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NASSIF,
Luís. Os cabeças-de-planilha: como o pensamento econômico da
era FHC repetiu os equívocos de Rui Barbosa. Rio de Janeiro:
Editora Ediouro, 2007.
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Fechando
as janelas de oportunidades: as semelhanças entre o Encilhamento e
o Plano Real
O
mais recente livro do jornalista Luís Nassif aborda algumas
semelhanças entre os ambientes econômicos do início da República
(1889-1891) e do primeiro governo Fernando Henrique Cardoso
(1995-1998), particularmente as oportunidades de crescimento
perdidas.
Segundo
Nassif na história econômica de um país existem algumas
“janelas de oportunidades” que ocorrem de tempos em tempos,
virtude de eventos externos e internos, que proporcionam um grande
salto de desenvolvimento, na opinião do autor o Brasil teve três
janelas, a primeira foi no início da República em 1889, outra
ocorreu no auge do “milagre econômico” na década de 1970 e a
última janela ocorreu com o advento do Plano Real.
No
início da República havia um grupo restrito de intelectuais que
influenciou diversos setores da sociedade, os membros deste grupo
acabavam de regressar de uma temporada de estudos no exterior, de
onde vinham com as mais modernas teorias econômicas que seriam
capazes de “resolver todos os problemas da nação”. Normalmente
a “receita mágica” consistia em fazer uma contenção dos
gastos públicos. Neste ponto é que começam os problemas, pois,
“cortar soldo das Forças Armadas derrubava governos. Não dava
também para cortar favores de aliados políticos. Corta-se, então,
na linha de menor resistência: saúde e educação” (NASSIF:
2007, p. 11).
Com
relação ao primeiro mandato do governo Fernando Henrique Cardoso o
grupo de influência na formulação do Plano Real consistia na
maioria jovens que também acabavam de regressar do exterior, suas
“novas teorias” preconizavam a redução do tamanho do Estado e
a realização de reformas econômicas, que implicavam na redução
nos gastos públicos e o início do processo de privatizações.
Em
1995, ocorreu uma grande mudança no rumo da política econômica
que culminou no fechamento de mais uma “janela de oportunidade”,
decorrente de uma forte valorização cambial, que culminou num
elevado déficit da Balança Comercial (exportações menos importações),
o aumento da taxa de juros e do depósito compulsório, todas estas
medidas acarretaram uma diminuição no crescimento da economia além
de um forte aumento da dívida pública. “O país foi dividido em
dois: o país dos dólares que enriqueceu rapidamente aplicando em títulos
públicos e o país do Real, que foi sufocado, sem acesso a crédito,
sem condições de rolar seus passivos, pagando cada vez mais
impostos para garantir a remuneração dos rentistas” (NASSIF:
2007, p. 19).
Algumas
semelhanças entre os ambientes econômicos do Encilhamento e do
Plano Real eram: ambos foram precedidos por grandes mudanças tecnológicas
(as ferrovias e a internet, respectivamente), existiu um forte fluxo
de capitais (em alguns momentos especulativos) dos países
desenvolvidos em direção aos países em desenvolvimento, existiu
um forte processo de industrialização e o pensamento econômico em
ambos os períodos preconizava a livre circulação de capital
seguindo a teoria clássica, no segundo período chamada de
neoliberal.
No
período anterior ao Encilhamento, ocorreu a abolição da
escravatura que deveria ter propiciado a inclusão de milhares de
ex-escravos no mercado de trabalho formal e, por conseguinte no
mercado de consumo, além disso, ocorreu um forte movimento migratório
de trabalhadores oriundos da Europa que também deveria acarretar
uma expansão do mercado de consumo interno, mas no início da República
não existiu nenhuma política pública para inclusão desta força
de trabalho que propiciasse crescimento econômico. O Encilhamento
propiciou apenas uma monetização da economia, via empréstimos, de
bancos emissores de meio circulante lastreados em títulos públicos,
tais empréstimos seriam concedidos apenas para novas empresas, o
que gerou a criação de sociedades anônimas e que culminou em
grande emissão de ações e um forte movimento de especulação na
Bolsa de Valores do Rio, que enriqueceu um grupo pequeno de
rentistas e financistas.
No
período anterior ao Plano Real existiram diversos planos econômicos
que tentaram conter a inflação, mas que acabaram fracassados. A
intensificação do processo inflacionário serviu como um imposto
que diminuía o poder de compra da população mais carente, sem
condições de aplicar seus recursos, assim com o sucesso do Plano
Real previa-se que ocorresse a inclusão desta população no
mercado de consumo, fato que ocorreu inicialmente, mas que a partir
da valorização do Real em 1995 colocou o processo a perder,
fechando mais uma “janela”.
Nassif
elucida alguns dos principais atores de ambos os períodos: os
rentistas (aqueles que possuíam o capital para especular), os
financistas (os donos dos bancos), os políticos (que em muitos
momentos eram financiados pelos rentistas e pelos financistas) e por
fim, a figura do economista (aquele que fora estudar no exterior e
trás as principais teorias que no fim irão beneficiar a todos os
atores, exceto a população em geral).
O
“ator” da época do Plano Real que é mais criticado por Nassif
é o então presidente do Banco Central Gustavo Franco, acusado de
ter agido em alguns momentos “sem consultar ninguém da equipe”
ao apreciar o câmbio de maneira excessiva, assim como Rui Barbosa
agiu em vários momentos no Encilhamento, ambos são
responsabilizados pelo fechamento das janelas do Encilhamento e do
Plano Real.
Uma
referência muito utilizada no transcorrer do livro é o economista
alemão Friedrich List e o “chute na escada” dado pelas nações
desenvolvidas, segundo List as nações hoje desenvolvidas como EUA
e Inglaterra inicialmente contrariando os pensadores clássicos como
Adam Smith e David Ricardo fecharam seus mercados e defenderam a indústria
nacional sobretaxando os produtos importados, beneficiando assim os
produtos manufaturados internamente. Estes países após atingirem
os pontos mais elevados do desenvolvimento “chutam a escada” do
desenvolvimento para as nações em desenvolvimento e recomendam que
estas sigam as regras liberais das quais supostamente lhes propiciarão
o desenvolvimento almejado, no final provocando maior atraso econômico.
Segundo
Nassif, o Brasil no início da República deveria ter seguido o
modelo de List, e tanto Rui Barbosa quanto Gustavo Franco falharam
nesta empreitada. É neste ponto que reside uma das principais
limitações do livro, pois Nassif insiste em dar mais importância
a Gustavo Franco, subordinado de Pedro Malan (então ministro da
Fazenda), que ao próprio chefe. Não se pode negar que Franco teve
um papel fundamental na apreciação cambial, mas a mesma não
ocorreria sem que Malan soubesse e concordasse.
Por
fim, “no Encilhamento e no Real houve especulação,
enriquecimento de poucos, concentração de renda e pior mataram-se
as duas maiores janelas de oportunidade que a história do país
registrou” (NASSIF: 2007, p. 33). O Brasil não conseguiu desatar
os nós dos seus principais problemas e pelo contrário em alguns
momentos até os intensificou.
Dizer
que apenas nestes dois momentos (Encilhamento e Plano Real) juntos
com o “milagre” na década de 1970, podem ser consideradas as
“únicas janelas de oportunidades” da história brasileira
parece um pouco exagerado, pois o autor deixa de lado o período de
Getúlio Vargas no qual muitas das amarras não desatadas no período
do Encilhamento o foram, assim como também esqueceu do governo
Juscelino Kubitschek.
Mas,
não se pode negar que o Brasil poderia ter aproveitado muito bem
estes dois momentos (Encilhamento e Plano Real), quando tinha um cenário
positivo interna e externamente, que estas janelas fechadas sirvam
de exemplos para as próximas janelas que virão.
por
ROBERTO
SARAIVA ROMERA
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