Reforma
Política
Sugestões
para um roteiro de debates públicos
No
começo do século XX travaram-se debates acirrados entre a
maioria partidária da Reforma Política, considerada o
caminho mais adequado para a mudança social e, por outro
lado, uma minoria composta basicamente por socialistas da
Europa Oriental, que defendia a necessidade de uma revolução
social para tirar o poder autoritário das monarquias e de
seu aparelho de repressão, para reconstruir uma sociedade
justa, baseada na liberdade e na igualdade de todos os seus
cidadãos.
Certamente,
não foi por acaso que os defensores das reformas graduais e
pacíficas foram os líderes da social-democracia alemã
(Karl Kautsky, Eduard Bernstein) enquanto entre os
revolucionários destacaram-se os bolcheviques russos e
social-revolucionários da Europa Oriental.
Não
se pretende, neste texto, proceder a uma análise histórica
e social das trajetórias das duas facções. Os reformistas
ocidentais, firmes defensores do Estado burguês, optaram
pela defesa das respectivas pátrias ao irromper a I Guerra
Mundial enquanto os revolucionários, sobretudo russos e
poloneses, conclamaram abertamente pela recusa do serviço
militar e a derrubada dos regimes absolutistas.
A
hecatombe da I Guerra Mundial enterrou, também, a 2a
Internacional socialista, timidamente ressuscitada após a
queda dos regimes monarquistas na Alemanha, Áustria-Hungria
e Rússia.
Entretanto,
os regimes burgueses que herdaram o caos pós-guerra,
mostraram-se incapazes de reconstruir as economias
devastadas e controlar o processo inflacionário galopante.
Após um curto intervalo de estabilidade econômica irrompeu
a crise de 1929, que preparou o caminho para a ascensão de
partidos totalitários na Itália, Alemanha, Áustria e nos
Bálcãs.
Na
União Soviética (URSS), criada após a revolução de
1917, o poder político dos soviets (conselhos de operários,
soldados e camponeses) foi rapidamente usurpado pelo Partido
(“portador da consciência de classe”) e sua oligarquia.
O exercício de poder efetivo passou do Comitê Central e
Buro Político para as mãos do secretário geral, cujo
reino absolutista lembrava os padrões totalitários da era
czarista.
A
II Guerra Mundial resultou novamente em mais de 50 milhões
de vítimas entre mortos e mutilados, além de refugiados e
expulsos de suas terras, no redesenho do mapa e das
fronteiras no pós-guerra.
Durante
quase meio século, os governos soviético e norte-americano
disputaram a hegemonia mundial através de várias fases da
Guerra Fria, cujas repercussões foram sentidas em todos os
continentes.
O
mundo ocidental e o Japão se beneficiaram do boom
pós-guerra e dos respectivos “milagres” econômicos que
permitiram a concessão de uma série de benefícios sociais
(o welfare state)
que pareciam assegurar a transição pacífica e ordeira
para regimes políticos estáveis e democráticos.
Em
fins do século passado, com o desmoronamento da ex-União
Soviética e dos regimes políticos nos países satélites,
o caminho parecia livre para a marcha vitoriosa do
capitalismo (O fim da História, de F. Fukuyama). Mas, na
virada do Século XXI, a concorrência cada vez mais
acirrada pelas inovações tecnológicas e a concentração
violenta de capitais, trouxe de volta o espectro do
desemprego, e o atraso irremediável dos países do chamado
“Terceiro Mundo”. A estagnação econômica e o
retrocesso social foram particularmente severos na África,
Sul da Ásia e na América Latina.
Durante
várias décadas, aquelas sociedades foram vítimas de
guerras civis, intervenções estrangeiras e ditaduras
militares, apoiadas pelas grandes potências, que armaram e
treinaram seus generais e mercenários. Suas economias
estagnaram, os capitais fugiram para paraísos fiscais e as
populações civis foram massacradas pelos grupos de
soldados e mercenários rivais.
A
restauração de regimes democráticos a partir da década
de oitenta do século passado foi tímida e dominada pelas
forças políticas tradicionais, mantendo inúmeros
dispositivos legais que favorecem as antigas e novas elites
de poder. Isso resultou em um regime de democracia formal
supostamente representativo de todos os membros da
sociedade. O Estado moderno, ancorado na democracia, garante
a liberdade individual. Mas a democracia formal e
representativa se mostrou pouco capaz de assegurar o
controle dos cidadãos sobre os rumos e o comportamento político
das velhas e novas oligarquias, inclusive dos partidos que
se autodenominam democráticos, republicanos, liberais,
trabalhistas e até socialistas.
No
Brasil, a própria classe política, dividida entre os
“donos do poder” tradicionais, os proprietários de
terras e latifundiários aliados com as novas elites
financeiras, corporativas e tecnocratas está hesitando e
oscilando em seu clamor por uma reforma política que
poderia alterar o precário equilíbrio de forças,
resultado das últimas três eleições presidenciais –
1998, 2002 e 2006. Grande parte da oposição, literalmente,
esfacelou-se, aderindo ao bloco governista na expectativa de
ser contemplada com ministérios, cargos de confiança e
outras benesses da proximidade do poder executivo.
Curiosamente,
após a vitória eleitoral em 2006, o presidente Lula
declarou como tarefas prioritárias do “novo” governo, a
reforma política e tributária. Poucos dias depois, o então
ministro das Relações Institucionais e, atualmente,
ministro da Justiça pontificou que para a governabilidade não
haveria necessidade de uma reforma política, acenando,
assim, com uma acomodação da classe política às
propostas e planos do Executivo, conquanto a distribuição
dos cargos e mordomias deles decorrentes fosse adequada e
satisfatória para os partidos. Mas, de que partidos se
trata e a quem eles representam?
Em
seu estudo “Partidos, Ideologias e Composição Social”,
Leôncio Martins Rodrigues (2002) lista seis partidos que
somam 431 deputados, ou seja, 84% do total dos
representantes eleitos. Considerando PFL (atual DEM) e PPB
da direita, PMDB e PSDB do centro e PT e PDT da esquerda, a
Câmara de 2002 oferecia uma divisão de forças
favorecendo, claramente, a aliança da direita com o centro
(68%) como oposição ao bloco governista de 16%.
A
vitória de Lula no 2º turno das eleições de 2006 alterou
profundamente o quadro político, com o esfacelamento da
direita e a adesão do centro ao bloco governista que dispõe
não somente de um altíssimo índice de aprovação
popular, mas também uma confortável maioria na Câmara de
deputados para conduzir sua política de pacificação e de
consenso.
Tentaremos,
a seguir, apontar os vícios do sistema eleitoral e partidário,
dos quais resultam inúmeras incongruências e falhas
reclamando urgentemente uma reformulação das regras do
jogo para que a sociedade caminhe em direção a uma
democracia mais participativa, assegurando o bem estar e os
plenos direitos humanos a toda a população.
O
ideal seria instituir e fortalecer a democracia
“direta”, sem mediação institucional, lançando as opções
de referendo, plebiscito e iniciativas populares,
inicialmente em nível local e micro-regional.
Nas
democracias mais tradicionais como na Europa Ocidental e
Central, a população é chamada, periodicamente, a cada
quatro ou cinco anos, a manifestar sua confiança e preferência
por determinados candidatos para governar o país. Os
principais candidatos, dois ou três, são líderes de seus
respectivos partidos selecionados mediante demorado e
complexo processo, durante o qual têm oportunidade de expor
e defender suas críticas ao governo atual e suas propostas
e planos, caso sejam eleitos.
Como
conduzir democraticamente este processo de eleições primárias
com mais de vinte partidos legalmente registrados na Justiça
Eleitoral, portanto, com direitos de tempo de propaganda
gratuita no rádio e na TV, e de arrecadar recursos
financeiros de fontes privadas e oficiais para sustentar
suas campanhas?
Qual
é o conteúdo ideológico e programático dessas agremiações,
a não ser a defesa de interesses individuais e grupais
liderados por caciques regionais?
Como
reduzir o número de partidos para evitar os logros e
falsidades ideológicas cometidos pela maioria dos
candidatos, que chegam a mudar várias vezes sua filiação,
em desprezo flagrante da absurda “fidelidade partidária”?
A
discussão do quorum
mínimo de eleitores, (5%), em várias Unidades da Federação
para que os partidos apresentem seus candidatos exige também
a redefinição do sistema eleitoral quanto às
candidaturas. Seriam candidatos individuais, na maioria
desconhecidos pelo eleitorado ou cada partido estabeleceria
sua lista conforme procedimentos consensuais e
regulamentados pela Justiça Eleitoral?
Alguns
países têm adaptado o sistema misto, com voto individual
ou por lista e, sobretudo, distrital o que permite ao
eleitor mais conhecimento e acesso ao seu candidato, caso
seja eleito.
Um
limite à mudança de sigla partidária durante sua
legislatura, deverá constar do compromisso dos candidatos
sujeitos a sanções da Justiça Eleitoral, em casos de
rompimento. Uma proposta de “Código de Defesa do
Eleitor”, elaborado por Percival Maricato, membro do PNBE
– Programa Nacional de Bases Empresariais, sugere uma série
de medidas capazes de reforçar o controle e o
acompanhamento do desempenho dos candidatos, uma vez
eleitos. Desde uma censura quando o desempenho for
considerado insatisfatório – falta de propostas,
projetos, ausências nas sessões parlamentares e/ou votos
contrários aos interesses de população – poderia ser
seguido de referendo popular, plebiscito e até uso do poder
convocatório, a ser definido por Lei.
Mas,
numa democracia formal e representativa caracterizada por um
sistema eleitoral viciado e distorcido, quem vai votar e
zelar pelo cumprimento dessas normas restritivas neste mesmo
Congresso?
Pela
Constituição, cada Unidade da Federação tem no mínimo
oito deputados, independentemente do número de habitantes e
eleitores. Assim, Acre, Amapá, Distrito Federal, Mato
Grosso do Sul, Rondônia, Roraima, Sergipe e Tocantins têm
64 deputados. Se fosse considerado o quociente eleitoral,
teriam apenas 31 no conjunto de 513 deputados.
Quem
paga esses deputados e seus votos? Sem programas, idéias ou
propostas outras de que elevar sua remuneração, (vide os
casos da reeleição de FHC, mensaleiros e sanguessugas)
como mudar as regras do jogo pelo voto desses mesmos
deputados e senadores que estão atrelados aos
“financiadores” de suas campanhas. Uma vez eleitos
devolvem os investimentos sob forma de contratos vantajosos
para empreiteiras ou bloqueio de projetos contrários aos
interesses dos cultivadores de tabaco, bebidas alcoólicas,
remédios, transgênicos etc. Estima-se que para se eleger
deputado são necessários 1,5 milhões de reais, para
senador 2,5 milhões, governador 15 milhões e para
presidente 30-50 milhões.
O
senado brasileiro é composto por 81 senadores, três de
cada estado, enquanto nos Estados Unidos, com uma população
de mais de 300 milhões, cada unidade elege apenas dois
senadores.
Caberia
a uma Reforma Política contemplar ações e medidas como:
 |
Redução
do número de partidos, definindo o quorum
mínimo de eleitores. |
 |
Melhor
Informação do
eleitorado sobre os candidatos a cargos públicos. |
 |
Estabelecimento
de regras para manter um período mínimo de
“fidelidade” partidária. |
 |
Regulamentação
do financiamento das campanhas eleitorais e controle das
contribuições de empresas privadas, através do
famigerado “caixa dois”. |
 |
Estabelecimento
de normas que assegurem a idoneidade dos candidatos a
cargos públicos, tais como folha corrida ou, não ter
processos pendentes em tramitação na Justiça para
evitar, caso eleito, o direito a imunidade parlamentar e
fórum privilegiado na Justiça. |
 |
Declaração
de bens, antes de assumir e ao concluir o mandato. |
 |
Avaliação
das condições de elegibilidade dos governantes e
representantes . |
 |
Devida
avaliação da experiência administrativa e/ou política
anterior do candidato . |
 |
Declaração
de bens à Receita Federal, no início e no fim do
mandato. |
 |
Apresentação
de folha corrida, atestado de bons antecedentes, ou
seja, nenhuma condenação por atos lesivos, malversação
de fundos, e outras pendências na Justiça. |
 |
Impedimento
da eleição de políticos com processos pendentes que
se arrastem durante anos na Justiça, devido a
morosidade do sistema e a habilidade dos advogados em
impetrar recursos, liminares, mandato de segurança, habeas
corpus etc, que obstruam o andamento normal do
processo. |
 |
Controle
dos gastos será exercido não somente pelos órgãos
oficiais – CGU, TCU, TCM – mas também por Conselhos
Populares via SIAFI. |
 |
Coibição
da mudança de filiação partidária sem consultar o
eleitorado. |
No
caso de constatação de irregularidades na execução de
obras públicas e nos gastos, deve funcionar um mecanismo de
afastamento do mandato, por referendo ou consulta popular,
enquanto corra o processo na justiça, tirando dos réus a
imunidade parlamentar. O mesmo procedimento deve ser adotado
em casos de transgressão da lei e crimes mais graves,
levando à revogação imediata do mandato, que seria uma
medida para verificar a coerência do programa dos partidos
e seus representantes e permitiria evitar fenômenos
estranhos como a compra de votos pelo Executivo para
assegurar a aprovação de leis de seu interesse (vide os
mensaleiros).
 |
O
candidato eleito terá obrigação de prestar contas
periodicamente, de propostas, pronunciamentos ou
projetos encaminhados durante cada ano. |
 |
Presença
(ausência) nas sessões do Legislativo e divulgação
do voto obrigatoriamente aberto, a fim de permitir aos
eleitores o acompanhamento do desempenho dos
parlamentares, prevendo a possibilidade de revogação
do mandato. |
 |
Impedir
as práticas de nepotismo, sobretudo nas nomeações
para cargos de confiança que dispensam concurso público.
Atualmente, são mais de 120.000 cargos nos três níveis
de poder que constituem objetos de cobiça e das negociações
entre os governos (municipal, estadual e federal) e os
partidos da coalizão. A contratação de familiares,
parentes, funcionários e cabos eleitorais com recursos
públicos será terminantemente proibida, uma vez
divulgadas essas práticas à sociedade. |
 |
Alteração
na Lei Eleitoral no sentido de definir pelo menos uma
certa proporção de candidatos eleitos por voto
distrital, o que permitirá maior controle do eleitorado
sobre seus representantes. Para o funcionamento do voto
distrital ou misto – individual, por lista e distrital
– é essencial que haja uma democratização prévia
da própria vida partidária, na seleção dos
candidatos. |
Como
medir a produtividade ou o desempenho no exercício da função
pública?
A
mídia virtual permite acompanhar o desempenho de cada
representante, e sua freqüência ou ausência nas sessões
parlamentares.
Por
que a corrida atrás de cargos públicos, mesmo sabendo que
a soma de remunerações/vencimentos durante os quatro anos
do mandato nunca iria cobrir os gastos da campanha
eleitoral?
 |
Estima-se
que o número de cargos de livre provisionamento sem
concurso se eleva a aproximadamente 120.000, incluindo
os assessores e assistentes dos parlamentares desde
vereadores até senadores. |
 |
Ademais,
o sistema em vigor (embora freqüentemente criticado)
permite a contratação, para cargos de confiança, de
parentes (nepotismo), de funcionários destacados para
tarefas estranhas ao legislativo, como por exemplo, a
atuação como cabos eleitorais, preparando a próxima
campanha eleitoral. |
 |
Criam-se
verdadeiras dinastias à semelhança de heranças da
propriedade rural no tempo do império e da colônia, em
que filhos e até netos são preparados para seguir a
carreira política, herdando, inclusive, o curral
eleitoral do coronel patriarca. |
Por
isso, parece imperiosa a análise da composição socioeconômica
dos detentores de cargos públicos, segundo
 |
origem
regional; |
 |
partido
de origem e as mudanças de filiação; |
 |
nível
de instrução ou de formação profissional; |
 |
atividades
profissionais antes de ingressar a política; |
 |
faixa
etária – atual e ao iniciar a carreira política; |
 |
tempo
de serviço/função em cargo público; |
 |
gênero; |
 |
relação
de parentesco com outros políticos que permitem troca
de favores em nomeação para cargos; |
 |
“ideologia”,
ou pronunciamentos referentes à região, distrito e União; |
 |
defesa
de interesses corporativos como das indústrias
automobilísticas, química (fertilizantes), tabaco,
soja, cana, carne, farmacêutica etc. |
No
comportamento político dos representantes das oligarquias
destaca-se:
 |
A
obstrução de legislação de interesse dos
trabalhadores, pequenos lavradores, população indígena,
MST etc. |
 |
Usurpação
ou grilagem de terras nas regiões próprias a
monoculturas de soja, cana, gado, desmatamento. |
 |
Apropriação
indevida dos recursos naturais, terras, águas,
minerais, flora. |
 |
Relatório
ambiental (EIA/RIMA) obrigatório e concessão de licença
pelo IBAMA para a construção de grandes obras, tais
como hidrelétricas, estradas, portos para subsidiar
energia aos produtores de alumínio, aço e produtos químicos. |
 |
No
espaço urbano: sustar e vetar qualquer projeto de
zoneamento irregular e regulamentar o uso do solo para
evitar construções imobiliárias irregulares de
elevados custos sociais, ambientais e econômicos para a
comunidade. |
 |
Apropriação
irregular das riquezas material e simbólica – mídia,
TV, rádio, editoras. |
 |
Funcionamento
de lobies
poderosos no Congresso que criam vantagens para aplicações
financeiras (isentas de impostos) e a livre entrada e saída
de capitais, gerando verdadeiras fortunas acumuladas ao
longo de gerações. |
Às
velhas oligarquias de latifundiários e coronéis do império
vieram juntar-se as novas oligarquias de fazendeiros
engajados na produção de commodities para a exportação, integradas por grandes corporações
nacionais e internacionais. Juntaram-se às oligarquias econômicas
os grupos e famílias políticas que se perpetuam no poder
através de gerações, de pais para filhos e netos.
Afinal,
quem manda na política no Brasil?
A
bancada ruralista, os representantes dos coronéis do
nordeste, os lobies das indústrias automobilística, química e farmacêutica,
armas, bebidas e outras.
Em
vez de aferir renda per
capita deve-se avaliar o patrimônio acumulado per
capita, como indicador de desigualdade.
O
mundo político vive dissociado da sociedade, haja vista as
pretensões e reivindicações para elevar os vencimentos
dos deputados, juízes e vereadores em proporções múltiplas
de reajustes concedidos a imensa maioria da população
assalariada. Certamente, confundem seus interesses
particulares com os da Nação.
As
eleições continuam a ocorrer em currais eleitorais,
dificilmente acessíveis à mídia e ao conhecimento
popular.
Como
assegurar então o voto melhor informado? Por quê a mídia
dedica todo seu espaço a um noticiário viciado pelo
consumismo ou a violência, sem reportar as lutas e
conquistas das comunidades? Como organizar a população
civil para criar seus conselhos – de saúde, educação,
segurança pública etc exercendo pressão sobre os
governantes?
Ao
engajar-se nesta luta, a mídia prestaria um serviço
inestimável permitindo o acesso da população às informações
essenciais ao bom funcionamento da democracia.
Cabe
ao povo, e não ao Congresso, decidir sobre a duração dos
mandatos conferidos em eleições. Seriam quatro ou cinco
anos? Haveria legitimidade na reeleição? A norma de alternância
no poder, dificultando a recondução de dirigentes após
cumprir seu mandato, pode criar espaço e dar acesso à
juventude, mulheres e outros grupos minoritários.
As
propostas apresentadas na Câmara variam de quatro, cinco ou
seis anos, argumentando-se pelas vantagens da coincidência
dos mandatos. Mas uma questão central é a duração dos
mandatos: Mal iniciado o segundo mandato do governo Lula está
aceso o debate sobre a prorrogação e possível reeleição
para cargos do Executivo.
As
propostas de vigência de mandato variam de um país para
outro e obviamente não há consenso sobre uma norma única.
Por
que reeleger um presidente, governador ou prefeito? Se o
regime for democrático, deverá permitir revezamento no
poder de partidos, com ideologias e programas diferentes e
inovadores. Mas, eis que o presidente Lula declarou: “em
time que vence (sic) não se mexe”.
Outro
ponto polêmico é a coincidência das datas de eleições,
o que permitiria (em tese) uma ampla discussão de problemas
e soluções propostas pelos partidos e seus candidatos.
Todo
o sistema financeiro deve estar aberto à prestação de
contas dos gastos individuais e dos partidos – a semelhança
do SIAFI, hoje à disposição do público para acompanhar e
fiscalizar os gastos do Executivo federal, estadual e
municipal.
A
abertura ao público das contas – gastos e arrecadação
– e as despesas incorridas com as obras, projetos e
programas significaria maior controle da sociedade sobre o
uso de seus recursos.
No
debate a ser conduzido permanentemente, a questão central
será “que tipo de sociedade queremos construir?”
Posto
que a maioria dos “representantes” do povo, no
Legislativo, Executivo e também no Judiciário são
visceralmente conservadores, caberia um papel fundamental à
mídia para suprir as informações e auxiliar a sociedade
no controle de seus governantes.
Um
balanço dos desafios e problemas políticos no caminho da
construção de uma verdadeira democracia poderia facilmente
desencorajar os cidadãos preocupados com o futuro da
sociedade.
Não
são poucas as vozes saudosistas que clamam por maior rigor
e repressão ao crime e a corrupção supostamente em vigor
durante o regime ditatorial. Por isso, é preciso redefinir
a legislação criminal e as sanções impostas em defesa da
sociedade.
Tradicionalmente
o crime era considerado em estreita associação com a
pobreza ou minorias étnicas. Porém, o cenário político
revela a cada dia os crimes de “colarinho branco”, com
envolvimento de políticos, juízes, desembargadores,
delegados de polícia e, freqüentemente, as “tropas” de
policiais civis e militares associados aos criminosos de tráfico
de drogas, armas e exploração de jogos ilegais.
Em
caso de corrupção ou prevaricação com prejuízos para o
Tesouro Nacional, deve-se aplicar o “recall” ou a revogação
do mandato, já em uso em alguns distritos eleitorais, na
Califórnia e nos países escandinavos.
Em
retrospectiva histórica dos últimos cinco-seis milênios
de existência de sociedades humanas organizadas, somente
nos últimos 300 anos surgiram idéias e práticas
relacionadas com o ideal de uma democracia moderna.
O
mundo europeu, centro da então civilização, estava
dominado por algumas dezenas de autocratas ou monarcas
absolutistas; alguns dos quais entraram na história como
“déspotas esclarecidos”.
Comparada
àquela época, a humanidade avançou e conquistou não
somente territórios, mas desenvolveu novos conhecimentos e
tecnologias que estão na origem das sociedades de massas
modernas, com todos os seus problemas e também, suas
potencialidades, tanto construtivas quanto destrutivas. Várias
idéias e propostas devem ser consideradas:
A
tecnologia moderna da informática tem o potencial de
difundir o embate de idéias e ideologias na internet em
todos os bairros e distritos; o que permitiria o
acompanhamento e a crítica das oligarquias e dos partidos
presentes no Congresso.
Postulamos,
em oposição à visão materialista e mecanicista que
enfatiza as relações de produção (a infra-estrutura)
como fator determinante da vida em sociedade –
ou seja, também das diversas manifestações da
cultura como a arte, religião, filosofia, enfim, a
superestrutura – a supremacia do fator político como
regulador das relações sociais, inclusive a alocação
diferenciada de recursos financeiros para investimentos na
infra-estrutura.
A
lição a ser aprendida da evolução política dos últimos
três séculos é que o futuro não é predeterminado, nem o
produto da ação de poderes sobrenaturais. O destino está
em nossas próprias mãos à condição que alcancemos níveis
de consciência e de motivação para a construção de uma
sociedade humanitária e solidária.
Queremos
uma democracia baseada na participação, co-gestão e até
autogestão, através da mobilização da sociedade civil
organizada, com poderes de monitorar e fiscalizar as políticas
púbicas e garantir seu caráter universal e redistributivo.
Para isto é preciso fortalecer os movimentos sociais em
defesa da cidadania, criando conselhos municipais de educação,
saúde, habitação, transportes, saneamento e lazer e
prestar ouvidos e atenção às reivindicações dos
sem-teto, desempregados, sem-terra e todo aquele imenso exército
de trabalhadores no mercado informal.
Em
outras palavras, é urgente reunir toda a sociedade em torno
da “utopia” de um desenvolvimento caracterizado por
justiça social, promoção de igualdade, proteção de meio
ambiente, enfim, uma melhor qualidade de vida.