por
ALTAMIRO BORGES
Jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB,
editor da revista Debate Sindical e autor do livro “Venezuela:
originalidade e ousadia” (Editora Anita Garibaldi, 3ª edição).
|
|
RESENHA
ROVAI,
Renato. Midiático poder: o caso Venezuela e a guerrilha
informativa. São Paulo: Publisher Brasil, 2007.
______________________________________________
Mídia
venezuelana: golpista e cínica
No
final de junho, o presidente da RCTV, Marcel Granier, esteve em São
Paulo para participar de um ato “em defesa da liberdade de expressão”,
promovido pelos magnatas da mídia do Brasil. A cena foi de um
cinismo depravado. Num suntuoso salão do Hotel Meliá, o empresário
teve a caradura de afirmar que não houve golpe na Venezuela em
abril de 2002, “mas apenas um vazio de poder”. Animado com a
recepção, ele extrapolou: “Nunca ninguém ouviu uma única frase
minha em defesa de um golpe de estado”. Granier só não explicou
porque a sua residência serviu de quartel-general dos golpistas,
porque sua TV convocou abertamente o golpe e porque omitiu a noticia
da revolta popular que garantiu o retorno de Hugo Chávez.
Fora
do hotel, proibidos “democraticamente” de entrar, lutadores
sociais criticaram a visita desta persona non grata. “Com
nariz de palhaço e vendas na boca, eles empunharam cartazes que
diziam: ‘concessão é pública’, ‘liberdade de imprensa é
diferente de liberdade de empresa’, ‘liberdade de expressão
para todos’ e ‘Globo e RCTV: tudo a ver’”, relatou Bia
Barbosa, na Carta Maior. Num manifesto assinado pela CUT,
UNE, MST e outras entidades, a verdade foi restabelecida, lembrando
que Granier promove uma cruzada de “mentiras, calúnias e ódio
contra o legítimo e democrático governo de Hugo Chávez”. O
texto também repudiou a posição “do Senado brasileiro, que
cometeu enorme equívoco ao dar guarida a este golpista”.
Um
livro indispensável
Essa
lamentável visita confirma a importância e atualidade do livro
“Midiático poder: o caso Venezuela e a guerrilha informativa”,
do jornalista Renato Rovai, editor da Revista Fórum. A obra
surge na hora mais oportuna e ajuda a desmascarar de vez a ação
golpista dos meios de comunicação venezuelanos, sempre acobertada
pela mídia brasileira. Ela dá detalhes impressionantes dos golpes
orquestrados pelos jornais e emissoras de televisão do radicalizado
país vizinho. A sua leitura comprova, com fatos, análises e fotos,
que o senhor Granier é um mentiroso contumaz e um fascistinha
convicto – uma persona non grata para todos que prezam a
democracia e não se iludem com a “liberdade de imprensa” dos
magnatas da mídia.
Na
sua minuciosa pesquisa de mestrado, que serviu de base para o livro,
o autor sustenta que não houve apenas um golpe, “midiático-militar”,
na Venezuela. “Alguns estudiosos só consideram como tentativa de
golpe a ocorrida em 11 de abril de 2002, ocasião em que o
presidente Hugo Chávez chegou a ser deposto e encarcerado. Divirjo
deles. Entendo e defendo que, nos meses de dezembro de 2002 e
janeiro de 2003, teve lugar uma outra investida golpista, mais
complexa, mas nem por isso menos totalitária. Com a mídia
capitaneando o processo, realizou-se por dois meses uma ação de
desabastecimento de bens essenciais de consumo, principalmente para
a população mais pobre... Tratou-se um golpe midiático-econômico”.
Foto
do neném pelado
O
rigoroso levantamento sobre a atuação da mídia venezuelana –
expressão radicalizada da conduta deste oligopólio no mundo
inteiro – é impressionante e, até, assustador. Rovai mostra como
os meios privados assumiram a postura de “partidos da direita”
em substituição aos partidos tradicionais e corruptos (AD e
Copei), rechaçados na eleição presidencial do final de 1998.
Clodovaldo Hernandes, na época editorialista do jornal reacionário
El Universal, lembra:
“Desde que Hugo Chávez despontou nas pesquisas de opinião,
articulou-se uma reação da mídia para impedir o seu crescimento.
Quando os meios perceberam que a eleição dele era inevitável,
tentaram uma aproximação. Como não conseguiram, voltaram a atacá-los”.
Uma
das peças publicitárias usadas pelas televisões na véspera deste
pleito mostrava uma cabeça humana sendo cortada e jogada na
frigideira com óleo quente. Ao fundo, uma voz anunciava: “Se Chávez
ganhar, muita gente vai perder a cabeça”. Apesar da violenta
manipulação, 56,24% dos venezuelanos votaram no militar rebelde.
Derrotada, a mídia ainda tentou mudar de tática, procurando
seduzi-lo. “Recordo-me que fiquei num programa de televisão
durante quatro horas ao vivo no dia em que ganhei. Até músicos
tocaram harpas. Mostraram uma foto de quando era neném e estava
pelado brincando. Nem eu sabia da foto. Fizeram de tudo para me
agradar e depois enviaram mensageiros para tentar se aproximar. Mas,
quando comecei a escolher o ministério, passaram a me chamar de
golpista”, relata o próprio Chávez.
“Una
solo voz” golpista
Como
não conseguiu seduzir e enquadrar o jovem presidente, a mídia
passou a investir freneticamente na preparação do primeiro golpe,
“midiático-militar”. Ela inclusive unificou o seu conteúdo
jornalístico, num consórcio conhecido como “una sola voz”.
“Um repórter faz o trabalho para todos os veículos e o tom
editorial é formatado verticalmente. A reportagem é divulgada
pelas emissoras com o mesmo enfoque, o que impede contradições...
Os talk shows e programas
de debate escolhiam a dedo os entrevistados... O direcionamento do
conteúdo, por absurdo que possa parecer, chegava até os programas
humorísticos, que exploravam as mesmas piadas e preconceitos
caricaturais para tratar do presidente”, explica Rovai.
Nas
semanas que antecederam ao golpe de 11 de abril de 2002, as
emissoras de televisão, jornais e rádios criaram um verdadeiro
clima de terror no país. Patrocinaram um locaute patronal e
estimularam violentos confrontos em Caracas, que resultaram em várias
mortes. As passeatas convocadas para derrubar Chávez “eram
acompanhadas por um pool
de TVs que trocaram imagens da cobertura. A vinheta utilizada nas
emissoras para anunciá-las não deixava dúvida a respeito do tom
editorial: ‘ni un paso atrás’. Na marcha do dia 11, a estratégica
midiática é ainda mais agressiva. As emissoras RCTV, Venevisión e
Globovisión transmitem a marcha ao vivo”, durante quatro horas,
suprimindo até as chamadas comerciais.
Confissão
do crime ao vivo
O
golpe já estava todo planejado. As mortes seriam a senha para a
invasão do Palácio Miraflores e para a deposição de Chávez. Um
militar golpista, mais empolgado, acabou confessando o plano numa
entrevista ao repórter da CNN, Otto Neustald. Diante das câmeras,
o almirante Héctor Ramírez afirmou: “O senhor Hugo Chávez Frias
traiu o povo e o está massacrando com franco-atiradores. Neste
momento já se podem contar seis mortos e dezenas de feridas”. A
gravação aconteceu duas horas antes dos conflitos. “Naquele
momento, não existiam mortos ou feridos. Nem confronto armado.
Tampouco era possível saber da existência de franco-atiradores. Héctor
Ramirez e seus colegas golpistas de farda, porém, sabiam de tudo
que ia acontecer. Os meios de informação, que esperavam para
autorizar-lhe a entrada ao vivo, também”.
O
primeiro golpe, entretanto, foi derrotado pelo povo dos morros de
Caracas, que não se deixou ludibriar pela ação nefasta da mídia.
Rádios comunitárias que sobreviveram à perseguição dos
golpistas, celulares, motoboys e internet serviram como instrumentos
para convocar a reação popular. Diante da derrota, os veículos
privados caíram totalmente no ridículo. “Quando ficou claro que
não havia mais como resistir ao contragolpe, o poder midiático dá
o espetáculo final. As emissoras de rádio e TV da Venezuela tiram
seus sinais do ar e provocam o maior apagão informativo da história
da mídia latino-americana até então. Nenhum dos meios comerciais
realizou a cobertura da volta de Hugo Chávez ao Palácio Miraflores”.
“Tríplice
aliança do mal”
Já
no segundo golpe, “midiático-econômico”, os veículos privados
apostaram no desabastecimento para desestabilizar o país. O locaute
petroleiro, patrocinado pela gerência mafiosa da PDVSA, visou jogar
a povo contra o governo. Citando pesquisa da advogada
venezuelana-estadunidense Eva Golinger, Rovai lembra que as quatro
principais emissoras de TV suspenderam a programação habitual nos
64 dias desta greve patronal, inclusive tirando do ar comerciais,
telenovelas e desenhos animados para inserir 17.600 anúncios contra
o governo e de convocação da ação de sabotagem da economia. O
momento do golpe também foi previamente planejado e teve até um
ingrediente internacional, latino-americano.
“Alguns
analistas políticos em programas de debates nas televisões diziam,
sem meio tom, que se Lula viesse a ser eleito haveria uma aliança
entre ele, Hugo Chávez e Fidel Castro. Denominavam o acordo de
‘tríplice aliança do mal’, o que tornaria, na versão desses
analistas, impossível a paz na Venezuela e no continente... ‘A
oposição começou a trabalhar com esse dado para construir um novo
calendário golpista’, comenta o cientista político Elio
Fernandes”. Diante do risco desta virada “esquerdizante” na
região, “o slogan midiático do novo calendário golpista passa a
ser ‘Natal sem Chávez’”.
É com este objetivo que a oposição patronal e sua mídia
convoca nova “greve geral” contra Chávez para 2 de dezembro de
2002.
O
papel da mídia alternativa
Mas,
como demonstra Rovai, o líder bolivariano apreendeu com a primeira
tentativa de golpe. Percebeu nitidamente que ela havia sido bancada
pela mídia hegemônica e não alimentou mais qualquer ilusão e nem
vacilou diante deste poder nefasto. O governo venezuelano passou a
investir nos meios alternativos de comunicação, estimulando rádios
e TVs comunitárias, redistribuindo as verbas publicitárias do
estado e investindo pesado nas emissoras estatais e públicas.
“Quando a economia foi estrangulada e começou a faltar de tudo no
país, desde farinha a gasolina, passando por Coca-Cola e cerveja,
essas emissoras divulgaram reportagens e entrevistas que mostravam
uma outra versão do que estava acontecendo”.
No
segundo golpe, a mídia privada já não dispôs da exclusividade da
informação/manipulação. “Chávez tinha onde falar.
Diferentemente do golpe midiático-militar, o governo contava tanto
com a resistência dos meios de informação alternativa, que se
fortaleceram e se multiplicaram após abril de 2002, quanto com o
fortalecimento da mídia estatal, que proporcionava nova correlação
de forças na disputa midiática”. O poder destes veículos
alternativos também foi decisivo no referendo de agosto de 2004,
quando a mídia privada voltou a se unir numa campanha sórdida para
revogar o mandato de Hugo Chávez. Novamente derrotada, ela acabou
se dividindo. A Venevisión, do bilionário Gustavo Cisneros, optou
por conter a sua fúria golpista. A RCTV manteve a mesma linha – e
agora pagou o preço com o fim da concessão pública.
Marimbondos
e rinoceronte
Além
de denunciar este nefasto poder, que atua impunemente no mundo
inteiro, o livro de Renato Rovai tem como objetivo “chamar a atenção
para o debate sobre democratização da mídia e a responsabilidade
social dos veículos de informação”. Para o autor, ativo
militante dos meios alternativos de comunicação, as novas
tecnologias e o avanço da internet têm permitido a construção de
redes contra-hegemônicas de informação, identificadas com o
movimento altermundista. “Essa nova rede informal pode vir a ser o
que costumo definir, utilizando-se de uma metáfora do escritor
uruguaio Eduardo Galeano, como um bando de marimbondos que, atuando
conjuntamente, poder derrotar um rinoceronte”.
Ao
final do livro, Rovai apresenta um mapa detalhado da mídia
venezuelana e uma extensa lista de sítios na internet que realizam
a “guerrilha informativa” contra a mídia hegemônica. Desta
forma, ele conjuga a denúncia implacável com as alternativas e
disponibiliza uma obra de valor inestimável para a atualidade. Como
afirma Maurício Ayer no prefácio, o livro não é apenas um estudo
de caso que denuncia as tramas no país vizinho. “Não só as forças
golpistas são globalizadas e se estendem muito além das fronteiras
da Venezuela, como também seus ‘métodos de trabalho’ são
semelhantes aos utilizados em diferentes partes do mundo”. A
nefasta atuação da mídia hegemônica no Brasil confirma esta sábia
conclusão!
por
ALTAMIRO BORGES
|
|

|