por
WALDIR
JOSÉ RAMPINELLI
Professor do Departamento de História da
Universidade Federal de Santa Catarina
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PETRAS,
James. Imperialismo e luta de
classes no mundo contemporâneo. tradução de Eleonora Frenkel
Barretto. Florianópolis:
Editora da UFSC, 2007, 206 p. (Coleção
Relações Internacionais e Estado Nacional – RIEN)
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Imperialismo:
ele ainda existe?
O
debate sobre o imperialismo e a luta de classes, abandonado por uma
parte da esquerda e desterrado pela maioria dos pós-modernos,
sempre esteve presente na vida dos povos latino-americanos. Na América
Central, no Caribe e no México, onde o imperialismo se manifestou
de forma mais atuante e visível, os movimentos revolucionários não
apenas tomaram em armas, mas também apresentaram um projeto
nacional para se contrapor ao Estado imperial. Essa luta começou no
final do século XIX e início do XX, com José Martí, em Cuba, que
denunciou a ideologia colonizadora do pan-americanismo; passou por
Emiliano Zapata e Francisco Villa, que expropriaram terras de
estadunidenses em território mexicano para fazer suas reformas agrárias
durante a Revolução de 1910;
continuou com Augusto C. Sandino, que lutou contra a ocupação
estrangeira para construir um Estado nacional na Nicarágua; e
chegou a Che Guevara, que defendeu a tese da criação do segundo e
do terceiro Vietnã para derrotar militarmente o imperialismo.
Hoje,
líderes nacionalistas de esquerda começam a ganhar as eleições
em vários países da América Latina, fazendo-o sobre os escombros
das políticas neoliberais aplicadas a partir de meados dos anos
1970. Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua e a própria
Argentina são os exemplos mais conhecidos. Todos estes governos têm
implementado, em menor ou maior grau, um projeto nacional de
esquerda que se opõe frontalmente ao imperialismo. O Documento de
Santa Fé II (1988), que orientou a política externa do
Departamento de Estado estadunidense, afirmava que “o matrimônio
do comunismo com o nacionalismo, na América Latina, representava o
maior perigo para a região e para os interesses dos Estados
Unidos”.
Acaba
de ser lançado, pela Editora da Universidade Federal de Santa
Catarina, o livro do cientista político estadunidense James Petras
sob o título Imperialismo e luta de classes no mundo contemporâneo. O autor
analisa temas como a base econômica do poder imperial, o
realinhamento de governos latino-americanos a Washington, a ALCA e
sua pedagogia para a opressão, a conexão EUA-Iraque-Israel e o
sionismo, as políticas antiimperialistas com suas diversas formas
de luta e, por último, o grande debate revisitado capitalismo
versus socialismo.
Para
Petras, as empresas multinacionais são um dos eixos que fundamentam
o poder econômico do imperialismo. Os EUA continuam sendo
dominantes em termos absolutos e relativos: contam com 227 (45%) das
500 multinacionais mais importantes, seguidos pela Europa Ocidental,
com 141 (28%), e Ásia, com 92 (18%). Esses três blocos regionais
controlam 91% das principais multinacionais do mundo (p. 12). A dita
globalização, para o autor, pode ser entendida em seu sentido mais
amplo como o poder derivado de tais empresas com sede nos três
blocos citados, o que lhes permite movimentar capitais e controlar o
comércio, o crédito e o financiamento.
Cabe
ressaltar que as multinacionais estadunidenses ocupam os primeiros
lugares na lista das indústrias militares relacionadas com a guerra
e a construção de seu império. Isso significa que a corrida
armamentista vem potencializando sua expansão industrial nas últimas
seis décadas, permitindo aos EUA sair da grande depressão dos anos
1930, em detrimento das atividades industriais. Fred Halliday
denominou “triângulo de ferro” à conexão entre o Congresso, o
Pentágono e o complexo industrial-militar destinado a aumentar os
gastos com a defesa.
Os
EUA e a Europa são dois Estados imperiais que se diferenciam apenas
no método de dominação e exploração. Enquanto o imperialismo
europeu adota uma estratégia diplomática de “comércio-investimento-mercado”,
os EUA utilizam a via colonial militarista; enquanto Bruxelas propõe
um estilo de controle multilateral, consultivo e de cooperação,
Washington lança mão da ação unilateral e do monopólio do
poder; enquanto a Europa busca estabelecer uma cooperação com as
elites dos países árabes e com Israel, Washington – influenciado
pelos sionistas – prioriza uma relação apenas com Tel Aviv.
Ao
analisar a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), Petras
mostra que esta organização “proporciona ao imperialismo
estadunidense um amparo legal e de tomada de decisões para
determinar o comércio, os investimentos, as políticas sobre a
propriedade e a legislação trabalhista, bem como a natureza, o
gasto, a forma e o conteúdo dos sistemas de saúde e educação”
(p. 71). Isso estabelece um novo sistema político, assim como a
base legal para o controle de toda a estrutura socioeconômica da América
Latina.
Petras
também discute o uso da educação pela ALCA como um mecanismo de
transição do neoliberalismo ao colonialismo. O exemplo mais visível
é a interferência do Banco Mundial em favor de um maior
profissionalismo, e contra a ideologia, nos programas educacionais.
Na verdade, o que o Banco Mundial promove é uma ideologia pró-imperial
que prepara tecnocratas para servirem as empresas multinacionais em
oposição a toda idéia
nacionalista.
O
tema central do livro, no entanto, é o relato feito por James
Petras e Robin Eastman-Abaya sobre a conexão EUA-Iraque-Israel e o
sionismo. Os analistas de política internacional costumam afirmar
que o apoio estratégico-militar de Washington a Tel Aviv é
fundamental na manutenção de um Estado forte, belicoso e
expansionista. A doutrina Nixon-Kissinger, ao reconhecer que os EUA
“não poderiam mais fazer o papel de policial do mundo” e que,
portanto, “esperariam que outras nações fornecessem mais guardas
para a ronda de sua própria vizinhança”, atribuiu a Israel, bem
como a outros países, entre eles o próprio Brasil, a função de
atores regionais. Dentro desta perspectiva estratégica, tanto
Israel como o Brasil desempenharam uma função subimperialista
em suas áreas de influência. Hoje, porém, segundo Petras
e Eastaman-Abaya, é Israel que, por meio de sionistas
estadunidenses importantes, detém o poder dentro dos EUA. A Casa
Branca chega a adotar políticas altamente prejudiciais aos seus
interesses, somente com o intuito de beneficiar a Tel Aviv. Um
exemplo é a guerra contra o Iraque, cujo principal beneficiário é
o Estado de Israel, já que conseguiu a destruição de seu inimigo
árabe mais forte no Oriente Médio, ou seja, o regime que dava
apoio à resistência palestina.
Poucos
são os analistas políticos que mostram “a excessiva influência”
que os governos israelenses exercem sobre os EUA, por meio de
poderosos grupos de pressão e indivíduos sionistas nos setores
estratégicos de sua economia, como também no Poder Executivo, no
Congresso, nos partidos políticos, na mídia e no sistema
financeiro. Os mais conhecidos sionistas, segundo Petras e
Eastaman-Abaya, são Alan Greenspan (ex-diretor do Banco Central),
Paul Wolfowitz (ex-diretor do Banco Mundial), Richard Perle
(Defense Policy Board), Douglas Feith (secretário de Defesa
Adjunto), David Frum (redator dos discursos de Bush), Elliot Abrams
(encarregado da Política para o Oriente Médio) e tantos outros.
Petras e Eastman-Abaya analisam, então, vários casos pontuais em
que os interesses dos EUA foram prejudicados para favorecer Israel
(p. 115-120). O mais recente, e de uma enorme gravidade, diz
respeito às Torres Gêmeas, já que os investigadores federais
estadunidenses têm razões para acreditar que o serviço de inteligência
israelense sabia do ataque de 11 de Setembro e não comunicou
Washington porque a Tel Aviv interessava a guerra como justificativa
para destruir seus inimigos árabes. Para ambos os autores, esta
influência exercida por Israel está baseada na diáspora e nas
redes judaicas muito bem estruturadas, que têm acesso direto aos
centros de poder e propaganda do país imperial mais poderoso do
mundo. A relação EUA-Israel é a primeira da história moderna na
qual um país acoberta crimes praticados por terceiros contra si próprio.
Imperialismo
e luta de classes também analisa as políticas
antiimperialistas e sua forma de resistência ao longo do tempo. Se
no período da Guerra Fria os movimentos antiimperialistas eram
rotulados de conflitos entre blocos (socialismo versus capitalismo ou Terceiro Mundo contra Primeiro Mundo), hoje
eles têm uma conotação de exploração de classes. Além disso, a
política econômica imposta pelas autodenominadas instituições
financeiras internacionais (Fundo Monetário Internacional, Banco
Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento) contribuiu
decisivamente para a transformação da estrutura de classe. A execução
seletiva da política de “livre comércio” tem sido determinante
na reestruturação da estrutura de classes urbana e rural. Isso
torna a luta mais ampla e profunda.
Petras
mostra como o imperialismo causou grandes problemas no campo, tais
como o enfraquecimento de pequenos e médios produtores agrícolas
pela política de “livre comércio” que permite a afluência
massiva das exportações agrícolas estadunidenses subsidiadas;
a concentração da propriedade, assim como o deslocamento de
agricultores de subsistência e sem terra, por meio de empréstimos
e ajuda a empresas agro-exportadoras que se especializaram na produção
de produtos de exportação, como soja, café e suco de laranja; o
aumento da polarização por extinguir as restrições sobre a
propriedade estrangeira e acabar com a propriedade comunal da terra,
estimulando a estratificação interna; e, finalmente, a queda de
preços para produtores locais (p. 175-176).
Não
se pode esquecer que o imperialismo também transformou a natureza
do Estado por meio da intervenção militar, da chantagem econômica,
dos golpes de Estado e dos processos eleitorais corruptos, ou seja,
a manipulação de eleições com a ajuda
dos meios de comunicação de massa.
O
Iraque, juntamente com a América Latina, são os lugares em que se
verificam os maiores descontentamentos populares com a pilhagem do
imperialismo e, concomitantemente, com a queda no nível de vida das
pessoas. Os atores deste movimento são, em sua grande maioria,
trabalhadores pobres urbanos e rurais, estudantes de classe média
baixa, professores, religiosos, movimentos sociais radicais, grupos
indígenas e organizações guerrilheiras e estão baseados nos
impactos negativos diretos sobre o nível de vida, empregos, produção
agrícola e controle da política econômica.
James
Petras finaliza seu livro analisando o grande debate que permeou
todo o século XX e continua presente nos dias de hoje: capitalismo versus socialismo. O autor mostra que as decisões econômicas,
assim como as propriedades nacionais, eram de domínio público no
socialismo. Com o colapso deste sistema, as empresas multinacionais
estadunidenses e européias se apropriaram de todas as riquezas dos
ex-países comunistas. Isso tem gerado desemprego em massa, emprego
temporário e uma grande emigração para outras partes do mundo.
Na
Polônia, os antigos estaleiros de Gdansk (onde nasceu o Sindicato
Solidariedade) foram fechados e agora são uma peça de museu. Na Rússia,
a economia foi privatizada e oito oligarcas multimilionários
enviaram para os bancos de Nova York, Tel Aviv, Londres e Suíça
mais de duzentos bilhões de dólares. Os principais beneficiários
do fim da URSS foram os antigos burocratas soviéticos, os chefões
da máfia, os bancos estadunidenses e israelenses, os especuladores
imobiliários europeus, os construtores do império de Washington,
os militaristas e as empresas multinacionais.
Por
fim, Petras compara o agora socialismo cubano com os novos países
capitalistas surgidos no Leste europeu e Ásia meridional
e chega a conclusões, com base em dados econômicos, de que
o “socialismo reformado” de Cuba, apesar do embargo imposto à
Ilha pelos EUA e da crise dos anos 1990, é superior, no índice de
desenvolvimento humano, aos países que transitaram para o
capitalismo com o fim da União Soviética.
Imperialismo
e luta de classes no mundo contemporâneo é um livro polêmico,
atual e instigante, que por certo deverá suscitar muitos debates e,
por que não dizer, paixões também.
por
WALDIR JOSÉ RAMPINELLI
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