos 30 mil conselhos
de gestão pública em todo o Brasil (média de 6 conselhos
por município), que carecem de articulação entre si ou
mesmo de uma leitura estratégica sobre seu papel na elaboração
e condução de políticas e controle social no Brasil.
A
transição dos movimentos sociais em organizações e a
institucionalização a-crítica dessas organizações
populares parece ter gerado como efeito imediato e fragmentação
das pautas e das ações deste campo político.
Assim,
a leitura sobre desafios nacionais é absolutamente frágil. Não
existe mais um diálogo com a cultura política nacional,
ambivalente e híbrida, que envolve a grande maioria da população
a ser representada pelas organizações populares. Uma
multiplicidade de dados divulgados recentemente sugerem que a
população de baixa renda não se identifica plenamente com a
democracia (segundo o PNUD, 42% dos brasileiros adultos não têm
certeza se aprovam a democracia) e com rigidez moral com
recursos públicos (75% dos brasileiros, segundo o IBOPE,
afirmam que se pudessem desviariam recursos públicos para
auxiliar familiares).
As
tarefas do campo político popular democrático convergem,
assim, para duas grandes frentes: a articulação política
deste campo e uma forte política de educação para a
cidadania.
Sugiro,
para finalizar este texto-provocação, a seguinte pauta de
urgência:
a)
Criação da rede de Escolas da Cidadania: de caráter
municipal e geridas pelas organizações populares democráticas,
as escolas produzem material e cursos sistemáticos e
continuados para conselheiros e lideranças sociais com o
objetivo de disseminar e aprofundar instrumentos e mecanismos
de democracia participativa e controle social sobre políticas
públicas;
b)
Criação de Sistema de Monitoramento de Políticas
Sociais, com elaboração de indicadores de avaliação e
metodologias adequadas para o controle social e empoderamento
de lideranças sociais locais;
c)
Descentralização dos conselhos de gestão pública
por bairros ou territórios, articulando-os em redes através
de telecentros. Os diversos conselhos temáticos e setoriais
se encontrariam no território, estabelecendo diagnósticos
comuns que possibilitasse a articulação de planos de ação
e programas também comuns. Esta é a base para construção
do Conselho da Cidade e da possibilidade de formatação de
uma Conferência Municipal de Políticas Públicas e não mais
a pulverização de inúmeras conferências temáticas como
ocorrem nos últimos anos;
d)
Promoção da Lei de Responsabilidade Fiscal e Social
nos municípios e Estados brasileiros, a partir da proposição
do Fórum Brasil do Orçamento (ver www.forumfbo.org.br
).
Esta
sugestão de pauta sugere uma reorganização do campo político
aqui denominado de popular democrático. A conjuntura política
brasileira é extremamente complexa e fracionada. Mais que
nunca, a construção de um projeto contra-hegemônico (para
utilizar os temos de Boaventura Santos) parte do princípio da
necessária articulação deste campo (fugindo da atual
fragmentação de natureza meramente técnico-operacional) e
do enfrentamento da cultura política ambivalente que acomete
a base social deste campo político.
Da
profunda partidarização dos movimentos sociais e organizações
populares que ocorreu nos anos 90, à frustração política
com o governo Lula no final da sua primeira gestão, o cenário
atual exige amadurecimento suficiente para a construção do
protagonismo do que um dia se denominou novos
movimentos sociais, que tinham como principal ideário a
autonomia política dos segmentos sociais que se sentiam excluídos
social e politicamente.
É
necessário um aggiornamento
deste ideário, o que exige um forte debate público sobre a
intenção das organizações populares e dos mecanismos de
democracia participativa institucionalizados nos últimos dez
anos em nosso país.
Não
se trata de uma mera ocupação de espaços políticos, mas da
conversão desses espaços conquistados a partir de um plano
estratégico que potencialize o controle social e radicalize a
democracia brasileira.
por RUDÁ RICCI