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por
PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil


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Sugestões
não solicitadas: algumas idéias para um congresso diferente
Congressos
partidários raramente são feitos para tomar decisões: geralmente
se aprova o que está previamente decidido, já acertado nos
bastidores, e o resto é uma festa para os congressistas:
“turistas políticos” com despesas pagas no local do evento,
alguns satisfeitos ao encontrar velhos amigos, a oportunidade de
conhecer alguma nova cidade e depois dá-lhe a tocar a vida como
antes. Mas isso ocorre com partidos “normais”, não com aqueles
que possuem causas verdadeiras a defender, ou teses a debater, como
parece ser o caso de um grande partido nacional, neste final de
inverno de 2007. Existe um, em especial, que possui partidos dentro
do partido, ou melhor, seitas, tribos, clãs e outros agrupamentos
que se digladiam verbalmente, bombardeando os demais com suas teses
e propostas de resoluções. Métodos saudáveis, desde que eles não
cheguem às vias de fato, com conseqüências sempre indesejáveis e
surpreendentes.
Em
fevereiro de 2006, em previsão do congresso desse partido, em abril
– depois adiado –, escrevi um artigo, “As novas teses de
abril: sugestões para o próximo encontro nacional de um grande
partido” (Revista Espaço
Acadêmico, nº 57 ),
no qual pretendia oferecer, de modo voluntário, algumas sugestões
para debate e aprovação nesse encontro. Se tratava de algo
deliberadamente provocador, como acontece com alguns textos meus que
tratam da conjuntura política. Nunca tive a ilusão de que minhas
sugestões fossem ser lidas, menos ainda acatadas, o que não me
impede de continuar fazendo-as, por uma espécie de motivação
interna, animado pela convicção de que é isto que preciso fazer,
como forma de prestar contas a mim mesmo.
O
que eu me propunha, um ano e meio atrás, era relativamente simples,
mas como eu alertava, em seguida, esse propósito era,
aparentemente, mais complicado: se tratava de derrubar teses
antiquadas sobre o capitalismo, nacionalizar campanhas eleitorais
– excessivamente dominadas por métodos de marketing político de
inspiração americana –, estatizar a ética no espaço público,
dissolver práticas inaceitáveis de arrecadação de recursos,
expropriar as excessivas verbas de gabinete concedidas aos
“representantes” do povo, abolir a hipocrisia parlamentar e,
mais importante, fundar um novo sistema político-partidário que
reintroduzisse a moralidade na vida pública brasileira.
Minhas
“teses”, resumidamente, eram as
seguintes:
1.
O partido não é socialista, e sim reformista.
2.
O partido adota uma política econômica responsável e pró-mercado.
3.
O partido quer uma reforma política que transforme o modo de ação
do Estado.
4.
O partido não quer um Estado mínimo, mas um Estado que
funcione.
5.
Contra a derrama fiscal: o partido quer redução de impostos.
6.
Por uma nova classe trabalhadora, livre da mão pesada do Estado.
7.
O partido é, doravante, globalizado e favorável à globalização.
8.
O partido se pauta, no plano externo, exclusivamente pelos
interesses nacionais.
Creio
que essas teses – a serem conferidas em sua versão integral no link referido –
continuam plenamente válidas e não pretendo revisá-las ou sequer
corrigir ou rejeitar qualquer uma delas. Talvez conviesse, em vista
de desenvolvimentos recentes, agregar algumas mais, para atender às
necessidades do momento.
Dessa
forma, eu acrescentaria estas novas teses:
9. A ética está de volta, rapazes, vamos abandonar
antigos hábitos.
Está
certo que os dirigentes do partido tiveram uma vida clandestina, nos
tempos da ditadura, quando se precisava maquiar documentos e
conseguir dinheiro de amigos do exterior, sem declarar na alfândega.
Mas agora, quando vivemos em democracia, já não faz mais sentido
manipular “recursos não contabilizados”, nem esconder dinheiro
na cueca, ou transportar dólares em caixas de uísque. Não se
pode, tampouco, fazer como os partidos burgueses, que vivem em
promiscuidade com os donos do capital e que, por isso mesmo, são
obrigados a manter “caixa 2” e a colecionar notas fiscais
falsas. Ainda menos justificável é aquela prática que antigamente
se conhecia como “expropriação” – supostamente praticada
contra os ativos do capital financeiro e os do “Estado burguês”,
para financiar o movimento revolucionário – e que hoje vem
servindo, na verdade, para enriquecer pessoalmente alguns
companheiros.
O
partido se compromete com a lisura estrita dos procedimentos, como
se dizia antigamente, e passará a exibir, doravante, uma
contabilidade impoluta e hábitos castos. Melhor passar a viver como
eremitas do que dar a impressão de se entregar à devassidão e à
esbórnia. Esses programas de restaurantes caros e encontros em
casas alugadas não são compatíveis com um orçamento franciscano,
como deve ser o do partido.
Além
do mais, a ética nos “negócios públicos” – alguns são
considerados por muitos como sendo exatamente isso, negócios –
passou a ser uma exigência crescente da sociedade, hoje
ainda muito restrita à classe média, mas crescendo cada vez mais.
Temos de reconhecer isto e proclamar, como antes da conquista do
poder, que a ética política e uma forma diferente de fazer política
são marcas registradas do partido.
10. Eficiência na gestão pública deve começar em
casa, com práticas responsáveis.
Não
se trata apenas manter a contabilidade organizada, segundo velhos
princípios de transparência e fiabilidade dos números, mas do
desempenho administrativo que tem deixado a desejar na gestão do próprio
partido. Não muito tempo atrás, tivemos de enfrentar greves e
reivindicações trabalhistas por desajustes na administração do
nosso próprio patrimônio. Assim sendo, se alguns companheiros se
revelam incapazes de gerir adequadamente o pessoal e os recursos
financeiros de uma entidade tornada gigantesca pela sua aceitação
popular, melhor seria, talvez, terceirizar algumas dessas tarefas
com o duplo objetivo de economizar sobre os meios para priorizar os
fins e de tornar mais profissional essa gestão burocrático-administrativa.
Esse
tipo de preocupação com a eficiência na condução dos processos
burocráticos e no desempenho administrativo de áreas técnicas
deveria estar presente, a mais forte razão, no âmbito do
Executivo, uma máquina complexa e bem mais do que enorme,
gigantesca, cuja direção exige competências específicas nos
setores em que se divide. Já sabemos, por tristes experiências do
passado recente, que incompetência e amadorismo podem redundar em
perda de vidas humanas, infelizmente irrecuperáveis. Ainda que a má
gestão de outros ativos – estradas, hospitais, escolas – possa
ser sanada em qualquer época, sabemos também que o mal causado aos
usuários numa determinada conjuntura está feito e dificilmente será
reparado em vista dos prejuízos já causados a eles, seja enquanto
adolescentes praticamente analfabetos, seja transportadores com seu
caminhão danificado, ou ainda uma doença mal cuidada, que pode
tornar-se crônica ou evoluir para uma fase ainda mais perigosa.
Por
isso mesmo, o partido passa a repudiar a prática do aparelhamento
partidário da máquina pública – inaugurada pelos partidos
burgueses e pelos políticos fisiológicos desde tempos imemoriais
– e consagra a competência técnica e o mérito individual como
principais critérios para o preenchimento de cargos no sistema
estatal. Mais do que isso: o partido recomenda um drástico
enxugamento do número de cargos ditos de “confiança”, que nada
mais são, em muitos casos, do que a confiança de que todos se
sentirão tranqüilos com a falta de cobrança por desempenho de
missão administrativa. É inadmissível constatar que, a cada troca
ministerial, novos e velhos abutres se lançam à disputa dos mesmos
despojos estatais, como se se tratasse de uma carniça disponível.
11. Que tal um pouco mais de ciência, e menos ideologia?
Nossos
amigos – e aliados – universitários estão cada dia mais
incomodados com o festival de obscurantismo revelado por certos
movimentos ditos sociais que, a pretexto de combater o agronegócio,
conduzem uma verdadeira cruzada medieval contra práticas de
pesquisa e experimentação genômica cujo único objetivo é atuar
no sentido de criar novas espécies de plantas e animais –
acelerando, em alguns casos, o velho princípio darwiniano da seleção
natural, em outros inovando absolutamente – que vão melhorar o
bem-estar de populações inteiras, tanto ao reduzir o volume de
agentes tóxicos usados na atividade agrícola, como ao aumentar o
teor nutritivo, e a segurança, de alimentos que consumimos
cotidianamente. Existe também a imensa gama de procedimentos na área
médica e farmacêutica que se beneficia enormemente da pesquisa
biotecnológica, hoje estigmatizada irracionalmente por trogloditas
modernos disfarçados em defensores dos pequenos agricultores (que,
diga-se de passagem, também se beneficiam com novas técnicas de
cultivo).
Triste
espetáculo esse de camponeses analfabetos, manipulados por
militantes sem escrúpulos (e sem qualquer conhecimento dos
mecanismos básicos da biotecnologia), invadindo laboratórios e
campos experimentais, destruindo anos de pesquisa científica e
colocando por terra, literalmente, os esforços de colegas da
academia. Por isso mesmo, devemos dar um basta a essas campanhas que
não possuem o necessário embasamento científico para opor-se aos
legítimos progressos da ciência, sendo mais representativas do
preconceito ideológico ou da ignorância pura e simples. Estamos
agora do lado do progresso científico e não aderimos à paranóia
dos novos ludditas.
12. Vamos premiar o mérito e esquecer o assistencialismo
barato.
O
reconhecimento de algumas reivindicações setoriais e o
atendimento, de forma pouco refletida, de certas reivindicações de
minorias, nos levou a estabelecer políticas ditas de compensação
ou de “discriminação positiva”, que pouco a pouco redundaram
na “produção” de uma imensa gama de “deserdados”, que
aumenta a cada dia, como se os problemas sociais estivessem
aumentando, em lugar de diminuir paulatinamente. O mais preocupante
é que, algumas políticas, feitas para combater iniqüidades históricas,
vêm produzindo novas iniqüidades, como a de certos “quilombos
urbanos”, descobertos oportunisticamente por profissionais da
mobilização. Pior, medidas desenhadas para combater a desigualdade
racial, correm o risco de criar um tipo de “apartheid” que nunca
existiu no País, aquele que pretende separar a cultura inclusiva
brasileira, plástica e absorvedora, de uma suposta cultura
“afro-brasileira”, que só existe na imaginação dos promotores
do novo apartheid.
Merece
igualmente reflexão a metodologia adotada para minimizar a pobreza
e a miséria, feita de alocações automáticas para cadastrados –
politicamente, já que a cargo de lideranças locais – sem
contrapartidas satisfatórias ou sem o desejável envolvimento dos
assim assistidos com programas de educação e de qualificação técnico-profissional.
A melhor forma de combater a desigualdade social, ensinam
especialistas, é a criação de programas voltados para a inserção
produtiva no mercado de trabalho, podendo gerar novas fontes de
renda e riqueza, em lugar de apenas sustentar a demanda dos miseráveis
com essas alocações. Elas não apenas distorcem o mercado de
trabalho – e só não são inflacionárias, em termos de oferta
alimentar, em função da pujança do agronegócio – como também
correm o risco de serem classificadas sob a rubrica de curral
eleitoral.
13. Certos amigos, dos velhos
tempos, ficaram realmente parados no antigamente.
Parece
incrível, mas em nossa região, aqui mesmo no país, certas pessoas
possuem a inacreditável capacidade de retroceder, em lugar de avançar
em direção do futuro. Os exemplos são inúmeros, sendo os mais
notórios aqueles casos de velhos nacionalismos que se manifestam na
(re)estatização de recursos minerais, no estabelecimento de novos
monopólios públicos em setores – minas, refinarias, transportes,
comunicações – que já estavam funcionando a contento em regime
de concessão ou de privatização pura e simples. Não se
compreende como países pobres, como certos vizinhos regionais, que
deveriam estar investindo na educação das crianças
desfavorecidas, em obras de infra-estrutura, em hospitais e segurança,
concedam em torrar o dinheiro público comprando ativos de proprietários
privados, nacionais ou estrangeiros, que já estavam atendendo à
demanda local em suas áreas de atuação.
O
mais incompreensível ainda é ver Estados investindo na produção
e distribuição de bens de consumo corrente, quando se sabe, desde
longo tempo, que o setor privado é bem mais eficiente nessas
atividades típicas de mercado. Em princípio, o Estado deveria
estar gastando o dinheiro dos cidadãos em obras e serviços que
apenas ele é habilitado a fornecer – como saúde, educação e
infra-estrutura, além de segurança e justiça –, não na oferta
de produtos cuja produção envolve fatores livremente disponíveis
na sociedade. Esse desvio de funções geralmente redunda em gastos
inúteis, burocracias ampliadas – e a inevitável corrupção que
as acompanham – e carência de recursos nas áreas de fato críticas
do ponto de vista dos bens públicos. O socialismo, pelo menos o do
século XX, já fez seu teste nos laboratórios da história e os
resultados não foram exatamente o que se esperava, estritamente em
termos produtivos (sem considerar aqui o custo humano do
empreendimento, em termos de liberdades civis e direitos democráticos).
Não se sabe bem como o “socialismo do século XXI” poderá
superar velhos problemas conhecidos dos engenheiros sociais.
Por
todas essas razões, o partido adota como filosofia o pragmatismo na
gestão econômica e o bom senso na organização política, sem
qualquer pretensão à volta dos dinossauros estatais ou centralização
da vida política sob a forma de um partido único, como atualmente
tentado em países vizinhos menos felizes. Nosso partido também
considera anacrônica a campanha pela anulação da privatização
de uma gigante do setor mineral e acredita que essa tentativa
significa, simplesmente, fazer rodar para trás a roda da história,
numa atitude puramente reacionária e revanchista que em nada condiz
com nosso espírito pragmático acima aludido.
Queremos
olhar para a frente, não retornar a um passado de instabilidade
fiscal, desequilíbrios econômicos, inflação incontrolável, fuga
de capitais, como parece estar ocorrendo em alguns dos nossos
vizinhos, cujos líderes insistem em olhar para trás, em busca de
soluções míticas que nunca produziram os efeitos desejados. No
que depender de nós, não haverá retorno ao caos econômico de
antigamente. Aprendemos a lição.
Voilà:
mesmo que os propósitos acima explicitados não sejam inscritos
claramente na letra das
resoluções adotadas nesse próximo congresso, este colaborador
involuntário dar-se-á por satisfeito se pelo menos o espírito
destas propostas vencer o grande embate de idéias que não deixará
de ocorrer nesse encontro. Não se pode esperar, finalmente, que
pessoas e grupos acostumados a anos de mitologias políticas
abandonem facilmente suas crenças tão religiosamente entretidas ao
longo de décadas. Eles vão, ao contrário, continuar mantendo
aquela linguagem gótica dos manifestos de antigamente e continuar
fazendo aquelas propostas retumbantes de triunfalismo político e de
redenção social. Mas estou certo de que, na prática, farão o
melhor que se pode esperar para o país e a sociedade, uma mistura
de pragmatismo e bom senso, sem muito abuso das regras de uma
economia saudável e de uma política democrática. Bom congresso a
todos.
por
PAULO
ROBERTO DE ALMEIDA
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